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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Essa é a nossa guerra

 

          Em determinando momento do dia de hoje estive pensando um pouco na guerra em que vivemos atualmente. O pensamento me ocorreu enquanto fazia uma corrida durante o crepúsculo do sol de verão. A tarde havia sido quente, mas o vento do fim do dia tornava tudo muito mais agradável, e sem fones de ouvido centrei-me nessa guerra a fim de suportar a ansiedade de um passo a passo monótono.

          Muitos talvez pensem em guerra no seu sentido estritamente material. Não falo de guerras mundo afora, da Síria ou da possível guerra na Ucrânia, nem da violência urbana ou do problema das drogas, mas da guerra espiritual. É lá que está a batalha decisiva, esteja você no meio de um tiroteio ou não. Isto é o que importa.

          Destruída a autoridade divina no coração dos homens, o que resta? Nada. Ou melhor: qualquer coisa. Dostoiévski ensinava, em Os Irmãos Karamázov, que se Deus não existe tudo é permitido. Ou pior ainda: podemos realmente acreditar em Deus, mas não aceitar, por uma profunda revolta espiritual e demoníaca, o mundo que Ele criou. Essa era a atitude de Dmitri, irmão de Aliócha, no romance escrito pelo grande escritor russo, em que o personagem descrente em Deus declarava abertamente que jamais aceitaria o mundo como ele é mesmo que Deus existisse. Estava declarada a guerra de uma alma que já havia perdido a própria guerra. 

          Este é o nosso mundo, a ordem criada por almas confusas e obscurecidas pela obstinação do erro. Parece que cada vez mais pessoas decidem pela rebelião, seja por acreditar que estão se libertando ao aderirem às ideias, modas e movimentos do momento, seja porque simplesmente não aceitam o mundo que existe e querem mudá-lo à sua imagem e semelhança, mesmo que isto signifique bater de frente com o Criador. O pior é que os dirigentes deste mundo, do alto de seus castelos civis, econômicos, militares, intelectuais e mesmo religiosos, estão empedernidos em sua luta contra o espírito tentando, a todo o custo, enclausurar o restante da humanidade num lockdown existencial eterno.

          Vejam à sua volta os frutos da revolta: confusão, insegurança e medo. Do espírito nascem a clareza, a segurança e a paz. Abolida a referência que permite medir todos os nossos atos, tudo se torna não apenas permitido, mas relativo. Não há medida ou poder que forneça a paz necessária, pois a paz precisa de ordem, e só há ordem quando a fundamento dela mesma é admitido como princípio e fim de todas as coisas, que se ordenam no passar da linha do tempo

          Se na guerra escolhermos o lado da luz, poderemos ao menos enxergar e identificar os perigos que nos rodeiam, inclusive em sua dimensão física. Este é um dos papéis da sabedoria, tão rara numa época em que o Espírito Santo é contrito pela obstinação humana, pela rigidez dos que apelam pela retidão da razão. A sabedoria é o cruzamento da ciência, outro dom do Espírito, com o amor. Sabemos, por exemplo, qual pessoa se faz digna de uma ajuda desesperada e qual, cobrindo seu rosto com a face de um cordeiro, é apenas digna de pena. Por isso pouco importa o bem-estar físico se a vida afunda na desesperança, pois os recursos transformam-se em bodes expiatórios dos próprios erros, quando não instrumentos de desgraça. 

          Para evitarmos a desgraça do medo ou a guerra que se avizinha no horizonte é necessário adentrarmos nas tropas do espírito. É ali que o exército dos anjos atuam e onde encontramos - pasmem, meu amigos mais humildes - milhares e milhares de empregados a trabalhar para nós, desde que estejamos dispostos a trabalhar com eles. Por isso a atitude de abertura confiante a Deus é tão relevante, pois esta é a garantia de nunca estarmos sozinhos.

          É necessário dizer sim e agir sobre o sim. Seja com o Rosário ou a cruz na mão, seja invocando o nome do Criador à forma da sua tradição, esta é nossa trincheira, esta é nossa batalha. No mundo, nenhuma guerra ou desgraça cessará por completo sem que peçamos auxílio a Quem fez todas as coisas, inclusive as que permitiram a criação das armas. "Rezem o terço todos os dias para alcançar o fim da guerra.", disse certa vez a Mãe de Deus. Essa é a nossa guerra, a única necessária para vencer todas as guerras.

sábado, 6 de novembro de 2021

Dia 4 de novembro de 2021

 

          Nesse dia comecei a leitura da livro Retrato do artista quando jovem, do escritor irlandês James Joyce. Logo fui pego um pouco com as calças na mão pela dificuldade na leitura, talvez devido à tradução da obra, porém o estilo de Joyce não me era familiar.

          Mas clássicos são clássicos, e como tais eles trazem no enredo um pouco da realidade que diz respeito a todas as pessoas na face na Terra. Do contrário, ficariam confinados à cultura local, muito mais significativos ao seu folclore do que à condição humana universal.

          Logo no início de Retrato, o personagem principal, o pequeno Stephen Dedalus, reflete sobre sua situação física no vasto mundo desconhecido. Após ler um lista que o situava geograficamente na vastidão indeterminada do Universo a partir de sua condição pessoal, o garoto salta ao seguinte pensamento (narrado por Joyce em terceira pessoa):

"Que é que haveria depois do universo? Nada. Mas haveria qualquer coisa em volta do universo para mostrar onde ele parava antes de começar o lugar do nada? Não poderia ser uma parede; mas bem que poderia ser uma linha fininha, bem fininha, lá bem em volta de tudo. Era uma coisa muito grande para poder pensar em todas aquelas coisas e em todos aqueles lugares. Só Deus podia fazer isso. Tentou imaginar que enorme pensamento poderia ser esse, mas só conseguia pensar em Deus." (p. 30)

          Joyce mostra a efusiva imaginação do garoto, mergulhada no universo da cultura irlandesa católica do início do século XX, mas ainda assim aberta ao mistério, esse grande mistério que ultrapassa os limites de qualquer cultura e que é preenchido não pela simples crença em si, mas pela confiante abertura espiritual. E continua: 

"Deus era o nome de Deus, assim como o nome dele era Stephen. Dieu era o nome francês para Deus, e era também o nome de Deus; e quando alguém rezava a Deus e dizia Dieu, então Deus imediatamente ficava sabendo que era uma pessoa francesa que estava rezando. Mas embora houvesse nomes diferentes para Deus em todas as diferentes línguas do mundo, e Deus compreendesse o que era que todas as pessoas que rezavam diziam em suas línguas diferentes, ainda assim Deus permanecia sempre o mesmo Deus e o nome verdadeiro de Deus era Deus." (p. 30)

          Fica bastante claro o apelo universal, não apenas da fé católica de Stephen, mas do amor à Verdade. Pois há só uma Verdade, e mesmo que haja vários prismas que a filtre e veja, essa Verdade continua sendo só uma. 

          Quando li essa passagem não apenas me identifiquei como me apaixonei por ela, pois são nesses momentos de mergulho em nós mesmos que encontramos o misterioso microcosmo que reflete o macrocosmo, uma espécie de ordem interior que tenta caminhar em consonância com a ordem exterior, e vemos que em nós há uma infinitude que também é reflexo da infinitude - ou pelo menos a indeterminação - do que há fora. Estamos no mistério e dele não podemos sair ou, como dizia São Paulo Apóstolo, "nele nos movemos, somos e existimos".

          Sentado na rede do lado de fora de casa, fui pego subitamente, mas de forma muito sutil, como que em oração, num momento de iluminação ignizado pela maravilha da obra. Por isso clássicos são clássicos. Cada um de nós traz em si um pouco da pureza de Stephen e da genialidade de Joyce.           

domingo, 31 de outubro de 2021

Dia 31 de outubro de 2021

 

          Na grande maioria dos locais afetados pelas altas temperaturas, o calor vem acompanhado de umidade e ambos criam o mais conhecido e vital dos fenômenos atmosféricos: a chuva. 

         Primeiro brotam aqueles pequenos algodãozinhos no fundo azul que sinalizam os efeitos do sol forte e do calor. Em seguida, seu volume cresce, e se pudéssemos gravar com os olhos o que as técnicas modernas de filmagem permitem contemplar, veríamos múltiplos borbulhamentos de vapor como se as bolhas de algodão crescessem e se multiplicassem dando enorme volume à pequena almofada flutuante.

          Um olhar atento por debaixo dessas nuvens - que os meteorologistas batizaram de cumulus - permite notar, com a devida calma e paciência, o movimento do vapor d'água, lento à distância mas turbulento nas alturas. Estirar o corpo sobre a grama e fixar o olhar na vertical as nuvens que anunciam a chegada da chuva são uma boa forma para captar o que uma rápida olhada jamais poderá notar.

          Quando a nuvem ganha o corpo de uma couve-flor - que os meteorologias classificam como cumulus congestus -, está pronta a receita para seu próprio peso se derramar em água e liberar os primeiros raios devolvendo à terra o que o calor lhe tirou sem pedir licença. Mas quando o pequeno algodãozinho não pode mais crescer e se esparrama num teto invisível - e é nesse momento que os meteorologistas dão à nuvem sua classificação mais famosa, cumulonimbus - então temos o pacote completo de surpresas atmosféricas: água em abundância, luzes por vezes ativas como um estroboscópio ligado na alta voltagem, sons que anunciam a chegada de uma autoridade importante e até mesmo o rufar dos ventos que, em alguns momentos, ultrapassam o mero conceito de "beleza" e se transforma em beleza destruidora.  

          Existe um diálogo divino entre a nuvem que cresce e a pessoa que a admira. Certa vez, em dezembro do ano 2000, eu estava no campus de minha faculdade, e pude presenciar, com ânimo e admiração, o momento em que uma chuva de verão desabou sobre o local. Andei entusiasmado pelo do corredor coberto que abria espaço por entre os baixos edifícios e me acheguei ao corrimão de metal pintado de amarelo que dava fim ao meu trajeto e início à vastidão verde morro acima. Olhava claramente os pingos grossos caindo de forma intensa em contraste com o fundo recheado por uma densa mata nativa. Era bonito demais notar a beleza, a ordem e a dinâmica viva de um céu que desaguava suas bênçãos para quem era capaz de enxergá-las. Expressei meu maravilhamento como uma amiga que me acompanhava e que também admirava a chuva como se compartilhasse do mesmo diálogo que o meu.

          O maravilhamento tem a capacidade de imprimir na alma uma marca inexpugnável, mais impactante e profunda do que a marca de ferro em brasa. É a atitude de se deixar impregnar, mas não de se deixar levar pelo mundo, porque é a chuva que passa, mas experiência nos desperta e se integra à nossa personalidade. Por isso se engana quem pensa que o primeiro Evangelho escrito está na Bíblia. Não, ele se encontra na própria Criação, que forneceu os elementos necessários para que a alma fosse preparada para receber a Palavra de fato. 

sábado, 24 de outubro de 2020

A origem da lei

 "A fórmula-raiz duma época é a lei que não está escrita, assim como a lei primeira entre todas as leis, responsável por proteger a vida contra o homicídio, não se vê escrita em lugar algum do Statute Book." (G. K. Chesterton, em "Eugenia e Outras Desgraças", 1922)

A proximidade entre as autoridades política e espiritual acabou por sacralizar o Estado, que na era modera emergiu como todo-poderoso das leis e dos princípios.
Nossa época herdou este vício de que a lei dos homens pode legislar sobre tudo. Não por acaso, há uma tendência de se considerar moralmente aceito aquilo que é legalmente estabelecido.
A sacralidade da vida pública foi transferida da Igreja para o Estado, o novo templo, sendo seu corpo jurídico o novo catecismo.
Ocorre que a lei dos homens é uma derivação da lei divina (ou ao menos assim deveria ser), e por isto mesmo a Santa Igreja, ao exemplo da encíclica "Dignitatis Humanae" de São Paulo VI, exorta os fiéis para que obedeçam à autoridade, desde que esta autoridade não vá contra a Igreja e os princípios que ela defende.
A lei, diz o documento, deve garantir a liberdade religiosa, pois Deus fez o homem livre para que Nele cresse. Assim, a lei dos homens deve estar em consonância com a Lei de Deus.
Chesterton evoca esta Lei superior em "Eugenia e Outras Desgraças", lembrando os dois primeiros mandamentos que, segundo o próprio Jesus, resumem toda a Lei de Deus.
Amar a Deus sobre todas as coisas é amar o próximo, pois Deus habita no próximo. Portanto, quem agride ao próximo agride a Deus em pessoa. E por isso mesmo amar o próximo como a si mesmo é amar a Deus. Não há como separar esses mandamentos, derivação de todas as demais leis divinas.
Assim, o que Deus proclamou não está nos Statute Books do Reino Unido ou na Constituição brasileira de 1988, mas no coração humano, e tem como veículo a Igreja através de sua Tradição, a Palavra e Magistério, ou mesmo outras tradições religiosas.
Nos dias de hoje, onde proliferam leis iníquas que atentam diretamente contra a vida e relativizam a dignidade humana através da segregação social e do consequente estímulo de conflito de todos contra todos, o homem tem o desafio de se aferrar à Lei inscrita no próprio coração e lutar para que, no momento oportuno, prevaleça nas cartas do mundo todo o que imperou nas sociedades cristãs por séculos. E o que impera no coração de Deus desde a eternidade.

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Porque nada sabemos

"Sócrates, o mais sábio dos homens, sabe que não sabe nada. Um lunático pode considerar-se a própria onisciência, e um tolo pode falar como se fosse onisciente. Mas Cristo é onisciente em outro sentido: ele não apenas sabe, mas sabe que sabe." (G. K. Chesterton, em "O Homem Eterno")

O conhecimento e a sabedoria do homem são necessariamente limitados. É característico da inteligência humana ser limitada, pois conhecemos por distinção e associação separando uma coisa da outra.
Eu sou o que sou porque não sou o meu vizinho. Da mesma forma, sou um homem porque não sou mulher, sou uma pessoa porque não sou um animal; o claro é claro porque não é escuro, há algo embaixo porque há algo em cima, e assim por diante.
Mas Deus concebe a realidade na sua totalidade. Ele tudo distingue ao mesmo tempo em que vê a unidade absoluta de todas as coisas. É uma inteligência que não pode ser compreendida por ser de outra categoria e, claro, estar acima, fora do alcance da inteligência humana.
Assim, tudo o que conhecemos é derivado de Deus por meio do Espírito. Somos inteligência por empréstimo derivados da Inteligência Primeira, que determina e organiza todas as coisas.
Nesta passagem de "O Homem Eterno", Chesterton nos lembra justamente a limitação humana de saber o que se sabe e não saber tudo o que não sabe.
Se Sócrates, o maior dos sábios de acordo com nosso escritor, sabia que nada sabia, o que, então, eu e você sabemos?
A resposta é simples: nada. Nem Sócrates sabia nada. Mas como nada? Não sabemos ao menos nosso nome e o local em que moramos?
Ocorre que, frente à onisciência divina, nosso conhecimento é infinitamente pequeno. Frente ao conhecimento absoluto, todo o conhecimento parcial é infinitamente desproporcional a este.
Todo o conhecimento humano é limitado e, portanto, infinitamente menor do que o conhecimento de Deus. É nada, em suma. E tem de ser muito louco para dizer que se sabe algo, quanto mais que sabe tudo.
A este louco Chesterton chama de lunático, aquele que está com a cabeça no mundo da lua.
Mas como sabemos, a lua não é o sol que tudo ilumina, que tudo esclarece, que tudo sabe, mas apenas reflete sua luz.
O lunático vê este ponto de luz e acredita ter descoberto a Verdade, enquanto, na verdade, está fechado em si mesmo tomando seu foco de luz como toda a realidade existente.
Cego por sua miragem, ele fecha os olhos para o mistério que está além das profundezas da escuridão.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

A fonte dos direitos humanos

 "No que toca aos direitos humanos fundamentas, nada pode estar acima do homem que não seja Deus." (G. K. Chesterton)

          A Declaração Universal dos Direitos Humanos baseia-se em valores universais concernentes à própria natureza humana ou àquilo que é considerado como parte desta natureza.

          Podemos discordar da Declaração ou de alguns trechos, mas o importante aqui é ressaltar sua pretensão universal.

          A pergunta que se faz é: quem tem o direito de falar em nome de toda a humanidade? Os princípios alegados na Declaração são realmente baseados em preceitos universais, dado que necessariamente tem de haver um grupo de pessoas para formulá-los e que, portanto, acabam por defino-los segundo uma concepção de mundo?

          A alegação de princípios universais é precedida necessariamente por uma visão de mundo limitada, dado que seus formuladores não têm conhecimento completo da realidade humana presente em quase 200 países, 6 mil línguas e uma infinidade de grupos étnicos e sociais.

          Mas há um porém: direitos humanos universais são os fundamentais, e o que é fundamental reconhecemos pela nossa própria experiência de vida. Disto presumimos, ao reconhecer o próximo como uma pessoa, que o próximo possui as mesmas necessidades fundamentais que nós.

          Chesterton afirma que nada pode estar acima do Homem (importante o "H" maiúsculo, pois denota o homem em sua essência) do que Deus.

          Ora, ao falarmos em Declaração Universal, em direitos fundamentais do homem, estamos falando do que é mais essencial a ele. E o que é mais essencial do que Deus?

          Aqui está a liberdade humana de reconhecê-Lo ou mesmo negá-Lo, mas jamais aboli-Lo. Abolir a Deus seria o mesmo que negar a liberdade humana de reconhecê-Lo e atentar contra o mais fundamental de todos os direitos, o de ser livre.

          Ademais, a primeira afirmação da Declaração Universal, de que "todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos", provém justamente do reconhecimento da filiação divina, uma visão secularizada da dignidade humana com base neste vínculo.

          Deus nos fez livre e iguais em dignidade. Tudo o que atente contra isso é atentar contra nosso ser mais profundo e a Ele mesmo.

          No que diz respeito aos direito humanos, tudo está debaixo de Deus porque Dele deriva desde o princípio.

          Por isso, direitos humanos sem Deus não existe. É uma casa construída sem alicerces. É loucura.

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Janelas para o Céu

 "O segredo de todas as janelas, especialmente das janelas góticas, é o de que até a luz é mais divina dentro de limites; e o de que até aquele que brilha é mais brilhante quando toma sobre si uma forma." (G. K. Chesterton, em "A Nova Jerusalém", 1920)

          Há uma tensão permanente entre a grandeza de Deus e a pequenez do homem que está justamente na desproporção entre ambos: o homem não pode abarcar a Deus, que sempre escapa à sua compreensão e mesmo visão do que Ele possa ser.

          Esta imensidão transparece nas majestosas catedrais góticas, monumentos à grandeza, ordem e beleza divinas.

          Sua escuridão interior, um covite ao recolhimento da alma que se volta ao alto ao contemplar o elevado teto da nave, é rompido pela luz que entra pelas janelas e vitrais.

          Eis que Deus toma forma e se apresenta ao homem em seu interior. Feixes de luz rasgam a escuridão, tão característica de um mundo desconhecido aos olhos humanos, e iluminam a alma que contempla o Alto.

          É muito mais conveniente ao homem ver Deus em formas do que na imensidão abstrata da luz; da mesma forma, é conveniente ver o amor de Deus em pequenos sinais da providência do que descobrir Seu amor no sentido genérico da palavra ou em "sentimentos" que muitas vezes não sabemos distinguir em nossa alma confusa.

          O que Chesterton nos traz nesta passagem é justamente isto: a luz, associada diretamente a Deus desde o princípio da Criação, é mais divina dentro de limites.

          Ele é mais divino quando adquire forma pois só Sua onipotência seria capaz de transformar o infinito em algo visualmente limitado. A limitação de Deus em formas é prova de sua veracidade enquanto Deus.

          Afinal, não foi um Ser infinito que se tornou homem? Como pode o homem, limitado por excelência, ser infinito? Deus pode, e o fato desta Pessoa ser assim é prova de que Ele é Deus.

          Manifestar-se no mundo limitado é mais característico do pode divino do que Sua capacidade de formar galáxias e um Universo inteiro.

          Não fosse Deus tomar forma, e Seu brilho seria menos visível; não fosse a janela a dar forma à luz, e ela seria menos perceptível.

          Da mesma forma, não fosse alguém com habilidade como Chesterton a dar ordem às palavras desta passagem, e talvez não percebêssemos o quão bom é um Deus que se limita para se fazer ver e alcançar o coração humano.

          Divino é tudo o que é belo dentro dos limites do mundo.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Majestade do sol, majestade de Deus

          Esta imagem de um sol que parece bem maior do que realmente é diz muito sobre sua majestade. 

          Majestade porque é grandioso em seus efeitos. Ao surgir, o sol tudo ilumina delineando todas as coisas ao mesmo tempo em que se mantém oculto à observação direta.

          É a inteligência divina que tudo organiza, governa e capacita o homem a entender a realidade ao mesmo tempo em que não se deixa ser vista e compreendida.

          Porque esta é a inteligência de Deus: absoluta, que tudo sabe e tudo vê, mas que permanece oculta. 

          E a razão é simples: ao homem não cabe, como a pretensão de Adão e Eva, de saber tudo e, portanto, de determinar como as coisas, a realidade, o Bem e o Mal deveriam ser. Ao contrário, ao homem é dado um flash, uma inteligência que é derivada da Inteligência Primeira e por natureza é limitada.

          A inteligência humana depende de suas limitações para que se possa contrastar ser com ser, coisa com coisa. Eu sei que eu sou eu porque sei que não sou outro. Pensamos por contraste, e esta limitação permite a nós a diferenciação de seres e coisas, de termos consciência de nossa própria condição e de todas as coisas.

          Sei que sou homem porque não sou mulher, sei que estou vivo poque não estou morto, sei que é dia porque não é noite, e assim por diante. 

          Visualmente, este contraste é dado pela luz. É o sol que permite a tudo contrastar materialmente; é Deus que permite tudo contrastar intelectualmente.

          Só Deus não precisa pensar por contraste, raciocinar e assim compreender as coisas. Ele já sabe em absoluto. 

          Para o homem, entender a Deus é impossível, pois, assim como olhar direto ao sol cega nossos olhos e queima nossa retina, querer entendê-Lo cega nossa compreensão acerca Dele e queima nossa alma no fogo eterno. Eis o preço da soberba.

          A inteligência humana está para o real como o firmamento está para a escuridão da noite: retirada a inteligência divina, vemos que o homem sabe poucas coisas, possui pequenas luzes de conhecimento frente à imensidão do desconhecimento do cosmos e do mistério da existência.

          A majestade do sol também se manifesta em seu poder de dar vida, pois seu calor alimenta os seres e dinamiza os elementos da Terra. Vento, chuva, calor, o frio por contraste, clarão e escuridão, todos obedecem à força proveniente do sol.

          Esta é outra razão pela qual o sol ele é identificado com o Senhor, que tudo sabe e também tudo pode, diferentemente do homem, que depende Dele assim como depende do sol para continuar a viver. A onipotência do sol sobre a vida na Terra é a onipotência divina.

          O sol que mantém os elementos da Terra em constante transformação é o mesmo que permite, pelo calor sobre as águas, fazer chover indistintamente sobre bons e maus, exatamente como faz Nosso Senhor.

          E é este mesmo Senhor que dá a oportunidade para que bons e maus tenham a oportunidade de contemplar Sua beleza através da luz que Dele provém e, livremente, decidir pela salvação.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Um mistério perfeito

"A recusa de Deus em explicar Seu projeto é, em si, uma flamejante alusão ao Seu projeto. (...) Os enigmas de Deus são mais satisfatórios do que as soluções do homem." (G. K. Chesterton)

          Deus poderia muito bem explicar seu projeto ao homem.

          De certa forma, Ele já o explicou através da Revelação e da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas não é exatamente disto que trata nosso querido escritor inglês.

          Chesterton fala do mistério e da limitação da inteligência humana, determinada por Deus, de compreender a realidade e a Ele mesmo.

          Porque se tudo entendêssemos seríamos onipotentes e, portanto, conhecedores de todos os meios de manipulação da realidade. Seríamos perfeitos. Seríamos Deus.

          Nosso Senhor quis que ficássemos ignorantes a muitas coisas justamente porque Ele se revela no mistério.

          Do que adiantaria explicarmos tudo, sabermos tudo, entendermos tudo se, com isso, não teríamos razão para acreditar e amar?

          A fé diz respeito à confiança, e é muito mais conveniente que sejamos instigados e crer Nele se pouco sabemos Dele e do mundo; se pouco sabemos, inclusive, sobre nós mesmos e nossa vida pessoal, porque Ele sonda os rins e os corações, mas nós temos dificuldade de saber até mesmo o que queremos para o dia de amanhã.

          Assim, Chesterton conclui que são estes enigmas são mais satisfatórios do que as soluções humanas. Porque as soluções humanas são sempre imperfeitas e transitórias, e os enigmas de Deus são perfeito e eternos.

          Melhor termos confiança naquilo que pode nos dar a felicidade eterna do que satisfações passageiras. Não cabe ao homem saber o porque disso e o modo como isto se realiza. Cabe a ele confiar.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Deus nas pequenas coisas


"É estranho que a mais impopular de todas as doutrinas seja aquela que 
declara como divina a vida comum." (G. K. Chesterton)

          Esta afirmação acima revela um mundo cansado de si mesmo, enfadonho ao se olhar no espelho e ávido por aventuras.
          Chesterton bem sabia o perigo destas aventuras, que brotavam em sua época no outro extremo da Europa com a Revolução Russa, e que viria a tomar outra face bem no meio do continente ao fim de sua vida no anos 1930.
          As aventuras do mundo moderno não ficaram apenas nas máquinas, quem dera fosse, mas penetrou nos alicerces da civilização para transformá-la em outra coisa que não a vida comum do tipo de pessoa que Chesterton chamou de Homem Comum.
          Ora, a vida humana é mudança constante, mas tais mudanças dependem de regramentos perenes que permitam estabelecer um contínuo acontecer, regras claras para que o jogo prossiga ao longos das gerações.
          Há um ditado que diz que Deus está nos detalhes. Isto também pode ser entendido como a Sua presença em elementos ocultos que se revelam em pequenas coisas como o respeito, gestos de ajuda, a valorização da convivência familiar e comunitária, as boas amizades, a lealdade, a honestidade e a reverência aos mais velhos.
          Sobre este edifício se erguem as civilizações e seus grandes feitos. Portanto, Deus está nos fundamentos, e não nas obras grandiosas que sobre eles estão. 
          O divino é o simples, é a vida do dia a dia. O resto é floreio da vaidade humana.

terça-feira, 16 de junho de 2020

A experiência do Mal e a misteriosa pedagogia da redenção


"Quando definimos e isolamos a coisa má, as cores de todas as outras coisas são reavivadas. Quando as coisas más são definidas como tal, as coisas boas, então, tornam-se também distintas. 
Há homens que são tristes porque não acreditam em Deus; mas há outros que são muito mais
tristes porque não acreditam no Diabo." (G. K. Chesterton)
     
          Nesta passagem impactante, Chesterton está definindo as coisas da realidade por contraste, mais especificamente o Bem e o Mal.
          É característico da percepção humana ver as coisas desta forma. Por que podemos falar da existência do belo? Porque há o feio. Por que sabemos identificar a luz? Porque há a escuridão. E por que sabemos que somos homem ou mulher? Porque há mulher e homem.
          As pessoas que têm profunda experiência das coisas do Mal, seja no plano físico, na vivência social ou no plano espiritual, conseguem vislumbrar o seu oposto, o Bem, fonte de toda a luz.
E por isto mesmo o Mal é perceptível, porque a luz o ilumina e o define.

          O Mal é difinível não só por contraste com o Bem como por sua limitação intrínseca. Se temos a experiência do Mal e a ele não sucumbimos é porque estamos sustentados por uma condição, estrutura ou força que nos mantém de pé.
          O Mal se manifesta, portanto, dentro da dimensão incomensurável do Bem apontando, por contraste, o caminho que o homem deve seguir. E por sua condição inerentemente boa, por seu senso de realidade que lhe é quase instintivo, o homem intui para que lado pender nesta ordem definida.
          Por isto o Mal exalta as cores de todas as coisas, porque sua ecuridão torna latente o brilho de seu entorno. Da mesma forma, o diabo exalta a beleza e veracidade de Deus, porque expõe a sua feiúra e falsidade.
          E por isto que o homem que descrê no diabo não pode ser alegrar com o Deus da verdadeira luz. É da condição humana ser limitado e, portanto, necessitado do contraste para conhecer o Bem. Não seria possível contemplar a luz divina num clarão difuso. Temos de ver a fonte.
          Não podemos ver o Bem absoluto da mesma forma que não podemos suportar o Mal absoluto. Quem percebe que o diabo existe e age descobre, por uma pedagogia misteriosa e redentora, que há sempre uma força deliberada, uma vontade, um Senhor que nos sustenta para que não precipitemos no abismo.

sábado, 30 de maio de 2020

Temor a Deus. Um termo mal compreendido


"O temor de Deus, que é o princípio da sabedoria, e que por isso pertence aos princípios, e que se sente no frio das primeiras horas antes da alvorada da civilização; (...) o temor que está enraizado, com razão, nos princípios de toda a religião, verdadeira ou falsa: o temor do Senhor que é princípio, mas não fim de toda a sabedoria."
(G. K. Chesterton, em "Santo Tomás de Aquino")

          A infinitude divina é aterrorizante para o homem. A desproporção entre nós e nosso Criador é infinita, e esta deve ser a medida da reverência de devemos a Ele.
          Esta reverência é o temor, palavra mal compreendida mesmo pelos cristãos, dado que muitos tomam "temor" por "medo".
          De fato, Deus causa medo por Sua imensidão, mas este medo é transmutado pelo amor que Dele emana, porque o amor é bom e não há porque dele sentir medo. O medo transforma-se em temor, e este temor deve ser proporcional à desproporcionalidade entre nós e nosso Deus.
          Disto provém todas as atitudes de respeito, admiração, reconhecimento, louvor, amor, adoração a Ele. E a adoração é justamente reconhecer Nele a Causa Primeira de todas as coisas.
          Quem adora as coisas erradas está colocando nestas coisas o princípio de tudo, bem como a salvação de sua alma. É isto que a Bíblia chama de idolatria, dado que ídolos são para serem adorados.
          A menção que Chesterton faz ao temor na sua obra sobre São Tomás de Aquino apresenta esta realidade divina: que todo o respeito, glória e louvor deve-se unicamente a Ele, que existia desde antes das civilizações e que serve como fundamento das mesmas.
          Assim nasce a sabedoria: temer a Deus é reconhecer Sua infinitude, saber quem Ele é e, por referência, quem nós somos, tomando a real proporção de todas as coisa e acontecimentos.
          O sábio não decora regras, mas as aplica segundo as circunstâncias da realidade e dirige os corações para que descubram, vejam, contemplem e louvem a Causa Primeira de tudo o que há.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

O Deus da alegria


          Quando afirmamos que o cristão é alegre, isto não é um jargão sem fundamento ou uma conclusão banal sobre a crença em Deus.
          É a realidade mesma da fé cristã, pois esta revela-se pela humildade e abre nossos olhos à beleza das coisas e da eternidade.
          Este artigo de António Campos, da Sociedade Chesterton Portugal, sobre o Deus da alegria que se revela nas palavras de Chesterton apresenta, com riqueza e simplicidade, porque esta crença em Deus está associada à alegria humana que, no fundo, é divina.
          Há uma maravilhamento na existência. Quem contempla o Cosmo percebe a impossibilidade da coincidência simultânea de todas as coisas e, por isto mesmo, abre os olhos à beleza intrínseca à existência.
          Esta contemplação não depende de um análise rebuscada da realidade (ainda que a análise rebuscada possa levar a esta contemplação), mas de uma abertura simples ao mundo, tal qual a criança que se maravilha com uma boneca ou uma nuvem em forma de girafa.
          É necessário ser humildade para aceitar que tudo o que há é incompreensível, e que é justamente a consciência desta incompreensibilidade que torna todas as coisas compreensíveis.
          É o paradoxo da criança, que é profunda na alegria contemplativa por ser rasa na análise do mundo que vê.
          Desta forma, o humilde se faz alegre, e os que sabem ser alegres nas atribulações da vida recebem em troca a humildade tão cara à salvação divina. Deus concede a alegria aos humildes de coração.

sábado, 11 de abril de 2020

O milagre do Cosmo e o milagre da vida


          Nos princípio, Deus fez o Céu e a Terra, e habitou neles de forma a mantê-los existindo e funcionando.

          Seu Espírito habita em todas as coisas na medida em que tudo o que existe depende de Sua Vontade suprema. O ato de existir não é um ato em si, mas resultado do Princípio de todas as coisas, da Causa Incausada, que sustenta na existência, a cada instante da linha do tempo, tudo o que há.

          As coisas sensíveis, o mundo material, não existe por si, muito menos se move por decisão própria. Aquilo que chamamos de "leis da natureza", "leis da Física" ou seja lá como queiramos chamar, é um milagre da Providência Divina.

          Lembra-nos do Livro da Sabedoria, que revela que Deus dispôs todas as coisas com seus devidos o pesos e as medidas. Da mesma forma, Deus dispôs o homem com seu ser único, dotado de corpo, alma e espírito.

          O milagre do funcionamento do Cosmo se faz ainda mais visível na condição humana, capaz de pensar, compreender, amar e perdoar. E este milagre se consuma na vinda de Deus ao mundo, como bem lembramos nesta Páscoa.
          Vivamos como o Filho nos ensinou e compreenderemos o milagre que habita em nós mesmos.

domingo, 22 de março de 2020

Um golpe no delírio de onipotência


          A era moderna colocou na cabeça das pessoas que o homem é onipotente sobre a natureza, incluso aí a natureza humana. 

          Esta mentalidade se reflete na administração da sociedade e, portanto, no poder político. Os modelos de Estado fascista e comunista foram tentativas de estabelecer um controle total sobre o mundo, mas, além de matarem milhões de pessoas, falharam de forma miserável.

          Se engana, porém, quem pensa que no regime democrático ficamos mais humildes. Este delírio de onipotência vive forte nas democracias. Acreditamos que os governos, através do estabelecimento de leis, normas e garantias das liberdades civis, podem nos fornecer ou permitir uma vida progressivamente melhor. O delírio é ainda pior com a ostensiva agenda progressista tocada ao toque de caixa no mundo inteiro que estabelece todo o tipo de normas para os mais sutis comportamentos no que se refere ao racismo, gênero, discriminação, preconceitos, minorias, etc.

          Em suma, acreditamos que o Estado democrático e liberal pode nos garantir a paz e a felicidade.

          Mas, de repente, "do nada", aparece um inimigo microscópico que paralisa tudo, põe em cheque nossa forma de agir e pensa e tira de cena todos os nossos ideais de vida. Derruba por terra todas as previsões e planos dos governos e solapa todas as expectativas futuras, de casamentos ao aumento do PIB. Agora, olhamos para o futuro com incerteza, porque nenhum poder estabelecido é capaz de garantir, não nossas liberdades civis e felicidade, mas nossas vidas!

          O controle total do mundo é impossível pelo simples fato de não possuirmos o conhecimento total. Se tivéssemos o conhecimento total conheceríamos também os meios de controle; em suma, seríamos Deus. Mas só Deus tem estas características, que são parte de Sua definição.

          Não é de graça que estamos sendo forçados a parar. Isto é um chamado para a vida interior, não no sentido de que devemos ficar fechados em nós, mas para descobrir, no silêncio, que Deus, o mesmo que governa o mundo e está acima dos poderes estabelecidos, é o fundamento de nossa paz e segurança.

          Estamos sendo chamados à humildade. O mundo não está aos nossos pés. Está aos pés Dele. 
          

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

A crença em Deus: por que nunca me tornei um marxista


Em 1999 ingressei na faculdade de Geografia da UFRGS. Como muitas outras pessoas que conheci, foi lá que entrei em contato com a política, de esquerda, claro, que é o espectro quase hegemônico no meio universitário. Meu interesse pelo tema surgira pouco tempo antes, nas eleições presidenciais de 1998.

A mentalidade não era meramente de esquerda, e sim especificamente marxista. Nas discussões e estudos em aula, que variavam da epistemologia da ciência à geografia econômica, o marxismo era a visão mais comum, bem como a preferência política de parte dos colegas (pelo menos os mais ativos, já que muitos apenas consentiam com essas preferências ou não se envolviam publicamente nas discussões). Com o passar do tempo, fui me moldando às mesmas opiniões correntes, não por convicção real a elas, mas no fundo pela necessidade de integrar-me à turma.

Sempre fui meio excêntrico em sala de aula. Primeiro porque fazia o estereótipo do burguês, dada minha condição de vida, e sempre fui muito imaturo e, confesso, de comportamento por vezes inconveniente. Mas nunca abracei totalmente o marxismo. Primeiro porque eu não era o tipo social, propagado pelo chamado "marxismo vulgar", do proletário, do pobre, das classes dominadas. Eu estava do outro lado, vivia num bairro nobre ao lado de um shopping center. Como poderia eu ter a consciência de classe que só era possível em meio à classe a qual eu não pertencia? O máximo que consegui foi declarar-me socialista e anticapitalista, sempre de forma forçosa ou ilusória, e numa ocasião estive numa reunião do PCdoB (sim, cometi este disparate) onde minha única intervenção na discussão versou sobre... o livre-arbítrio. De fato não era o meu lugar.

(Por muito tempo nunca soube dizer porque, mas sempre tomei como absurda a ideia de que tudo o que existe é determinado pelas forças materiais, inclusive o comportamento humano.)

Mas a minha grande resistência ao marxismo não estava na minha condição social em conflito com seu discurso. Estava na minha crença em Deus. Era comum eu mencionar Deus em sala de aula e mesmo em alguns trabalhos, e me tornava excêntrico por isto também (certamente muitos colegas compartilhavam da mesma crença, mas não expunham isto em público). Era estranho que eu reunisse ao mesmo tempo a condição de membro da burguesia (segundo seu estereótipo) e a preferência pelo marxismo, mas era insuportável que a vida se resumisse ao materialismo. Quando lia os textos que explicavam a emergência da consciência humana a partir das questões socioeconômicas o que eu via não era uma explicação dos fatos, e sim o fechamento de toda a dimensão existencial no processo histórico materialista. Meu sentimento não era de desconforto. Era de loucura. Jamais aceitei que a vida se resumisse à dimensão material. O processo histórico contido na dialética materialista soava completamente absurdo. Eu não era uma simples peça numa engrenagem muito maior, e sabia disso. Minha grande resistência estava na incompatibilidade entre a cosmovisão materialista e minha dimensão interior, não material e insondável por excelência. Refletia sobre o tema com frequência e me perguntava: seria a minha vida familiar um jogo das forças econômicas? Meu pai e minha mãe são meu pai e minha mãe única e exclusivamente devido ao sistema, ou seja, não me amam? Estão ali por interesse de classe? E meus pensamentos, vêm de onde? Seriam eles uma ilusão abstrata criada pela química cerebral, e esta submetida (sabe-se lá como) à minha condição socioeconômica? Sendo assim, qual era a relação entre as forças econômicas com meu corpo físico e meu cérebro? E como poderia a matéria gerar abstrações? Eu tinha que ser completamente louco para abraçar isto, e dada a minha personalidade eu teria de mergulhar fundo na "mística" marxista. E esta mística é loucura. Não me dedico a nada que não seja de coração: ou eu seria marxista verdadeiro, com todas as convicções que este pensamento exige, ou teria de buscar outro caminho

(Olavo de Carvalho em sua casa na Virgína, EUA.)

Comecei a sair deste imbróglio no ano 2000. Tudo começou quando eu estava numa academia de musculação no clube da Sogipa aquecendo na bicicleta ergométrica e conversando com um de meus colegas de faculdade que também frequentava o local.  Na ocasião ele me indicou a leitura de um colunista da revista Época. Me mostrou a revista e apontou para o texto. "Leia esse cara", disse mais ou menos com essas palavras. O nome dele era Olavo de Carvalho. O mais curioso é que o texto do Olavo falava justamente sobre o marxismo, e no canto inferior esquerdo da página havia uma imagem de Karl Marx portando uma vistosa flor. Ambos eram referências da hipocrisia marxista: os críticos do capital seriam os seus adoradores mais apaixonados. Passou um tempo para que eu começasse a ler suas colunas no jornal Zero Hora, e o que mais chamou minha atenção nos primeiros textos foram suas análises críticas do ensino universitário brasileiro dominado pelos marxistas. Havia muito de verdade ali. O que eu lia do Olavo eu via no dia-a-dia, e desde então passei a ser seu assíduo leitor.

A maior prova de que Olavo estava certo na sua crítica veio em 2003, quando escrevi meu trabalho de conclusão. Eu quis utilizar seus artigos como parte da discussão, mas meu orientador o censurou. Duas vezes. Não me recordo da primeira rejeição, apenas que ele justificou sua atitude de maneira formal, mas quando insisti em usa-lo na monografia meu orientador o proibiu definitivamente e justificou dizendo que o Olavo fazia seu trabalho "por dinheiro". Ó raios, se ele quisesse dinheiro não seria melhor que ele abrisse uma padaria ao invés de ser filósofo? Na época eu não percebi a estupidez do argumento, mas a atitude do orientador era a encarnação daquilo que Olavo criticava na academia. Poucas vezes o jargão "Olavo tem razão" foi tão verdadeiro como naquela ocasião.

Há inúmeros relatos de pessoas que abandonaram o marxismo e as ideias da esquerda por influência do Olavo de Carvalho. Outras se converteram ou retornaram ao catolicismo. Este foi meu caso. Olavo é um dos principais responsáveis pelo meu retorno à Igreja Católica, que ocorreu em 2008, graças aos seus trabalhos e estudos sobre o que chamamos de "religião". Desde então voltei a frequentar as missas e ingressei num grupo de oração, de onde nunca mais saí. Um dia contarei esta virada com calma.

Em meados de 2002 minha simpatia pelo marxismo foi embora definitivamente. Para nunca mais voltar.

p.s.: não me recordo exatamente o texto do Olavo de Carvalho que li em 2000. Está nesta lista.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Sem fronteiras, sem distâncias, sem nações: o vínculo que nos une através dos tempos

(Budapeste, arrasada ao fim da Segunda Guerra: efeitos de um conflito que afetam a humanidade inteira.)

Estou lendo o livro "O fim do Século XX", do historiador húngaro-americano John Lukacs. No capítulo "Entre dois Mundos", Lukacs inicia relatando seu retorno à Hungria 44 anos depois. Ele fora convidado, junto com seu amigo e sacerdote Béla Varga, a comparecer na sessão de abertura do Parlamento Húngaro em 2 de maio de 1990. Ambos eram amigos e parentes próximos de alguns membros do novo governo húngaro. Béla faria o discurso, e Lukacs, seu amigo famoso, iria junto acompanha-lo.  No relato segue-se o testemunho de um homem que, fugindo da opressão comunista, voltava à sua terra natal e refletia sobre sua vida nos EUA e seu passado na Europa. Daí os "dois mundos" de seu livro.

Imediatamente minha mente me projetou na mesma situação. E se fosse eu, e não Lukacs (ou Béla) a ter de falar em público num evento desta importância? E com alguma autoridade dada pelos acontecimentos? O que eu diria? Não pretendo detalhar aqui um discurso ou todo o meu pensamento, mas não foge à minha memória o pouco conhecimento de que tenho da matança que se abateu sobre a Europa na Segunda Guerra e a repressão comunista que veio em seguida.
 
(Edifício do Parlamento Húngaro, em Budapeste, onde passa parte do relato de John Lukacs.)

Logo me pus a pensar no universo de almas lançadas ao purgatório. Pelo menos 60 milhões na Guerra e 2 milhões dos regimes comunistas do Leste Europeu (nem falo da Rússia e da China, que jogam esta cifra aos cem). É um universo de almas a clamar por ajuda. Quando pedimos pela vida de alguém que se foi, anjos e santos de movem para resgata-las para um estágio superior, um estado da alma mais luminoso.

Cá eu com meus pensamentos: todos esses acontecimento históricos separam a todos nós. Fora um período de 1999 quando recebi em minha casa um húngaro de intercâmbio, muito provavelmente não vou conhecer na intimidade alguém que viva na Hungria, menos ainda seus antepassados. Assim será com a esmagadora maioria das pessoas da face da Terra.

(O plano da eternidade vincula todos de todos os lugares e todas as épocas.)

Mas na eternidade não há tempo, como não há lugar. Não há nação. Por isto mesmo nós, aqui no Brasil, não estamos magicamente imunes aos acontecimentos de outro continente. As almas que clamam nossa ajuda não são apenas as de nossos familiares: são os que pereceram na guerra e na repressão, nos hospitais de cidades distantes, nas cabanas do interior da Ásia. Todos nós, pela comunhão dos santos, estamos vinculados uns aos outros num plano onde não há distância. O Brasil está, sim, ligado a todos os que se foram. Eu e você também. E este clamor nos "pesa", nos faz responsáveis por aqueles que podemos ajudar, mesmo que com uma simples oração. Por isso mesmo quando alguém reza para Nossa Senhora Ela não se ausenta das almas que resgata, nem de outros que chamam Seu nome em outro lugar do mundo. Ela está, por graça divina, em todos estes lugares simultaneamente. Na eternidade não há lugar, distâncias ou fronteiras. Não há espaço, no sentido físico e geográfico: há apenas uma figura onde todos os lugares se apresentam de forma plena e simultânea. Nossa Senhora ouve minhas orações assim como aquelas que ressoam dos confins do universo ou das casas de Budapeste.

Fazemos parte da mesma História, plano único dividido pelas contingências do Cosmo e do mundo, mas unidos pela raiz criadora. Por isso mesmo somos responsáveis por todos os que aqui estão ou um dia estiveram. Estamos vinculados uns aos outros pelo amor divino e pela identidade única, a Pátria Celeste, a Casa do Pai. A História um dia passará. O amor de Deus jamais.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

A História, os falsos profetas e o Evangelho do fim do mundo

(Cidade de Homs, na Síria, completamente arrasada pela guerra: mesmo que quisesse, o homem não poderia realizar o fim do mundo.)

Estamos acostumados a ouvir críticas sobre o fanatismo religioso que nivelam o cristão sincero e verdadeiro ao Estado Islâmico, a Al-Qaeda ou às seitas como a de Jim Jones, que levou ao suicídio quase mil pessoas na Guiana em 1979, todos sob o rótulo de "fundamentalismo". É evidente que por detrás disso há um preconceito antirreligioso, mais especificamente anticatólico e, com mais evidência no Brasil, anti-evangélico, ainda que este preconceito não seja deliberado e parta em sua maioria, penso eu, de pessoas que não atinam da gravidade da comparação.

Estes críticos esquecem (na verdade ignoram, porque falam do que não entendem) o alerta dado pelo próprio Jesus no Evangelho anunciado em 22 de novembro passado. Quando ouvi a passagem fiquei pessoalmente tocado, não só pelo anúncio de quem Jesus dizia ser, mas acima de tudo pelos acontecimentos do por vir. Eis a passagem, presente em Lucas 21, 5-11:

"Naquele tempo, algumas pessoas comentavam a respeito do Tempo que era enfeitado com belas pedras e com ofertas votativas. Jesus disse: 'Vós admirais estas coisas? Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído.' Mas eles perguntaram: 'Mestre, quando acontecerá isto? E qual vai ser o sinal de que estas coisas estão para acontecer?' Jesus respondeu: 'Cuidado para não serdes enganados, porque muitos virão em meu nome dizendo: 'Sou eu!' e ainda: 'O tempo está próximo'. Não sigais esta gente! Quando ouvirdes falar em guerras e revoluções, não fiqueis apavorados. É preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim'. Jesus continuou: 'Um povo se levantará contra outro povo, um país atacará outro país. Haverá grandes terremotos, fomes, pestes em muitos lugares; acontecerão coisas pavorosas e grandes sinais serão vistos no céu.'"

Jesus deixa claro: Ele é o único enviado, o único Filho de Deus, por mais que isso soe como fanatismo para os descrentes ou maluquice para os muçulmanos, para os quais seria absurdo que Allah, "o algo", se pudesse ser traduzido, encarnasse numa pessoa.

(Fila para comprar pão na URSS, em abril de 1991, nos últimos meses do regime comunista: por mais que se tentasse manter a normalidade era impossível controlar o que as pessoas decidiam fazer e, portanto, as consequências de seus atos. O regime caiu sete meses depois.)

O mais relevante, porém, é seu papel como Deus. Guerras, revoluções, mortandades, catástrofes naturais... a História continuará apesar de tudo isto. Jesus está declarando que é o Senhor decidirá quando ocorrerá o fim, já que Ele que está no comando do curso histórico. Por mais que o homem queira dirigir os acontecimentos em sua totalidade ou queira abortar os planos divinos, seus projetos são impossíveis de serem realizados. Primeiro porque determinar o curso histórico pressupõe-se o controle total sobre ele, e este controle total é materialmente impossível. Mesmo que o homem tivesse conhecimento o suficiente, os meios para realizar este novo mundo estão fora de alcance. Não há meios (nem nunca haverá) que possa determinar cada uma de nossas decisões diárias, desde o desejo de ter uma família ao propósito pela manhã de escovar os dentes. Há como impedir estes acontecimentos, mas não há como impedir que se deseje fazer isto. Um regime totalitário como o soviético, por exemplo, vivia sob uma capa de oficialidade que as pessoas sabiam que era irreal. O paraíso socialista contrastava com as longas filas para comprar pão nos seus últimos anos de existência. Com a queda do regime oficialmente ateu, a Rússia perdeu metade de sua riqueza em dez anos, um colapso econômico que estava sob artificial controle do Estado, e passou por um forte reavivamento religioso. Ainda que a fé ortodoxa seja muito pouco praticada (em torno de 2 ou 3% dos russos vão à liturgia semanalmente), a proporção de crentes em Deus explodiu.

(Por mais que se tente, a separação Igreja-Estado jamais será absoluta. A dimensão religiosa é inerente ao homem, é incontrolável e sempre resultará em acontecimentos inesperados.)

Abortar o plano divino também não é viável. O nazismo e o comunismo já tentaram fazer isto explicitamente, e os atuais meios empregados pela engenharia social na busca pelo igualitarismo ou a total democratização da sociedade (cujos processos só podem ser realizados por meio de uma brutal concentração de poder, portanto, de um enorme controle social), também esbarram na possibilidade pura e simples. Hoje os engenheiros e cientistas sociais buscam a todo o custo, por exemplo, demarcar "cientificamente" a separação Igreja-Estado, cujas realidades se interpenetram. No Brasil esta separação está oficializada no Artigo 19 da Constituição, mas mesmo assim não há como estabelecer, por exemplo, uma linha demarcatória clara sobre o que um professor de religião pode ou não dizer aos seus alunos sobre o tema numa escola pública, nem o que os alunos podem ou não expressar a respeito do que creem. Isto é um consenso mesmo entre os cientistas sociais brasileiros que olham com muita desconfiança a atual educação religiosa. O problema, como bem observou o sociólogo americano Peter Berger, é que o homem é um ser essencialmente religioso. Mesmo um intelectual ateu teria de aceitar esta informação como um dado real (eu mesmo conheci um sociólogo doutor que concordava com esta afirmação). Não há como suprimir esta dimensão humana, a não ser eliminando fisicamente as pessoas como fez Stálin com a Igreja Ortodoxa Russa a partir de 1929 quando quase a totalidade de seus sacerdotes foram presos ou fuzilados.  Não é possível a modelagem total da religiosidade popular através de leis, nem mesmo com uma educação laica. Esta modelagem teria de penetrar a alma e subjulgar a vontade, que Santa Teresa D´Ávila na autobiografia "O Livro da Vida" chama de "potência da alma". O controle do fenômeno religioso e de suas consequências sociais é impossível. A religiosidade sempre brotará e alterará espontaneamente o curso dos acontecimento.

Em resumo: controlar o rumo da História é abortar o plano divino, e para abortar o plano divino é necessário ter controle total sobre a História. Se a História não pode ser totalmente controlada, isto significa que ela obedece a alguma ordem que não emana de nossa vontade. É isso que Jesus está dizendo: por mais que hajam guerras e matanças, "não será logo o fim", isto é, mesmo que o homem deseje, ele não conseguirá realizar este fim. Se um dia houver uma guerra nuclear, ela também não dará um fim à humanidade. Da mesma forma as catástrofes naturais não serão o fim. E como poderemos garantir isso? Simplesmente porque Deus não quer. Parece uma resposta boba, tautológica, mas esta afirmativa fala por si mesma. O que está fora de nosso controle está sob controle divino. Se Deus afirma que catástrofes naturais, que estão fora de nosso controle não serão o fim, é porque não serão. A razão disto é o próprio Declarante.
 
             
 
(Testemunho do Milagre do Sol em jornal português, em 1917, e chamada sobre a aurora boreal no Reino Unido, em 1938: "grandes sinais serão vistos no céu".)

O final do Evangelho também me marcou muito. Quando ouvi que seriam vistos "grandes sinais" no céu logo lembrei do Milagre do Sol de Fátima ocorrido em 13 de outubro de 1917. Este milagre foi testemunhado por 70 mil pessoas e pela imprensa portuguesa da época. Foi em Fátima também que Nossa Senhora avisou que, caso a humanidade não se convertesse, haveria uma guerra ainda pior do que aquele que estava por terminar, e que esta nova guerra, a iniciar no papado de Pio XI, seria anunciada por luzes no céu. A aparição ocorrera durante a Primeira Guerra Mundial, e a Segunda veio efetivamente em 1º de setembro de 1939 quando a Alemanha Nazista forjou uma agressão inimiga e invadiu a Polônia. Pio XI, porém, terminou seu reinado em 10 de fevereiro daquele ano. Acontece que a primeira agressão alemã não veio com tanques e tiros: veio com a anexação da Áustria, conhecida como Anschluss, em 12 de março de 1938 quando tropas alemãs iniciaram sua marcha sobre o país. Algumas semanas antes, na noite de 25 de janeiro, uma espetacular aurora boreal iluminou os céus da Europa e mesmo do norte da África, caso raro e que marcou a época. O Milagre do Sol viera anunciar novos sinais no céu, prenúncio da guerra. Fátima é o microcosmo do Evangelho de Lucas para o século XX. Mas a guerra que ceifou pelo menos 60 milhões de pessoas, inaugurando o genocídio "científico" e o uso da bomba atômica, não foi o fim.

Caso os cristãos não fossem prudentes apoiariam líderes genocidas, estes sim fanáticos, "fundamentalistas" para utilizar a linguagem dos críticos do cristianismo e das religiões em geral. Apoiariam também os falsos profetas, os usurpadores e servidores do inimigo. Mas Jesus alerta para que não sigamos esta gente. É pelos falsos profetas que tentam realizar o Fim, o Apocalipse adornado de Paraíso. Mas todos eles sucumbem à providência divina. Não há guerra, nem revolução que dê fechamento ao curso da História. Nem mesmos os astros e a natureza, caso assim quisessem por força mágica, poderiam fazer o mesmo. Deus não é só o início, como também o fim da História. A História nasce do Alto e a Ele retorna formando uma imagem única que está gravada de forma definitivo na Eternidade.