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segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Janelas para o Céu

 "O segredo de todas as janelas, especialmente das janelas góticas, é o de que até a luz é mais divina dentro de limites; e o de que até aquele que brilha é mais brilhante quando toma sobre si uma forma." (G. K. Chesterton, em "A Nova Jerusalém", 1920)

          Há uma tensão permanente entre a grandeza de Deus e a pequenez do homem que está justamente na desproporção entre ambos: o homem não pode abarcar a Deus, que sempre escapa à sua compreensão e mesmo visão do que Ele possa ser.

          Esta imensidão transparece nas majestosas catedrais góticas, monumentos à grandeza, ordem e beleza divinas.

          Sua escuridão interior, um covite ao recolhimento da alma que se volta ao alto ao contemplar o elevado teto da nave, é rompido pela luz que entra pelas janelas e vitrais.

          Eis que Deus toma forma e se apresenta ao homem em seu interior. Feixes de luz rasgam a escuridão, tão característica de um mundo desconhecido aos olhos humanos, e iluminam a alma que contempla o Alto.

          É muito mais conveniente ao homem ver Deus em formas do que na imensidão abstrata da luz; da mesma forma, é conveniente ver o amor de Deus em pequenos sinais da providência do que descobrir Seu amor no sentido genérico da palavra ou em "sentimentos" que muitas vezes não sabemos distinguir em nossa alma confusa.

          O que Chesterton nos traz nesta passagem é justamente isto: a luz, associada diretamente a Deus desde o princípio da Criação, é mais divina dentro de limites.

          Ele é mais divino quando adquire forma pois só Sua onipotência seria capaz de transformar o infinito em algo visualmente limitado. A limitação de Deus em formas é prova de sua veracidade enquanto Deus.

          Afinal, não foi um Ser infinito que se tornou homem? Como pode o homem, limitado por excelência, ser infinito? Deus pode, e o fato desta Pessoa ser assim é prova de que Ele é Deus.

          Manifestar-se no mundo limitado é mais característico do pode divino do que Sua capacidade de formar galáxias e um Universo inteiro.

          Não fosse Deus tomar forma, e Seu brilho seria menos visível; não fosse a janela a dar forma à luz, e ela seria menos perceptível.

          Da mesma forma, não fosse alguém com habilidade como Chesterton a dar ordem às palavras desta passagem, e talvez não percebêssemos o quão bom é um Deus que se limita para se fazer ver e alcançar o coração humano.

          Divino é tudo o que é belo dentro dos limites do mundo.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Igreja 3: Paróquia São João Bosco

(Igreja da Paróquia São João Bosco, ao lado do Colégio Dom Bosco, visto da Rua Dr. Eduardo Chartier esquina com Rua Américo Vespúcio. Foto de 13 de outubro de 2016.)

No meu último texto sobre as igrejas de Porto Alegre abordei a Paróquia Santa Maria Goretti, no bairro de mesmo nome. Vamos agora à outra igreja, a da Paróquia São João Bosco.

A Paróquia São João Bosco, também conhecida apenas como Dom Bosco, localiza-se no bairro Higienópolis na Zona Norte da cidade. Sua fachada está virada para oeste. A região é plana e baixa, mas a igreja está num terreno levemente elevado a aproximadamente 22 m acima do nível do mar na Rua Dr. Eduardo Chartier esquina com a Rua Mal. Simeão e ao lado do colégio de mesmo nome. Sua origem está vinculada a esta instituição, que é mais antiga.

Colégio Salesiano Dom Bosco foi fundado pelo padre salesiano José Mássimi, de Rio Grande. Em 1943 o sacerdote conseguiu junto ao então prefeito de Porto Alegre, Loureiro da Silva, a aquisição de um terreno para a construção do atual colégio. A ideia inicial era ocupar todo o atual quarteirão, mas lentamente e com muitas dificuldades o edifício que daria origem à escola foi construído e inaugurado (ainda incompleto) em 19 de março e 1952 com o nome Casa do Pequeno Operário. O nome era uma homenagem ao patrono São José Operário comemorado neste mesmo dia.  

(Vista aérea da Vila IAPI, sem data, onde se destaca a Av. Brasiliano de Moaris. O Colégio Dom Bosco aparece acima à esquerda em forma de "C". O terreno aberto do lado direito do prédio é o terreno da atual igreja.) 

A Paróquia São João Bosco seria criada pouco mais de dez anos depois por um decreto do então Arcebispo Dom Vicente Scherer em 8 de agosto de 1962. Seu território fora desmembrado das paróquias vizinhas Nossa Senhora Auxiliadora, São João Batista e Nossa Senhora de Fátima, no IAPI. Já a inauguração da igreja ocorreu em 23 de setembro do mesmo ano, e o primeiro pároco foi o padre Victor Vicenzi, salesiano e então diretor da Casa do Pequeno Operário. (Cabe notar que um convite para a primeira quermesse da igreja, em 1º e 2 de junho de 1962, com o objetivo de arrecadar fundos para a construção da nova igreja - seria o salão do colégio? - já chamava o local de "paróquia". Isso mostra que que a comunidade já sabia que uma nova paróquia seria criada.)

(Celebração no salão do Colégio Dom Bosco onde funcionou a paróquia de 1969 até provavelmente 2002.*)
  
(Altar construído dentro do salão. Em destaque a imagem de São João Bosco. Reparem nas paredes e na luminária, que não condizem com uma igreja.*)

A sede da nova paróquia não era uma igreja, e sim uma das dependências do colégio. Apenas em 1969 foi fechado um acordo entre as partes para uso do salão da instituição de forma permanente por parte da paróquia, que ficaria com a responsabilidade de fazer sua manutenção. A inauguração do novo local ocorreu em 2 de agosto do mesmo ano pelo então Arcebispo Auxiliar de Porto Alegre Dom Edmundo Kunz. O salão era organizado e ornamentado para a realização da missas com um altar improvisado sobre um palco levemente elevado em relação à multidão, e bancos para assentar várias dezenas de pessoas (pela primeira fotografia acima é difícil fazer um cálculo preciso, mas 200-300 pessoas parece um número razoável).

Depois de muita expectativa, a construção da igreja atual começou a ser planejada no primeiro semestre de 1996 numa reunião com o pároco, o direto do colégio e membros salesianos. Com o apoio financeiro do Reitor-Mor dos salesianos, paroquianos e demais colaboradores, a nova igreja da Paróquia São João Bosco foi construída no terreno baldio ao lado do colégio e foi projetada, segundo o atual pároco, pela arquiteta Rejane Buffon. A inauguração ocorreu em 12 de outubro de 2000 com a presença do Arcebispo Dom Dadeus Grings, 33 sacerdotes e mais de 300 jovens de instituições salesianas do Rio Grande do Sul, o que deixou o prédio lotado. É provável, portanto, que o salão do colégio estivesse ocupado até este ano. A bênção solene do templo apenas em 2002, no dia 24 de maio, com a presença de Dom Dadeus e 18 sacerdotes salesianos numa celebração que lotou a igreja. Esta data foi escolhida por ser dia de comemoração de Nossa Senhora Auxiliadora, padroeira da Congregação Salesiana Dom Bosco.* Nesta época o pároco era Valdir Andreatta, que hoje está em Itajaí, SC.

Durante boa parte de 2016 a igreja permaneceu fechada devido à violenta tempestade que atingiu Porto Alegre na noite de 29 de janeiro. Muitas telhas voaram com a força do vento, a água da chuva penetrou no interior e o gesso que revestia o interior da nave desabou. Durante quase oito meses o edifício passou por reformas e foi reaberto com uma celebração no final do mês de setembro.

(Extremidade da torre com a cruz, ambos de concreto: única expressão explicitamente religiosa na estética da igreja. Pontas de concreto parecem apontar para a cruz. Foto de 26 de setembro de 2016.) 

(Vista da igreja do outro lado da Rua Eduardo Chartier. Mesma data.)

Localizado num terreno ao lado do Colégio Dom Bosco, a paróquia está sob cuidados do pároco Tarcísio Luís Brasil Martins*. Sua igreja tem aspecto de uma grande residência com revestimento de concreto, tinta branca e telhas cinza-escuro, lembrando uma casa germânica (quem souber o estilo arquitetônico, agradeço desde já). Apesar do grande telhado curvado, seu ponto mais alto é a torre com aproximadamente 30 m de altura, que atravessa as telhas e está firmada sobre a escadaria em basalto da fachada. A única representação cristã explícita no exterior é a cruz no alto da torre. De formato retangular, a torre é feita de concreto, pintada totalmente de branco e possui paredes lisas pontiagudas em dois os lados. Olhando com atenção as paredes parecem representar direções para o alto como se apontassem para a cruz (difícil alguém que não é arquiteto definir o estilo e as figuras que supostamente estão ali presentes). Além da cruz há ainda os vitrais em torno da porta de entrada e na face norte da igreja virada para a Rua. Mal. Simeão, mas devido à luminosidade eles são poucos visíveis e apresentam-se escurecidos, não sendo possível identificar à primeira vista suas representações.

Apesar da imponência do edifício e da altura da torres, a igreja não é grande o suficiente para se destacar do entorno, e sua estética secularizada confunde o edifício com as construções no entorno. Na época da fundação do Colégio Dom Bosco e da criação da paróquia, a região onde hoje se encontra o bairro Higienópolis era pouco habitada. O local mais densamente povoado das redondezas era a Vila IAPI, construída nos anos 50. Quando a igreja foi inaugurada em 2002, o colégio já tinha sua feição atual. Sua fachada de três andares encobre o lado sul da igreja, claramente visível apenas há poucos metros de distância e cuja única referência é a torre. Sua visão é parcialmente encoberta pela vegetação, casas e pequenos edifícios no entorno. No lado norte, a partir da Rua. Mal. Simeão, temos a Rua Brigadeiro Oliveira Neri*, cujo traçado em curva faz com que a visão da igreja fique encoberta pelas residências. Além do mais, a estreiteza da Rua Mal. Simeão e o muro nesta lateral impedem uma contemplação de todo o prédio para os pedestres que passam pelo local. Nos fundos da igreja temos uma residência que provavelmente pertence a um pequeno complexo de quadras esportivas do Porto Alegre Tennis.

O relevo aplainado, o edifício do colégio, à malha urbana do bairro e sua estética secularizada (que defini de forma leiga como "grande residência") subtraem da Igreja Dom Bosco sua representação católica e religiosa.

* Agradeço ao padre Tarcísio pela recepção, a observação do livro tombo, o envio por e-mail do breve histórico da paróquia e o esclarecimento sobre sua data de inauguração e bênção solene.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Igreja 2: Paróquia Santa Maria Goretti

(Fachada da Paróquia Santa Maria Goretti vista do canteiro central da Rua Rio São Gonçalo, em 28 de setembro de 2016. Do lado esquerdo da foto está parte da estrutura do estádio do Clube São José.)

          Em meu último texto sobre as igrejas de Porto Alegre analisei a igreja da Paróquia Santo Antônio do Partenon. Ali observei que a construção é a mais importante da região por estar localizada quase no topo do Morro Santo Antônio e pelo destaque dado à torre, com mais de 30 m de altura. Também descobri que o edifício, com misturas de estilos, mais moderno e oficialmente concluído em 1934, foi escolhido em detrimento de um modelo gótico.

          Continuando o estudo sobre as igrejas da cidade vamos agora para a Paróquia Santa Maria Goretti. Ela está localizada no bairro do mesmo nome na Zona Norte de Porto Alegre, na Rua Rio São Gonçalo entre as avenidas Assis Brasil e Sertório. Com a fachada virada para o leste, seu terreno está sobre a bacia do Rio Gravataí numa região baixa, plana e quase ao nível do mar. Chama a atenção que o edifício está numa esquina ao lado do campo de futebol do Clube São José, situação única entre as igrejas da cidade.

          Segundo o histórico disponível no seu site*, a origem da Paróquia Santa Maria Goretti está vinculada ao padres palotinos. Em 1950 estes padres assumiram a Paróquia Nossa Senhora de Fátima, na recém construída Vila IAPI, também na Zona Norte. Lá rezavam o terço em homenagem à Santa Maria Goretti. Depois de serem transferidos à paróquia vizinha, a Divino Espírito Santo no bairro Vila Floresta, os padres construíram uma grande capela em madeira dedicada à Santa Maria Goretti. Esta capela estava localizada numa área pobre à oeste da sede da Divino. Em 30 de dezembro de 1957, a capela foi elevada à paróquia, e o padre Santo Lorenzato foi seu primeiro pároco. Em seguida foi erguido um salão paroquial em madeira e uma casa paroquial de alvenaria.
  
          Dois meses depois de construída a casa paroquial*, um grande incêndio destruiu a paróquia. Ele aconteceu às 10 h da manhã de 3 de junho de 1960, uma sexta-feira, e em trinta minutos a igreja estava destruída. Uma campanha liderada pelo arcebispo Dom Vicente Scherer e o Instituto Vicente Palotti lançaram uma campanha entre paróquias e rádios da época para arrecadar fundos à construção de uma nova igreja. Como parte desta mobilização, em 5 de junho, um domingo, houve uma missa campal com mais de mil pessoas, onde foi arrecadado dinheiro. Em 5 de julho os palotinos fizeram a doação do altar, e as irmãs do antigo Hospital Lazarotto doaram a imagem da padroeira, que permanece na igreja até hoje. Estas doações foram feitas em nova missa celebrada no mesmo dia no Instituto Vicente Palotti. Após a celebração foi realizada uma procissão até o local do incêndio com a presença de quase duas mil pessoas e diversos sacerdotes.

          A nova igreja foi construída em material e é a mesma dos dias de hoje. Seu edifício passou por uma reforma em torno de 1980, já que a fachada e a torre estavam inacabados. O objetivo era concluir a obra e melhorar a fachada do edifício. O projeto, autorizado pela Arquidiocese de Porto Alegre, foi elaborado pelo Dr. Vitor Fuhrmeister. Segundo o pároco da época, Eugenio Driessen, Furhmeister "modificou o aspecto da igreja de forma surpreendente" dizendo que isto iria "embelezar todo o bairro". Exageros à parte, a fachada foi totalmente modificada, recebendo novas janelas, acabamento, e a torre da igreja, que apresentava o aspecto de um esqueleto inacabado, foi completada. As fotos abaixo mostram o antes e o depois da obra.*

(Antes. Visão do outro lado da Rua Rio São Gonçalo. A casa paroquial está à direita da foto.)
  
(Depois. Visão do outro lado da rua.)

          Desde então a Igreja Santa Maria Goretti apresenta o mesmo aspecto, porém com manchas escuras e a perda da tintura devido à ação do tempo. Já o revestimento da fachada acima da porta foi modificado, contando possivelmente com novo revestimento no lugar da tinta branca.

(Detalhe da torre com a cruz e o campanário.)

          A torre da igreja possui aproximadamente 11,5 m de altura, está localizada no lado direito da fachada e é revestida em tijolo. Com os pouco mais de 2 m da cruz acima, sua altura total é de aproximadamente 13 m. A cruz é totalmente lisa, não possui qualquer ornamentação e apresenta desgaste pela ação do tempo. Na torre há quatro janelas logo abaixo de seu topo com pouco mais de 2 m de altura formando um espaço aberto onde localiza-se o campanário. O sino está suspenso por uma estrutura metálica junto ao teto, e todo o conjunto é visível por através das janelas. Logo abaixo da abertura há uma janela com formato que lembra uma flor e um vitral representando uma cruz e raios de luz saindo de seu centro.

(Detalhe do vitral da torre logo abaixo do campanário.)

          O edifício como um todo apresenta um aspecto moderno, reto, sem ornamentações externas (quem souber seu estilo arquitetônico, desde já agradeço). As únicas referências religiosas externas são a torre com a cruz e o campanário, os vitrais da torre e da janela central da fachada frontal (que apresenta uma imagem da padroeira), uma cruz no revestimento acima desta janela e o nome da paróquia escrito num banner acima da porta de entrada. No seu todo a igreja lembra um edifício comercial com poucas caracterizações típicas de uma igreja e carece de representações religiosas. Com exceção da torre e da cruz acima, todas as demais representação são muito discretas. Sua localização compete com o campo de futebol do São José, de longe a maior construção do bairro e principal referência geográfica da região. Segundo o pároco Paulo Inácio Labres, que está a seis anos na paróquia e me recebeu para uma conversa em sua casa paroquial no dia de minha visita, a torre é o principal chamativo da igreja. Segundo ele os moradores que moram algumas quadras à frente enxergam a torre de longe e a usam como referênci para localizar o prédio. Apesar do estádio ao lado, a torre é um dos pontos altos do bairro onde a maior parte das edificações é composta por casas e edifícios baixos de empresas. 

          O caso de Paróquia Santa Maria Goretti é um claro exemplo de como a estética pode subtrair sacralidade de um edifício religioso. A falta de representações religiosas, o estilo moderno e retilíneo, a falta de conservação (ao menos externamente) e a localização ao lado de um estádio de futebol, que acaba por encobrir a relevância do prédio, dissolvem a religiosidade que a construção poderia representar. Ao contrário da Santo Antônio do Partenon, a localização geográfica da igreja também não ajuda já que edifício está no mesmo nível dos demais e qualquer construção nova de maiores dimensões acabará por abafar a presença da igreja. Esta presença marcante poderia ser compensada por uma forte representação estética e simbólica, mas esta representação é quase ausente na Santa Maria Goretti.

* Agradeço ao pároco Paulo Inácio Labres pelo ótimo acolhimento, as fotografias e algumas informações históricas da paróquia.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Igreja 1: Paróquia Santo Antônio do Partenon

(Fachada frontal e norte da Igreja Santo Antônio do Partenon. Foto tirada na manhã de 30 de setembro de 2016.)
 
          Como havia comentado em minha última postagem, estou realizando um trabalho a respeito da representação simbólica das torres das igrejas (ou da ausência delas) como referência da expressão religiosa da sociedade tendo como objetivo identificar, de forma genérica, o processo de perda da desta representação na paisagem urbana de Porto Alegre. Este pode ser um indicativo da secularização, isto é, a subtração da expressão religiosa na sociedade em seu todo dada a importância estética e simbólica das torres.

          Começarei o trabalho de campo pelas paróquias. As razões são duas: primeiro porque elas são as principais igrejas da cidade por sua relevância administrativa e por terem um sacerdote permanente; segundo porque são fáceis de serem identificadas pelo primeiro fator. Reitero que este trabalho não é científico. É, acima de tudo, de observação na tentativa de fazer um apanhado geral das igrejas da cidade.

(Torre da igreja vista da parte baixa da Rua Paulino Chaves, já no bairro Santo Antônio, à oeste.)

          A primeira paróquia é a Santo Antônio do Partenon. Sua igreja está próximo ao ponto mais alto do Morro Santo Antônio numa altitude de aproximadamente 70 m no extremo-leste do bairro Partenon, virado para o lado oeste da cidade onde se encontra o Guaíba. Apesar do lago não ser visível desde a igreja devido à presença de outra porção do morro, sua torre ganha destaque por ser de longe a construção mais alta da vizinhança. De frente à igreja está a Rua Paulino Chaves, de onde sua fachada principal é visível apesar da presença dos jacarandás na calçada à frente.

          A torre, localizada sobre a entrada principal da igreja, tem aproximadamente 31,5 m de altura contando desde a base até o pequeno domo localizado do lado esquerdo. Somada à cruz de metal no topo (+- 5,5 m ao lado do domo), são 34,5 m. A cruz é o único símbolo religioso representado na torre: além do modelo de metal em destaque no alto, há outras duas cruzes nas extremidades do topo, uma à direita e outra à esquerda, e uma quarta cruz sobre a porta de entrada. Estas três cruzes são, aparentemente, construídas com o mesmo material com que foi feita a torre e a nave da igreja.

(Torre da igreja com 31,5 m de altura, sendo 34,5 m com a cruz de metal. Abaixo as janelas dos sinos e o relógio sobre a entrada.)

(Detalhe da cruz. Nas duas extremidades as cruzes de material, e à direita da foto o domo que dá acesso ao terraço.)

          Ao longo da torre há seis janelas fechadas em veneziana onde estão guardados os sinos. Apenas do lado esquerdo há uma parede circular onde estaria a escadaria que leva ao terraço, cuja porta está sob o domo. Desde o térreo são cinco andares. Há ainda pequenas janelas junto à escadaria e logo abaixo das janelas dos sinos. Em seguida, sobre a porta de entrada, há um relógio.    

         Não verifiquei o material com a qual a igreja foi construída. Aparentemente sua estrutura é de pedra, mas segundo o frei capuchinho Francisco Turra, pároco da Paróquia Santo Antônio do Partenon desde 2008 (apesar de dizer-me que estava no local desde "há nove anos", isto é, desde 2007), a igreja é revestida de cirex, uma argamassa composta pela mistura de pó de granito com mica cujo efeito é uma aparência rochosa. A torre apresenta o mesmo aspecto. A igreja, portanto, parece ser mais robusta devido à aparência rochosa. Já seu estilo arquitetônico é um misto de gótico, como as janelas laterias e da fachada frontal, com barroco, exemplificado por sua curvatura.*

          O atual edifício da paróquia não é o mais antigo. A Igreja Santo Antônio do Partenon inicialmente foi uma capela, conforme conta o histórico no site oficial da paróquia (e em mais detalhes no Projeto de Resolução que homenageia a paróquia com o Troféu Câmara Municipal). 

          A primeira capela nasceu de uma provisão episcopal de 9 de junho de 1875, mas sua construção foi iniciada em 16 de maio do ano seguinte com o lançamento da pedra fundamental . O terreno pertencia à Sociedade Parthenon Litterário, local de encontro de intelectuais da cidade e que deu nome à paróquia. Sua inauguração foi no Natal de 1881. Logo em seguida, em 6 de janeiro de 1882, a imagem de Santo Antônio foi levada em procissão da Catedral à nova capela. A paróquia foi fundada oficialmente em 30 de agosto de 1911 pelo arcebispo Dom Cláudio Ponce de Leão, e ficou vinculada ao convento dos Capuchinos, atualmente localizado do lado esquerdo da igreja do outro lado da rua Paulino Chaves. O primeiro pároco foi Frei Bernardin d´Apremont.

(Projeto rejeitado da nova igreja.)

(Vista da face norte do projeto que foi aprovado. Destaque para o nome dado à igreja em francês.)

          Apesar da ampliação da igreja em 1922, quando passou de 12 para 14 m de extensão, em 1927 foi acertada sua demolição, realizada no ano seguinte. Foi apresentado um projeto para um igreja em estilo gótico, similar à Igreja Santa Teresinha do Santíssimo Sacramento, em frente ao Parque da Redenção, com a representação de diversos santos em vitrais da fachada e com altura menor do que a do edifício atual. O documento data provavelmente de 1927 (dia 4 de junho; no registro da foto cortei sem querer o ano). Mas este projeto foi rejeitado.

          O projeto vencedor que deu origem ao atual edifício data também de 1927. Ele foi desenhado pelo arquiteto Henri-Victor Dernadé e veio da cidade de Arnnecy, na França (algumas plantas identificam a paróquia como "Eglise de Parthenon. Bresil"). O engenheiro responsável foi Mathãus German Desiderius Casagrande (ou Mateus Casagrande), e a pedra fundamental, lançada em 17 de junho de 1928, foi abençoada pelo então arcebispo Dom João Becker. Apesar da igreja ficar oficialmente pronta em 1934, suas obras não estava completas. Elas pararam em 1932, ano em que foi erguida a cruz luminosa no topo da torre, em julho (provavelmente a mesma que vemos hoje, já que à noite uma cruz de luz azul é visível). No dia 5 de julho foram badalados pela primeira vez os sinos. As obras só seriam retomadas 1950 e concluídas onze anos depois. A primeira missa na nova igreja ocorreu apenas em 31 de agosto de 1952. Entre 1984 e 2006 o edifício passou por diversas reformas internas. Em 2008 iniciou sua restauração interna e em 2010 foi concluída a restauração externa.

          É possível ver pelas fotografias do Google Street View que o jardim na entrada da igreja fora totalmente reformado em meados de 2010 em diante. Antes, junto à Rua Luis de Camões, havia um muro de concreto no local. No final de 2013 a grama fora colocada, e a nova escadaria e luminárias já estavam presentes. Desta forma a frente da igreja tornou-se mais visível e atraente. Quando visitei a paróquia, as fachadas frontal e da direita estavam limpas, e havia operários limpando a face sul da torre com jatos d´água. A Paróquia Santo Antônio do Partenon parecia muito mais nova do aparentavam os 82 anos de idade da nova igreja.

(Lado sul da igreja visto da continuação da Rua Paulino Chaves em frente ao convento dos capuchinhos. A torre estava em processo de limpeza. Destaque para a cúpula da nave principal escondida pela torre e pelo edifício do Colégio Rainha do Brasil.)
 
          Interessante notar que na construção da nova igreja o projeto mais "tradicional" fora rejeitado, cujas razões desconheço. Mas a construção atual, de desenho mais limpo num mito de gótico com barroico, é maior e mais imponente. Duas coisas no atual edifício, e na torre em particular, chamam a atenção: a altura da torre sobre o morro e a ausência de imagens religiosas. Foi privilegiado um projeto mais moderno, porém maior, sendo a igreja diversas vezes reformada nos últimos trinta anos. Apesar do crescimento dos bairros Partenon e Santo Antônio e de um perfil estético mais "limpo", a Paróquia Santo Antônio do Partenon continua como uma das principais referências da região por sua localização e imponência sendo visível há quilômetros de distância como do alto do Morro Petrópolis e dos bairros Jardim Botânico e Santana.

* Agradeço aos amigos Carlos Guilherme Silveira e Silvana Antoniolli pela identificação do estilo arquitetônico da igreja.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A perda da fé: as igrejas e a cidade como marcas de uma sociedade secular

(Igreja São Jorge, em Porto Alegre, visível apenas por sua torre acima do viaduto de mesmo nome inaugurado em 2015: a estética moderna sufoca a vida espiritual e expressa uma sociedade voltada ao mundo, à vida utilitária e cada vez mais secular).
 
          Hoje comecei uma atividade que será gradualmente divulgada neste blog: trata-se de verificar, em Porto Alegre, como as igrejas da cidade expressam a secularização da sociedade. Explicando melhor: como a construção das igrejas, por seu estilo e simbolismo, apresentam o processo de perda de religiosidade da população. 
 
          A ideia surgiu no dia de ontem, 27 de setembro. Ao sair da missa na Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, perto de minha casa, parei por um instante e contemplei a torre construída ao lado da nave da igreja. Ao pé havia um placa em pedra que dizia a torre ser uma homenagem a Nosso Senhor Jesus Cristo (não recordo-me com exatidão a mensagem). Acontece que a paróquia data de 1965, quando havia uma igreja de madeira, ao passo que a torre fora inaugurada em junho de 2000. Este descompasso entre a data de fundação do prédio e a placa chamaram minha atenção.
 
(Igreja da paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, onde surgiu a ideia de meu novo trabalho: prédio baixo e religiosamente estéril. A torre, fora da foto, está ao lado, e tem mais ou menos o dobro da altura da igreja.)
 
          Recordo-me, há anos atrás, quando a torre foi erguida. De longe era (e ainda é) possível vê-la por entre as residências dos bairros Chácara das Pedras e Três Figueiras, ambos atendidos pela paróquia e compostos por casas e pequenos edifícios. Antes de sua construção a igreja ficava totalmente escondida entre as construções, e não havia qualquer referência que fosse capaz de identifica-la à distância. Ao lembrar-me disto foi que eu percebi que as torres das igrejas, salvo a representação de apontar ao Céu em sua expressão simbólica (o Alto) através do apontamento do céu em sua concepção física, são marcas de uma autoridade, ponto alto da referência à instituição que guarda a mensagem do Alto. Sendo a paróquia uma filial da Igreja Católica, ela é, por legitimidade da instituição a que pertence, detentora de um exclusividade espiritual: a de apontar o caminho certo para aqueles que desejam chegar ao Céu, ao Paraíso, à Deus. Um igreja alta com suas torres erguendo-se sobre todas as demais construções mostra que este é o lugar mais importante, porque ele aponta de onde todos viemos e para onde todos devemos retornar. A igreja é a referência, e a torre, referência visual para a comunidade que a cerca, aponta o caminho que somos chamados a seguir. Chegar à igreja é trilhar o caminho para o Céu.
 
          Após contemplar a torre comecei a lembrar-me da arquitetura outras igrejas: as mais recentes, com seu estilo moderno, perderam muito de sua representação simbólica; algumas sequer têm um torre que se destaque na paisagem, outras, com suas torres majestosas ou imponentes, foram sufocadas pelo crescimento urbano em seu entorno. Em todos estes casos o mundo secular (não religioso) prevaleceu sobre o mundo espiritual, representado pelas igrejas e destacados por suas torres.
 
(Livro clássico de Peter Berger. Publicado originalmente em 1967 e em português em 1985, o sociólogo americano afirmava que o pluralismo religioso era resultado da sociedade moderna, que se tornaria cada vez mais secular. O autor revisou sua tese no artigo A dessecularização do mundo, publicado em 1999, afirmando que as religiões se readaptavam à nova situação e lutavam por um lugar ao sol.)

Mas o que se entende exatamente por secularização? Grosso modo secularização é a subtração da religiosidade da sociedade em todos os seus aspectos como: frequência às missas e cultos, a mudança de comportamento, artes, literatura, cosmovisão (modo de ver a realidade), cultura, educação, racionalidade, vestimenta, linguagem, etc. Na sociologia da religião o termo secularização é largamente discutido e não há consenso entre os acadêmicos sobre sua definição. O sociólogo americano Peter Berger, um dos maiores expoentes da sociologia da religião, ajuda a entender melhor este conceito. No clássico livro O Dossel Sagrado de 1967 ele diz que a secularização é "o processo pelo qual setores da sociedade e da cultura são subtraídos à dominação das instituições e símbolos religiosos" (1985, p. 119), e em seguida ele prossegue:
Quando falamos em cultura e símbolos, todavia, afirmamos implicitamente que a secularização é mais que um processo socioestrutural. Ela afeta a totalidade da vida cultural e da ideação e pode ser observada no declínio dos conteúdos religiosos nas artes, na filosofia, na literatura e, sobretudo, na ascensão da ciência. Mais ainda, subentende-se aqui que a secularização também tem um lado subjetivo. Assim como há uma secularização da sociedade e da cultura, também há uma secularização da consciência. Isso significa, simplificando, que o Ocidente moderno tem produzido um número crescente de indivíduos que encaram o mundo e suas próprias vidas sem o recurso às interpretações religiosas (1985, p. 119-120).
           Ao longo das próximas semanas divulgarei informações sobre as paróquias, igrejas e algumas capelas de Porto Alegre. Tomarei como referência a presença (ou não) das torres nestas igrejas (algumas como ponto alto do edifício, outros como campanários, outros com a presença de um santo, etc) e a partir delas mostrarei brevemente como a igreja evoluiu ao longo do tempo e como sua expressão simbólica e religiosa se perdeu (ou, em alguns casos, foi fortalecida) . O objetivo não é discutir estilos arquitetônicos, e sim o que especificamente a torre e, de forma geral, sua igreja expressam numa sociedade que com o passar das gerações perdeu muito de sua religiosidade original.

          Assim poderemos deduzir que tipo de sociedade estamos criando: uma onde a representação de Deus, sufocado pela estética de uma cidade moderna onde as construções disputam espaços umas com as outras sendo a igreja apenas mais um destes edifícios, resume-se cada vez mais à vida privada; ou outra onde Ele, como representação máxima da fé cristã, resiste com o objetivo de ser visto nas ruas e acima dos telhados.