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segunda-feira, 27 de março de 2023

Catedral Católica Ucraniana de Londres (King's Weigh House Chapel)

                    (Catedral Católica Ucraniana vista a partir do Brown Hart Gardens, para leste.)                    

          Em fevereiro passado, após descer na estação de Bond Street, resolvi caminhar na direção oposta da Oxford Street no distrito de Mayfair, na área central de Londres. A expectativa era rever o bairro e visitar uma igreja católica do local. 

          Menos de duas quadras depois me deparei com um belo edifício de tijolo avermelhado - como muitos da área - com formato ovalado no andar superior e uma torre de uma igreja na esquina seguinte. Logo pensei em se tratar de mais uma das tantas igrejas anglicanas da cidade. Mas não, era uma igreja católica ucraniana cujo nome é Catedral Católica Ucraniana da Sagrada Família de Londres.

          O edifício se chama King's Weigh House Chapel e seu nome está estampado na parede lateral junto à Binney Street, uma das ruas transversais à Bond Street. Logo na entrada da nave da igreja, cujas portas estão voltadas à Duke Street, temos dois pequenos painéis (1) explicando a origem da construção até sua posse pelos imigrantes católicos ucranianos na segunda metade do século XX.

          Apesar de compartilhar da harmonia dos edifícios daquela porção de Mayfair, construídos com tijolos que dão o aspecto avermelhado do local, a construção se destaca pela robusta torre com o campanário e a já mencionada porção ovalada que abriga a nave da igreja. 

          O desenho é do prestigiado arquiteto Alfred Waterhouse (1830 - 1905), autor de diversas obras belas e originais, com destaque ao Museu de História Natural de Londres. Segundo o projeto British History Online (BHO) (2), que descreve em detalhes a origem da igreja em Mayfair, seu "estilo, uma variante do romanesco carolíngio que Waterhouse gostava, combina particularmente com tijolo vermelho rosado e abundantes revestimentos de terracota". Esse perfil integra perfeitamente a obra junto às elegantes construções da Duke Street e seu entorno.

          Segundo os painéis da entrada, a igreja tem origem na chamada Capela Livre - livre da jurisdição episcopal - fundada pela então Rainha Matilda (1102 - 1167) e localizada nas imediações da Torres de Londres, o principal edifício da cidade na época. 

          A situação se manteve estável até 1662, quando o Reio Carlos II (1630 - 1685) decretou o Ato de Uniformidade (3) estabelecendo reformas na Igreja da Inglaterra, então já separada da Igreja Católica, com base no Book of Common Prayer e atrelando-a mais fortemente ao Estado. Uma grande parte da congregação não aceitou as reformas do governo e se separou da Igreja da Inglaterra. Mais de dois mil sacerdotes saíram ou foram expulsos da Igreja num evento conhecido como Grande Expulsão (4) e compuseram um grupo de religiosos que mais tarde seriam chamados de não-conformistas. 

          Aqueles que viriam a fundar a nova congregação se estabeleceram em Cornhill, onde na época se localizava o King's Beam (5) - Barra ou Trave do Rei - utilizado para pesar os produtos que entravam na cidade Londres. Daí a origem do nome da congregação, que passou a se chamar King's Weigh House no final do século XVI e ocupou vários locais pela cidade até se estabelecer num igreja na Fish Street Hill, próximo ao Monumento ao Grande Incêndio de 1666. 

          No final do século XIX, começaram a surgir os planos (6) que dariam origem à atual igreja na Mayfair. Um projeto de lei local de 1864 propunha a compra do espaço utilizado pela King's, situação que se arrastou até 1883, quando a congregação foi forçada a deixar a igreja na  Fish Street Hill para a construção do primeiro edifício da Monument Station. O período coincidiu com o drama de outra congregação religiosa em Londres, a da Robert Street (atual Weigghouse St.), que possuía uma capela na Duke Street mas que seria demolida em 1886 para a construção de habitações. Esta também buscava um novo espaço para seus serviços religiosos. 

          O ministro responsável pela pequena congregação da Robert Street conseguiu um novo terreno no atual local da King's Weigh House junto ao Hugh Lupus Grosvenor (1825 - 1889), 1º Duque de Westminster, que ofereceu o arrendamento do terreno por um preço muito baixo. Segundo o BHO, o Duque era bastante "generoso em relação às instituições religiosas de todo o tipo". O projeto para uma nova igreja foi escolhido através de uma competição. O desenho do arquiteto australiano John Sulman (1849 - 1934), de estilo gótico, previa um espaço para mil pessoas, mas era caro e não poderia ser bancado pelo grupo.

          No início de 1887, a congregação da King's tomou conhecimento do caso do grupo da Robert Street. Com a saída forçada da Fish Street Hill, o grupo recebeu larga quantia da Metropolitan and Distritc Railways Companies e poderia ajudar no pagamento da obra. Havia quatro anos que realizava seus serviços no Hotel Cannon Street Station, que existia junto à estação do mesmo nome. Logo em seguida, ambas as congregações formaram um comitê para realizar o empreendimento.

          Esse comitê escolheu, em abril de 1888, o arquiteto Alfred Waterhouse para desenhar o novo edifício. A documentação disponível no BHO caracteriza Waterhouse como alguém com "rigor, clareza e domínio do plano" em seu trabalho. Sob orientações também do Duque, que conhecia o arquiteto e concedeu arrendamento de noventa e nove anos do terreno para a obra, os trabalhos começaram no verão de 1889 e terminaram em julho de 1891, quando foi realizado o primeiro Concílio Congregacional Internacional na nova casa. Tanto a congregação da King's Weigh House como a Robert Street passaram a utilizar o local, mas logo o segundo grupo foi absorvido pelo primeiro.

          Já foi mencionada aqui a beleza da igreja de Mayfair. Sua entrada pela Duke Street é dividia em três arcadas sobre uma curta escadaria que a liga à calçada. Na fachada, à esquerda, há um segundo piso e uma torre discreta para ventilação e, à direita, a torre principal na esquina com a Weigghouse Street. Esta ergue-se acima de nave ovalada da igreja e pouco acima dos edifícios do entorno com um campanário, telhado pontiagudo e uma discreta cruz branca em seu cume. Ao exemplo da foto acima, sua faixada pode ser contemplada do Brown Hart Gardens (7), construído em estilo barroco em 1903-5, junto com os edifícios de tijolos vermelhos (8) erguidos em 1886-8 como habitações para a classe trabalhadora das indústrias de Londres.

          Nas ruas lateral e detrás da igreja, Weighhouse Street e Binney Street, respectivamente, o edifício se projeta com vitrais duplos (9) inspirados no movimento Arts and Crafts dispostos numa arcada, havendo na segunda rua uma placa de pedras brancas com a inscrição "King's Weigh House Chapel. These buildings were erected in the yeard 1891 for the worship and service of God". Acima, destaca-se a nave ovalada da igreja cercada parcialmente por vitrais compridos na vertical e coberto por telhas marrom-escuro. Na sequência da Binney Street estão as salas de aula com um hall no andar superior e a casa do ministro da congregação construídos com o mesmo material da igreja, mas distribuídos de forma irregular com três andares e amplas janelas para a rua.

          No interior, o edifício chama a atenção pelo revestimento em madeira e a luminosidade escassa. Há um forte senso de isolamento em relação ao ambiente externo. Modificada para o rito greco-católico ucraniano, há uma iconóstase que separa a nave onde ficam os fiéis e o santuário (altar) reservado ao clero. Nos ícones - os que consegui identificar - estão São Nicolau na ponta esquerda e São João Batista na direita, Mãe de Deus e Jesus Cristo junto à porta central; acima episódios centrais da vida de Cristo com os Doze Apóstolos numa faixa superior, e no arco da porta a Santa Ceia encimada com Cristo no trono acompanhado por Maria e José. O ícone da Sagrada Família, que dá nome à catedral, estava colocada junto à mesa à frente da porta para contemplação dos fiéis.

          No andar superior, há belíssima arcada de madeira em estilo clássico italiano na altura. Seu formato de elipse acompanha a nave da igreja e fecha-se com os ícones na parte superior da iconóstase dando sensação de aconchego e embelezamento. O formato representa o perfil congregacional original de uma igreja protestante. Vitrais intercalados com ícones de santos venerados pelo cristianismo oriental compõe a parede do andar citado completado pelo teto verde-escuro suspenso por uma arcada em madeira, tendo ao seu centro um destacado lustre metálico banhado a ouro.

          Mas para chegar a este perfil na decoração interior e estar sob posse de greco-católicos ucranianos, a King's Weigh House passou por muitas transformações físicas e organizacionais ao longo do século XX. Um grande órgão, que inicialmente ficava na porção leste - onde hoje está o altar - foi colocado na porção oposta em duas extremidades a partir de 1903, além de novas decorações com estátuas e vitrais. Desde então, porém, a congregação declinou até a chegada do ministro presbiteriano escocês William Edwin Orchard (1877 - 1955).

          Orchard (10) foi um marco na história da King's Wieigh House. Era considerado "socialista, pacifista e simpatizante católico", segundo a documentação do BHO, além de líder do grupo ecumênico Sociedade dos Católicos Livres. Chegou à King's como ministro no verão de 1914 e introduziu elementos católicos e de tradições cristãs reformadas no culto, como o uso do incenso e do sacrário. Bastante persuasivo, houve um aumento de fiéis na congregação tanto pelo seu discurso pacifista - sua chegada ocorreu durante a I Guerra Mundial - quanto pelos elementos católicos que introduziu na prática devocional. 

          Em 1919, Orchard publicou um livro que compilava o serviço de culto utilizado na igreja contendo elementos do Book of Common Prayer (anglicano), do missal romano e das liturgias cristãs orientais. Após a morte de sua esposa Annie, em 1920, ele se aprofundou na tradição católica e tentou fazer da King's Weigh House uma espécie de "igreja ponte" entre os ramos católico e protestante. Serviços, música, culto, vestimentas e práticas sacramentais se tornaram cada vez mais católicas. Em 1926, uma nova versão do livro publicado sete anos antes também trazia mais elementos dessa tradição. Mas em 1931, após anos de negociações, a tentativa de unir os grupos católico e protestante na igreja de Mayfair falharam, e Orchard, em crise pessoal, deixou a King's no início de 1932, e parte da congregação o seguiu. Em 2 de junho daquele ano foi batizado na Igreja Católica, em Roma, onde se tornou sacerdote em 1935.

          A principal das poucas alterações físicas que o marcante ministro ecumênico deixou na igreja de Mayfair foi o retábulo de madeira no altar. Após sua partida, a congregação declinou bastante ao longo dos anos 1930. 

          Em 20 de outubro de 1940, a King's Weigh House foi severamente danificada após ser atingida por uma bomba lançada por bombardeiros alemães na II Guerra Mundial. O ataque ocorreu durante um serviço religioso e matou a esposa do então ministro da congregação. Ainda assim, o edifício sobreviveu às demais investidas bélicas que, ao exemplo do ataque de 29 de dezembro do mesmo ano, destruiu um terço da City de Londres e arrasou por completo uma área próxima à Catedral São Paulo. Durante o conflito, a igreja se tornou centro de observação de incêndios e local de acolhimento.

          Apenas um pequeno grupo realizava as atividades quando, em 1946, a congregação recebeu a Constance Coltman, a primeira mulher ordenada ministra no Reino Unido. A ordenação foi realizada por Ochard ainda protestante em 17 de setembro de 1917 na própria King's. Constance tinha por objetivo reavivar a igreja e ficou no local até 1949. 

          Com o tempo, a congregação foi declinando. Apenas em 1953 o edifício foi totalmente reformado e reaberto. O local era frequentemente alugado para outros serviços e reuniões de propósitos variados. Também serviu por vários anos como capela protestante para os membros da marinha americana posicionados em Londres até ser fechada por tempo indeterminado.

           A King's Weigh House ficou inutilizada e chegou a acumular poeira. Em 1965, a congregação se fundiu à Whitefield Memorial Road, da Tottenham Court Road, e se dissolveu (11) de forma definitiva no ano seguinte.

          O próximo grupo religioso a utilizar o local seria o de católicos ucranianos, que estabeleceram ali sua catedral existente até hoje. Mas como um grupo estrangeiro - e católico - tomou posse da King's?

          Após a II Guerra Mundial (12). batalhões britânicos compostos por ucranianos e refugiados espalhados pela Europa Oriental se estabeleceram no Reino Unido. Entre 1946 e 1950, até 35.000 ucranianos chegaram ao país, e na metade da década de 1950 até 10.000 saíram para outras regiões da Europa e América do Norte. Parte significativa daqueles que se estabeleceram definitivamente em terras britânicas eram católicos de rito oriental.

          Nesse meio tempo, a Igreja Católica Ucraniana (13) foi registrada como instituição de caridade de acordo com as leis britânicas em 9 de julho de 1965. Mas sua criação efetiva ocorreu antes, em 10 de junho de 1957, quando a Santa Sé erigiu o Exarcado Apostólico para Católicos Ucranianos do Rito Bizantino (14) com o objetivo de organizar sua missão na Inglaterra e no País de Gales. Três anos mais tarde, em 12 de maio de 1968, a missão do exarcado foi estendida à Escócia transformando-se no Exarcado Apostólicos para os Católicos Ucranianos no Reino Unido conforme decreto estabelecido em março do ano anterior.

          A essa altura, a organização ainda não possuía estrutura para uma eparquia em todo o país e estava sob comando, inicialmente, do Arcebispo de Westminster, William Godfrey (1889 - 1963) - bispo de rito latino - que liderava todos os católicos no território britânico. Apenas após sua sua morte em 1963, seu bispo auxiliar, Augustine Hornyak (1919 - 2003) - este sim do rito greco-católico - foi apontado como exarca da organização.

          A aquisição da King's Weigh House (15) ocorreu em 26 de outubro de 1967 após uma campanha difícil de arrecadação. Até então, a Igreja Ucraniana possuía dezessete paróquias, mas não uma catedral. A primeira igreja ucraniana no Reino Unido foi a de Saffron Hill, em Londres, adquirida em julho de 1948, consagrada em dezembro do mesmo ano, mas vendida como parte do esforço da campanha de fundos.

        Ao exemplo das demais paróquias, o edifício foi adaptado ao rito greco-católico. No lugar do púlpito protestante foi construído o altar e a já mencionada iconóstase (16) - objeto característico do cristianismo ortodoxo dos qual os greco-católicos são herdeiros - pintada pelo monge ucraniano Juvenalij Mokrystky (17) e instalada apenas em 1980; o órgão e a bancada foram retirados; os bancos da nave substituídos por cadeiras e foram colocados confessionários desenhados pelo arquiteto John Francis Bentley (1839 - 1902) de acordo com o modelo da Catedral de Westminster, em Londres. Bentley ganhou notoriedade pelo desenho neo-bizantino dessa mesma catedral católica.

          A inauguração da nova King's ocorreu num sábado, 29 de junho de 1968, numa celebração liderada pelo bispo Hornyak e recebeu o nome de Catedral Católica Ucraniana da Sagrada Família no Exílio. O nome deriva da Carta Apostólica Exsul Familia Nazarethana (18), de 1º de janeiro de 1952, onde o Papa Pio XII se compromete em proteger católicos exilados como os ucranianos e restaurar a hierarquia da Igreja. 

          Até hoje a igreja se mantém em uso contínuo, com altos e baixos nas atividades. Na década de 1970, um conflito entre Hornyak e o arcebispo da Igreja Greco-Católica Ucraniana - chamado de patriarca - Josyf Slipyj (1892 - 1984) levou ao enfraquecimento da comunidade e a uma grande redução do número de fiéis, que por um período não passavam de apenas trinta pessoas nas celebrações. Uma das consequências disso foi o adiamento da instalação da iconóstase, dada a diminuição dos recursos disponíveis. Ao longo da década de 1980, porém, a comunidade se recuperou, e a iconóstase foi instalada. Na década seguinte, uma nova leva de imigrantes ucranianos chegou ao Reino Unido vinda da agora Ucrânia independente. Nos anos 2000, a estimativa (19) era de que em torno de cem mil pessoas se consideravam ucranianas ou possuíam cidadania desse país.

          Apenas por um breve período a King's deixou de ser utilizada. Em 13 de agosto de 2007, parte de seu teto da igreja desabou (20). Durante meses os serviços foram realizados no hall ao lado da nave e na Igreja da Imaculada Conceição, também em Mayfair, dirigida pelos jesuítas. Nessa época, a Igreja Ucraniana estava sem um exarca, que foi apontado apenas em 2 de agosto de 2011 após seis anos e meio de sede vacante. O então administrador do exarcado, bispo Hlib Lonchyna, assumiu o cargo.

          Em 8 de janeiro de 2013, o Papa Bento XVI elevou o exarcado à categoria de eparquia - equivalente à diocese no rito latino -, que recebeu o nome de Eparquia Católica Ucraniana da Sagrada Família de Londres, sem a denominação "no Exílio", e Lonchyna tornou-se eparca.

          Contemplando o interior da igreja por mais de quarenta minutos, pude não apenar relaxar por um tempo, mas absorver, com muito pouca consciência de tudo o que foi contado aqui, da história do lugar, agora reavivado por acontecimentos muito recentes.

          Logo que havia entrado no edifício chamou minha atenção duas bandeiras à direita de quem está de frente ao altar, uma da Ucrânia e outra do Reino Unido. Imediatamente lembrei da corrente guerra na Ucrânia e pensei em se tratar da demonstração do vínculo entre a comunidade local e seu país de origem como sinal de apoio e presença distante. A guerra havia iniciado quase um ano antes da minha visita, e não pude deixar de imaginar o que os frequentadores da catedral estavam vivenciando. 

          A comunidade se tornou centro de atenção tanto da imprensa local como das autoridades políticas. Três dias após o início da guerra, o então primeiro-ministro britânico Boris Johnson - ele mesmo católico - apareceu de surpresa numa celebração religiosa pela paz na Ucrânia (21). Johnson voltou ao local - agora fora do cargo - em nova celebração pela paz, quando o conflito completou um ano, e onde também compareceu o prefeito de Londres, Sadiq Khan (22).

          Minha visita ocorrera dez dias antes desse último evento, e durante todo o tempo que estive ali nem uma pessoa sequer apareceu. O silêncio era tão marcante que parecia que as almas tivessem desaparecido em lamúria e desânimo ou se recolhido para um local misterioso. O ambiente era de paz completa, em contraste com o que viva a terra de origem dos membros dessa comunidade de Londres

          No primeiro piso à esquerda havia a lembrança de outro acontecimento recente. Uma placa dourada lembrando a visita do Rei Carlos III, filho da recém falecida Elizabeth II, em 30 de novembro do ano passado. A inscrição comemorava os setenta e cinco anos do estabelecimento da Igreja Católica Ucraniana no Reino Unido. Chamou minha atenção que a visita ocorrera fora da data exata deste aniversário - no mês de fevereiro -, e especulei que talvez Carlos estivesse lá para deixar seu apoio aos ucranianos, se situar num conflito em andamento e se destacar frente ao legado de sua mãe, pretensamente neutras em questões políticas. 

          Divagações à parte, a Catedral da Sagrada Família de Londres é um local de história complexa e muito viva, onde altos e baixos convivem ao longo do tempo. Ela não é apenas espaço de busca pela paz que encontrei naquele local interiormente discreto, belo e silencioso onde se revive regularmente o sacrifício de Cristo, mas agora, mais do que nunca, é espaço de preservação e consolidação de uma identidade religiosa e nacional sob ameaça de destruição. 

          Com a guerra em andamento os corações se agitam no outro extremo da Europa, e dada a vitalidade, agora renovada, de uma igreja sob ameaça, os tijolos vermelhos da King's Weigh House ainda terão muita coisa para testemunhar no futuro. 

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Imagens


                       Inscrição com o nome original da igreja na parede voltada à Binney Street.

King's Weigh House vista da esquina da Weighhouse Street com a Binney Street.

        

     Fachada da King's Weigh House na Duke Street.                  Nave da igreja.

Iconóstase.

            

Lustre da nave.



Arcada de madeira em estilo italiano no andar superior.



Novamente o andar superior, agora com as luzes acessas. Imagens de santos católicos orientais na parede entre as janelas.


               Ícone da Sagrada Família sobre o altar.       Vitral de janela inspirada no Arts and Crafts.



Placa comemorativa da visita do Rei Carlos III em 30 de novembro de 2022.

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Referências

1) Brief history of our cathedral (Ukrainian Catholic Eparchy of the Holy Family of London). Disponível em: https://www.ucc-gb.com/cathedralhistory. Acesso em 14 de março de 2023.

2) Duke Street Area: Duke Street, East Side (BHO | British History Online). Disponível em: https://www.british-history.ac.uk/survey-london/vol40/pt2/pp87-91#h3-0003. Acesso em 14 de março de 2023.

3) Charles II, 1662: An Act for the Uniformity of Publique Prayers and Administrac[i]on of Sacraments & other Rites & Ceremonies and for establishing the For of making ordaining and consecrating Bishops Preists and Deacons in the Church of England (BHO | British History Online). Disponível em: https://www.british-history.ac.uk/statutes-realm/vol5/pp364-370. Acesso em 15 de março de 2023.

4) The Great Ejection: An Appreciation of the Ejected 350 Years Later (Stive K. Mittwede). Disponível em: https://www.academia.edu/24346080/The_Great_Ejection_An_Appreciation_of_the_Ejected_350_Years_Later. Acesso em 15 de março de 2023.

5) "The King's Beam" (Exeter Memories). Disponível em: http://www.exetermemories.co.uk/em/_art/kingsbeam.php. Acesso em 16 de março de 2023.

6) Duke Street Area: Duke Street, East Side (BHO | British History Online). Disponível em: https://www.british-history.ac.uk/survey-london/vol40/pt2/pp87-91#h3-0003. Acesso em 14 de março de 2023.

7) Duke Street Area: Duke Street, West Side (BHO | British History Online). Disponível em: https://www.british-history.ac.uk/survey-london/vol40/pt2/pp91-92. Acesso em 14 de março de 2023.

8) Duke Street Area: Introduction (BHO | British History Online). Disponível em: https://www.british-history.ac.uk/survey-london/vol40/pt2/pp86-87. Acesso em 14 de março de 2023.

9) King's Weigh House Chapel by Alfred Waterhouse (Jacqueline Banerjee). The Victorian Era. Disponível em: https://victorianweb.org/art/architecture/waterhouse/3.html. Acesso em 14 de março de 2023.

10) Orchard, William Edwin (1877 - 1955) (Elaine Kaye). Oxford Dictionary of National Biography. Disponível em: https://www.oxforddnb.com/display/10.1093/ref:odnb/9780198614128.001.0001/odnb-9780198614128-e-75389. Acesso em 16 de março de 2023.

11) The History of the King's Weigh House Church: a Charpter in the History of London. By Elaine Kaye. Pp 176. London: Allen & Unwin. 1968, 21s. (B. R. White). The Journal of Eclesiastical History. Disponível em: https://www.cambridge.org/core/journals/journal-of-ecclesiastical-history/article/abs/history-of-the-kings-weigh-house-church-a-chapter-in-the-history-of-london-by-elaine-kaye-pp-176-london-allen-unwin-1968-21s/2B8424C88E4BE54B007E3F9853F427B0. Acesso em 17 de março de 2023.

12) Ukrainians in the United Kingdom. (Roman Kravec). Ukrainians in the United Kingdom. Online encyclopaedia. Disponível em: https://www.ukrainiansintheuk.info/eng/01/ukrinuk-e.htm. Acesso em 18 de março de 2023.

13) About the Eparchy. (Ukrainian Catholic Eparchy of the Holy Family of London). Disponível em: https://www.ucc-gb.com/about. Acesso em 14 de março de 2023.

14) Brief history of our cathedral. (Ukrainian Catholic Eparchy of the Holy Family of London). Disponível em: https://www.ucc-gb.com/cathedralhistory. Acesso em 14 de março de 2023.

15) "In Exile No Longer": Holy Family Cathedral Celebrates 50 Years (Rev. Dr. Athanasius McVay). Annales Ecclesiae Ucrainae. Disponível em: https://annalesecclesiaeucrainae.blogspot.com/2018/06/in-exile-no-longer-holy-family.html. Acesso em 21 de março de 2023.

16) Cathedral Church of the Holy Family. (Latin Mass Society). Disponível em: https://issuu.com/latinmasssociety/docs/moa_summer_2022_final/s/15826372. Acesso em 21 de março de 2023.

17) About the Parish. (Roman Catholic Parish of Ukrainian Cathedral). Disponível em: https://issuu.com/latinmasssociety/docs/moa_summer_2022_final/s/15826372. Acesso em 21 de março de 2023.

18) Exsul Familia Nazarethana. (Pope Pius XII). Papal Encyclicals Online. Disponível em: https://www.papalencyclicals.net/Pius12/p12exsul.htm. Acesso em 22 de março de 2023.

19) Immigration from Ukraine since 1991. (Roman Kravec) Ukrainians in the United Kingdom. Online encyclopaedia. Disponível em: https://www.ukrainiansintheuk.info/eng/01/immig1991-e.htm. Acesso em 21 de março de 2023.

20) Cathedral collapse sparks exodus. (BBC News). Disponível em: http://news.bbc.co.uk/2/hi/uk_news/england/london/6957015.stm. Acesso em 21 de março de 2023.

21) Boris Johnson lifts spirits at Ukrainian church (Reaction). Disponível em: https://reaction.life/boris-johnson-lifts-spirits-at-ukrainian-church/. Acesso em 22 de março de 2023.

22) London: Mayor Sadiq Khan, Boris Johnson, attend prayer service on anniversary of Ukraine invasion. (Jo Siedlecka). ICN. Independet catholic news. Disponível em: https://www.indcatholicnews.com/news/46622. Acesso em 25 de março de 2023.

Livros

ACROYD, Peter. London. The Concise Biography. Vintage, London. 2012

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Ratio Studiorum. O pó de ouro dos jesuítas


          Numa época em que as pessoas tanto falam em educação, que governos e organizações traçam grandes planos pedagógicos a nível nacional e que meios de comunicação exortam a todos que contribuam para seu desenvolvimento, passa completamente esquecido aquele que foi, talvez, o maior plano educacional de todos os tempos. Provavelmente não só o maior, mas também o mais bem-sucedido em seus frutos, espalhados pelos quatro cantos do mundo.

          Estou falando da Organização e Plano de Estudos da Companhia de Jesus, conhecido como Ratio Studiorum – resumo de seu nome latino, Ratio atque Institutio Studiorum Societatis Iesu – organizado e compilado definitivamente em 1599 após uma série de experiências pedagógicas de dezenas de colégios que a Companhia possuía na Europa e no mundo.

          Foram em torno de cinquenta anos entre a fundação do primeiro colégio jesuíta plenamente organizado em Messina, em agosto de 1548, até a Ratio de 1599, tempo que abrangeu não apenas a larga experiência pedagógica acumulada em diversos locais do mundo, como também sintetizou aquilo que era considerado o mais belo e perfeito tanto para a educação quanto para a salvação das almas e a glorificação de Deus.

          Através de comissões designadas por Santo Inácio de Loyola e seus primeiros sucessores e colaboradores, como os padres Jerónimo Nadal, Diogo Ledesma e Cláudio Aquaviva, uma série de estudiosos extremamente sábios, eruditos e piedosos se empenharam em compor um plano pedagógico que incorporou o pensamento clássico de Grécia e Roma, com destaque à filosofia e à retórica, a filosofia medieval, particularmente a escolástica e o método disputatio da Universidade de Paris, e a cultura renascentista alinhando essa magnífica herança com a revelação e a tradição cristã emanadas das Sagradas Escrituras.

          A seleção não era aleatória e baseada unicamente na experiência pois, como afirmado, ela se fundamentava na fé católica e de seus valores derivados. A pedagogia visava o desenvolvimento integral dos alunos, valorizando primeiramente a linguagem e a capacidade de expressão, ao exemplo do estudo dos gramáticos e retóricos da Antiguidade – literatos pagãos não apenas eram utilizados como também muito bem-vindos nos estudos devido à eficácia de seus ensinamentos e o bem que resultava para o crescimento pessoal -, seguido por todo o conhecimento histórico, cultural e mesmo de ciências experimentais. Cumprida essa longa e paulatina trajetória, o aluno possuía pleno domínio da linguagem e estava apto a se empenhar na Filosofia e na Teologia, consideradas as ciências mais elevadas no mundo ocidental.

          A concepção de desenvolvimento integral da pessoa transcendia, e muito, a definição limitada de homem para os pagãos ou de cidadão para a sociedade moderna, pois sua visão se baseava no homem como filho de Deus, cuja origem e destino são a eternidade. Isso implicava que o conhecimento e a reta educação fossem meios de contemplação da Criação divina e uso dos dons por Ele inculcados em cada um de nós. Como lembra o Pe. Leonel Franca, citando o Papa Pio XI, a pedagogia cristã visa o “homem sobrenatural que pensa, julga e opera constante e coerentemente, segundo a reta razão iluminada pela luz sobrenatural dos exemplos e da doutrina de Cristo; ou, por outras palavras, é o verdadeiro e o perfeito homem de caráter”.

          A impressionante disseminação das escolas jesuítas pela Europa e o mundo mostra não apenas o empenho, mas a validade e a eficiência do que se propunha. Quando promulgada a Ratio Studiorum em 1599, a Companhia de Jesus possuía 245 colégios; em 1773, ano que a Igreja Católica suprimiu a Ordem por pressão política, eram 865 estabelecimentos de ensino em todo o mundo, a maioria colégios, com milhares de alunos e uma tradição educacional consolidada e reconhecida, inclusive pelos críticos dos jesuítas e da Igreja.

          Talvez alguns dissessem que a pedagogia jesuíta fora por demais “humanista” ou “contaminada” pela mentalidade moderna com a chegada dos século XIX, XX e XXI particularmente pela ascensão da ciência moderna e a ingerência dos Estados-nacionais em seus currículos. Santo Inácio já previa que os colégios da Companhia deveriam se adaptar às regionalidades e necessidades, práticas e legais, onde atuassem. Apesar dos percalços e mesmo perseguições, a simples existência de um legado histórico e cultural, principalmente em regiões em que a cristianização e a educação jesuítas foram determinantes na formação e coesão de sociedades inteiras, como no Brasil, mostra que esse empreendimento não é apenas valoroso como concretamente verdadeiro. Em algum grau, os jesuítas alcançaram o ideal almejado. 

          Se hoje notamos a destruição do que há de mais elevado, certamente uma das razões foi o esquecimento, por parte da esmagadora maioria dos educadores e professores, desse pó de ouro depositado no fundo do baú que é a Ratio Studiorum. O que foi válido no passado também o é para o presente e o futuro, pois o fundamento sobre o qual se fincou esse grande empreendimento pedagógico da Companhia é eterno. Suas propostas visavam o homem sobrenatural, que não muda com a mudança dos tempos.

 

Fonte:

FRANCA, Leonel S. J. O Método Pedagógico dos Jesuítas. Ratio Studiorum. Edições Hugo de São Vítor. Porto Alegre, 2019.   


As origens pouco glamorosas do Leste de Londres

 

(Leytonstone Road em Stratford, Leste de Londres. Agosto de 2022.)


(Trecho inicial do capítulo The stinkin pile do livro London. The Concise Biography
de Peter Ackroyd.) 

          Tem sido frequentemente sugerido que o East End é uma criação do século XIX; certamente a frase em si não foi inventada até a década de 1880. Mas na verdade o East End sempre existiu como uma entidade distinta e separada. A área de Tower Hamlets, Limehouse e Bow se localiza numa faixa separada de cascalho, a dos cascalhos de Flood Plain que foi criada durante a última erupção glacial em torno de 15.000 anos atrás. Se essa longevidade desempenhou algum papel na criação da atmosfera única do East End talvez esteja em aberto, mas a importância simbólica do leste versus oeste não deve ser ignorada em qualquer análise do que se tornou conhecido no final do século XIX como "o abismo".

          Há uma característica interessante e significativa da zona leste que sugere uma tradição viva que remonta ao tempo dos romanos. No final do século XIX e início do XX foi encontrado evidência de uma grande "muralha" que corre ao longo da porção oriental do Tâmisa, descendo a margem do rio e ao longo das margens do Essex, para proteger as terras das depredações dos rios de maré; era constituído de bancos de madeira e terraplanagem. No fim do muro em Essex, próximo à área conhecida hoje como Bradwell Waterside - que pode plausivelmente ser traduzido, mesmo após dois mil anos de mudanças, como Broad Wall - foram descobertas terraplanagens de uma fortaleza romana bem como as ruínas de uma capela posterior, St. Peter-on-the-Wall, que se tornou um celeiro. Outros antiquários locais também encontraram pequenas igrejas ou capelas ao lado do que poderia ser chamada esta grande muralha oriental. Mantendo a água na baía e ajudando a drenar o pântano das áreas ao leste, se criou o East End ou o lado negro de Londres. Toda cidade deve ter um. 

          E onde começa o "East"? De acordo com certas autoridades urbanas o ponto de transição é marcado pelo Aldgate Pump, uma fonte de pedra construída ao lado do poço na confluência da Fenchurch Street com a Leadenhall Street; a bomba existente se localiza a poucos metros a oeste da original. Outros antiquários argumentam que o verdadeiro East End começa no ponto onde a Whitechapel Road e a Commercial Road se encontram. A mancha de pobreza, já aparente no fim do período medieval, de qualquer forma se estendeu gradualmente. Stow (1) observou que entre 1550 e 1590 havia "uma rua ou passagem estreita imunda contínua com becos de pequenos cortiços ou cabanas construídos... quase até Ratcliffe." Um relato de 1665 descrevia a superlotação criada por "pobres indigentes e pessoas ociosas e relaxadas". Portanto, as "cabanas imundas" do relato de Stow estavam cheias de pessoas "imundas". É a história de Londres.

          As indústrias do bairro leste gradualmente se tornaram imundas também. Muito de seu tráfico e comércio vinha do rio, mas no curso do século XVII a região se tornou cada vez mais industrializada. O "Easterly Pyle" (2) se tornou lar do que ficou conhecido como "as indústrias de fedor"; representava o foco do medo de Londres à corrupção e à doença. Portanto, o voo para o oeste continuou. A partir do século XVII o traçado das ruas e praças se moveu inexoravelmente naquela direção; os ricos, os bem-nascidos e os elegantes insistiram em morar no que Nash (2) chamou "as respeitáveis ruas do extremo oeste da cidade". 

          Tem sido observado que o West End tem o dinheiro e o East End tem a sujeira; há lazer para o Oeste e trabalho no Leste (3). Ainda nas primeiras décadas do século XIX, o East End não era apontado como sendo a mais terrível fonte de pobreza e violência. Era conhecido principalmente como o centro da navegação e da indústria e, portanto, lar dos trabalhadores pobres. Mas a indústria e a pobreza se intensificaram constantemente; tinturarias e químicas, fábricas de adubo e fábricas de fumo negro, fabricantes de cola e de parafina, produtores de tinta e farinha de osso, todos agrupados em Bow, Old Ford e Stratford. O Rio Lea foi por séculos o local da indústria e do transporte, mas ao longo do século XIX foi ainda mais explorado e degradado. Uma fábrica de fósforos na sua margem dava à água um gosto e aparência de urina, enquanto que o cheiro em toda a área se tornava desagradável. Toda a sujeira de Londres rastejou para o leste.  

     Mas então, em algum ponto da década de 1880, alcançou o que poderia ser chamado de massa crítica. Ele implodiu. O East End se tornou "o abismo" ou "o mundo inferior" de estranhos segredos e desejos. Era a área de Londres na qual se amontoavam mais pessoas pobres do que qualquer outra, e dessa congregação de pobreza surgiram relatos de maldade e imoralidade, selvageria e vício inominável.

(Atual marco da Aldgate Pump. Fenchurch St ao fundo e Leadenhall St no primeiro plano. Setembro de 2022. )

(1) John Stow (1525-1605), historiador e antiquário de Londres. 

(2) Um dos nomes dado ao East End. "Pyle" faz referência a um amontoado em grande quantidade.

(3) O autor utiliza os nomes "West" e "East" como trocadilhos dos pontos cardeais.



 

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Londres. O nascimento da Babilônia imperial


(Edifícios neoclássicos da Era Vitoriana na Regent Street. Agosto de 2022.)

(Trecho inicial do capítulo How many miles do Babylon? do livro London. The Concise Biography, de Peter Ackroyd.)

          Em torno da metade da década de 1840, Londres tinha se tornado conhecida como a maior cidade da Terra, a capital do império, o centro internacional de comércio e finanças, um vasto mercado mundial dentro do qual o mundo se derramava. Em fotografias e desenhos contemporâneos as imagens mais marcantes são as do trabalho e sofrimento. Mulheres sentadas e curvadas com seus braços cruzados; uma família de mendigos dorme sobre bancos de pedra debaixo de uma ponte com o contorno escuro da Catedral de São Paulo aparecendo detrás deles. Como Blanchard Jerrold (1) colocou: "Os velhos, os órfãos, os coxos e os cegos de Londres encheriam uma cidade comum." Essa é uma concepção estranha, uma cidade inteiramente composta por mutilados e feridos. Mas isso é, em parte, o que Londres era. Também o número de crianças e vagabundos sentados resignadamente na rua é infinito; infinitos são também os vendedores de rua, geralmente retratados contra um fundo maçante de tijolo ou pedra.

          Os interiores pobres da cidade vitoriana geralmente são crepusculares e imundos com trapos pendurados entre lâmpadas de sebo fétidas; muitos dos habitantes parecem não ter rostos, uma vez que estão voltados para a sombra, e em torno deles vigas de madeira dilapidadas e escadarias numa confusão maluca. Muitos, ao ar livre e dentro de casa, parecem encurvados e pequenos como se o próprio peso da cidade os tivesse esmagado. Há ainda um outro aspecto da cidade vitoriana que as fotografias e imagens evocam: de vastas inumeráveis multidões, as ruas cheias de vida fervilhante e combatente, a grande inspiração para o trabalho de mitógrafos do século XIX como Marx e Darwin. Há também lampejos de sentimentos - piedade, raiva e ternura - a serem observados ao passar dos rostos. E ao redor deles pode ser imaginado um ruído forte e permanente como um grito interminável. Essa é a Londres vitoriana.  

          "Londres vitoriana" é, obviamente, um termo genérico para uma sequência de mudanças de padrão de vida urbana. Nas primeiras décadas do século XIX, por exemplo, ainda se mantiveram muitas das características dos últimos anos do século anterior. Ainda era uma cidade compactada. Ainda era apenas parcialmente iluminada por gás, e a maioria das ruas eram clareadas por poucas lamparinas de óleo com garotos de tocha carregando luzes para escoltar os últimos pedestres para casa; havia mais "Charleys" (2) do que policiais fazendo suas rondas. Ainda era perigoso. Havia plantações de morango em Hammersmith e em Hackney, e as carroças ainda percorriam seu caminho em meio a outro tráfego puxado a cavalo para o Haymarket. Os grandes edifícios públicos, com os quais a base do império logo seria decorada, ainda não tinham surgidos. Os entretenimentos típico também eram aqueles do final do século XVIII com as brigas de cães, as rinhas de galo, o pelourinho e as execuções públicas. Todas as ruas e casas possuíam janelas rebocadas e pintadas como se fossem parte de uma pantomima. Havia ainda mascates ambulantes vendendo literatura popular barata, e cantores de bailes com a última novidade; havia teatros baratos e gráficas exibindo em suas janelas caricaturas que poderiam sempre segurar uma multidão; havia jardins de delícias e cavernas de harmonia (3), salões de bebidas e salões informais e de dança. Era uma cidade excêntrica. Ainda não havia sido padronizada ou submetida às agências vitorianas de uniformidade e propriedade.

          É impossível calcular quando essa transformação ocorreu. Certamente Londres tomou um outro aspecto quando continuou a crescer e se estender por Islington e St. John's Wood no norte; então por Peddington, Bayswater, South Kesington, Lambeth, Clerckenwell, Peckham e todos os pontos da bússola. Se tornou a maior cidade do mundo justamente no momento em que a própria Inglaterra se tornou a primeira sociedade urbanizada do mundo.

          Ela se tornou a cidade do relógio e da velocidade por si só. Se tornou o lar dos motores e da indústria movida a vapor; se tornou a cidade onde as forças eletromagnéticas foram descobertas e divulgadas. Também se tornou o centro da produção em massa, com as forças impessoais de oferta e demanda, lucros e perdas, intervindo entre fornecedor e cliente. No mesmo período negócios e governos eram supervisionados por um vasto exército de funcionários e escriturários que costumavam usar trajes escuros uniformes.

          Era a cidade do nevoeiro e da escuridão mas, também em outro sentido, estava cheia de escuridão. Uma população de um milhão no início do século cresceu para aproximadamente cinco milhões no seu fim. Em 1911, havia crescido para sete milhões. Tudo estava se tornando mais sombrio. Os trajes do homem londrino, como aqueles dos funcionários, mudou de cores variadas e brilhantes para o preto solene da sobrecasaca e da cartola. Se foi, também, a particular graciosidade e cores da cidade do início do século XIX; a simetria decorosa de sua arquitetura georgiana foi substituída pela forma neogótica ou neoclássica imperialista dos edifícios públicos vitorianos. Eles incorporavam o domínio do tempo bem como do espaço. Também nesse contexto emergiu uma Londres que era mais massiva, mais cautelosamente controlada e mais cuidadosamente organizada. A metrópole era muito maior, mas também se tornou mais anônima; era uma cidade mais pública e esplêndida, mas também menos humana. 

          Desse modo, se tornou o clímax, ou a epítome, de todas as cidades imperialistas anteriores. Se tornou Babilônia.


(1) Autor e jornalista inglês. Viveu entre 1826 e 1884.

(2) O termo "Charley" é, possivelmente, uma referência a pessoas solitárias.

(3) Locais públicos, como bares, onde intelectuais londrinos se reuniam.



  

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Praia da Armação, 15 de dezembro de 2021

          Nos seis dias em que fiquei em Florianópolis nesse mês de dezembro, a quarta-feira foi o mais movimentado. Conheci dois locais diferentes do município - Armação e Pântano do Sul - e ainda transitei brevemente por aqueles becos tipicamente nacionais, que na ilha são chamados de servidão.

          Cabe destacar que Floripa tem seis rodovias só para si, as SC's 401, 402, 403, 404, 405 e 406, sendo que a penúltima liga o Campeche ao Pântano do Sul. Se por vezes a pista é estreita e a velocidade é limitada, imagina o que não é num servidão, onde o espelho do carro quase bate nos muros das casas.

          A primeira parada foi na Armação, bairro criado em 1772 com o nome de Armação da Lagoinha, uma referência aos locais de beneficiamento de produtos vindos da pesca da baleia, prática que se espalhou na região a partir de 1730. Chegando ao seu minúsculo centro, damos de cara com uma igreja, a Sant'Ana e São Joaquim, com a inscrição "1772" sobre a porta de entrada. 

          Fiquei um tanto contrariado ao me deparar com a cor vibrante do amarelo recém pintado e a data estampada na fachada. O conjunto não combinava, havia algo de não-espontâneo naquilo. E sua torre, acrescentada ao prédio em 1953, parecia um pouco deslocada para um edifício religioso do século XVIII. Só depois descobri que, apesar de antiga, a tradicional igrejinha não é mais a mesma que fora no passado e nunca fora tombada tendo sofrido diversas intervenções. 

          Na sua frente, outro contraste, o asfalto largo que se abre até a beira da praia e os fios de alta tensão que recortam o limitado visual da igreja. A área aberta, disputada por alguns motoristas ansiosos para estacionar um automóvel - ou largá-lo sem muito critério num momento de emergência - também é arena de manobras ousadas de uma linha de ônibus que, para cumprir a rota, realiza um habilidoso retorno sem deixar marcas nos arredores. 

          A praia larga ao longo da rodovia pela qual havíamos passado uns minutos antes se torna mais estreita na medida em que se aproxima do conjunto de casas do bairro. A areia, farta e macia, se torna mais exígua entre o novo calçadão do bairro e a passarela que dá acesso a Ponta das Campanhas; as águas calmas mantém os vários barcos de pesca flutuando livremente sob a proteção da Ponta; as casas, que ainda lembram suas origens portuguesas, se mesclam com algumas construções mais modernas perfiladas ao longo da linha da praia; e o verdejante Morro do Matadeiro, ao fundo, comprime as construções junto ao oceano fechando o conjunto da obra com sua onipresença. Está formado o cenário perfeito para um refúgio de tranquilidade e paz.

         O dia abafado, depois transformado num cinza mais agradável que começava a tomar o topo do morro com uma neblina, parecia ideal para uma praia - até um grupo de três gurias se colocarem atrás de nós e uma delas, sem o menor pudor, resolver abrir sua vida privada para meia humanidade ouvir. 

          Passando pela passarela que dá acesso a Ponta das Campanhas, encontramos no alto uma imagem que, para minha frustração, não era de Nossa Senhora, mas de Iemanjá. É evidente que a expectativa para alguém apegado à Mãe de Deus era de que uma figura feminina, visível ainda na subida da Ponta, fosse Maria, mas logo percebi, pelo perfil da imagem, o cabelo negro e o tipo de vestimenta que a pessoa representada era alguém parecida com Ela, e não deu outra. Passando ao lado da imagem à beira do rochedo, me deparei com uma oferenda a Iemanjá de alguém que teve o bom senso de deixá-lo numa caixa protegido do vento. No alto do rochedo, a belíssima vista da Praia do Matadeiro, com a enseada arenosa, o pontilhado de surfistas - a praia está voltada ao mar aberto - e a foz do Rio Quincas (ou Rio da Armação) que recebe as águas do Rio Sangradouro e deságua para o mar num leito raso, travessia de acesso à praia vizinha. Se na areia reina - ou deveria reinar - a paz e a tranquilidade, no alto da Ponta das Campanhas a atmosfera é mais profunda, há um convite à contemplação, típica das paisagens amplas que transmitem, por sua vastidão, o senso de eternidade.

          A Armação continuava tranquila ao longo da tarde. Com o horário de almoço totalmente desregulado, com pastéis e caipirinhas aleatórias, entramos num café cuja rua dá acesso à frente da igreja, com o detalhe de que já eram quase quatro horas. O tempo carregado com a umidade vinda do mar desaguou num chuvisqueiro reforçando a percepção de que estávamos num local frio, apesar do ambiente, da cidade e da temperatura dizerem o contrário. E detrás da janela ampla que dava para a rua estreita passaram as escandalosas, ao menos expansivas do que na praia. Seria realmente estranho chamar a atenção no meio da rua. Até mesmo nas praias brasileiras as coisas têm limite.

          Com os bancos molhados e sujos pela areia deixados para trás, seguimos aos extremo-sul da ilha, na Praia do Pântano do Sul.

           

            

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Dia 12 de outubro de 2021

          Minhas mais recentes postagens neste blog foram inspiradas em dois livros da escritora bielorrusa e Nobel de Literatura de 2015, Svetlana Aleksiévitch, Meninos de zinco e O fim do homem soviético (que estou acabando de ler). A autora vale-se de testemunhos de pessoas que viveram momentos decisivos da história da União Soviética e da Rússia, respectivamente a Guerra do Afeganistão entre 1979 e 1989 e o fim do regime soviético.

          Svetlana aposta na história oral, no registro vivo na memória das pessoas, buscando delas experiências (e traumas) dos eventos por ela perscrutados. Para a autora, importa saber não o que aconteceu no âmbito da macro-história implicada na decisão dos grandes líderes e personalidades do mundo, mas na micro-história, no dia-a-dia de quem viveu as consequências e participou, de alguma forma, do fluxo geral dos eventos. Na introdução de O fim do homem soviético, Svetlana declara: "Não me canso de me surpreender com o quão interessante é a vida humana comum." 

          Ela tem razão, pois em cada pessoa vive um acontecimento, uma memória latente que está integrada na personalidade do indivíduo, fornecendo à História seu "H" maiúsculo, pois o transcorrer do tempo está preenchido pela substância ativa da personalidade viva, que é a essência da História mesma.

          Se a famosa escritora de uma nação distante foi inspiração para mudar o modelo de relatos deste blog, é minha vida pessoal, essa interessante vida humana comum, o motivo real dos recentes textos.

          Na minha adolescência mantive um diário com acontecimentos triviais do cotidiano, mais como uma marca de época do que um desabafo ou uma elaborada anamnese de meus dramas pessoais. Não me agradava lembranças negativas, que por vezes eram descritas com alguns palavrões, mas a simples memória carregada com algum grau de nostalgia e bom-humor, que gerava algumas risadas daqueles para os quais eu relembrava os fatos.

          A trivialidade de meus relatos acabaram por compor uma forma visível e acabada de um período da vida, que em muito pouco lembra o autor de hoje, principalmente em seus pensamentos e imaginação ocultos. Mas ainda assim esta é minha história, composta de elementos fundamentais integrados e sedimentados em minha personalidade no transcorrer do tempo. É uma vida comum que caminha dentro do quadro geral da História formando um pequeno fio que, emaranhado com milhões de milhões de outros fios compõem a História da Humanidade. E lá me encontro com todos, de você à nossa habilidosa escritora, de suas traumatizadas testemunhas às pessoas mais improváveis e desconhecidas que já pisaram neste mundo.

          Quando medito sobre a questão em alguns momentos fico deslumbrado ou mesmo assustado ao notar que faço parte de um plano infinitamente maior do que meu tempo de vida. Deslumbrado porque me sinto participante de algo superior, e isto é muito belo; mas também assustador porque a dimensão da existência me coloca necessariamente o problema do mistério da eternidade, que está acima do tempo e por isso mesmo não é percebido diretamente na vida cotidiana. A pergunta que fica é: o que devo fazer sabendo que vou me deparar com um mistério humanamente insolúvel e potencialmente intolerável? 

          Esta é a pergunta fundamental. Não por acaso, quase a totalidade dos testemunhos colhidos por Svetlana em seus dois livros são de pessoas que acreditam em "algo" maior (Deus ou seja lá o que for) mesmo vivendo num regime oficialmente ateu. Por mais que se force ou se "convença" de que tudo não passa de uma trivialidade sem sentido, de um diário composto apenas por relatos cotidianos sem um conteúdo mais profundo, a História exige respostas, porque ela necessariamente acaba, e não queremos de forma alguma que nosso testemunho morra para sempre.

sábado, 29 de agosto de 2020

A perenidade da Igreja e as modas que passam

 "A Igreja sempre se coloca contra a moda passageira do mundo; e ela tem experiência suficiente para saber quão rapidamente as modas passam." (G. K. Chesterton, em "Por que sou católico")

          Esta afirmativa de Chesterton pode ser perfeitamente compreendida à luz da Revelação, que é a Palavra de Deus que nunca passa e que é, portanto, válida a todas às épocas.

          Mas nosso escritor está chamando a atenção não para a imutabilidade da Revelação, e sim o efeito da experiência da Igreja ao longo da História.

          É justamente a Revelação que dá à Igreja a firmeza inerente à sua condição de Igreja, que é ser construída sobre a rocha.

          Esta rocha permite à Igreja viver as épocas sem se deixar levar por elas, e como seu fundamento é absoluto, tudo o mais se torna relativo frente à ela.

          Assim, a Igreja sabe, pela Revelação, mas também pela experiência histórica, que tudo passa, em especial as modas que acompanham os desejos, estes cada vez mais loucos e fugazes na medida em que nosso tempo avança.

          O desafio da Igreja está não na resistência às modas, que ela já se mostrou capaz de enfrentar, mas sim manter viva a fé nos próprios fiéis, fazendo de cada pessoa um membro do corpo vivo e divino que foi fundado por Cristo.

          Há aqueles que desconfiam e mesmo maldizem, por exemplo, o Concílio Vaticano II, algumas aculturações ritualísticas e mesmo o Santo Padre; há outros que acreditam ser a Igreja um mero poder do mundo, um organismo de transformação social onde Jesus foi o primeiro revolucionário.

          Isto pode ser apenas nossa opinião sobre algo que não conhecemos o suficiente, e mesmo que as coisas pareçam desesperadoras, sempre haverá um número suficiente de pessoas inspiradas pelo Espírito Santo a manter a Igreja de pé mesmo com fortes ventos contrários.

          Estes conflitos refletem, no fundo, a fé que se abala.

          São Paulo VI nos alertava que a fumaça de Satanás havia entrado na Igreja; seu perfume veio camuflado pela desejada moda de cada época refletidas em ideias e comportamentos. Mas é o incenso, a presença de Deus que purifica os ares e traz a fé necessária para atravessar todos os tempos até a eternidade.

sábado, 6 de junho de 2020

O século do genocídio


          As pessoas que se interessam por História já devem ter percebido o quanto o Brasil é ignorado quando se trata de História Geral. Nosso país mal é citado no livros e raramente recebe uma análise mais detalhada.

          Um interessante exceção é a obra "Tempos Modernos", do historiador Paul Johnson. A narrativa começa com a observação do eclipse do sol em 29 de maio de 1919 na ilha de Príncipe, no oeste da África, e em Sobral, no Ceará. Esta observação comprovou a Teoria da Relatividade, formulada por Albert Einstein catorze anos antes.

          Mas o que chama a atenção na obra não é o papel do Brasil no século XX, e sim seu início, que começa com um capítulo de nome muito sugestivo: "Um mundo relativista". 

          Esta é a característica fundamental do século XX para Johnson: a propagação de uma mentalidade relativista que tornaria possível a ascensão de tiranos e genocidas como Lênin, Hitler e Stálin, que concebiam o mundo como algo plástico aos seus desejos e ideologias. 

          Como lembra Hannah Arendt, ao analisar o fenômeno do totalitarismo, as revoluções só eram possíveis com a destruição dos valores precedentes. Não é possível instaurar uma nova ordem sem antes demolir a anterior abrindo espaço aos planos dos tiranos.

          Sobre a demolição das bases civilizacionais, no primeiro capítulo Paul Johnson levanta brevemente os papéis de Marx, Freud e Einstein no processo e conclui o seguinte: 

"Marx, Freud e Einstein, todos transmitiram a mesma mensagem para a década de 1920: o mundo não era o que parecia ser. Os sentidos, cujas percepções empíricas moldaram nossas ideias de tempo e distância, certo e errado, lei e justiça, e a natureza do comportamento do homem em sociedade, não eram confiáveis. Além disso, a análise marxista e freudiana se juntaram para minar, cada uma à sua maneira, o sentimento de responsabilidade pessoal e de dever para com o código da verdadeira moral, que era o centro da civilização européia do século XIX. A impressão que as pessoas tiravam dos ensinamentos de Einstein, de um universo em que todas as medidas de valor eram relativas, servia para confirmar essa visão (...) de anarquia moral."

          O que o autor chama de "código da verdadeira moral" do século anterior era a ainda existente moral "tradicional" ou, sendo mais exato, a moral religiosa a partir da qual se ergueram as normas de conduta que se refletiram na sociedade como um todo.

          Derrubado o edifício religioso, esvaziada a vida espiritual a partir da qual as pessoas guiavam suas vidas, entrou a mentalidade do mundo que, na época analisada por Johnson, eram as correntes filosóficas, psicológicas e científicas cujo substrato cultural tornava relativa o guiamento moral das pessoas e, por consequência, o ordenamento da sociedade. 

          E as consequências da queda da religiosidade não foi apenas o mero relativismo. Como conclui Johson ao final do capítulo:

"Entre as raças mais adiantadas, o declínio e, em última análise, o colapso do impulso religioso deixaria um vácuo de grandes proporções. A história dos tempos modernos é, em grande parte, a história de como aquele vácuo foi preenchido. (...) No lugar da crença religiosa, haveria a ideologia secular. Aqueles que se tinham filiado ao totalitarismo clerical tornar-se-iam políticos totalitários. E, sobretudo, a Vontade de Poder produziria um novo tipo de Messias, livre de qualquer sanção religiosa e com um insaciável apetite pelo controle da humanidade. O fim da antiga ordem, com um mundo à deriva num universo relativista, era um apelo a que estadistas gangsteres emergissem. E eles não demorariam a fazê-lo."    

          Do relativismo, que rebaixou a condição humana à massa de manobra de tiranos que julgavam o mundo à sua imagem e semelhança, ergueu-se o totalitarismo, que ficou sem barreiras fortes o suficiente que pudessem freá-lo; e do totalitarismo iniciou-se o genocídio, que viria a marcar toda história de todo o século XX sob a justificativa do "mundo melhor".

sábado, 11 de abril de 2020

O início de uma nova História para a humanidade


          A ressurreição de Cristo foi a consumação de uma História. Sim, História com "H" maiúsculo, porque a História da salvação é maior do que a História humana: ela a abarca e a transcende.

          Cristo pagou por nossos pecados na cruz porque só Ele poderia pagar uma dívida infinita. Qualquer pecado contra Deus é infinito dada à nossa desproporção em relação a Ele; portanto, nossos pecados exigiam uma reparação infinita. Só alguém igualmente infinito como Deus poderia pagar esta dívida.

          Jesus pagou esta dívida sendo Deus. Mas Ele também é homem, e assim nós todos participamos do pagamento da dívida. Recebemos, por amor absolutamente gratuito, o restabelecimento de nossa Aliança original com o Criador.

          Ao ressuscitar, Cristo mostrou que, sim, a vida eterna existe, Ele é Deus e tudo o que Ele disse e fez foi real. Foi a prova, visível e histórica, de que sua missão não era loucura e havia sido consumada.

          Aos homens cabia continuar Sua obra: espalhar a Boa Nova e, através do exemplo de Cristo, continuar a salvação das almas.

          Por isso, diz Chesterton, o mundo morreu na noite em que Cristo ressuscitou. De agora em diante, a lógica do mundo estava vencida. Caminhava, diante do homens, o Homem que apresentava outra lógica, outra realidade que se manifestava e se comprovava dentro do próprio mundo.

          Começava uma nova História: a História da salvação.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Progressismo: o novo totalitarismo


A narrativa progressista consiste em considerar que a moral humana evolui linearmente ao longo da História. "Evoluir", aqui, é "superar" os comportamentos do passado e substituí-los por novos e melhores. Um exemplo: se no passado homem e mulher casavam, hoje qualquer um pode "casar" com quem bem entender (ou com quantos quiser), dado que o casamento homem-mulher tornou-se "superado", algo do passado, portanto, "retrógrado"; outro exemplo: hoje as questões ambientais estão em voga, coisa que ninguém dava bola no passado, mas qualquer crítica às suas causas causam frenesi e condenação dos mesmos progressistas, mesmo que a causa seja posta em questão pela simples dúvida de sua necessidade. Os que afirmam a existência das mudanças climáticas são cientistas, os que não afirmam são considerados "céticos".

Por isto os que possuem esta mentalidade se denominam "progressistas", porque se consideram adeptos da ideia de que a História "evolui" e "supera" as coisas do passado. E é exatamente por isto que os progressistas são essencialmente intolerantes: como a História não é mais guiada pela Providência ou pela real liberdade humana (que pode hora determinar mudanças de comportamento, hora preservar ou resgatar hábitos passados), a História mesma, em sua concepção linear, tornou-se um credo, e não há pecado mais mortal do que ir na contramão da História, ao custo de criar enorme sofrimento para a humanidade. Derrubada a Providência, a História virou deus, a toda-poderosa que exige que caminhemos com ela.
Progresso linear existe, porém, na ciência, que se desenvolve sobre conhecimentos já alicerçados no passado, ou no desenvolvimento da técnica, que melhora o que já existe. Já a mentalidade progressista idolatra o tempo e condena quem está fora do seu tempo. Para os progressistas, estamos condenados a caminhar "para frente", do contrário devemos ser condenados por contribuir para o sofrimento da humanidade. Isto, porém, não é progresso. É totalitarismo.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Como o matrimônio pode ser caminho de santidade: o caso de Nikolai Sheremetev

(Retrato de Praskovia, pintado por Ivan Argunov, servo de Nikolai, em 1802. No seu peito a medalha com o rosto do marido com quem recém se casara.)

          A cultura moderna erigiu o amor romântico como a forma de relacionamento ideal entre homem e mulher como se a relação fosse exclusivamente baseada num sentimento profundo e perfeito de entrega, paixão e sofrimento. A realidade, no entanto, é muito distinta do idealismo da ficção, tão presente no cinema, nas novelas e na literatura.

          O matrimônio é sim baseado no amor, mas também em muitas outras coisas, da necessidade de equilibrar e harmonizar os interesses, de trabalhar pelo bem do outro, de fazer sacrifícios. O amor é o desejo real de entregar-se ao outro, talvez o sacrifício mais profundo. O homem casado não tem uma esposa: ele é da esposa. Da mesma forma a mulher casada: ela não tem um marido, ela é do marido. Isto vale, segundo as possibilidades, para todos os casos da vida, inclusive na relação sexual: se o marido quer se satisfazer na cama, cabe à mulher satisfazê-lo; e vice-versa. O corpo de um pertence ao outro. O padre Paulo Ricardo, conhecido por suas aulas e vídeos de esclarecimento da doutrina católica e pelo seu perfil conservador, explica isto neste vídeo. O sexo visa a reprodução, mas também o amor, a união total. 

          A Igreja Católica vê o matrimônio como uma das quatro vocações existentes, sendo as outras três o sacerdócio (só para homens), a vida religiosa e a vida leiga consagrada. A grande massa é vocacionada ao matrimônio, e assim como as demais vocações tem como missão santificar a alma. Bem sabemos que a santidade não é vida boa, mas um caminho árduo de sacrifícios, a "porta estreita" que nos fala Jesus Cristo.

(Retrato do conde Nikolai)

          Um caso bastante específico e impressionante do que um matrimônio pode fazer com uma pessoa é o de Nikolai Petrovich Sheremetev. Conde que viveu na Rússia entre 1751 e 1809, Nikolai foi servo pessoal e amigo do imperador Paulo I e neto de Boris Sheremetev, último boiardo da Rússia. Boris era pessoa próxima do czar Pedro, o Grande, e fez fortuna com serviços prestados ao imperador ao longo de décadas. Fiel ao serviço da coroa, sua família recebeu terras, bens e honrarias e se tornou a segunda mais rica de toda a Rússia depois apenas da família dinástica dos Romanov.

          Segundo Orlando Figes no livro Uma história cultural da Rússia, Nikolai era mulherengo e costumava flertar com as servas que trabalhavam nas casas e palácios dos Sheremetev. Mas o aristocrata se apaixonou por uma delas, Praskovia Kovalyova-Zhemchugova, com quem se encontrou às escondidas até o casamento. Cabe especular até que ponto a serva submeteu-se à vontade do seu senhor, mas desde início sua relação foi marcada por dificuldades, principalmente pela necessidade de esconder os encontros dos olhos de outras pessoas. Praskovia teve de suportar os comentários e as piadas dos outros servos pelo envolvimento com alguém da aristocracia e as repreensões da família por viver um relacionamento incerto. Para protege-la e poder encontrar sua amada em privado, Nikolai alocou Praskovia na sua propriedade em Kuskovo, perto de Moscou, para onde viajava para encontrá-la, e depois construiu uma casa de madeira para ela. Mas com a ascensão de Paulo I ao trono, o conde foi nomeado camareiro-chefe do imperador e teve de se fixar definitivamente em São Petersburgo. Assim Praskovia voltou e passou a morar na mesma residência, a Casa da Fonte. Agora era a vez do conde lidar com a rejeição e raiva da aristocracia, que considerava um escândalo uma serva morar em sua casa. A família Sheremetev deserdou Nikolai, que ainda manteve suas propriedades. A rígida hierarquia social e a obsessão da nobreza russa por status dificultava muito o casamento com uma serva. Nobres e servos não formavam famílias publicamente, mas mantinham relacionamentos às escondidas e, ao exemplo da relação senhor-escravo no Brasil colonial, geravam filhos ilegítimos. Em 1801, Nikolai libertou Praskovia da servidão e casou-se com ela no dia 6 de novembro numa cerimônia secreta em uma pequena igreja na vila de Povarskaia, perto de Moscou.

(Casa da Fonte, principal propriedade da família Sheremetev. Símbolo de São Petersburgo, hoje sedia o Museu Anna Akhmatova, nome da poeta que viveu na casa entre 1926 e 1952.)

          O retorno de Nikolai a São Petersburgo e o casamento com Praskovia isolou o conde da vida pública, e poucos eram os amigos que mantiveram os laços de amizade, dentre eles o imperador Paulo I, que inclusive apoiou o relacionamento dos dois. A agora ex-serva e condessa sofria de tuberculosa e tinha uma saúde frágil. Depois de ter seu único filho, Dmitri, em 1802, sua saúde piorou, vindo a falecer três semanas depois. Praskovia, que viveu em torno de um ano casada, foi sepultada no Mosteiro Alexandre Nevski. O mais impressionante foi a presença das pessoas no enterro. Ou melhor: a falta delas. Como Paulo I fora assassinado, ninguém da corte esteve presente, bem como ninguém da nobreza e nem mesmo da própria família, os Sheremetev. 

          A tristeza e a amargura de Nikolai transformaram-se em ação que foi muito além da família e da aristocracia. Como descreve Figes no seu livro:

"Perdido de pesar, o conde demitiu-se da corte, virou as costas para a sociedade e, retirando-se para o campo, dedicou seus últimos anos ao estudo religioso e às obras de caridade em homenagem à esposa. É tentador concluir que havia um elemento de remorso e até culpa nessas obras de caridade - talvez a tentativa de ressarcir as fileiras sob servidão de onde viera Praskovia. Ele libertou dezenas de servos domésticos favoritos, gastou enormes quantias para construir hospitais e escolas de aldeia, criou fundos para cuidar de órfãos, fez doações a mosteiros para darem comida aos camponeses quando a colheita escasseava e reduziu pagamentos cobrados dos servos das suas propriedades. Mas o projeto mais ambicioso de todos foi o asilo que fundou em memória de Praskovia nos arredores de Moscou - a Strannoprimny Dom, que, naquela época, de certa forma, foi o maior hospital público do império, com dezesseis enfermarias masculinas e dezesseis femininas. "A morte da minha esposa", escreveu ele, " me abalou a tal ponto que a única maneira que conheço para acalmar o meu espírito sofredor é me dedicar a cumprir a sua ordem de cuidar dos pobres e doentes." Durante anos, o conde, abalado pelo pesar, saía da Casa da Fonte e andava incógnito elas ruas de Petersburgo, distribuindo dinheiro aos pobres. Morreu em 1809, o nobre mais rico de toda a Rússia e, sem dúvida, também o mais solitário. No seu depoimento ao filho, ele quase rejeitou por completo a civilização incorporada à obra da sua vida" (p. 70-71)

          No testamento ao filho, Nikolai escreveu, que sua paixão pelas artes, as coisas raras, "Não deixava a mais remota impressão na alma." E se questionava: "Para que todo este esplendor?"

          O solitário conde deixou para trás a opulência da nobreza e curvou sua riqueza para o bem do próximo. Encontrou sentido, infelizmente, pela dor, mas deixou um legado e um exemplo do que alguém com posses pode fazer por aqueles que necessitam. Esta foi a obra involuntária de Praskovia: fazer de Nikolai uma pessoa melhor, ou pelo menos fazer dele o instrumento de um legado e um exemplo. Se o conde dedicou-se à caridade por culpa, dor, fiel adesão ao segundo mandamento ou os três fatores juntos, pouco importa: o trauma da perda e a desilusão de uma vida falsa, a lembrança do amor verdadeiro e o sentimento de ter perdido tempo com coisas desnecessárias são razões mais do que suficientes para girar o leme e dar um novo rumo à vida. Sei por experiência própria que a perda de tempo por negligência ou decisões erradas dão uma sensação de urgência, a necessidade de encontrar, de forma tenaz e perseverante, um objetivo de vida. Parece que esta foi a experiência de Nikolai: encontrou numa ação substantiva e duradoura o preenchimento de um vazio e um pouco de alívio na dor que o dilacerava. Encontrou na caridade uma vida nova.


          Fiquei com forte impressão desta passagem do livro de Orlando Figes, talvez por ser alguém que demorou para descobrir que, de fato, eu não era vocacionado à vida religiosa. E que o casamento é uma via não só de santificação como de felicidade, que nunca é um oceano permanentemente calmo, mas recheado de tormentas onde um se torna o refugio do outro. E mais: a história do conde mostra a força que um matrimônio fincado no amor verdadeiro tem para transformar uma vida. Nikolai se viu impelido a tomar uma nova atitude, forçado, também, pela pressão social. Mas foi uma atitude que não pode deixar de ser admirada. Ela é a consumação do Evangelho de Mateus (25, 31-46) onde Jesus Cristo anuncia a separação dos rebanhos. Salvam-se os que fazem a caridade, os que vêem Ele nos outros. Se Praskovia não fez de Nikolai um santo (talvez longe disso), ao menos mostrou-lhe o caminho.  Devemos ser o farol para nossa cara metade.