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segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

A cruz da pessoa desajustada


          Se você é um desajustado num mundo que lhe exige cumprir certos preceitos e comportamentos - preceitos e comportamentos que, na verdade, você idealizou como corretos - talvez sinta que nunca, jamais sua vida entrará nos eixos segundo esses ideais, reais ou imaginários.

          Para não falarmos de casos reais, podemos recorrer à literatura para descobrir o rumo que um desajustado pode tomar em sua vida, geralmente a um preço muito elevado se comparado, à primeira vista - veja bem, à primeira vista -, com aqueles que consideramos "felizes" e "realizados".

          Mesmo entre as pessoas famosas e influentes, apontadas como exemplos de sucesso nas coisas do mundo, há muitos casos de vocações frustradas, mesmo quando elas cumprem aparentemente os dois pilares que compõem o ideal de felicidade na sociedade moderna, que são a plena realização no casamento e no trabalho.

          O escritor russo Fiódor Dostoiévski, por exemplo, vivia em condições paupérrimas apesar de seu enorme talento com o intelecto e as palavras. Alguém que "deu errado" mesmo em seu tempo, o século XIX, dada algumas qualidades tão evidentes em relação à esmagadora maioria das pessoas. 

          Cito este escritor porque um de seus personagens exemplifica muito bem a enorme dificuldade que uma pessoa pode ter para se adaptar ao mundo. Trata-se de Liev Nikoláievitch Míchkin, personagem principal do romance O Idiota e que carrega muitos traços característicos do autor. 

          O título do livro é um dos adjetivos do pobre homem que, sofrendo de epilepsia e fortemente afetado pela turbulência de um meio social conflituoso e agonizante, não consegue se adequar ao ambiente em que se inserira. Príncipe Míchkin, como é chamado, acaba numa clínica para doentes mentais na Suíça, longe do mundo que o rejeitara na Rússia, seu país natal.

          O mais interessante é que aquele que era chamado de "idiota" estava mais são do que todos os demais personagens. De alma pura, Míchkin não suportou as tensões emocionais de duas famílias aristocratas em conflito, a militância política de um grupo de revolucionários niilistas e a dubiedade e mesmo má intenção de uma das duas mulheres que por ele se apaixonaram. Sofrendo de epilepsia, doença que Dostoiévski possuía, eram muitas tempestades para alguém hipersensível para o ambiente entorno.

          Os críticos da obra caracterizam o príncipe Míchkin como um misto de Jesus Cristo com Dom Quixote para definir sua pureza e ingenuidade quase infantis. Pois num mundo doente, quem parece doente é justamente aquele que está são, e ainda mais doente aquele que é bom de coração. 

          Esse personagem é um claro exemplo de pessoas que não de enquadram no mundo, tomando aqui "mundo" não apenas no seu contexto social específico como também no sentido bíblico de sociedade humana. Mundo é a realidade organizada e criada pelo homem e, refletindo a imagem e semelhança de seu criador, carrega também suas incoerências e contradições.

          Pois o desajustado quer se evadir do mundo, e poucas coisas são mais tentadoras do que fugir deste mundo para um outro. Não, não falo de suicídio, e sim do refúgio na vida interior e o potencial dano que isso pode causar quando essa atitude cobra o preço de negar os deveres e necessidades da vida. 

          Ninguém está imune à necessidade de trabalhar para sobreviver, nem do dever de realizar coisas básicas no trato com o próximo como cumprir acordos tácitos que estão subjacentes, por exemplo, na resposta a uma pergunta ou num ato de compra e venda. Evadir-se do mundo não é a solução, mas fuga para o desejo imaginário de uma vida sem esforço, de um paraíso idílico sem o peso e o consequente suor cobrado pelo pecado original.

          A tentação de evasão do desajustado está em evitar os efeitos de um mundo que lhe agride por sua hipersensibilidade. O personagem Míchkin, ao mesmo tempo em que influenciava positivamente as pessoas ao seu redor com suas reflexões íntimas e exemplo de conduta, absorvia excessivamente o impacto das loucuras alheias. Um troca desigual causada por um sacrifício involuntário, o de iluminar os erros alheios através de um sofrimento psicológico que lhe tirava a paz a todo o instante.

          Não por acaso o mais bem acabado personagem de Dostoivéski acabou retornando à clínica onde estivera meses antes. O mundo era agressivo demais, louco demais para um homem excessivamente são e bom. Voltara à prisão a alma mais pura que não suportou a doença de um mundo que prenunciava a confusão e o caos que viria a perturbar muitas almas e se alastrar por toda a humanidade.

          Na literatura se multiplicam as figuras que não se encaixam no mundo. As obras distópicas são exemplares nesse ponto. Os personagens Bernard Marx de Admirável Mundo Novo, Winston Smith de 1984 e Juliana Frink de O homem do castelo alto se adaptam forçosamente a uma realidade hostil e lutam até o fim de suas forças para confrontar e vencer uma ordem repressiva e artificialmente imposta. Obviamente, estes são casos extremos, mas num mundo onde a liberdade a cada dia se torna mais exígua, mais e mais desajustados - e muitos conformados - começam a brotar em nossas esquinas.

          Possivelmente Dostoiévski corroboraria as atitudes desses heróis literários, como o enigmático personagem de Memórias do subsolo, que proclama em alta e profunda voz a liberdade humana em conflito com as limitações de sua própria condição existencial. Eis o desajustado por excelência, que se debate em sua impotência frente a um mundo que não pode transformar decaindo na apatia de uma experiência repleta de conflitos e frustrações, de uma vida num subterrâneo deprimido pela crosta que o oprime.

          Talvez a pessoa desajustada não seja apenas fora do lugar, mas sensível demais para aceitar uma ordem social deformada, doente na alma e conduzida por cegos rumo ao abismo. Mas isso não é razão para a apatia, e sim para a luta. Primeiro por sua própria sobrevivência, a necessidade de carregar uma cruz que, aparentemente, pesa mais do que a dos outros; e depois para, através dessa mesma superação, fazer do príncipe um vitorioso, iluminar pelo exemplo um mundo que jaz na escuridão.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Essa é a nossa guerra

 

          Em determinando momento do dia de hoje estive pensando um pouco na guerra em que vivemos atualmente. O pensamento me ocorreu enquanto fazia uma corrida durante o crepúsculo do sol de verão. A tarde havia sido quente, mas o vento do fim do dia tornava tudo muito mais agradável, e sem fones de ouvido centrei-me nessa guerra a fim de suportar a ansiedade de um passo a passo monótono.

          Muitos talvez pensem em guerra no seu sentido estritamente material. Não falo de guerras mundo afora, da Síria ou da possível guerra na Ucrânia, nem da violência urbana ou do problema das drogas, mas da guerra espiritual. É lá que está a batalha decisiva, esteja você no meio de um tiroteio ou não. Isto é o que importa.

          Destruída a autoridade divina no coração dos homens, o que resta? Nada. Ou melhor: qualquer coisa. Dostoiévski ensinava, em Os Irmãos Karamázov, que se Deus não existe tudo é permitido. Ou pior ainda: podemos realmente acreditar em Deus, mas não aceitar, por uma profunda revolta espiritual e demoníaca, o mundo que Ele criou. Essa era a atitude de Dmitri, irmão de Aliócha, no romance escrito pelo grande escritor russo, em que o personagem descrente em Deus declarava abertamente que jamais aceitaria o mundo como ele é mesmo que Deus existisse. Estava declarada a guerra de uma alma que já havia perdido a própria guerra. 

          Este é o nosso mundo, a ordem criada por almas confusas e obscurecidas pela obstinação do erro. Parece que cada vez mais pessoas decidem pela rebelião, seja por acreditar que estão se libertando ao aderirem às ideias, modas e movimentos do momento, seja porque simplesmente não aceitam o mundo que existe e querem mudá-lo à sua imagem e semelhança, mesmo que isto signifique bater de frente com o Criador. O pior é que os dirigentes deste mundo, do alto de seus castelos civis, econômicos, militares, intelectuais e mesmo religiosos, estão empedernidos em sua luta contra o espírito tentando, a todo o custo, enclausurar o restante da humanidade num lockdown existencial eterno.

          Vejam à sua volta os frutos da revolta: confusão, insegurança e medo. Do espírito nascem a clareza, a segurança e a paz. Abolida a referência que permite medir todos os nossos atos, tudo se torna não apenas permitido, mas relativo. Não há medida ou poder que forneça a paz necessária, pois a paz precisa de ordem, e só há ordem quando a fundamento dela mesma é admitido como princípio e fim de todas as coisas, que se ordenam no passar da linha do tempo

          Se na guerra escolhermos o lado da luz, poderemos ao menos enxergar e identificar os perigos que nos rodeiam, inclusive em sua dimensão física. Este é um dos papéis da sabedoria, tão rara numa época em que o Espírito Santo é contrito pela obstinação humana, pela rigidez dos que apelam pela retidão da razão. A sabedoria é o cruzamento da ciência, outro dom do Espírito, com o amor. Sabemos, por exemplo, qual pessoa se faz digna de uma ajuda desesperada e qual, cobrindo seu rosto com a face de um cordeiro, é apenas digna de pena. Por isso pouco importa o bem-estar físico se a vida afunda na desesperança, pois os recursos transformam-se em bodes expiatórios dos próprios erros, quando não instrumentos de desgraça. 

          Para evitarmos a desgraça do medo ou a guerra que se avizinha no horizonte é necessário adentrarmos nas tropas do espírito. É ali que o exército dos anjos atuam e onde encontramos - pasmem, meu amigos mais humildes - milhares e milhares de empregados a trabalhar para nós, desde que estejamos dispostos a trabalhar com eles. Por isso a atitude de abertura confiante a Deus é tão relevante, pois esta é a garantia de nunca estarmos sozinhos.

          É necessário dizer sim e agir sobre o sim. Seja com o Rosário ou a cruz na mão, seja invocando o nome do Criador à forma da sua tradição, esta é nossa trincheira, esta é nossa batalha. No mundo, nenhuma guerra ou desgraça cessará por completo sem que peçamos auxílio a Quem fez todas as coisas, inclusive as que permitiram a criação das armas. "Rezem o terço todos os dias para alcançar o fim da guerra.", disse certa vez a Mãe de Deus. Essa é a nossa guerra, a única necessária para vencer todas as guerras.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

O perdão em "Humilhados e Ofendidos"

(Natacha e Vânia representados em filme russo de mesmo nome, 1991)

          Pouco posso dizer sobre a obra "Humilhados e Ofendidos", de Dostoiévski, de leitura recém encerrada. O livro foi publicado em 1861, sendo o primeiro do autor após dez anos de exílio na Sibéria, de onde voltara dois anos antes.

          Certamente, esta não é sua obra mais elaborada nem está entre as mais conhecidas. É no livro seguinte, "Crime e Castigo", que o escritor mostra sua grandeza, e que é, no meu entender, a mais representativa na apresentação dos dilemas morais, da trama psicológica e do drama existencial do homem, ali expostos de forma bastante clara e elaborada, servindo de referência para outras leituras.  

          Ainda assim, Dostoiévski expõe os dramas e contradições da vida em "Humilhados e Ofendidos", mesmo que de forma menos profunda.

          O tema em questão aqui é o perdão. A dificuldade de perdoar é a tônica deste livro que, como o título já diz, apresenta o sofrimento causado pelas injustiças e a recusa por parte dos injustiçados de se desprenderem do ódio e do rancor.

          O enredo é narrado em primeira pessoa por Ivan Petróvich, o Vânia, que vai desenrolando suas memórias passadas ao fim da vida. E na medida em que a trama se revela, junto vêm os sofrimentos dos personagens que, aferrados ao orgulho, nunca ou raramente se dispõe a perdoar.

           É assim com Nikolai Serguêievicth, pai de Natacha, que se ressente da filha que abandona a família para se casar com o impulsivo e ingênuo Aliócha, filho do príncipe Piotr Aleksándrovitch. Este último um homem mau-caráter cheio de amor-próprio capaz de destruir vidas unicamente pela preservação de seu status e por vantagens financeiras.

          De outro lado, Vânia conhece inesperadamente Nelli, cujo nome verdadeiro é Elisa, e seu avô Jeremias Smith. Aos poucos, a trama revela a vida da falecida mãe de Nelli, o rancor persistente na família da garota, sua misteriosa doença e o vínculo do príncipe com a sofrida teia de relações mal resolvidas.

          Importante notar como estes personagens são direta ou indiretamente afetados pelo problema do perdão, que só a muito custo vem à tona, e a capacidade que corações puros e sofridos têm de romper as correntes que amarram pessoas embrutecidas pela dor.

          Nas obras "Crime e Castigo" e "Os Irmãos Karamázov", Dostoiévski mergulha mais fundo na tensão entre o rancor e a libertação advinda do perdão, e como este ato leva a uma radical mudança de vida e à redenção da alma humana.

          "Humilhados e Ofendidos" é o retrato da miséria causada pela falta de perdão, que arrasta não só os personagens obstinados no erro como afeta diretamente os mais íntimos, causando sofrimentos desnecessários e impedindo a realização de planos de vida, como ocorre com os personagens mencionados. 

           Assim, Dostoiévski revela a capacidade da literatura de lançar luz sobre problemas que de outra forma não seriam visíveis aos nossos olhos, pois tentar entender a trama do sofrimento através de uma realidade possível pode calar muito mais fundo do que simplesmente o ouvir falar.

          O que ouvimos podemos nem mesmo entender e simplesmente esquecer, mas o que nos esforçamos para assimilar se instala na alma de forma muito mais consistente. E Dostoiévski é um gênio na capacidade de abrir nossos olhos.          

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Moral e religião

"Uma pessoa que tem moral mas não tem religião é como uma pessoa apoiada só numa perna." (G. K. Chesterton, em "O Sobrenatural é Natural")

          Há quem diga que a pessoa pode ser boa e, portanto, ser moralmente correta sem ter religião alguma ou ser ateia, bem como há quem diga o contrário, que não é possível ser bom ser ter religião ou acreditar em Deus.

          O importante aqui é lembrar que o homem é um animal essencialmente religioso; é o único ser consciente em toda a Terra que questiona-se sobre o seu destino transcendente e age sob esta perspectiva.

          Isto também vale para o ateu, que age sob a perspectiva de que o homem finda com sua morte biológica. Isto também é um atitude religiosa, porém de fechamento para o mistério.

          Como mostra esta passagem, Chesterton inclina-se à posição de que a pessoa pode ter moral sem religião, talvez possa ser boa também, mas sua condição enquanto homem mostra-se amputada da plenitude do ser, negando a própria condição que lhe permite ser não religioso.

          Mas a situação se complica quando advoga-se uma moral sem religião. Perdida a referência do transcendente, o homem não religioso continua sendo uma animal religioso, continua a buscar, mesmo que negue ou não perceba, uma resposta para o mistério da vida.

          No lugar de Deus e do Absoluto ergue-se um novo deus, um novo parâmetro moldado segundo os arbítrios de desejos humanos, um bezerro de ouro que dita as novas condutas.

          Mesmo as derivações seculares do cristianismo caem neste perigo. A imanentização da igualdade perante Deus nos regimes democráticos é um exemplo. Hoje, vemos as democracias degenerarem no crescimento do poder político que visa inculcar no cidadão novas formas de conduta de raça, sexo, grupos social ou seja lá o que for em nome da "igualdade" e da "liberdade".

          Prescindido da religião, a moral ergue-se sobre pés de barro. "Se Deus não existe, tudo é permitido", disse Dostoiévski. Chesterton foi apenas mais sutil ao dizer que, abandonando a Deus, corremos o risco de nos desequilibrarmos e cairmos no caos niilista alertado e previsto por seu colega russo.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Dostoiévski e a mentalidade de nosso tempo


          As obras de Fiódor Dostoiévski são extensas e incrivelmente ricas em muitos aspectos. Desde os complexos traços dos personagens até a abordagem de temas existenciais, o escritor consegue apresentar com muita perspicácia e conhecimento os problemas pessoais e sociais que envolvem o destino do homem e que compõem o sentido mais profundo de seu trabalho.

          O drama da existência não é seu único tema. Dentro deste, o autor mergulha nos acontecimentos e dilemas de seu país do século XIX e apresenta com clareza os movimentos políticos e a atmosfera psicológica que haveria de varrer a Rússia e o mundo a partir do início do século XX.

          Disseminando ideias deturpadas acerca do homem e do mundo e remando contra a própria condição humana, as criações de Dostoiévski apontam este caminho futuro. Rodion Románovich Raskólnikov em "Crime e Castigo" com sua atitude e moral revolucionária, Piotr Stiepánovitch Vierkohviénski e seus parceiros em "Os Demônios" com seu cinismo, militância e ação violenta, e Ivan Pávlovitch Karamázov em "Os Irmãos Karamázov" com sua soberba e relativismo ateu são alguns dos personagens que se apresentam como protótipos de personalidades tirânicas, imorais e psicóticas que em algumas décadas viriam a inspirar e liderar em todo o mundo os horrores da revolução, da guerra e do genocídio. 

          Mas é num trecho da obra "O Idiota" que o escritor revela sua capacidade de antever com bastante precisão essas possibilidades futuras. 

          No longo trecho reproduzido abaixo, a personagem Lisavieta Prokófievna assiste à uma discussão entre os amigos do personagem principal, Liev Nikoláievitch, o príncipe Míchkin, dentre eles um grupo de jovens niilistas e, absorvida e transtornada pela atmosfera de loucura reinante no ambiente, desabafa:

"Veja só, Ievguiêni Pávlovich, se até o senhor acabou de declarar que o próprio defensor declarou em um julgamento que não existe na mais natural do que matar seis pessoas movido pela nobreza, então é o final dos tempos. Isso eu ainda não tinha ouvido falar. Agora tudo ficou esclarecido para mim. Veja esse tartamudo, por acaso não degola um (ela apontou para Burdovski, que olhava para ela com extraordinária perplexidade)? Aposto que degola! Ele talvez não aceite o teu dinheiro, os dez mil, e não o aceite por uma questão de consciência, mas à noite ele aparece e te degola, e leva o dinheiro do cofre. Leva por consciência! Isso para ele não é uma desonra! É um 'impeto de desespero nobre', é a 'negação' ou sabe lá o diabo o quê... Arre! Tudo anda de pernas para o ar, tudo às avessas. A moça está crescendo em casa, de repente no meio da rua pula para dentro de uma carruagem: 'Mãezinha, há poucos dias eu me casei com um tal de Kárlitch ou Ivánitch, adeus!'. Então, a seu ver, essa é a boa forma de agir? Naturalmente digna de respeito? Questão feminina? Esse menino (apontou para Kólia), até ele discutiu comigo alguns dias atrás dizendo que isso é a 'questão feminina'. A mãe pode até ser uma imbecil, mas ainda assim tu deves ser um homem com ela!... Por que entraram há pouco de cabeça erguida? 'Não ousem aproximar-se': estamos entrando. 'Deem-nos todos os direitos, e quanto a ti não te atrevas a gaguejar diante de nós. Concede-nos todas as honras, mesmo aquelas que não existem, e quanto a ti, vamos tratá-lo pior que o último lacaio!' Procuram a verdade, insistem em seus direitos, mas o caluniaram como um desonesto artigo. 'Nós exigimos e não pedimos, e o senhor não ouvirá nenhum agradecimento de nossa parte porque nós estamos agindo para satisfazer a nossa própria consciência!' Que moral: e já que não haverá nenhum agradecimento de tua parte, então o príncipe pode te responder que ele não sente nenhuma gratidão por Pavlischov, porque Pavlischov fazia o bem para satisfazer a própria consciência. Mas tu contaste apenas com a gratidão dele para com Pavlischov: porque não foi de ti que ele pegou dinheiro emprestado, não é a ti que ele deve, então com quê tu contavas a não ser com gratidão? Como é que tu mesmo vai recusá-la? É uma loucura! Reconhecem a sociedade como bárbara e desumana porque ela difama uma moça seduzida. E se tu reconheces que a sociedade é desumana, então reconheces que essa sociedade causa dor a essa moça. E já que causa dor, como é que tu mesmo expões essa moça nos jornais diante dessa mesma sociedade e exige que isso não seja doloroso para ela? É uma loucura! Vaidosos! Não acreditam em Deus, não acreditam em Cristo! Mas acontece que os senhores estão de tal forma corroídos pela vaidade e pelo orgulho que vão acabar devorando uns aos outros, é isto que eu prevejo para os senhores. Isso não é uma bagunça, isso não é o caos, isso não é o horror?" (p. 325-326) (grifos meus)

          O discurso irado de Lisavieta é uma profecia do que a Rússia enfrentaria em menos de cinquenta anos (a obra foi divulgada em partes entre 1868 e 1869) e revela, com a devida ênfase de uma alma sã, a perversão moral da mentalidade revolucionária, baseada num relativismo que a subjuga em nome da estratégia política com vistas a formulação de uma sociedade ideal futura.

           No artigo A mentalidade revolucionária, o filósofo Olavo de Carvalho mostra que a cosmovisão dessa mentalidade baseia-se na inversão da concepção do tempo, cuja consequência é a inversão dos fundamentos da moral, não mais baseada na experiência de longa data do passado, mas no tempo ideal futuro, o Paraíso terrestre. Como este futuro não existe na realidade, a nova moral anunciada depende da boca daquele que proclama o ideal futuro, transformando-se no juiz e no carrasco que passa a julgar todas as pessoas e épocas com base em sua projeção mental.

          Esta mentalidade está resumida nas palavras dos niilistas repetidas por Lisavieta, que proclama: "Nós exigimos e não pedimos, e o senhor não ouvirá nenhum agradecimento de nossa parte porque nós estamos agindo para satisfazer a nossa própria consciência!" 

          O que poderia haver de mais soberbo do que exigir segundo a consciência? O que haveria de mais relativo do que medir as coisas por sua consciência, sua própria subjetividade? E onde está esta consciência senão no ideal subentendido por detrás de uma exigência moralizante?

          Se a consciência publicamente proclamada é a medida da nova moral, então a moral advinda da experiência da realidade é inválida e substituída por um parâmetro totalmente subjetivo, portanto, mutável. Na falta de uma referência fixa, vencerá a moral que se impor pela astúcia e pela força, transformando-se ela mesma na medida da realidade.

          Os niilistas de Dostoiévski acreditavam poder se impor aos outros pelas palavras intimidatórias e o desprezo sarcástico. Proclamavam a demolição de todos os valores e da ordem social acreditando que disto surgiria espontaneamente uma nova sociedade. 

          A mencionada "questão feminina", em voga na Rússia de então, o ateísmo, a "nobreza" da ação revolucionária expressa, nas palavras da personagem, pela coragem de matar por um ideal nobre, eram (e ainda são) princípios de ideias revolucionárias, que no século XX mudaram de conteúdo, mas não de forma. Podemos tirar a questão feminina e incluir a raça, a minoria oprimida, a questão de gênero, incluir mesmo a questão religiosa, mudar a tática da violência para a propaganda, mas a estrutura da mentalidade continua a mesma: transformar o mundo em nome de um ideal futuro subjugando todas as coisas ao objetivo autoproclamado.

          Quando Stálin perseguiu e matou seus próprios correligionários a partir de 1934 e deu início ao Terror Vermelho para continuar a construção do socialismo, quando Hitler eliminou a S.A. de Ernst Rohm matando os que não podia controlar diretamente para garantir a unidade do poder nazista, quando os militantes chineses mataram uns aos outros na Revolução Cultural e se engalfinharam numa luta pelo poder após a morte de Mao Tsé-Tung para continuar seu legado, quando os movimentos anticoloniais voltaram-se uns contra os outros na África e na Ásia como na Guerra Irã-Iraque e em inúmeras guerras civis acreditando levar seus povos à libertação; quando hoje, os extremistas islâmicos travam batalhas uns contra os outros e demais grupos religiosos acreditando lutar pela sociedade santa; quando os narcotraficantes matam e envenenam milhões de pessoas alegando realizar com isso justiça social, quando mães matam os próprios filhos por considerá-los um estorvo ainda antes de nascer. 

          E quando todos eles, em nome do ideal futuro, massacraram e ainda massacram milhões de pessoas que dizem honrar e defender, é impossível deixar de lembrar o que Dostoiévski, sensível ao drama da condição humana, declarou pelas palavras de Lisavieta:

É uma loucura! Vaidosos! Não acreditam em Deus, não acreditam em Cristo! Mas acontece que os senhores estão de tal forma corroídos pela vaidade e pelo orgulho que vão acabar devorando uns aos outros, é isto que eu prevejo para os senhores. Isso não é uma bagunça, isso não é o caos, isso não é o horror?

sábado, 2 de maio de 2020

As memórias da infância e a tábua da salvação (Dostoiévski)


          As obras de Dostoiévski têm valor universal porque elas tocam no mais profundo da natureza humana.

          Uma de suas constantes é o caminho da redenção, traçado em linhas tortas (às vezes muito tortas), mas que desembocam na iluminação das almas de seus personagens.

          Ao final da obra "Os Irmãos Karamázov", o bem-aventurado Aliócha deixa uma mensagem para um grupo de garotos que acabara de acompanhar o enterro de um de seus membros. Disse ele:
"Sabei que não há nada mais elevado, nem mais forte, nem mais saudável, nem doravante mais útil para a vida do que uma boa lembrança, sobretudo aquela trazida ainda da infância, da casa paterna. Muito vos falam de vossa educação, mas uma lembrança maravilhosa, sagrada, conservada desde a infância, pode ser a melhor educação. Se o homem traz consigo muitas dessas lembranças para sua vida, está salvo pelo resto da existência. Mesmo que guardemos apenas uma boa lembrança no coração, algum dia só isto já poderá servir como salvação."

          A mensagem é clara: boas lembranças fazem boas pessoas, ou ao menos aumentam a chance de torná-las boas. 

          Talvez alguém diga que isto é pouco. Porém, para haver boas lembranças, é necessário atravessar boas experiências, e isto só é possível para os que se abrem a estas mesmas experiências. É deixar-se penetrar pelo bem de forma a guardá-lo em si tornando este parte de sua identidade.

          A educação moderna ignora por completo a necessidade de educar o imaginário humano atendo-se ao acúmulo de conteúdos voltados à vida meramente prática.

          O imaginário é o horizonte de nossas possibilidades futuras e a partir do qual medimos o mundo. Uma boa educação forma uma boa pessoa, fornece a ela a herança da literatura, da alta cultura e, acima de tudo, do exemplo dos pais numa boa família.

          Portanto, viver e guardar boas experiências é educar a alma para que possamos reproduzir ou projetar o bem no futuro, é poder reviver, através de uma reformulação da memória transposta numa nova ação, o bem vivido de forma que outros também o vivenciem. 

          Isto é fazer o bem, isto é fazer caridade. Como resultado, o mundo torna-se melhor, mas antes porque nos tornamos pessoas melhores. Aliviamos a dor do mundo ao mesmo tempo em que ascendemos ao Paraíso.

          Basta apenas uma, só uma boa lembrança para que o fazer o bem seja possível, para que ele se torne possibilidade futura. E nada mais importante do que cravar no coração esta experiência na terna infância, período onde fincamos as estacas mais profundas de nossa personalidade.          

        No enredo de Dostoiévski, Kólia, o mais inteligente e prepotente dos garotos, vaidoso e agarrado aos seus conhecimentos, cede à doçura de Aliócha e abraça a fé cristã na alegria que esta fé lhe infunde. "Ah! Como isso vai ser bom!", se extasia ao vislumbrar a ressurreição dos mortos.

          Em meio aos sofrimentos da vida e à loucura reinante, Dostoiévski deixa o caminho da esperança e o dever que a atual geração tem de legá-la para as gerações futuras.        

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Dostoiévski e o homem incapaz de amar

(Personagens Aliócha e Zossima, no seriado russo homônimo da obra, de 2009.)

          Um leitor das obras de Dostoiévski não sai indiferente à crueza e à veracidade profunda dos diálogos e dramas de seus personagens. 

          Aparentemente exagerados, este revelam os meandros da complexa psicologia humana, as profundezas do dilema existencial e as loucuras do ativismo político que viriam virar o mundo de cabeça para baixo no século XX.

         Na obra "Os Irmãos Karamázov", o stárietz Zossima, monge ortodoxo superior de Aliócha, relata o diálogo com um médico sem nome, muito revelador da condição sombria do homem incapaz de amar:

          "...eu, dizia ele, amo a humanidade, mas me admiro de mim mesmo; quanto mais amo a humanidade em geral, menos amo os homens em particular, ou seja, em separado, como pessoas isoladas. Em meus sonhos, dizia ele, não raro chegava a intentos apaixonados de servir à humanidade e é até possível que me deixasse crucificar em benefício dos homens se de repente isso se fizesse de algum modo necessário, mas, não obstante, não consigo passar dois dias com ninguém num quarto, o que sei por experiência. Mal a pessoa se aproxima de mim, e eis que sua personalidade já esmaga meu amor-próprio e tolhe minha liberdade. Em vinte e quatro horas posso odiar até o melhor dos homens: este por demorar muito a almoçar, aquele por estar resfriado e não parar de assoar o nariz. Eu, dizia, viro inimigo das pessoas mal elas roçam em mim. Em compensação, sempre acontecia que quanto mais eu odiava os homens em particular, mais ardente se tornava meu amor pela humanidade em geral." (grifos meus)

          Mas caberia perguntar a este homem: o que seria do amor se não fosse ele justamente a doação, o desejo de ser um com o outro? Como amar "a humanidade" sendo esta uma abstração da soma da totalidade de homens concretos dotados de histórias, sentimentos, vidas e amor verdadeiro, e não um conjunto indefinido de pessoas?

          Quem ama abdica, quem ama suporta, quem ama tudo tolera. Jesus Cristo não pediu para que amássemos o todo, mas a todos, uns aos outros, eu, você e cada um com sua história real, incluindo aí seus defeitos, erros e mesmo crimes.

          Mesmo os inimigos não estão fora deste apelo do amor. Não se faz necessário ser íntimo do inimigo; o amor não é tolo e imbecil, antes sábio e prudente. Amar o assassino não é colocar-se ao seu alcance. Afinal, quem o amaria se aquele que o ama se expõe ao perigo de perecer pela crueldade alheia?

          Amar a humanidade é uma intenção oca, uma palavra jogada ao vento adaptável a qualquer discurso ou pretexto. Bem sabem os compatriotas de Dostoiévski, massacradoa aos milhões em nome do "mundo melhor", a humanidade perfeita, o paraíso terrestre.

          Da imaturidade decorre a incapacidade de amar, e da incapacidade de realmente amar decorre o amor à humanidade, que facilmente se converte em violência. É a projeção do ódio a si mesmo, da revolta de si que, incapaz de se reconhecer, aceitar seu próprio fracasso e perdoar a si mesmo, desemboca na enxurrada de violência contra o próximo, o bode expiatório de suas culpas mal resolvidas.

          O homem incapaz de amar não ama a si mesmo. Ninguém pode dar o que não tem. Do homem infeliz, resta apenas o sonho e a tristeza de não ser o que gostaria de ser. Falta-lhe amor.          

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Míchkin, o príncipe que eu não fui

(Yevgeny Mironov, ator russo que interpreta o príncipe Míchkin na série "O Idiota", de 2003, baseado no clássico homônimo de Dostoiévski.)

          Ao terminar nas últimas semanas a leitura da obra "O Idiota", de Fiódor Dostoiévski, me pus a chorar por um tempo. Foi a segunda vez na minha vida que chorei ao ler um livro.

          O primeiro caso foi em meados de 2001, quando li "A Profecia Celestina", de James Redfield. A diferença é que na época, aos vinte anos de idade, eu tinha uma concepção completamente diferente da vida, na verdade uma concepção fantasiosa onde ansiava por realizações então impossíveis e um mundo por demais idealizado tal qual na obra new age do autor norte-americano.  

          Passados dezoito anos, atravessei anos em salas de psicanálise, deitado ao divã, mas que fora vital para o sustento de minha sanidade mental. Neste meio tempo, voltei à Igreja Católica, ingressei num grupo de oração dentro do qual vivenciei experiências apaixonantes e libertadoras, troquei a psicanálise pela Terapia de Integração Pessoal segundo o método de Abordagem Direta do Inconsciente e fiz tratamento com uma psiquiatra. Tive alguns empregos, estágios, fiz uma infinidade de cursos, tive três namoradas (a primeira antes da leitura do livro). O resultado disto foi a saída de um verdadeiro inferno pessoal que engolfou minha vida até perto dos vinte anos de idade, e que vinha há gerações destruindo a felicidade de parte da minha família. Sem esta caminhada lenta, trabalhosa e tortuosa, muito provavelmente não estaria escrevendo este texto, mas preso num hospital psiquiátrico ou na cadeia, quem sabe até mesmo numa vala, possível destino final da loucura que se apossava de minha pessoa e tornava cada vez mais inviável qualquer realização pessoal por mais simples que fosse. 

         O livro de Redfield era a expressão de um vida ideal que o livro revelava. No fundo, porém, eu era perdido demais para sequer dar o primeiro passo na conquista deste sonho. Eu vivia apenas de sonho: sonhava com um emprego que me daria independência e que eu gostasse, sonhava em me apaixonar e casar com a mulher certa, sonhava com liberdade pessoal. Coisas da adolescência sem pés no chão e que encontrou na obra um ideal de vida dando vazão para meu paraíso interior. Na impossibilidade de realizar tudo aquilo, só me restava chorar um sonho que se apresentava em forma de enredo espetacular.

          Lev Nikolaiévitch Michkin, o personagem principal de Dostoiévski no romance "O Idiota", é um homem profundamente bom, sábio, mas que sofria de um tipo de esquizofrenia que se manifestava em crises sem hora marcada. O histórico de dificuldade de aprendizado e a ingenuidade quase santa do personagem conferiam a ele o epíteto de "idiota" dentre as demais pessoas que, surpreendidas com as súbitas declarações acerca de sua experiência de vida e com a forma peculiar com que se portava no tato com os outros e com situações de conflito, descobriam que Míchkin não era idiota coisa alguma, e sim o mais sábio entre todos aqueles que elas conheciam. Todas os que conviviam com o príncipe passavam por algum tipo de melhora de personalidade, como se a luz emanada de seu coração puro e as palavras ditas com sinceridade penetrassem na alma das pessoas executando uma misteriosa operação de cura interior. Poucos resistiam à bondade do personagem. 

          Obviamente, tal personalidade não poderia deixar de atrair os desejos femininos. A sabedoria, a excentricidade e a simplicidade do príncipe conquistaram os corações da aparentemente ingênua Aglaia Ivanóvna, moça aristocrata de humor sarcástico que testava permanentemente a sinceridade de Míchkin, e a intensa, confusa e pouco confiável Nastáscia Fillípovna, mulher desgarrada de má fama que vivia às custas de homens que a desejavam ardentemente. 

          Ademais, o príncipe era herdeiro de uma fortuna deixada por parentes distantes e estava em viagem à Rússia para buscar a fortuna. Vindo da Suíça, saíra da internação para tratamento e foi em busca não só do dinheiro, mas involuntariamente de uma vida nova que se revelou nos poucos meses em que ficou na pátria amada. Com a saúde melhor, dinheiro guardado e uma nova rede de amizades (por vezes nem tão confiáveis), o príncipe tinha razões de sobra para uma vida feliz na São Petersburgo da década de 1860, além de ter aos seus pés duas beldades que mexiam com o imaginário dos homens, dos mais medíocres aos mais ambiciosos, como Semeon Parfiénovitch Rogójin, amigo e criminoso que, entre idas e vindas, quase tirou a vida de nosso personagem.

          Mas tenho de deixar de lado muitos outros pontos do enredo, como as discussões políticas e existenciais dos profundos e complexos personagem de Dostoiévski. O que importa aqui é o final da trajetória do príncipe Míchkin. Rogójin, que o príncipe conhecera ainda no trem de ida à Rússia, disputava o coração de Nastáscia a todo o custo e, na ânsia de dar por encerrado a disputa e seus dilemas emocionais, acabara por assassiná-la depois que ela fugira do casamento com o príncipe. Rogójin foi exilado na Sibéria e Míchkin, chocado e anestesiado com a atitude do amigo e adversário, encaminhado de volta à internação na Suíça. 

          Em estado de choque com a morte de sua quase-noiva por um homem que ingenuamente confiava, sem Aglaia, a outra pretendente que decepcionara profundamente, sem a capacidade poder usufruir de sua herança e longe do país que amava, o príncipe acaba novamente doente e inepto sob os cuidados do Dr. Schneider, o primeiro a considerá-lo "idiota". Sob o olhar compassivo e dramático de Lisavieta Prokófievna, mãe de Aglaia, que não suportava vê-lo neste estado de sofrimento, Míchkin não reage, enquanto a velha matriarca chora seu sofrimento. 

          Não fosse a psicanálise, a Igreja Católica, o Grupo São José, a TIP e o apoio chave de algumas pessoas nestes meios, eu seria, na melhor das hipóteses, um novo Míchkin, com a diferença de que nada herdaria e muito menos possuo qualquer título de nobreza. A obra de Dostoiévski é a expressão daquilo que me livrei, do calvário para o qual deixei de peregrinar. Deixei de ser excessivamente ingênuo e um "idiota", no sentido real da palavra. O príncipe Míchkin é realmente um personagem cativante. Por vezes desejei ser como ele é, mas seu destino revelou aquilo que eu poderia ser e não fui. Pela graça de Deus.