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sábado, 5 de dezembro de 2020

A tirania das oligarquias

"Em uma oligarquia as personalidades têm mais importância que os direitos, e os cartões de visita têm mais peso que as cédulas de voto." (G. K. Chesterton)

Em 1989, o cientista política Francis Fukuyama escreveu um artigo chamado "O Fim da História", em que previa o alastramento dos regimes democráticos pelo mundo.
Meses depois, houve a queda do Muro de Berlim, seguida pela queda dos regimes comunistas na Europa Oriental e, por fim, o desmantelamento da URSS em 1991. Fukuyama foi visto como "profeta", e lançou um livro com o mesmo nome do artigo em 1992.
Os regimes democráticos seriam baseados na igualdade jurídica de todos para com todos. Sua expressão mais evidente seria o voto; e os desejos humanos seriam canalizados para o desenvolvimento econômico e a realização pessoal.
Mas será mesmo que esta igualdade jurídica e o poder do voto são reais como esperava Fukuyama que, diga-se, se tornou um ideólogo do liberalismo ocidental?
A afirmação de Chesterton que reproduzimos aqui mostra aqueles que talvez seja o problema mais grave nas democracias. Mais relevante ainda é a afirmativa ser do início do século XX, quando o poder oligárquico das grandes fortunas era muito menor do que hoje.
Pois o que assistimos nos últimos anos é a emergência de mega oligarquias através da fusão de grandes conglomerados. Apenas seis famílias comandam toda a grande imprensa americana; um punhado de bilionários, aliados ao governo, comanda a Rússia; bilionários chineses trabalham submissos ao Partido Comunista; e empresas de tecnologia, transporte, comunicação e todo o tipo de produtos, de alimentos a eletrônicos, realizaram múltiplas fusões na Europa e EUA dos anos 1990 para cá.
Neste mesmo período, a narrativa do triunfo da democracia tomou a consciência dos acadêmicos, jornalistas e políticos. Transformou-se em dogma.
O dogma democrático se consolidou exatamente ao mesmo tempo em que grandes corporações, inclusive as associadas às ditaduras russa e chinesa, tomaram a vanguarda do poder econômico global.
Por isso Chesterton já alertava da contradição e, diria mais, da incompatibilidade entre os aspectos oligárquicos de uma sociedade e com sistemas democráticos.
As oligarquias são compostas por aquele que nosso escritor nomeou de Homem Incomum. É ele que, tomando as rédeas do sistema jurídico que deveria proteger o Homem Comum, acaba por sabotá-lo em nome da lealdade corporativa.
No fim das contas, o fim da História é muito mais a chancela de legitimidade de domínio oligárquico sobre o mundo do que o estabelecimento jurídico da dignidade do Homem Comum, mero instrumento na aliança tirânica entre Estados e grandes conglomerados.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Os críticos legítimos do poder

 "A verdade é que apenas homens para quem a família é sagrada podem atingir um padrão ou parâmetro que lhes permite criticar o Estado." (G. K. Chesterton, em "O Homem Eterno")

Criticar o Estado implica em duas coisas: saber do que se fala e ter legitimidade para falar o que se fala.
O Estado é uma estrutura de poder que organiza uma autoridade, cuja cabeça varia ao longo dos anos.
Ora, criticar o Estado é questionar sua autoridade (ou daqueles que a detém no momento), o que implica, em contrapartida, se considerar capaz do mesmo papel que a autoridade constituída.
Só homens maduros podem, de forma legítima, criticar o Estado desde que, claro, este mesmo Estado seja dirigido por homens maduros.
A maturidade pressupõe a capacidade de tomar decisões por conta própria e assumir suas consequências, e nenhuma decisão é mais séria, permanente e profunda do que decidir por constituir uma família.
Esta defesa que Chesterton faz da autoridade da família em "O Homem Eterno" baseia-se numa visão típica de toda sua obra: a veracidade que pressupõe um empreendimento tão natural como a união de um homem e uma mulher com seus filhos.
A família dá ao homem o encargo da decisão sobre vidas, cujos frutos virão, em grande parte, da forma como sua autoridade é exercida.
Diria mais: a própria vida gerada é o fruto da decisão, um fruto material inegável.
Portanto, são autoridades de famílias que podem questionar legitimamente a autoridade do Estado, pois ambos são análogos, o que torna compreensível o que é e o que faz o Estado com sua vida e a dos outros.
A crítica ao Estado também se estende àqueles os quais não têm família, mas a consideram sagrada, pois reconhecem a importância de sua existência, a começar por aquela que os gerou e sem a qual sequer poderiam emitir uma opinião.
Não por acaso, o pátrio poder é o grande obstáculo às pretensões estatais de se apoderar de tudo e de todos.
O credo contemporâneo, calcado na moralização (ou imoralização) da sociedade por meios jurídicos e legais, encontra limites em famílias cujos membros compreendem o limite do poder estabelecido e de sua ação.
Pais e mães firmes, bem como pessoas devotas a honrar seus nomes, sabem que o devido respeito à autoridade começa em casa, e que o palácio é apenas uma extensão, por vezes ilegítima, de um poder que depende indelevelmente daqueles que decidem por gerar novas vidas.

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Por que a Igreja sempre perdoa

"A Igreja não aceita nada, mas perdoa tudo. O mundo aceita tudo, mas não perdoa nada." (G. K. Chesterton)

É da tradição cristã falar da díade Igreja e mundo. De forma análoga, podemos também falar no transcendente e do imanente, sendo a Igreja a depositária do primeiro e o mundo expressão do segundo. São duas realidades distinguíveis, mas absolutamente integradas.
Igreja e mundo possuem suas leis, que estão em tensão permanente e são apenas harmonizadas pelo espírito entregue à Providência, que tudo governa e nossas almas deve governar.
Para Chesterton, para quem o mundo era um celeiro de banalidades e erros, este é o peso e relevância da Igreja, pois ela nada contra a corrente do mundo, que a todo o instante nos exorta a nadar contra Ela. Esta é a essência da passagem aqui apresentada, exemplo típico dos paradoxos do escritor.
Assim, por expressar as realidades do espírito, a Igreja propõe uma forma de viver que não condiz com a "lógica" do mundo.
Por exemplo: tendemos à inércia, a ficarmos parados e acomodados em nossa condição de vida. O apelo a este acomodamento é do corpo (há também aspectos da mente nisso), realidade do imanente, do mundo. Mas a Igreja, obedecendo à Revelação, nos exorta a transformar o mundo, tanto física quanto socialmente, pelo trabalho, o suor do rosto anunciado no Gênesis. Temos de lutar para vencer o mundo, sobrepor a vontade do espírito às forças do mundo que pesam nossa alma e tendem a nos afastar de Deus.
Por isto a Igreja, que nada aceita, tudo perdoa. Porque sabe que não pode ser condescendente com as tendências do mundo, mas deve perdoar o homem a todo o instante, porque ele é fraco e, cedo ou tarde, há de cair em erros e pecados.
O mundo, por seu lado, tudo aceita, mas nada perdoa. Pois se a pessoa se entrega ao prazer de se acomodar e esperar que Deus ou seja lá mais quem faça algo por ele, acabará na miséria e na morte por inanição.
O homem tem livre-arbítrio, dom divino fruto de Seu amor, para decidir entregar-se aos desejos da carne e esterilizar o espírito. Mas pode, também, lutar para vencer, sempre, até que chegue o dia da vitória, o instante último onde se revelará o peso da balança da vida pendente para o espírito.
Pois, como nos lembra São Mateus, "quem perseverar até o fim, este será salvo".

domingo, 15 de novembro de 2020

O jovem moderno: tijolo para a militância

"Os jovens modernos nunca mudarão o ambiente em que vivem porque estão sempre mudando de ideias." (G. K. Chesterton, em "Ortodoxia")
O jovem, por definição, está buscando uma identidade definitiva e um caminho a trilhar no futuro. Ele testa, aqui e ali, o que pode ou não viver para construir sua narrativa de vida.
Se há uma coisa que o jovem não tem, e diríamos que são poucas as exceções à regra, é constância nas ideias, porque é necessário tomar conhecimento de várias delas para saber qual pode ser o fundamento de sua vida.
A narrativa precisa de um enredo, e este enredo é construído através da experiência.
A situação é muito mais complicada quando se trata do jovem moderno. Este é tão inconstante quanto seu estilo de vestimenta. Está a todo o instante absorvendo o que a propaganda e os professores estão lhe apresentando na TV e em sala de aula.
O jovem moderno acaba por abraçar tudo ao mesmo tempo, o que significa que não abraçar nada. É instigado a todo o instante a transformar o mundo, conferindo-lhe a imagem de modelo de conduta.
Em outras palavras, ao jovem moderno é oferecido todo o tipo de narrativa de vida aparentemente sábia e heroica sob a promessa de viver uma existência abundante e plena de sentido.
Por isto mesmo este jovem é matéria-prima abundante para organizações ativistas. Ele é a face do militante, a pessoa entregue de corpo e alma a uma "causa" convencida de que encontrou a coisa certa a fazer pelo "bem" da humanidade, e por isso mesmo confortável com sua escolha; acredita na ilusão prepotente de que sua narrativa é a única correta condenando as demais ao ostracismo e ao silêncio.
O ambiente do jovem militante é o "coletivo", que lhe dá outro benefício, o de sentir-se emocionalmente aceito a um grupo, a quem devota fidelidade pelo intenso vínculo afetivo.
Com o futuro definido, uma narrativa aparentemente coerente, uma vida emocional satisfeita e um bem a realizar, o jovem moderno, tijolo no edifício da militância, agora sente-se capaz de transformar o mundo e, claro, julgá-lo, como se fosse ele mesmo a encarnação das leis da História.
Não é por acaso que este tipo de gente seja capaz de infringir as leis, cometer crimes, tacar fogo em tudo, e que seus alvos sejam justamente os burgueses, os "fascistas", os cristãos.
Se hoje atentam contra lojas, instituições e igrejas, é porque amanhã atentarão contra as pessoas que estão dentro delas.

domingo, 8 de novembro de 2020

Quando os impérios sucumbem

 "Eu creio que a primeira coisa que me fez detestar o imperialismo foi a afirmação de que o sol nunca de põe no Império Britânico. Para que serve um país sem pôr-do-sol?" (G. K. Chesterton)

Chesterton possuía um olhar muito crítico do Império Britânico, pois o considerava um exagero e algo distinto e distante da realidade do simples britânico. Sua vastidão criava um sentimento de grandeza nas pessoas, mas pouco contribuía para suas vidas de fato enquanto cidadãs.

O comentário aqui reproduzido é muito típico de nosso escritor. Afinal, que raios de importância há o pôr-do-sol para um império que depende do poder efetivo para se sustentar? Como pode um poético fenômeno natural ser mais relevante do que a armada britânica?
Pois é exatamente este o ponto. Se um poder imperial (e poderíamos acrescentar: qualquer poder político) esquece que sua legitimidade está nas coisas mais simples, que é estar próximo das necessidades e aspirações das pessoas comuns, cedo ou tarde ele irá sucumbir.
Este foi o destino do Império Britânico que, incapaz de governar vastas terras distantes com populações crescentes em número e hostilidade, liderando politicamente povos que pouco ou nada tinha a ver com seu povo de origem, dissolveu-se em meio a uma Grande Guerra e diversas revoltas, como foi a tumultuada descolonização da Índia.
Podemos ir mais longe: se o sentido da força política é o poder e a grandeza em si mesmos, então sua força acaba por se tornar seu túmulo, porque os meios de vida e governo não são jamais fins em si, mas meios.
A glória britânica, representada pelo império onde o sol nunca se punha, estava grandemente calcada na própria grandeza, cujo peso acabou por ser sua ruína.
Ademais, todo o poder e força é cíclico. O Império Romano se sustentou por oito séculos, o Império Sacro-Germânico outros oito, a União Soviética 78 anos e o Terceiro Reich apenas 12.
Destes impérios, muitos sucumbiram porque não eram legítimos ou perderam sua legitimidade. Em algum momento, perderam a capacidade de contemplar pôr-do-sol ou foram destruídos por aqueles que acreditavam que as coisas simples deveriam ser subjugadas e transformadas pelo pesado braço do Estado.
Há um espírito que sustenta o mundo. Sem ele, toda a ordem e todo o império são apenas esqueletos que, cedo ou tarde, desabarão por si mesmos.

sábado, 7 de novembro de 2020

O insistente retorno a Roma

"Onde o catolicismo é expulso como uma coisa antiga, ele sempre volta como uma coisa nova." (G. K. Chesterton, em "Todos os caminhos levam a Roma") 

Não existe civilização secular, "laica", não-religiosa.
Todas as civilizações humanas têm algo de religioso na base, pois não pode haver civilização que se fundamente na desorientação e desconexão com a realidade em seu todo, cosmovisão provida pelas tradições religiosas.
Até pouco tempo, esta cosmovisão estava disponível apenas nas religiões. Hoje, as ideologias e mentalidades modernas buscam fazer o mesmo papel através de fórmulas pré-determinadas que enclausuram a totalidade da realidade numa gaiola. É a explicação de tudo e de todos mediante fórmulas simples, mas falhas.
O exemplo mais flagrante é o marxismo, cuja filosofia persiste com sua insistente miragem sedutora de uma transformação integral da sociedade humana e, por consequência, de sua relação com o cosmo em prol do "mundo melhor". Não importa o quanto seus movimentos políticos fracassem, pois sua força provém da insaciável sede existencial do homem.
A persistência de ideologias é mais uma prova da persistência das tradições religiosas, totalizantes por excelência, mas não escravizadoras do espírito. É mais uma prova de que, sim, o homem é um ser essencialmente religioso, mesmo que se negue esta afirmativa.
Não por acaso, Chesterton escreveu um livro chamado "Todos os caminhos levam a Roma", origem desta citação. Queira ou não, o homem busca a Verdade, cujo depósito institucional está em Roma, ainda que esta Verdade, obviamente, não se limite há uma instituição mas se manifeste na realidade mesma.
Tiremos o catolicismo de cena e teremos ideologias falhas que acabarão por ruir deixando em seu lugar um catolicismo novo; ou mesmo uma religião que dê ao homem uma explicação satisfatória para a vida.
Mas Chesterton soa profético em sua afirmação. Hoje, com a crescente hostilidade cultural ao catolicismo, ao mesmo tempo emergem e se destacam movimentos onde esta fé vive e mesmo retorna. É o caso dos movimentos marianos, que tomaram impulso desde o pontificado de São João Paulo II, e do retorno às práticas tradicionalistas com Bento XVI.
Onde emerge a apostasia, o Espírito age para defenestrar o espírito do tempo. Pois é disto que se trata: o homem, ao render-se ao seu tempo, afunda no vazio e na depressão, e tem como única alternativa retornar para a casa que lhe oferece a eternidade.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

O abandono da fé e as "novas religiões"

 "As Novas Religiões estão de muitas maneiras adaptadas às novas condições; mas é só às novas condições que estão adaptadas. Quando essas condições tiverem mudado daqui a um século, as questões nas quais essas religiões insistem terão se tornado quase sem sentido." (G. K. Chesterton, em "Igreja Católica e Conversão", em 1926)

Quem ler ao menos parte da obra "Igreja Católica e Conversão" verá que Chesterton trata do catolicismo como uma religião nova. Nova porque ela vem de encontro à mudança de vida, remexe a forma de pensar meramente tradicional, tomado aqui o termo "tradicional" como a herança pura e simples de um passado ainda vivo.
Esta tradição é estéril, não-espiritual, ao passo que o catolicismo é uma herança viva, espiritual, mesmo que a tradição vigente diga o contrário.
Mas as "novas religiões" que Chesterton cita nesta passagem do mesmo livro são aquelas que vêm como novidade, mas são apenas uma amálgama de crenças e elementos que adaptam a alma humana às condições do momento.
Hoje poderíamos ver essas novas religiões na New Age, no neopaganismo, no espiritismo, em elementos orientalistas e assim por diante; todos eles, em maior ou menos grau, costurados e adaptados não à verdade, mas ao gosto do cliente.
Não por acaso, os sociólogos chamam essa atitude de bricolagem, a criação individual de uma crença puramente pessoal e que não necessariamente condiz com a realidade.
Ocorre que Chesterton falava dessas "novas religiões" já em 1926, ano no qual esta passagem foi escrita, mostrando que há muitas gerações o Ocidente vem sendo seduzido por crenças espirituais não cristãs ou mesmo anticristãs.
Onde morre a fé cristã (e católica em particular), abre-se o terreno para novas religiões.
Hoje, Chesterton veria, como já viu em sua época, a penetração do islam na Europa. A fé islâmica só poderia progredir em terreno aberto onde o cristianismo foi abandonado.
E não adianta que governos e organizações reclamem oposição ao islam. A esfera política pouco pode contra o crescimento desta fé abraâmica, que historicamente tem se mostrado hostil não apenas ao cristianismo como às formas de vida do Ocidente.
Religião se opõe à religião. Se o Ocidente escolher abraçar as "novas religiões" ou seguir meramente tradições estéreis, será seduzido e morrerá nos braços do islam ou de qualquer outra força religiosa equivalente.
Chesterton é um exemplo, tanto nas obras quanto em sua vida pessoal, da capacidade que uma fé verdadeira possui de transformar vidas e estabelecer uma cultura forte ancorada numa compreensão profunda da realidade. Esta é a única barreira contra a entrada de outras religiões tradicionais hostis à fé cristã, quem dirá contra crenças da moda compradas como produtos nas prateleiras de supermercados.

sábado, 24 de outubro de 2020

A origem da lei

 "A fórmula-raiz duma época é a lei que não está escrita, assim como a lei primeira entre todas as leis, responsável por proteger a vida contra o homicídio, não se vê escrita em lugar algum do Statute Book." (G. K. Chesterton, em "Eugenia e Outras Desgraças", 1922)

A proximidade entre as autoridades política e espiritual acabou por sacralizar o Estado, que na era modera emergiu como todo-poderoso das leis e dos princípios.
Nossa época herdou este vício de que a lei dos homens pode legislar sobre tudo. Não por acaso, há uma tendência de se considerar moralmente aceito aquilo que é legalmente estabelecido.
A sacralidade da vida pública foi transferida da Igreja para o Estado, o novo templo, sendo seu corpo jurídico o novo catecismo.
Ocorre que a lei dos homens é uma derivação da lei divina (ou ao menos assim deveria ser), e por isto mesmo a Santa Igreja, ao exemplo da encíclica "Dignitatis Humanae" de São Paulo VI, exorta os fiéis para que obedeçam à autoridade, desde que esta autoridade não vá contra a Igreja e os princípios que ela defende.
A lei, diz o documento, deve garantir a liberdade religiosa, pois Deus fez o homem livre para que Nele cresse. Assim, a lei dos homens deve estar em consonância com a Lei de Deus.
Chesterton evoca esta Lei superior em "Eugenia e Outras Desgraças", lembrando os dois primeiros mandamentos que, segundo o próprio Jesus, resumem toda a Lei de Deus.
Amar a Deus sobre todas as coisas é amar o próximo, pois Deus habita no próximo. Portanto, quem agride ao próximo agride a Deus em pessoa. E por isso mesmo amar o próximo como a si mesmo é amar a Deus. Não há como separar esses mandamentos, derivação de todas as demais leis divinas.
Assim, o que Deus proclamou não está nos Statute Books do Reino Unido ou na Constituição brasileira de 1988, mas no coração humano, e tem como veículo a Igreja através de sua Tradição, a Palavra e Magistério, ou mesmo outras tradições religiosas.
Nos dias de hoje, onde proliferam leis iníquas que atentam diretamente contra a vida e relativizam a dignidade humana através da segregação social e do consequente estímulo de conflito de todos contra todos, o homem tem o desafio de se aferrar à Lei inscrita no próprio coração e lutar para que, no momento oportuno, prevaleça nas cartas do mundo todo o que imperou nas sociedades cristãs por séculos. E o que impera no coração de Deus desde a eternidade.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

O preço da submissão da Igreja ao Estado

 "Na Rússia, a única acusação real feita por gente religiosa (especialmente católicos romanos) contra a Igreja Ortodoxa não é sua ortodoxia ou heterodoxia, e sim sua dependência abjeta do Estado." (G. K. Chesterton, em "Eugenia e Outras Desgraças", 1922)

Chesterton posicionava-se favorável à retirada do apoio estatal às igrejas, como comenta em "Eugenia e Outras Desgraças", do qual este trecho foi transcrito.
A separação Igreja-Estado é um dogma da modernidade. Seu questionamento é visto como a defesa do contrário, um Estado confessional, como se fosse obrigatório, à alternativa da laicidade, um poder que patrocinasse oficialmente uma fé específica.
A questão é infinitamente mais complicada, porque, historicamente, Estados patrocinaram igrejas, o que levou à divisão dos fiéis e da luta uns contra os outros (a Inglaterra de Henrique VIII é um bom exemplo disso), e a laicidade, vista com um modelo ideal de Estado moderno, é, no seu sentido estrito, impossível.
Pois a laicidade será sempre relativa. Ela pressupõe que a população participe do poder vigente, e parte desta população é religiosa. Ela exige uma conduta "laica" do poder público, mas este poder é composto de pessoas que deveriam, por este ideal, deixar suas crenças em casa. Ela exige a divisão das consciências, o que significa abjurar da consciência religiosa.
O monstro bifronte do Estado laico existe no plano jurídico, mas não pode ser estritamente implementado segundo seu ideal. O Estado laico não é antirreligioso, mas juridicamente neutro às questões religiosas e, por consequência, nivelador do valor que confere aos grupos religiosos. Mas a população não condiz com este padrão, bem com a proporção de grupos religiosos numa sociedade.
Por outro lado, a solução do Estado confessional igualmente não é válida. Na mesma obra, Chesterton comenta a perda da vitalidade da fé nas igrejas que têm apoio oficial.
O caso da Rússia é emblemático, pois no país onde o czar estava acima do patriarca ortodoxo (título banido por Pedro, o Grande), o Patriarcado de Moscou era submetido a um sínodo diretamente controlada pelo Estado.
Quando Chesterton escreveu esta passagem, em 1922, a Igreja Russa estava sob o jugo dos bolcheviques, que estabeleceram controle ainda mais rígido sobre os religiosos, perseguindo e matando quase a totalidade deles na década de 1930.
A "santa" Rússia, que sacralizou o poder político, trouxe o primeiro Estado oficialmente ateu, de um laicismo feroz nunca antes visto. Não por acaso, nos confins de Portugal, Nossa Senhora viria alertar sobre as desgraças que viriam daquelas terras.
Os "erros da Rússia " estavam apenas começando.

A falsa autoridade da "ciência"

 

"A coisa que hoje em dia está de fato usando o governo para impor uma tirania é a ciência." (G. K. Chesterton, em "Eugenia e Outras Desgraças", 1922)

Inevitável ler essas palavras de Chesterton, escritas em 1922 na obra "Eugenia e Outras Desgraças", e não lembrar da atual crise relacionada à covid-19: lockdowns, restrições ao direito de ir e vir, uso compulsório de máscaras, engenharia social por decreto e propaganda da mídia, distanciamento controlado, monitoramento por drone e celulares, denúncias de vizinho contra vizinho.
Tudo em nome, claro, da "ciência". Pior: em nome do "consenso científico", que nada mais é do que a opinião mutável majoritária de um grupo de especialistas sobre um tema.
Ou pior ainda: em nome do "consenso científico" divulgado em bloco pela classe jornalística, um punhado de pessoas que se arroga orientar o comportamento da massa graças à capacidade técnica de se fazer ouvir pela televisão.
É questionável se, de fato, é a ciência que está usando o governo ou o inverso, mas o que podemos deduzir de Chesterton é a existência de uma mentalidade cientificista, que considera ser possível reduzir o cosmo ao cálculo e o ordenamento puramente racional, bem como o próprio comportamento humano.
O cientificismo é falsa ciência, é abusar da capacidade de entender toda a realidade com base em métodos cujos fundamentos remontam à era pré-científica e são passíveis de questionamento; são arbitrários.
A situação é ainda mais grave quando se percebe que o que chamamos de ciência moderna é a leitura, parcial e questionável, de um determinado aspecto da realidade, tornando o cientificismo ainda mais distante da voz da verdade como pretende ser. A ciência, portanto, jamais pode ser autoridade pública.
A ciência pode falar como funciona o vírus da covid, mas não pode dar uma definição ontológica de "vírus", muito menos responder porque ele existe, mesmo que use e abuse dos "comos".
Mas é esta "ciência", tomada no sentindo mais grosseiro do termo, que está sendo imposta como autoridade máxima e inquestionável sobre nossas vidas, tomando de assalto a cabeça de governantes, especialistas e jornalistas, roubando não só nossa liberdade como também nossas almas e anunciando, pelas vozes dos que se arrogam ditar normas à população, o quão digno você é.
Tudo sob o neutro e superior critério científico, é claro.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Um tempo de superstições

 

"A época em que vivemos é algo mais do que uma época de superstição - é uma época de superstições que não acabam mais." (G. K. Chesterton, em "Eugenia e Outras Desgraças", 1922)

Uma das características de nossa época é a secularização. Este fenômeno se define pela subtração de expressões religiosas da sociedade, tanto na esfera pública quanto privada, como nas artes, na literatura, nos princípios que regem a vida comunitária e familiar, na prática da oração, na visão de mundo das pessoas e assim por diante.
Apesar da era moderna ser muito mais secularizada que as anteriores, o impulso humano de uma busca espiritual não desapareceu e nunca desaparecerá.
O homem é essencialmente religioso. Em todas as épocas e lugares, buscou respostas aos dilemas existenciais básicos: por que estamos aqui, qual é o sentido da vida, de onde viemos e para onde vamos, há vida eterna ou não, etc.
Nossa época não é diferente. Ocorre, porém, que as pessoas se afastaram de Deus e adotaram toda a sorte de loucuras que parecem responder aos seus dilemas, ao exemplo das ideologias ou, pior ainda, dos moralismos da moda corrente, que mudam constantemente numa torrente que cega e embebeda almas carentes.
O sociólogo Peter Berger observa que, hoje, a fé religiosa vive, mas de forma desinstitucionalizada. Ou seja, a maioria das pessoas crê em Deus ou num Ser superior, mas não se vincula a uma igreja ou comunidade. Crê em seus próprios termos.
Assim, as superstições brotam, aqui e ali, como substitutos do impulso religioso carente de Deus, mas que perdeu o caminho para encontrá-Lo.
Em 1922, em "Eugenia e Outras Desgraças", Chesterton já observava a multiplicação de superstições. Imagine o que ele encontraria hoje, um universo de superstições das mais rasteiras, como a crença, por exemplo, de que estamos em sintonia com o Universo ao tentarmos "salvar o planeta" ou toda a sorte de cultos pagãos coletados, ora em ritos orientais, ora da própria cabeça.
Bêbado, perdido e desesperado com a confusão do mundo atual, o homem se debate com seus erros na busca por um rumo até que, por graça da providência, encontre o caminho de casa.

sábado, 10 de outubro de 2020

O sistema moderno contra a família

"O mundo ao nosso redor aceitou um sistema social que nega a família. Às vezes, ajudará à criança em vez da família; à mãe em lugar da família; ao avô em lugar da família. Mas ajudará a família." (G. K. Chesterton, "G.K.'s Weekly", 1930)

Ainda que a família seja uma instituição natural que esteja distribuída em praticamente todas as culturas nos quatro cantos da Terra, variando sua estrutura, há uma tensão entre esta ordem e o impulso dos desejos humanos de romperem com ela.
Pois o homem, na sua animalidade, não busca a família, mas a concretização de desejos. A fidelidade no casamento é obra da perseverança e da fé; deixadas à própria vontade, as pessoas fariam da fidelidade uma ficção, e a família seria impossível.
Mas o grande problema está justamente na promoção por meio da mídia e da reinterpretação das leis destes mesmos desejos. Por exemplo: ao tornar o casamento um evento civil, o Estado arroga para si os efeitos reais do casamento, esvaziando parte de seu sentido espiritual. E nas cortes, a concepção de "casamento" e família são alargados para implementar, à revelia da maioria da população, a agenda diversitária.
Aos poucos, a mentalidade progressista vai minando o casamento por dentro e, por consequência, a própria família, cuja destruição pode muito bem ocorrer através da promoção dos interesses de seus membros.
É o que Chesterton enuncia nesta passagem do seu semanário "G.K.'s Weekly", publicado há 90 anos, em 20 de setembro de 1930.
A crítica acadêmica e midiática à ordem patriarcal (e tudo o que é classificado de "patriarcal"), a denúncia de crimes violentos apenas contra determinados grupos sociais, o moralismo politicamente correto e toda a sorte de propaganda de comportamentos que insuflam a infidelidade e o desejo de ser "livre", no sentido estrito que o liberalismo dá à palavra, concorrem para formar uma atmosfera onde a formação da família é cada vez mais difícil.
Colocar uma criança na escola, por exemplo, é arriscá-la a um conflito com os pais. A obrigatoriedade da educação pode ajudar a criança em algum aspecto, mas não a família, atentando contra a criança mesma.
Não por acaso, Chesterton afirmava que a educação moderna considerava os pais a maior ameaça às crianças. Em nome da proteção a elas, é necessário dissolver o pátrio poder.
Proteger o casamento e as crianças é proteger a família. E por isso mesmo a mentalidade progressista, encarnada num sistema pervertido, atenta contra crianças e casais a fim de melhor educá-los para uma sociedade dirigida.

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

A grandeza e a humilde de um santo

 "Um santo está muito além de quaisquer desejo de distinção; é a única espécie de homem superior que nunca quis ser pessoa superior." (G. K. Chesterton, em "Santo Tomás de Aquino")

A santidade é um estado da alma onde a vontade divina prevalece sobre todas as coisas, onde vaidades desaparecem e pouco importa o prestígio forjado por seus atos.
Ao exemplo do que mostram as biografias dos santos, a virtude humana mais admirada por Deus é a humildade.
Ser humilde implica em reconhecer quem é o Senhor, este ser infinito. Toda nossa dimensão se reduz à nada. A humildade é decorrência necessária da desproporção entre nós e a grandeza de nosso Deus.
A principal é consequência desta humildade é o temor, e do temor, a reverência e o respeito, brota a obediência. O humilde, reconhecendo a grandeza divina, se faz obediente a Deus,
Os exorcistas afirmam que a atitude que melhor impede o demônio de agir sobre as pessoas é justamente a obediência, pois ela implica em fazer a vontade de Deus, unindo mais intimamente a alma da pessoa com Ele e, portanto, fechando as brechas nas quais o inimigo poderia agir.
Santo Tomás de Aquino é um entre tantos exemplos de humildade na santidade. O trecho de Chesterton aqui citado está presente na biografia do santo apresentado por nosso escritor.
Não por acaso, Santo Tomás é chamado de Doutor Angélico. Considerado por muitos o maior pensador da História da Igreja, deixou um vasto legado de obras no campo da Filosofia e da Teologia.
Mas foi sua humildade que o fez largar sua produção, depois de um acontecimento extraordinário ocorrido em 29 de setembro de 1273, enquanto Tomás realizava uma missa. Depois daquela celebração, conta-se que ele nunca mais escreveu ou ditou o que quer que fosse. "Tudo o que escrevi me parece palha perto do que vi", afirmou o santo.
Santo Tomás tivera uma visão beatifica do Senhor, e viu, com seus próprios olhos, Sua grandeza e beleza. Não fosse humilde e não abandonaria sua produção intelectual e o consequente prestígio que lhe era reservado. Na verdade, Deus sequer teria Se revelado a ele, pois Ele se revela aos pequeninos, aos simples e puros de coração.
Se as ações de Santo Tomás eram palha, imagine a nossa. Pois palha é toda a criação humana, que deve sempre ser ato de glorificação da beleza e do amor do Criador.

domingo, 27 de setembro de 2020

Autocontrole de natalidade


"Todo mundo acredita em controle de natalidade e quase todo mundo já exerceu alguma controle sobre as condições de nascimento. (...) O controle de natalidade real e verdadeiro se chama autocontrole. Se alguém diz que não funciona, eu digo que funciona." (G. K. Chesterton, em "O Essencial de Chesterton)

O tema do controle de natalidade sempre gera muita discussão e controvérsia, e todo mundo tem algo a dizer sobre ele.
Apesar de estarmos numa época em que ter opinião é quase um ato sagrado, não é errado que todo mundo tenha algum opinião sobre o assunto.
Afinal, a totalidade das pessoas veio ao mundo através do ato sexual. Salvo poucos casos, nossos pais decidiram pela geração de uma vida e a forma de viver o futuro.
Portanto, as pessoas sabem ter o controle sobre a própria vida no que diz respeito à família, e não cabe a ninguém nem a autoridade alguma tomar este tipo de decisão.
O comentário de Chesterton sobre o controle de natalidade sobre a população pega este ponto. Controle de natalidade é autocontrole, ou seja, são os pais que decidem sobre ter ou não filhos. O resto é "um senhor embuste", para usar as palavras do capítulo "Reforma Social Vs. Controle de Natalidade" do livro acima citado, já que o termo "controle de natalidade" não significa nada em específico e, portanto, pode significar qualquer coisa.
Para Chesterton, o controle de natalidade nada mais é do que a busca de controle sobre a vida alheia. No mencionado capítulo, analisava como as corporações buscavam controlar não os seus custos, mas o número de pessoas delas dependentes para que custos pudessem ser cortados.
Menos filhos, menor a pressão social e moral das empresas sustentarem famílias de trabalhadores.
Talvez nosso escritor ficasse chocado ao ver a escala como que esta forma de controle tomou, não tanto por razões econômicas, mas políticas, na soberba ânsia por um planejamento geral do mundo.
Essas mesmas corporações, que por meios médicos, de propaganda e patrocínio de grupos de pesquisa, hoje aliam-se a Estados para forjar uma subcultura de diminuição da família ou mesmo sua destruição. O pátrio poder é o principal obstáculo à engenharia social.
Desta forma, controle de natalidade significa controle social, uma maior possibilidade de planejamento coletivo onde os governos entram com a burocracia e a força armada, as corporações com o dinheiro e ambos com a propaganda.
Uma família não é "apenas" uma comunhão de pessoas, mas o campo onde floresce nossa liberdade, de preferência numa casa cheia.

sábado, 26 de setembro de 2020

A dimensão sobrenatural do prazer

"O segredo da recuperação dos prazeres naturais reside em considerá-los à luz de um prazer sobrenatural." (G. K. Chesterton, em "São Francisco de Assis")

O que Chesterton chama aqui de "prazeres naturais" nada mais é do que o prazer sensível das coisas simples. Uma boa comida, sentir a brisa batendo no rosto, o descanso e outras atividades que nos dão prazer e alegram a alma graças às satisfações dadas ao corpo.
Os dias de hoje tomaram estes prazeres como o cume da liberdade humana. Ser livre é fazer o que se quer, e ninguém quer aquilo que é ruim e desagradável.
Assim, ao entronizar a opinião como valor supremo, a era pós-moderna acabou por entronizar o desejo e a busca pelo prazer. Deseja-se aquilo é bom, portanto, as opiniões se guiam conforme o prazer daquilo que é desejado.
Opinião e desejo se tornaram os princípios sobre os quais se concebe hoje a liberdade humana. Ser livre tornou-se sinônimo de dizer "acho que" e ficar, não feliz, mas meramente alegre com isso.
É "feliz" aquele que omite uma opinião e acha que tem razão, razão esta confirmada pelo seu desejo que, pensa o homem pós-moderno, coincide com a realidade mesma.
A banalização do desejo na eterna busca pelo prazer leva inevitavelmente ao marasmo e à depressão, não por acaso um mal muito comum em nossos dias.
Chesterton lembra, nesta passagem da obra "São Francisco de Assis", que é a dimensão sobrenatural que dá sentido real aos prezares naturais.
De imediato, porque a dimensão sobrenatural tempera as coisas do mundo, e tudo o que é moderado e bom jamais torna-se enfadonho justamente porque é moderado.
Mas a dimensão dos prazeres eleva-se ao vermos que estes são uma antessala do Paraíso, um gosto de um mundo que nos espera se, entre outras coisas, soubermos moderar as coisas do mundo.
Assim como numa refeição, o apetite do homem, que no fundo é uma ânsia pelo Eterno, não pode ser satisfeito com o prato de entrada. É necessário se resguardar para que, no momento oportuno, ele esteja pronto para o banquete.

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Porque nada sabemos

"Sócrates, o mais sábio dos homens, sabe que não sabe nada. Um lunático pode considerar-se a própria onisciência, e um tolo pode falar como se fosse onisciente. Mas Cristo é onisciente em outro sentido: ele não apenas sabe, mas sabe que sabe." (G. K. Chesterton, em "O Homem Eterno")

O conhecimento e a sabedoria do homem são necessariamente limitados. É característico da inteligência humana ser limitada, pois conhecemos por distinção e associação separando uma coisa da outra.
Eu sou o que sou porque não sou o meu vizinho. Da mesma forma, sou um homem porque não sou mulher, sou uma pessoa porque não sou um animal; o claro é claro porque não é escuro, há algo embaixo porque há algo em cima, e assim por diante.
Mas Deus concebe a realidade na sua totalidade. Ele tudo distingue ao mesmo tempo em que vê a unidade absoluta de todas as coisas. É uma inteligência que não pode ser compreendida por ser de outra categoria e, claro, estar acima, fora do alcance da inteligência humana.
Assim, tudo o que conhecemos é derivado de Deus por meio do Espírito. Somos inteligência por empréstimo derivados da Inteligência Primeira, que determina e organiza todas as coisas.
Nesta passagem de "O Homem Eterno", Chesterton nos lembra justamente a limitação humana de saber o que se sabe e não saber tudo o que não sabe.
Se Sócrates, o maior dos sábios de acordo com nosso escritor, sabia que nada sabia, o que, então, eu e você sabemos?
A resposta é simples: nada. Nem Sócrates sabia nada. Mas como nada? Não sabemos ao menos nosso nome e o local em que moramos?
Ocorre que, frente à onisciência divina, nosso conhecimento é infinitamente pequeno. Frente ao conhecimento absoluto, todo o conhecimento parcial é infinitamente desproporcional a este.
Todo o conhecimento humano é limitado e, portanto, infinitamente menor do que o conhecimento de Deus. É nada, em suma. E tem de ser muito louco para dizer que se sabe algo, quanto mais que sabe tudo.
A este louco Chesterton chama de lunático, aquele que está com a cabeça no mundo da lua.
Mas como sabemos, a lua não é o sol que tudo ilumina, que tudo esclarece, que tudo sabe, mas apenas reflete sua luz.
O lunático vê este ponto de luz e acredita ter descoberto a Verdade, enquanto, na verdade, está fechado em si mesmo tomando seu foco de luz como toda a realidade existente.
Cego por sua miragem, ele fecha os olhos para o mistério que está além das profundezas da escuridão.