Mostrando postagens com marcador religião. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador religião. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 27 de março de 2023

Catedral Católica Ucraniana de Londres (King's Weigh House Chapel)

                    (Catedral Católica Ucraniana vista a partir do Brown Hart Gardens, para leste.)                    

          Em fevereiro passado, após descer na estação de Bond Street, resolvi caminhar na direção oposta da Oxford Street no distrito de Mayfair, na área central de Londres. A expectativa era rever o bairro e visitar uma igreja católica do local. 

          Menos de duas quadras depois me deparei com um belo edifício de tijolo avermelhado - como muitos da área - com formato ovalado no andar superior e uma torre de uma igreja na esquina seguinte. Logo pensei em se tratar de mais uma das tantas igrejas anglicanas da cidade. Mas não, era uma igreja católica ucraniana cujo nome é Catedral Católica Ucraniana da Sagrada Família de Londres.

          O edifício se chama King's Weigh House Chapel e seu nome está estampado na parede lateral junto à Binney Street, uma das ruas transversais à Bond Street. Logo na entrada da nave da igreja, cujas portas estão voltadas à Duke Street, temos dois pequenos painéis (1) explicando a origem da construção até sua posse pelos imigrantes católicos ucranianos na segunda metade do século XX.

          Apesar de compartilhar da harmonia dos edifícios daquela porção de Mayfair, construídos com tijolos que dão o aspecto avermelhado do local, a construção se destaca pela robusta torre com o campanário e a já mencionada porção ovalada que abriga a nave da igreja. 

          O desenho é do prestigiado arquiteto Alfred Waterhouse (1830 - 1905), autor de diversas obras belas e originais, com destaque ao Museu de História Natural de Londres. Segundo o projeto British History Online (BHO) (2), que descreve em detalhes a origem da igreja em Mayfair, seu "estilo, uma variante do romanesco carolíngio que Waterhouse gostava, combina particularmente com tijolo vermelho rosado e abundantes revestimentos de terracota". Esse perfil integra perfeitamente a obra junto às elegantes construções da Duke Street e seu entorno.

          Segundo os painéis da entrada, a igreja tem origem na chamada Capela Livre - livre da jurisdição episcopal - fundada pela então Rainha Matilda (1102 - 1167) e localizada nas imediações da Torres de Londres, o principal edifício da cidade na época. 

          A situação se manteve estável até 1662, quando o Reio Carlos II (1630 - 1685) decretou o Ato de Uniformidade (3) estabelecendo reformas na Igreja da Inglaterra, então já separada da Igreja Católica, com base no Book of Common Prayer e atrelando-a mais fortemente ao Estado. Uma grande parte da congregação não aceitou as reformas do governo e se separou da Igreja da Inglaterra. Mais de dois mil sacerdotes saíram ou foram expulsos da Igreja num evento conhecido como Grande Expulsão (4) e compuseram um grupo de religiosos que mais tarde seriam chamados de não-conformistas. 

          Aqueles que viriam a fundar a nova congregação se estabeleceram em Cornhill, onde na época se localizava o King's Beam (5) - Barra ou Trave do Rei - utilizado para pesar os produtos que entravam na cidade Londres. Daí a origem do nome da congregação, que passou a se chamar King's Weigh House no final do século XVI e ocupou vários locais pela cidade até se estabelecer num igreja na Fish Street Hill, próximo ao Monumento ao Grande Incêndio de 1666. 

          No final do século XIX, começaram a surgir os planos (6) que dariam origem à atual igreja na Mayfair. Um projeto de lei local de 1864 propunha a compra do espaço utilizado pela King's, situação que se arrastou até 1883, quando a congregação foi forçada a deixar a igreja na  Fish Street Hill para a construção do primeiro edifício da Monument Station. O período coincidiu com o drama de outra congregação religiosa em Londres, a da Robert Street (atual Weigghouse St.), que possuía uma capela na Duke Street mas que seria demolida em 1886 para a construção de habitações. Esta também buscava um novo espaço para seus serviços religiosos. 

          O ministro responsável pela pequena congregação da Robert Street conseguiu um novo terreno no atual local da King's Weigh House junto ao Hugh Lupus Grosvenor (1825 - 1889), 1º Duque de Westminster, que ofereceu o arrendamento do terreno por um preço muito baixo. Segundo o BHO, o Duque era bastante "generoso em relação às instituições religiosas de todo o tipo". O projeto para uma nova igreja foi escolhido através de uma competição. O desenho do arquiteto australiano John Sulman (1849 - 1934), de estilo gótico, previa um espaço para mil pessoas, mas era caro e não poderia ser bancado pelo grupo.

          No início de 1887, a congregação da King's tomou conhecimento do caso do grupo da Robert Street. Com a saída forçada da Fish Street Hill, o grupo recebeu larga quantia da Metropolitan and Distritc Railways Companies e poderia ajudar no pagamento da obra. Havia quatro anos que realizava seus serviços no Hotel Cannon Street Station, que existia junto à estação do mesmo nome. Logo em seguida, ambas as congregações formaram um comitê para realizar o empreendimento.

          Esse comitê escolheu, em abril de 1888, o arquiteto Alfred Waterhouse para desenhar o novo edifício. A documentação disponível no BHO caracteriza Waterhouse como alguém com "rigor, clareza e domínio do plano" em seu trabalho. Sob orientações também do Duque, que conhecia o arquiteto e concedeu arrendamento de noventa e nove anos do terreno para a obra, os trabalhos começaram no verão de 1889 e terminaram em julho de 1891, quando foi realizado o primeiro Concílio Congregacional Internacional na nova casa. Tanto a congregação da King's Weigh House como a Robert Street passaram a utilizar o local, mas logo o segundo grupo foi absorvido pelo primeiro.

          Já foi mencionada aqui a beleza da igreja de Mayfair. Sua entrada pela Duke Street é dividia em três arcadas sobre uma curta escadaria que a liga à calçada. Na fachada, à esquerda, há um segundo piso e uma torre discreta para ventilação e, à direita, a torre principal na esquina com a Weigghouse Street. Esta ergue-se acima de nave ovalada da igreja e pouco acima dos edifícios do entorno com um campanário, telhado pontiagudo e uma discreta cruz branca em seu cume. Ao exemplo da foto acima, sua faixada pode ser contemplada do Brown Hart Gardens (7), construído em estilo barroco em 1903-5, junto com os edifícios de tijolos vermelhos (8) erguidos em 1886-8 como habitações para a classe trabalhadora das indústrias de Londres.

          Nas ruas lateral e detrás da igreja, Weighhouse Street e Binney Street, respectivamente, o edifício se projeta com vitrais duplos (9) inspirados no movimento Arts and Crafts dispostos numa arcada, havendo na segunda rua uma placa de pedras brancas com a inscrição "King's Weigh House Chapel. These buildings were erected in the yeard 1891 for the worship and service of God". Acima, destaca-se a nave ovalada da igreja cercada parcialmente por vitrais compridos na vertical e coberto por telhas marrom-escuro. Na sequência da Binney Street estão as salas de aula com um hall no andar superior e a casa do ministro da congregação construídos com o mesmo material da igreja, mas distribuídos de forma irregular com três andares e amplas janelas para a rua.

          No interior, o edifício chama a atenção pelo revestimento em madeira e a luminosidade escassa. Há um forte senso de isolamento em relação ao ambiente externo. Modificada para o rito greco-católico ucraniano, há uma iconóstase que separa a nave onde ficam os fiéis e o santuário (altar) reservado ao clero. Nos ícones - os que consegui identificar - estão São Nicolau na ponta esquerda e São João Batista na direita, Mãe de Deus e Jesus Cristo junto à porta central; acima episódios centrais da vida de Cristo com os Doze Apóstolos numa faixa superior, e no arco da porta a Santa Ceia encimada com Cristo no trono acompanhado por Maria e José. O ícone da Sagrada Família, que dá nome à catedral, estava colocada junto à mesa à frente da porta para contemplação dos fiéis.

          No andar superior, há belíssima arcada de madeira em estilo clássico italiano na altura. Seu formato de elipse acompanha a nave da igreja e fecha-se com os ícones na parte superior da iconóstase dando sensação de aconchego e embelezamento. O formato representa o perfil congregacional original de uma igreja protestante. Vitrais intercalados com ícones de santos venerados pelo cristianismo oriental compõe a parede do andar citado completado pelo teto verde-escuro suspenso por uma arcada em madeira, tendo ao seu centro um destacado lustre metálico banhado a ouro.

          Mas para chegar a este perfil na decoração interior e estar sob posse de greco-católicos ucranianos, a King's Weigh House passou por muitas transformações físicas e organizacionais ao longo do século XX. Um grande órgão, que inicialmente ficava na porção leste - onde hoje está o altar - foi colocado na porção oposta em duas extremidades a partir de 1903, além de novas decorações com estátuas e vitrais. Desde então, porém, a congregação declinou até a chegada do ministro presbiteriano escocês William Edwin Orchard (1877 - 1955).

          Orchard (10) foi um marco na história da King's Wieigh House. Era considerado "socialista, pacifista e simpatizante católico", segundo a documentação do BHO, além de líder do grupo ecumênico Sociedade dos Católicos Livres. Chegou à King's como ministro no verão de 1914 e introduziu elementos católicos e de tradições cristãs reformadas no culto, como o uso do incenso e do sacrário. Bastante persuasivo, houve um aumento de fiéis na congregação tanto pelo seu discurso pacifista - sua chegada ocorreu durante a I Guerra Mundial - quanto pelos elementos católicos que introduziu na prática devocional. 

          Em 1919, Orchard publicou um livro que compilava o serviço de culto utilizado na igreja contendo elementos do Book of Common Prayer (anglicano), do missal romano e das liturgias cristãs orientais. Após a morte de sua esposa Annie, em 1920, ele se aprofundou na tradição católica e tentou fazer da King's Weigh House uma espécie de "igreja ponte" entre os ramos católico e protestante. Serviços, música, culto, vestimentas e práticas sacramentais se tornaram cada vez mais católicas. Em 1926, uma nova versão do livro publicado sete anos antes também trazia mais elementos dessa tradição. Mas em 1931, após anos de negociações, a tentativa de unir os grupos católico e protestante na igreja de Mayfair falharam, e Orchard, em crise pessoal, deixou a King's no início de 1932, e parte da congregação o seguiu. Em 2 de junho daquele ano foi batizado na Igreja Católica, em Roma, onde se tornou sacerdote em 1935.

          A principal das poucas alterações físicas que o marcante ministro ecumênico deixou na igreja de Mayfair foi o retábulo de madeira no altar. Após sua partida, a congregação declinou bastante ao longo dos anos 1930. 

          Em 20 de outubro de 1940, a King's Weigh House foi severamente danificada após ser atingida por uma bomba lançada por bombardeiros alemães na II Guerra Mundial. O ataque ocorreu durante um serviço religioso e matou a esposa do então ministro da congregação. Ainda assim, o edifício sobreviveu às demais investidas bélicas que, ao exemplo do ataque de 29 de dezembro do mesmo ano, destruiu um terço da City de Londres e arrasou por completo uma área próxima à Catedral São Paulo. Durante o conflito, a igreja se tornou centro de observação de incêndios e local de acolhimento.

          Apenas um pequeno grupo realizava as atividades quando, em 1946, a congregação recebeu a Constance Coltman, a primeira mulher ordenada ministra no Reino Unido. A ordenação foi realizada por Ochard ainda protestante em 17 de setembro de 1917 na própria King's. Constance tinha por objetivo reavivar a igreja e ficou no local até 1949. 

          Com o tempo, a congregação foi declinando. Apenas em 1953 o edifício foi totalmente reformado e reaberto. O local era frequentemente alugado para outros serviços e reuniões de propósitos variados. Também serviu por vários anos como capela protestante para os membros da marinha americana posicionados em Londres até ser fechada por tempo indeterminado.

           A King's Weigh House ficou inutilizada e chegou a acumular poeira. Em 1965, a congregação se fundiu à Whitefield Memorial Road, da Tottenham Court Road, e se dissolveu (11) de forma definitiva no ano seguinte.

          O próximo grupo religioso a utilizar o local seria o de católicos ucranianos, que estabeleceram ali sua catedral existente até hoje. Mas como um grupo estrangeiro - e católico - tomou posse da King's?

          Após a II Guerra Mundial (12). batalhões britânicos compostos por ucranianos e refugiados espalhados pela Europa Oriental se estabeleceram no Reino Unido. Entre 1946 e 1950, até 35.000 ucranianos chegaram ao país, e na metade da década de 1950 até 10.000 saíram para outras regiões da Europa e América do Norte. Parte significativa daqueles que se estabeleceram definitivamente em terras britânicas eram católicos de rito oriental.

          Nesse meio tempo, a Igreja Católica Ucraniana (13) foi registrada como instituição de caridade de acordo com as leis britânicas em 9 de julho de 1965. Mas sua criação efetiva ocorreu antes, em 10 de junho de 1957, quando a Santa Sé erigiu o Exarcado Apostólico para Católicos Ucranianos do Rito Bizantino (14) com o objetivo de organizar sua missão na Inglaterra e no País de Gales. Três anos mais tarde, em 12 de maio de 1968, a missão do exarcado foi estendida à Escócia transformando-se no Exarcado Apostólicos para os Católicos Ucranianos no Reino Unido conforme decreto estabelecido em março do ano anterior.

          A essa altura, a organização ainda não possuía estrutura para uma eparquia em todo o país e estava sob comando, inicialmente, do Arcebispo de Westminster, William Godfrey (1889 - 1963) - bispo de rito latino - que liderava todos os católicos no território britânico. Apenas após sua sua morte em 1963, seu bispo auxiliar, Augustine Hornyak (1919 - 2003) - este sim do rito greco-católico - foi apontado como exarca da organização.

          A aquisição da King's Weigh House (15) ocorreu em 26 de outubro de 1967 após uma campanha difícil de arrecadação. Até então, a Igreja Ucraniana possuía dezessete paróquias, mas não uma catedral. A primeira igreja ucraniana no Reino Unido foi a de Saffron Hill, em Londres, adquirida em julho de 1948, consagrada em dezembro do mesmo ano, mas vendida como parte do esforço da campanha de fundos.

        Ao exemplo das demais paróquias, o edifício foi adaptado ao rito greco-católico. No lugar do púlpito protestante foi construído o altar e a já mencionada iconóstase (16) - objeto característico do cristianismo ortodoxo dos qual os greco-católicos são herdeiros - pintada pelo monge ucraniano Juvenalij Mokrystky (17) e instalada apenas em 1980; o órgão e a bancada foram retirados; os bancos da nave substituídos por cadeiras e foram colocados confessionários desenhados pelo arquiteto John Francis Bentley (1839 - 1902) de acordo com o modelo da Catedral de Westminster, em Londres. Bentley ganhou notoriedade pelo desenho neo-bizantino dessa mesma catedral católica.

          A inauguração da nova King's ocorreu num sábado, 29 de junho de 1968, numa celebração liderada pelo bispo Hornyak e recebeu o nome de Catedral Católica Ucraniana da Sagrada Família no Exílio. O nome deriva da Carta Apostólica Exsul Familia Nazarethana (18), de 1º de janeiro de 1952, onde o Papa Pio XII se compromete em proteger católicos exilados como os ucranianos e restaurar a hierarquia da Igreja. 

          Até hoje a igreja se mantém em uso contínuo, com altos e baixos nas atividades. Na década de 1970, um conflito entre Hornyak e o arcebispo da Igreja Greco-Católica Ucraniana - chamado de patriarca - Josyf Slipyj (1892 - 1984) levou ao enfraquecimento da comunidade e a uma grande redução do número de fiéis, que por um período não passavam de apenas trinta pessoas nas celebrações. Uma das consequências disso foi o adiamento da instalação da iconóstase, dada a diminuição dos recursos disponíveis. Ao longo da década de 1980, porém, a comunidade se recuperou, e a iconóstase foi instalada. Na década seguinte, uma nova leva de imigrantes ucranianos chegou ao Reino Unido vinda da agora Ucrânia independente. Nos anos 2000, a estimativa (19) era de que em torno de cem mil pessoas se consideravam ucranianas ou possuíam cidadania desse país.

          Apenas por um breve período a King's deixou de ser utilizada. Em 13 de agosto de 2007, parte de seu teto da igreja desabou (20). Durante meses os serviços foram realizados no hall ao lado da nave e na Igreja da Imaculada Conceição, também em Mayfair, dirigida pelos jesuítas. Nessa época, a Igreja Ucraniana estava sem um exarca, que foi apontado apenas em 2 de agosto de 2011 após seis anos e meio de sede vacante. O então administrador do exarcado, bispo Hlib Lonchyna, assumiu o cargo.

          Em 8 de janeiro de 2013, o Papa Bento XVI elevou o exarcado à categoria de eparquia - equivalente à diocese no rito latino -, que recebeu o nome de Eparquia Católica Ucraniana da Sagrada Família de Londres, sem a denominação "no Exílio", e Lonchyna tornou-se eparca.

          Contemplando o interior da igreja por mais de quarenta minutos, pude não apenar relaxar por um tempo, mas absorver, com muito pouca consciência de tudo o que foi contado aqui, da história do lugar, agora reavivado por acontecimentos muito recentes.

          Logo que havia entrado no edifício chamou minha atenção duas bandeiras à direita de quem está de frente ao altar, uma da Ucrânia e outra do Reino Unido. Imediatamente lembrei da corrente guerra na Ucrânia e pensei em se tratar da demonstração do vínculo entre a comunidade local e seu país de origem como sinal de apoio e presença distante. A guerra havia iniciado quase um ano antes da minha visita, e não pude deixar de imaginar o que os frequentadores da catedral estavam vivenciando. 

          A comunidade se tornou centro de atenção tanto da imprensa local como das autoridades políticas. Três dias após o início da guerra, o então primeiro-ministro britânico Boris Johnson - ele mesmo católico - apareceu de surpresa numa celebração religiosa pela paz na Ucrânia (21). Johnson voltou ao local - agora fora do cargo - em nova celebração pela paz, quando o conflito completou um ano, e onde também compareceu o prefeito de Londres, Sadiq Khan (22).

          Minha visita ocorrera dez dias antes desse último evento, e durante todo o tempo que estive ali nem uma pessoa sequer apareceu. O silêncio era tão marcante que parecia que as almas tivessem desaparecido em lamúria e desânimo ou se recolhido para um local misterioso. O ambiente era de paz completa, em contraste com o que viva a terra de origem dos membros dessa comunidade de Londres

          No primeiro piso à esquerda havia a lembrança de outro acontecimento recente. Uma placa dourada lembrando a visita do Rei Carlos III, filho da recém falecida Elizabeth II, em 30 de novembro do ano passado. A inscrição comemorava os setenta e cinco anos do estabelecimento da Igreja Católica Ucraniana no Reino Unido. Chamou minha atenção que a visita ocorrera fora da data exata deste aniversário - no mês de fevereiro -, e especulei que talvez Carlos estivesse lá para deixar seu apoio aos ucranianos, se situar num conflito em andamento e se destacar frente ao legado de sua mãe, pretensamente neutras em questões políticas. 

          Divagações à parte, a Catedral da Sagrada Família de Londres é um local de história complexa e muito viva, onde altos e baixos convivem ao longo do tempo. Ela não é apenas espaço de busca pela paz que encontrei naquele local interiormente discreto, belo e silencioso onde se revive regularmente o sacrifício de Cristo, mas agora, mais do que nunca, é espaço de preservação e consolidação de uma identidade religiosa e nacional sob ameaça de destruição. 

          Com a guerra em andamento os corações se agitam no outro extremo da Europa, e dada a vitalidade, agora renovada, de uma igreja sob ameaça, os tijolos vermelhos da King's Weigh House ainda terão muita coisa para testemunhar no futuro. 

----------

Imagens


                       Inscrição com o nome original da igreja na parede voltada à Binney Street.

King's Weigh House vista da esquina da Weighhouse Street com a Binney Street.

        

     Fachada da King's Weigh House na Duke Street.                  Nave da igreja.

Iconóstase.

            

Lustre da nave.



Arcada de madeira em estilo italiano no andar superior.



Novamente o andar superior, agora com as luzes acessas. Imagens de santos católicos orientais na parede entre as janelas.


               Ícone da Sagrada Família sobre o altar.       Vitral de janela inspirada no Arts and Crafts.



Placa comemorativa da visita do Rei Carlos III em 30 de novembro de 2022.

----------

Referências

1) Brief history of our cathedral (Ukrainian Catholic Eparchy of the Holy Family of London). Disponível em: https://www.ucc-gb.com/cathedralhistory. Acesso em 14 de março de 2023.

2) Duke Street Area: Duke Street, East Side (BHO | British History Online). Disponível em: https://www.british-history.ac.uk/survey-london/vol40/pt2/pp87-91#h3-0003. Acesso em 14 de março de 2023.

3) Charles II, 1662: An Act for the Uniformity of Publique Prayers and Administrac[i]on of Sacraments & other Rites & Ceremonies and for establishing the For of making ordaining and consecrating Bishops Preists and Deacons in the Church of England (BHO | British History Online). Disponível em: https://www.british-history.ac.uk/statutes-realm/vol5/pp364-370. Acesso em 15 de março de 2023.

4) The Great Ejection: An Appreciation of the Ejected 350 Years Later (Stive K. Mittwede). Disponível em: https://www.academia.edu/24346080/The_Great_Ejection_An_Appreciation_of_the_Ejected_350_Years_Later. Acesso em 15 de março de 2023.

5) "The King's Beam" (Exeter Memories). Disponível em: http://www.exetermemories.co.uk/em/_art/kingsbeam.php. Acesso em 16 de março de 2023.

6) Duke Street Area: Duke Street, East Side (BHO | British History Online). Disponível em: https://www.british-history.ac.uk/survey-london/vol40/pt2/pp87-91#h3-0003. Acesso em 14 de março de 2023.

7) Duke Street Area: Duke Street, West Side (BHO | British History Online). Disponível em: https://www.british-history.ac.uk/survey-london/vol40/pt2/pp91-92. Acesso em 14 de março de 2023.

8) Duke Street Area: Introduction (BHO | British History Online). Disponível em: https://www.british-history.ac.uk/survey-london/vol40/pt2/pp86-87. Acesso em 14 de março de 2023.

9) King's Weigh House Chapel by Alfred Waterhouse (Jacqueline Banerjee). The Victorian Era. Disponível em: https://victorianweb.org/art/architecture/waterhouse/3.html. Acesso em 14 de março de 2023.

10) Orchard, William Edwin (1877 - 1955) (Elaine Kaye). Oxford Dictionary of National Biography. Disponível em: https://www.oxforddnb.com/display/10.1093/ref:odnb/9780198614128.001.0001/odnb-9780198614128-e-75389. Acesso em 16 de março de 2023.

11) The History of the King's Weigh House Church: a Charpter in the History of London. By Elaine Kaye. Pp 176. London: Allen & Unwin. 1968, 21s. (B. R. White). The Journal of Eclesiastical History. Disponível em: https://www.cambridge.org/core/journals/journal-of-ecclesiastical-history/article/abs/history-of-the-kings-weigh-house-church-a-chapter-in-the-history-of-london-by-elaine-kaye-pp-176-london-allen-unwin-1968-21s/2B8424C88E4BE54B007E3F9853F427B0. Acesso em 17 de março de 2023.

12) Ukrainians in the United Kingdom. (Roman Kravec). Ukrainians in the United Kingdom. Online encyclopaedia. Disponível em: https://www.ukrainiansintheuk.info/eng/01/ukrinuk-e.htm. Acesso em 18 de março de 2023.

13) About the Eparchy. (Ukrainian Catholic Eparchy of the Holy Family of London). Disponível em: https://www.ucc-gb.com/about. Acesso em 14 de março de 2023.

14) Brief history of our cathedral. (Ukrainian Catholic Eparchy of the Holy Family of London). Disponível em: https://www.ucc-gb.com/cathedralhistory. Acesso em 14 de março de 2023.

15) "In Exile No Longer": Holy Family Cathedral Celebrates 50 Years (Rev. Dr. Athanasius McVay). Annales Ecclesiae Ucrainae. Disponível em: https://annalesecclesiaeucrainae.blogspot.com/2018/06/in-exile-no-longer-holy-family.html. Acesso em 21 de março de 2023.

16) Cathedral Church of the Holy Family. (Latin Mass Society). Disponível em: https://issuu.com/latinmasssociety/docs/moa_summer_2022_final/s/15826372. Acesso em 21 de março de 2023.

17) About the Parish. (Roman Catholic Parish of Ukrainian Cathedral). Disponível em: https://issuu.com/latinmasssociety/docs/moa_summer_2022_final/s/15826372. Acesso em 21 de março de 2023.

18) Exsul Familia Nazarethana. (Pope Pius XII). Papal Encyclicals Online. Disponível em: https://www.papalencyclicals.net/Pius12/p12exsul.htm. Acesso em 22 de março de 2023.

19) Immigration from Ukraine since 1991. (Roman Kravec) Ukrainians in the United Kingdom. Online encyclopaedia. Disponível em: https://www.ukrainiansintheuk.info/eng/01/immig1991-e.htm. Acesso em 21 de março de 2023.

20) Cathedral collapse sparks exodus. (BBC News). Disponível em: http://news.bbc.co.uk/2/hi/uk_news/england/london/6957015.stm. Acesso em 21 de março de 2023.

21) Boris Johnson lifts spirits at Ukrainian church (Reaction). Disponível em: https://reaction.life/boris-johnson-lifts-spirits-at-ukrainian-church/. Acesso em 22 de março de 2023.

22) London: Mayor Sadiq Khan, Boris Johnson, attend prayer service on anniversary of Ukraine invasion. (Jo Siedlecka). ICN. Independet catholic news. Disponível em: https://www.indcatholicnews.com/news/46622. Acesso em 25 de março de 2023.

Livros

ACROYD, Peter. London. The Concise Biography. Vintage, London. 2012

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Essa é a nossa guerra

 

          Em determinando momento do dia de hoje estive pensando um pouco na guerra em que vivemos atualmente. O pensamento me ocorreu enquanto fazia uma corrida durante o crepúsculo do sol de verão. A tarde havia sido quente, mas o vento do fim do dia tornava tudo muito mais agradável, e sem fones de ouvido centrei-me nessa guerra a fim de suportar a ansiedade de um passo a passo monótono.

          Muitos talvez pensem em guerra no seu sentido estritamente material. Não falo de guerras mundo afora, da Síria ou da possível guerra na Ucrânia, nem da violência urbana ou do problema das drogas, mas da guerra espiritual. É lá que está a batalha decisiva, esteja você no meio de um tiroteio ou não. Isto é o que importa.

          Destruída a autoridade divina no coração dos homens, o que resta? Nada. Ou melhor: qualquer coisa. Dostoiévski ensinava, em Os Irmãos Karamázov, que se Deus não existe tudo é permitido. Ou pior ainda: podemos realmente acreditar em Deus, mas não aceitar, por uma profunda revolta espiritual e demoníaca, o mundo que Ele criou. Essa era a atitude de Dmitri, irmão de Aliócha, no romance escrito pelo grande escritor russo, em que o personagem descrente em Deus declarava abertamente que jamais aceitaria o mundo como ele é mesmo que Deus existisse. Estava declarada a guerra de uma alma que já havia perdido a própria guerra. 

          Este é o nosso mundo, a ordem criada por almas confusas e obscurecidas pela obstinação do erro. Parece que cada vez mais pessoas decidem pela rebelião, seja por acreditar que estão se libertando ao aderirem às ideias, modas e movimentos do momento, seja porque simplesmente não aceitam o mundo que existe e querem mudá-lo à sua imagem e semelhança, mesmo que isto signifique bater de frente com o Criador. O pior é que os dirigentes deste mundo, do alto de seus castelos civis, econômicos, militares, intelectuais e mesmo religiosos, estão empedernidos em sua luta contra o espírito tentando, a todo o custo, enclausurar o restante da humanidade num lockdown existencial eterno.

          Vejam à sua volta os frutos da revolta: confusão, insegurança e medo. Do espírito nascem a clareza, a segurança e a paz. Abolida a referência que permite medir todos os nossos atos, tudo se torna não apenas permitido, mas relativo. Não há medida ou poder que forneça a paz necessária, pois a paz precisa de ordem, e só há ordem quando a fundamento dela mesma é admitido como princípio e fim de todas as coisas, que se ordenam no passar da linha do tempo

          Se na guerra escolhermos o lado da luz, poderemos ao menos enxergar e identificar os perigos que nos rodeiam, inclusive em sua dimensão física. Este é um dos papéis da sabedoria, tão rara numa época em que o Espírito Santo é contrito pela obstinação humana, pela rigidez dos que apelam pela retidão da razão. A sabedoria é o cruzamento da ciência, outro dom do Espírito, com o amor. Sabemos, por exemplo, qual pessoa se faz digna de uma ajuda desesperada e qual, cobrindo seu rosto com a face de um cordeiro, é apenas digna de pena. Por isso pouco importa o bem-estar físico se a vida afunda na desesperança, pois os recursos transformam-se em bodes expiatórios dos próprios erros, quando não instrumentos de desgraça. 

          Para evitarmos a desgraça do medo ou a guerra que se avizinha no horizonte é necessário adentrarmos nas tropas do espírito. É ali que o exército dos anjos atuam e onde encontramos - pasmem, meu amigos mais humildes - milhares e milhares de empregados a trabalhar para nós, desde que estejamos dispostos a trabalhar com eles. Por isso a atitude de abertura confiante a Deus é tão relevante, pois esta é a garantia de nunca estarmos sozinhos.

          É necessário dizer sim e agir sobre o sim. Seja com o Rosário ou a cruz na mão, seja invocando o nome do Criador à forma da sua tradição, esta é nossa trincheira, esta é nossa batalha. No mundo, nenhuma guerra ou desgraça cessará por completo sem que peçamos auxílio a Quem fez todas as coisas, inclusive as que permitiram a criação das armas. "Rezem o terço todos os dias para alcançar o fim da guerra.", disse certa vez a Mãe de Deus. Essa é a nossa guerra, a única necessária para vencer todas as guerras.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

A Rússia me persegue

 

          Existe um país que me persegue. Ele é conhecido, entre bebidas destiladas e frio extremo, pela ostensiva prática de espionagem. Não que seja o único a praticar isso, obviamente, mas se convencionou a vê-lo do Ocidente como um mistério indecifrável, e o Brasil, fortemente influenciado por aquilo que dizem os americanos e europeus, entrou no roldão no carnaval desses estereótipos.

          A Rússia me persegue, ou talvez eu persiga a Rússia. E mais uma vez fui pego por uma espécie de espião invisível que, na hora "H", resolveu dar o ar da graça.

          O mais recente fato curioso foi neste último dia de novembro, quando estive mais uma vez no Centro de Porto Alegre para os afazeres burocráticos e aproveitei para dar uma esticadinha num sebo, na famosa ladeira que liga a Rua da Praia com a Praça da Matriz.

          Espremido entre elevadas paredes de livros, uma espécie de paraíso estreito, ao fundo do corredor mexi de forma um tanto aleatória nos livros sobre religião quando, de repente, um pequeno cartão de promoção da cultura soviética caiu ao chão. Não havia pensado em nada sobre a Rússia no momento, mas o cartãozinho comunista estava lá entre os livros quando, ao puxar um deles, veio num leve tombo ávido a se apresentar.

          O material comemorava os oitenta anos da Revolução Russa com a inscrição "1917 1987", e por entre os números se erguia a Torre Spasskaya, a principalmente do Kremlin de Moscou, com a sua famosa estrela vermelha ao topo, tendo do lado direito outras duas torres de seus muros avermelhados e do esquerdo a cúpula do Senado do Kremlin com a bandeira soviética tremulando. Ao centro, um exemplar de uma revista comunista em português e abaixo a chamada "Não se esqueça de assinar a tempo jornais e revistas soviéticas!".

          Não me furtei de pensar, no mesmo instante, que aquilo só poderia ser para mim. Não me refiro à propaganda comunista, mas à referência à Rússia, enorme nação imperial que, apesar de minha insignificância, volta e meia aparece para me dar um alô.

          Não sei quando comecei com o fascínio por esse país ao mesmo tempo tão distante e tão presente, mas algumas coisas dão o que pensar. Na juventude, sempre achei Moscou fascinante por sua arquitetura grandiosa e ruas largas, cujos projetos visavam remodelar a cidade como exemplo da cidade comunista ideal e uma portentosa capital imperial. Tanto as peculiares igrejas - com a emblemática figura da Catedral de São Basílio, símbolo máximo da Rússia - quanto as chamadas Sete Irmãs de Stálin, em parte inspirada na própria arquitetura russa com bordas e torres pontiagudas, apresentam Moscou como centro de um império. 

          Certamente fui atraído pelo imaginário popular ou, diria melhor, pela figura estereotipada e militante da "grandiosidade" comunista, que infundia nas consciências juvenis o sonho de transformação da humanidade em todas as suas dimensões. Grandiosidade, universalidade, ideal, uma sedução sem fim de um universo inteiramente novo representado pela Terceira Roma, agora sob vestimentas materialistas. Por detrás da imensidão material e espiritual da Rússia, pulsava o ímpeto revolucionário que fizera da nação hospedeira seu Cavalo de Tróia. Amarga ilusão regada a muito sangue.

          Recordo-me de um ex-professor de pós-graduação lendo um texto a respeito do cosmismo, ideologia tão exótica e misteriosa quanto o país que lhe dera origem, que propunha uma nova evolução da humanidade em sua exploração do espaço, cujo resultado seria - pasmem! - a vida eterna! Uma loucura tipicamente russa e sedutora para um país com mania de grandeza. No artigo, um integrante do governo declarava, abertamente, sobre "o caráter nacional do povo russo, acostumado a pensar em categorias globais e pronto a sacrificar a vida por uma ideia". Ora, ora, quão fascinado sou por ideias amplas, arrebatadoras e reveladoras a respeito da vida, do homem, da História humana, do Universo inteiro! 

          Este foi o principal motivo pelo qual sempre me senti atraído pela mensagem de Fátima. Uma atração que por muito tempo foi muito mais mental do que espiritual. Seduzido pela temática impactante e abrangente, via as revelações sobre a História como muito mais interessantes do que o plano divino de salvação das almas e de paz no mundo, suas verdadeiras razões de existir. E nessa história tão incrível quem estava lá com uma menção toda especial? A Rússia, como pivô de uma época, a minha época, chave para a paz no mundo. A mensagem se encaixava muito bem nas "categorias globais" como forma de pensar o mundo. Minha atração pelo conteúdo era inevitável, mas até então boiava em divagações ao estilo History Channel.

          Apenas recentemente, em 2019, entrei de roldão na mensagem de Fátima graças a uma paróquia próxima de casa que realizava a Devoção dos Cinco Primeiros Sábados, e só depois disso entendi claramente, lendo as memórias da Irmã Lúcia, que a Consagração da Rússia não era o único fator da paz mundial, mas um de seus pilares junto com a Comunhão Reparadora. Fisgado pelo interesse pessoal pela Rússia, fui parar na frente de Nossa Senhora de Fátima como que um participante não só da História humana, mas do tempo de Deus, que não se mede por padrões humanos nem se limita a fronteiras nacionais. 

          Estar com Fátima é estar na Rússia. Basta menos do que um passo e menos do que o pulsar do ponteiro do relógio para atravessar mais de meio mundo. Quando me dobro frente à Nossa Senhora de Fátima, sei que um pouco de meu espírito repousa no distante país, da foz do Rio Neva à tundra siberiana, pois foi de meu interesse pela imensa nação que descobri, para conforto interior, a real dimensão da devoção a que me vinculava.

          A revelação pessoal não pára por aí. Em fins de 2019, descobri o repositório digital do jornal Voz de Fátima, dedicado à difusão da mensagem e publicado todo o dia treze de cada mês desde outubro de 1922. 

          Este que voz escreve veio ao mundo em 12 de fevereiro de 1981, e dada as "coincidências" que surgem naqueles que buscam uma vida espiritual, resolvi investigar o que se publicava a edição do dia seguinte. A situação não poderia ser mais reveladora. Dizia o título da capa: "Fátima e a Consagração ao Imaculado Coração de Maria". Chamada chocante para quem se dispôs, há dez anos, realizar a Consagração Total pelo método de São Luís Montfort, uma devoção de entrega à Maria Santíssima. Mas as coisas não pararam por aí; o subtítulo continuava: "Em diversas manifestações, Nossa Senhora pediu a consagração ao Seu Coração Imaculado: Consagração do Mundo e Consagração da Rússia.", e no pé da capa, outra reportagem anunciava seu título: "O Coração de Maria e os Primeiros Sábados". 

          De boca aberta, fiquei a imaginar o por que da impressão desse jornal exatamente com esse conteúdo menos de vinte e quatro horas depois de sair do delicioso aconchego materno. Saído de um aconchego, já se preparava outro com material feito especialmente para mim no futuro. Sim, essa edição foi impressa para que eu pudesse lê-la trinta e oito anos anos mais tarde. Ninguém imaginava minha existência, mas Alguém desde antes do princípio das coisas não só imaginava como já havia decidido tudo.

          Outra impressionante "coincidência" é o salto no tempo e no espaço que me fez olhar para uma distante terra gelada no passado. Explico. Na Renovação Carismática, bem como em certos grupos de oração, realiza-se a cura da árvore genealógica, procedimento que é, pelas palavras do falecido exorcista Gabrielle Amorth, ponto de discussão na Igreja Católica dadas suas sensíveis implicações teológicas. Como nunca fui autoridade tarimbada no assunto, pude conhecer dessa árvore pelos frutos quando tive experiências com orações de libertação.

          Em meados de 2009, tive o enorme privilégio de receber umas dessas orações que penetram nas gerações passadas. Na ocasião, queria descobrir a origem das dificuldades de relacionamento com meu pai, algo que perpassou toda minha vida. 

          Fui colocado sentado no centro de um sala em frente a uma imagem de Jesus, que expressava um olhar simplesmente irresistível a causar um desarme da alma. Ao meu redor, um grupo de mulheres introduziam orações católicas e invocação a Santíssima Trindade, anjos e santos, e impunham docilmente as mãos sobre mim. Buscando responder à minha ansiosa dúvida, uma das mulheres presentes me informou que visualizava um cossaco, e este tentava impor ao seu filho modos de agir e até mesmo o que ele deveria ou não pensar. Isso mesmo, um cossaco, e na Rússia. O homem, distante no tempo e no espaço, era antepassado da linhagem paterna, coisa que jamais imaginei nem por desejo. Como não possuía dons e sensibilidades afloradas, muito menos tinha o conhecimento teológico de um Adolphe Tanqueray ou as experiências de Santa Teresa d'Ávila, tive de me contentar com a descrição do local: havia neve. E como poderia ser a Rússia? Pois era a Rússia, respondeu a mulher, e o homem era um cossaco, o que me faz concluir que a libertação retornava pela minha linha familiar até meados dos séculos XVII-XVIII.

          Outro laço com a Rússia foi mais indireto, mas não menos surpreendente. Ingressei no mencionado grupo de oração em 2012, e uma das mais marcantes experiências ocorreram com canções religiosas, mais especificamente uma versão específica da Ave Maria atribuída ao compositor italiano do século XVI Giulio Caccini.

          Todas as vezes em que ouvia o som pela voz de um dos coordenadores do grupo, meu peito borbulhava como se produzisse vapor a explodir pela garganta, e que subitamente transbordava como a caneca com leite fervilhante. Não era o curto Neva, mas o vasto Volga que vinha à tona. A combinação de sutileza, profundidade e força da melodia tiveram em mim efeito avassalador. Não só a melodia em si, mas quem a cantava foi determinante. Richard Emunds era cantor profissional e se tornou meu padrinho de crisma, instrumento providencial decisivo para minha volta à Igreja. Através da canção a Nossa Senhora, eu vivia aquilo que costumei chamar de "experiência de Deus", o "sentir", como diz a banal linguagem popular. As cicatrizes abertas pela canção eram como que buracos por onde penetrava e jorrava a graça. Nunca mais quis me curar. 

          Mas que raios esse episódio tem a ver com a Rússia? Nessa última semana de novembro descobri que a mencionada canção da Ave Maria não era de autoria de Caccini, mas de Vladimir Vavilov, compositor russo que criou a música em meados de 1970 na então Leningrado publicando-a de forma anônima. Um duplo sopro providencial que fez brotar uma canção profundamente espiritual num regime antirreligioso e a fez alcançar essa alma então desnorteada por sonhos ilusórios e sentimentos desequilibrados que pululavam em lágrimas. 

          Não sei se Vavilov pensava em conversões ou possuía alguma devoção mariana especial, mas por seu valiosíssimo instrumento Nossa Senhora fez comigo o que ainda pretende fazer - e fará - com a Rússia.

          Mas enquanto a conversão da Rússia prometida em Fátima e Garabandal não chega, a Santa Sé e o Patriarcado de Moscou trabalham sutilmente nos bastidores por uma aproximação. Um passo ousado foi dado após vinte anos de discussão quando ocorreu o primeiro encontro da história entre um Papa e um Patriarca russo, Francisco e Kirill. O encontro teve direto abraços, sorrisos e uma Declaração Conjunta com temas muito delicados O ano era 2016, e o dia - sim, acreditem - 12 de fevereiro. De tão pessoalmente representativa, a data soava quase como uma ironia. Era dia do meu aniversário, praticamente um presente pessoal. 

          Na época não pude esconder minha alegria, que brotou discretamente quando soube da novidade pela internet, como se eu tivesse colocado a mão na sensibilíssima diplomacia Santa Sé-Moscou e participado de algo tão surpreendente. Obviamente seria ingenuidade pensar que disso pudesse vir a definitiva união das igrejas, algo tão improvável como o Papa e o Patriarca acenderem velas num bolo de aniversário e cantarem "Parabéns pra você" para um habitante desconhecido nas plagas do Sul do Brasil.

          Voltando ao 30 de novembro, uma pequena coincidência se revelaria pouco menos de seis horas depois do cartãozinho soviético me dar um alô. Eu havia começado a escrever esse texto comentando da misteriosa perseguição que o mencionado misterioso país vem promovendo à minha pessoa quando interrompi a escrita, fui à missa e soube, pela voz do padre, que estávamos comemorando o dia de Santo André. 

          Um dos apóstolos de Cristo, André é considerado ninguém menos do que fundador do cristianismo no Oriente e o santo mais venerado na Ortodoxia. Coincidência? E no mesmo dia, o Papa exortava, junto ao Patriarca de Constantinopla, que os ortodoxos buscassem a unidade de ambas as igrejas. Este texto tinha de ser escrito. 

          Todos os dias somos pegos com as calças na mão ou com o cartãozinho que cai ao nossos pés. Se há algo providencial entre minha relação com a Rússia ou se ela é mais um instrumento da providência que Deus dispôs para minha conversão, só o futuro dirá. E o futuro a Deus pertence.   

sábado, 7 de novembro de 2020

O insistente retorno a Roma

"Onde o catolicismo é expulso como uma coisa antiga, ele sempre volta como uma coisa nova." (G. K. Chesterton, em "Todos os caminhos levam a Roma") 

Não existe civilização secular, "laica", não-religiosa.
Todas as civilizações humanas têm algo de religioso na base, pois não pode haver civilização que se fundamente na desorientação e desconexão com a realidade em seu todo, cosmovisão provida pelas tradições religiosas.
Até pouco tempo, esta cosmovisão estava disponível apenas nas religiões. Hoje, as ideologias e mentalidades modernas buscam fazer o mesmo papel através de fórmulas pré-determinadas que enclausuram a totalidade da realidade numa gaiola. É a explicação de tudo e de todos mediante fórmulas simples, mas falhas.
O exemplo mais flagrante é o marxismo, cuja filosofia persiste com sua insistente miragem sedutora de uma transformação integral da sociedade humana e, por consequência, de sua relação com o cosmo em prol do "mundo melhor". Não importa o quanto seus movimentos políticos fracassem, pois sua força provém da insaciável sede existencial do homem.
A persistência de ideologias é mais uma prova da persistência das tradições religiosas, totalizantes por excelência, mas não escravizadoras do espírito. É mais uma prova de que, sim, o homem é um ser essencialmente religioso, mesmo que se negue esta afirmativa.
Não por acaso, Chesterton escreveu um livro chamado "Todos os caminhos levam a Roma", origem desta citação. Queira ou não, o homem busca a Verdade, cujo depósito institucional está em Roma, ainda que esta Verdade, obviamente, não se limite há uma instituição mas se manifeste na realidade mesma.
Tiremos o catolicismo de cena e teremos ideologias falhas que acabarão por ruir deixando em seu lugar um catolicismo novo; ou mesmo uma religião que dê ao homem uma explicação satisfatória para a vida.
Mas Chesterton soa profético em sua afirmação. Hoje, com a crescente hostilidade cultural ao catolicismo, ao mesmo tempo emergem e se destacam movimentos onde esta fé vive e mesmo retorna. É o caso dos movimentos marianos, que tomaram impulso desde o pontificado de São João Paulo II, e do retorno às práticas tradicionalistas com Bento XVI.
Onde emerge a apostasia, o Espírito age para defenestrar o espírito do tempo. Pois é disto que se trata: o homem, ao render-se ao seu tempo, afunda no vazio e na depressão, e tem como única alternativa retornar para a casa que lhe oferece a eternidade.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

O abandono da fé e as "novas religiões"

 "As Novas Religiões estão de muitas maneiras adaptadas às novas condições; mas é só às novas condições que estão adaptadas. Quando essas condições tiverem mudado daqui a um século, as questões nas quais essas religiões insistem terão se tornado quase sem sentido." (G. K. Chesterton, em "Igreja Católica e Conversão", em 1926)

Quem ler ao menos parte da obra "Igreja Católica e Conversão" verá que Chesterton trata do catolicismo como uma religião nova. Nova porque ela vem de encontro à mudança de vida, remexe a forma de pensar meramente tradicional, tomado aqui o termo "tradicional" como a herança pura e simples de um passado ainda vivo.
Esta tradição é estéril, não-espiritual, ao passo que o catolicismo é uma herança viva, espiritual, mesmo que a tradição vigente diga o contrário.
Mas as "novas religiões" que Chesterton cita nesta passagem do mesmo livro são aquelas que vêm como novidade, mas são apenas uma amálgama de crenças e elementos que adaptam a alma humana às condições do momento.
Hoje poderíamos ver essas novas religiões na New Age, no neopaganismo, no espiritismo, em elementos orientalistas e assim por diante; todos eles, em maior ou menos grau, costurados e adaptados não à verdade, mas ao gosto do cliente.
Não por acaso, os sociólogos chamam essa atitude de bricolagem, a criação individual de uma crença puramente pessoal e que não necessariamente condiz com a realidade.
Ocorre que Chesterton falava dessas "novas religiões" já em 1926, ano no qual esta passagem foi escrita, mostrando que há muitas gerações o Ocidente vem sendo seduzido por crenças espirituais não cristãs ou mesmo anticristãs.
Onde morre a fé cristã (e católica em particular), abre-se o terreno para novas religiões.
Hoje, Chesterton veria, como já viu em sua época, a penetração do islam na Europa. A fé islâmica só poderia progredir em terreno aberto onde o cristianismo foi abandonado.
E não adianta que governos e organizações reclamem oposição ao islam. A esfera política pouco pode contra o crescimento desta fé abraâmica, que historicamente tem se mostrado hostil não apenas ao cristianismo como às formas de vida do Ocidente.
Religião se opõe à religião. Se o Ocidente escolher abraçar as "novas religiões" ou seguir meramente tradições estéreis, será seduzido e morrerá nos braços do islam ou de qualquer outra força religiosa equivalente.
Chesterton é um exemplo, tanto nas obras quanto em sua vida pessoal, da capacidade que uma fé verdadeira possui de transformar vidas e estabelecer uma cultura forte ancorada numa compreensão profunda da realidade. Esta é a única barreira contra a entrada de outras religiões tradicionais hostis à fé cristã, quem dirá contra crenças da moda compradas como produtos nas prateleiras de supermercados.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Um tempo de superstições

 

"A época em que vivemos é algo mais do que uma época de superstição - é uma época de superstições que não acabam mais." (G. K. Chesterton, em "Eugenia e Outras Desgraças", 1922)

Uma das características de nossa época é a secularização. Este fenômeno se define pela subtração de expressões religiosas da sociedade, tanto na esfera pública quanto privada, como nas artes, na literatura, nos princípios que regem a vida comunitária e familiar, na prática da oração, na visão de mundo das pessoas e assim por diante.
Apesar da era moderna ser muito mais secularizada que as anteriores, o impulso humano de uma busca espiritual não desapareceu e nunca desaparecerá.
O homem é essencialmente religioso. Em todas as épocas e lugares, buscou respostas aos dilemas existenciais básicos: por que estamos aqui, qual é o sentido da vida, de onde viemos e para onde vamos, há vida eterna ou não, etc.
Nossa época não é diferente. Ocorre, porém, que as pessoas se afastaram de Deus e adotaram toda a sorte de loucuras que parecem responder aos seus dilemas, ao exemplo das ideologias ou, pior ainda, dos moralismos da moda corrente, que mudam constantemente numa torrente que cega e embebeda almas carentes.
O sociólogo Peter Berger observa que, hoje, a fé religiosa vive, mas de forma desinstitucionalizada. Ou seja, a maioria das pessoas crê em Deus ou num Ser superior, mas não se vincula a uma igreja ou comunidade. Crê em seus próprios termos.
Assim, as superstições brotam, aqui e ali, como substitutos do impulso religioso carente de Deus, mas que perdeu o caminho para encontrá-Lo.
Em 1922, em "Eugenia e Outras Desgraças", Chesterton já observava a multiplicação de superstições. Imagine o que ele encontraria hoje, um universo de superstições das mais rasteiras, como a crença, por exemplo, de que estamos em sintonia com o Universo ao tentarmos "salvar o planeta" ou toda a sorte de cultos pagãos coletados, ora em ritos orientais, ora da própria cabeça.
Bêbado, perdido e desesperado com a confusão do mundo atual, o homem se debate com seus erros na busca por um rumo até que, por graça da providência, encontre o caminho de casa.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Moral e religião

"Uma pessoa que tem moral mas não tem religião é como uma pessoa apoiada só numa perna." (G. K. Chesterton, em "O Sobrenatural é Natural")

          Há quem diga que a pessoa pode ser boa e, portanto, ser moralmente correta sem ter religião alguma ou ser ateia, bem como há quem diga o contrário, que não é possível ser bom ser ter religião ou acreditar em Deus.

          O importante aqui é lembrar que o homem é um animal essencialmente religioso; é o único ser consciente em toda a Terra que questiona-se sobre o seu destino transcendente e age sob esta perspectiva.

          Isto também vale para o ateu, que age sob a perspectiva de que o homem finda com sua morte biológica. Isto também é um atitude religiosa, porém de fechamento para o mistério.

          Como mostra esta passagem, Chesterton inclina-se à posição de que a pessoa pode ter moral sem religião, talvez possa ser boa também, mas sua condição enquanto homem mostra-se amputada da plenitude do ser, negando a própria condição que lhe permite ser não religioso.

          Mas a situação se complica quando advoga-se uma moral sem religião. Perdida a referência do transcendente, o homem não religioso continua sendo uma animal religioso, continua a buscar, mesmo que negue ou não perceba, uma resposta para o mistério da vida.

          No lugar de Deus e do Absoluto ergue-se um novo deus, um novo parâmetro moldado segundo os arbítrios de desejos humanos, um bezerro de ouro que dita as novas condutas.

          Mesmo as derivações seculares do cristianismo caem neste perigo. A imanentização da igualdade perante Deus nos regimes democráticos é um exemplo. Hoje, vemos as democracias degenerarem no crescimento do poder político que visa inculcar no cidadão novas formas de conduta de raça, sexo, grupos social ou seja lá o que for em nome da "igualdade" e da "liberdade".

          Prescindido da religião, a moral ergue-se sobre pés de barro. "Se Deus não existe, tudo é permitido", disse Dostoiévski. Chesterton foi apenas mais sutil ao dizer que, abandonando a Deus, corremos o risco de nos desequilibrarmos e cairmos no caos niilista alertado e previsto por seu colega russo.

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Crise da ciência: uma crise do espírito

(Relógio astronômico na Igreja Santa Maria em Lubeck, Alemanha)

          A todo o momento ouvimos falar na televisão sobre ciência ou seja lá o que a classe jornalística chama de ciência.

          É importante ter em mente que a ciência tal qual é concebida nos dias de hoje possui metodologias que são arbitrárias e se baseiam em concepções de mundo precedentes a elas; é também mutável podendo apresentar resultados diferentes no dia seguinte em que um primeiro resultado é apresentado, e que por isso mesmo jamais pode haver o que tanto proclamam de "autoridade científica".

          Nesta palestra proferida pelo professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) e doutor em Filosofia, Victor Sales Pinheiro, a ciência moderna é apresentada como elemento distinto e inconciliável com o que chamamos de "religião" (termo impreciso para designar uma variedade enorme de fenômenos sociais, antropológicos e espirituais) e, por isso mesmo, em permanente crise.

          Segundo o professor, a ciência moderna surge no século XVI, mas sua forma ideologizada se constitui apenas no século XIX com o positivismo de Augusto Comte, dando origem ao que ele chama de "religião do progresso". Esta concepção se opõe e combate abertamente a "religião tradicional" tratando-a como uma mistificação supersticiosa e obscurantista, situação que piora com as falsificações antirreligiosas de John Draper e Andrew White, cujas motivações e erros deliberados são mostrados pelo historiador da ciência, Ronald Numbers

           Esta cosmovisão deu origem aquilo que Olavo de Carvalho, no "Jardim das Aflições", chamou de "deuses do espaço", onde o homem, prescindindo da dimensão espiritual da vida, busca racionalizar, matematizar e enquadrar a totalidade do cosmos num esquema pretensamente científico, como se fosse possível o conhecimento total e, portanto, a manipulação plástica de toda a realidade pela vontade do homem.

          Mas a ciência moderna logo entra em crise, não apenas por seus analistas críticos que surgem já na virada para o século XX e depois (Victor cita Husserl, Heidegger e Voegelin), como esta idealização espúria ignora o vasto período entre os filósofos gregos e Descartes como se nada houvesse na cultura ao longo de dois mil anos que contribuísse para o pensamento científico. 

          Prescindido da ética advinda da fé cristã, para a ciência resta o potencial de manipulação da natureza, mas falta-lhe o sentido. A era moderna criou muitos comos, mas eliminou ou porquês. Das crises, que vêm em série desde há mais de século, brotaram os monstros totalitários e genocidas do nazismo e do comunismo, duas ideologias cientificistas, que são causa e consequência de duas Grandes Guerras, eventos onde a técnica foi aplicada à destruição e mortandade em massa.

          Com base na exposição acima, fica a pergunta: como pode haver segurança num mundo que põe sua fé na ciência, mutável por excelência? 

          Se não há parâmetro fixo que forneça fundamento e matéria-prima sobre o qual se construa qualquer empreendimento humano (o que inclui a totalidade dos métodos e conhecimentos científicos), não pode haver, igualmente, elemento no qual podemos garantir nossa segurança. Não há paz, seja coletiva ou individual, num ambiente cultural e psicológico que fique à mercê de mudanças permanentes. Apenas crises. 

          Para utilizar o ensaio de Olavo de Carvalho, ao depositar a fé na ciência a humanidade busca novas éticas a fim de solucionar as crises sucessivas e dar estabilidade às mudanças constantes. Da crise coletiva provocada pela vacuidade de fundamentos morais surge a revolução política, cujo objetivo é estabelecer uma nova ordem social e dar cabo à insegurança. O problema é que a ordem coletiva por si mesma não pode gerar os princípios da qual depende e que são forjados pela tradição religiosa. 

          Sobre os "deuses do espaço" erguem-se os "deuses do tempo". São Behemoth e Leviatã, monstros mitológicos que representam as forças da natureza e as forças sociais, respectivamente, que de digladiam mas intensamente na medida em que a fé desaparece da sociedade, até que Behemoth consiga, mais uma vez, vencer a revolta do homem pelo cansaço.        

          A crise da ciência é, portanto uma crise do próprio homem ou, falando de forma mais concreta, fruto da confusão e desorientação na qual as pessoas hoje se encontram. Quando ouvimos falar em "crise política", "crise econômica" ou "crise social" estamos, no fundo, ouvindo sobre os efeitos da degradação moral da humanidade. 

          No artigo "Redescobrindo a vida cristã"Victor Sales aponta um caminho possível de solução à crise através da busca por uma vida religiosa autêntica e do resgate dos fundamentos culturais do cristianismo. Há inumeráveis obras que mostram as realizações da Igreja Católica e de cristãos em geral no campo da cultura. Sua história é repleta não apenas de santos como também de cientistas, filósofos e escritores, uns religiosos, outros leigos.

          O historiador Thomas Woods Jr. no seu livro de título sugestivo "Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental" afirma que a Igreja não apenas fomentou uma cultura: ela criou um civilização inteira. Forjou o desenvolvimento de inumeráveis setores da vida social como agricultura, metalurgia, filosofia (e todo o esforço dos monges copistas no resgate do pensamento clássico grego), arquitetura, organização da vida política e social (bispos e religiosos se tornaram administradores da Europa quando da queda do Império Romano), literatura, direito, pedagogia, e toda a gama de conhecimentos que desembocariam na ciência moderna. 

          Junto às igrejas foram fundadas escolas para que estudantes pudessem se reunir e organizar seus trabalhos. Deste embrião surgiriam as universidades, criação eminentemente católica. Da mesma forma, os cuidados para com doentes e afetados pelas guerras deram origem aos hospitais.

          Se há crise da ciência, é porque há crise humana, no sentido profundo da palavra. Para fixar os pés em algo que possa dar alguma segurança, servir de parâmetro para medir e balizar crises, equilibrar Behemoth e Leviatã, as necessidades humanas e suas paixões, a busca por uma consciência religiosa através de uma espiritualidade profunda seria o primeiro passo para amenizar a crise. Esta consciência alenta o sofrimento psicológico cotidiano e dá a paz necessária para acalmar os pensamentos e aguçar a percepção da realidade necessária para o estudo e o trabalho.

          Basta observar, na perseverança de uma vida espiritual, o resultado desta vivência em nossas vidas. Não é possível mudar o mundo sem mudar antes si mesmo, tendo numa mão a fé em Deus e noutra, claro, o empenho nos estudos.

segunda-feira, 13 de julho de 2020

A unidade da segunda parte da mensagem de Fátima (13 de julho)


Hoje, 13 de julho, faz 103 anos da aparição de Nossa Senhora de Fátima onde Ela afirmou que viria pedir a comunhão reparadora dos sábados e a consagração da Rússia, pedidos que realizou em 1925 e 1929, respectivamente. Destes dois atos, viriam a salvação das almas e a paz no mundo.

Estas mensagem mostram que não adianta pedir apenas a consagração da Rússia (ou seus efeitos, caso já tenha sido realizada por São João Paulo II em 1984 como muitos acreditam) sem a comunhão reparadora, o que inclui a oração completa do Rosário.

Se as pessoas não rezam e não há conversão, do que adianta apenas um ato solene da Santa Sé? Tanto é que Nossa Senhora, ao pedir a consagração da Rússia à irmã Lúcia em 1929 (representação acima), mostrou a ela seu Imaculado Coração, o mesmo ao qual Ela pediu reparação quatro anos antes ao especificar a comunhão reparadora. E no mesmo evento de 1929, apresentou à irmã o mistério da Santíssima Trindade e sua relação com a eucaristia como ato de graça e misericórdia vinculados ao seu Coração. Afinal, Maria sacrificou-se com seu Filho ao vê-Lo, em silêncio, Seu profundo sofrimento na cruz.

Resumindo: a comunhão reparadora é um ato de desagravo à Nossa Senhora e a Jesus cujo ato seria chancelado pela consagração da Rússia, sua conversão e a consequente paz no mundo, tornando visível aos olhos da humanidade o poder do Imaculado Coração. O mundo precisa ver a ação de Nossa Senhora. Este é o triunfo prometido do Imaculado Coração.

Infelizmente, parece que nada disto foi feito, e hoje pagamos as consequências.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Luta inglória


"Os céticos não conseguem arrancar o cristianismo; mas conseguem arrancar as raízes das vinhas e das figueiras de todo o homem ordinário; de todos os jardins dos homens e de todas as estufas dos homens" (G. K. Chesterton, em "O Essencial de Chesterton")

          Os ataques contra o cristianismo não atingem a Revelação em si, mas unicamente os homens.
          Porque a luta anticristã acaba por eliminar as referências culturais da fé, podando suas representações simbólicas e práticas cotidianas para, assim, esterilizar o solo fértil a partir do qual brota a árvore da vida.
          Mas Deus continua Deus, a Revelação continua viva, ainda que num espaço mais restrito, e a chama da fé continua a flamejar entre os homens, ainda que em menor número.
          Atacar o cristianismo não elimina sua presença no mundo, mas priva as demais pessoas, que em sua grande maioria nada têm a ver com isto, da graça de receber a graça divina e ter acesso a experiências que não só elevam o espírito e trazem benefícios até a eternidade, mas que de imediato lhes proporcionam um pouco de paz.
          Chesterton não só não ficaria surpreso, mas confirmaria mais ma vez, nos tempos atuais, sua mensagem aqui reproduzida.
          O anticristianismo, por vezes feroz no martírio dos cristãos, tal qual vemos no Oriente Médio, na África e na China, por vezes tênue e sorrateiro como vemos no Ocidente, tem o grande mérito de nada mais do que privar a todas as pessoas do Bem Supremo.
          A secularização forçada e deliberada encobre, no fundo, uma revolta contra Deus cuja inspiração espiritual brota debaixo da terra.
          Prometendo a liberdade humana, a luta anticristã nada mais faz do que sufocar o espírito do homem até amputar seu anseio mais profundo, enclausurá-lo numa gaiola e convencê-lo, pelo banimento de todas as representações da fé, de que assim é livre e feliz mesmo que tenha morrido para sempre.