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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Essa é a nossa guerra

 

          Em determinando momento do dia de hoje estive pensando um pouco na guerra em que vivemos atualmente. O pensamento me ocorreu enquanto fazia uma corrida durante o crepúsculo do sol de verão. A tarde havia sido quente, mas o vento do fim do dia tornava tudo muito mais agradável, e sem fones de ouvido centrei-me nessa guerra a fim de suportar a ansiedade de um passo a passo monótono.

          Muitos talvez pensem em guerra no seu sentido estritamente material. Não falo de guerras mundo afora, da Síria ou da possível guerra na Ucrânia, nem da violência urbana ou do problema das drogas, mas da guerra espiritual. É lá que está a batalha decisiva, esteja você no meio de um tiroteio ou não. Isto é o que importa.

          Destruída a autoridade divina no coração dos homens, o que resta? Nada. Ou melhor: qualquer coisa. Dostoiévski ensinava, em Os Irmãos Karamázov, que se Deus não existe tudo é permitido. Ou pior ainda: podemos realmente acreditar em Deus, mas não aceitar, por uma profunda revolta espiritual e demoníaca, o mundo que Ele criou. Essa era a atitude de Dmitri, irmão de Aliócha, no romance escrito pelo grande escritor russo, em que o personagem descrente em Deus declarava abertamente que jamais aceitaria o mundo como ele é mesmo que Deus existisse. Estava declarada a guerra de uma alma que já havia perdido a própria guerra. 

          Este é o nosso mundo, a ordem criada por almas confusas e obscurecidas pela obstinação do erro. Parece que cada vez mais pessoas decidem pela rebelião, seja por acreditar que estão se libertando ao aderirem às ideias, modas e movimentos do momento, seja porque simplesmente não aceitam o mundo que existe e querem mudá-lo à sua imagem e semelhança, mesmo que isto signifique bater de frente com o Criador. O pior é que os dirigentes deste mundo, do alto de seus castelos civis, econômicos, militares, intelectuais e mesmo religiosos, estão empedernidos em sua luta contra o espírito tentando, a todo o custo, enclausurar o restante da humanidade num lockdown existencial eterno.

          Vejam à sua volta os frutos da revolta: confusão, insegurança e medo. Do espírito nascem a clareza, a segurança e a paz. Abolida a referência que permite medir todos os nossos atos, tudo se torna não apenas permitido, mas relativo. Não há medida ou poder que forneça a paz necessária, pois a paz precisa de ordem, e só há ordem quando a fundamento dela mesma é admitido como princípio e fim de todas as coisas, que se ordenam no passar da linha do tempo

          Se na guerra escolhermos o lado da luz, poderemos ao menos enxergar e identificar os perigos que nos rodeiam, inclusive em sua dimensão física. Este é um dos papéis da sabedoria, tão rara numa época em que o Espírito Santo é contrito pela obstinação humana, pela rigidez dos que apelam pela retidão da razão. A sabedoria é o cruzamento da ciência, outro dom do Espírito, com o amor. Sabemos, por exemplo, qual pessoa se faz digna de uma ajuda desesperada e qual, cobrindo seu rosto com a face de um cordeiro, é apenas digna de pena. Por isso pouco importa o bem-estar físico se a vida afunda na desesperança, pois os recursos transformam-se em bodes expiatórios dos próprios erros, quando não instrumentos de desgraça. 

          Para evitarmos a desgraça do medo ou a guerra que se avizinha no horizonte é necessário adentrarmos nas tropas do espírito. É ali que o exército dos anjos atuam e onde encontramos - pasmem, meu amigos mais humildes - milhares e milhares de empregados a trabalhar para nós, desde que estejamos dispostos a trabalhar com eles. Por isso a atitude de abertura confiante a Deus é tão relevante, pois esta é a garantia de nunca estarmos sozinhos.

          É necessário dizer sim e agir sobre o sim. Seja com o Rosário ou a cruz na mão, seja invocando o nome do Criador à forma da sua tradição, esta é nossa trincheira, esta é nossa batalha. No mundo, nenhuma guerra ou desgraça cessará por completo sem que peçamos auxílio a Quem fez todas as coisas, inclusive as que permitiram a criação das armas. "Rezem o terço todos os dias para alcançar o fim da guerra.", disse certa vez a Mãe de Deus. Essa é a nossa guerra, a única necessária para vencer todas as guerras.

sábado, 23 de maio de 2020

Porque as coisas espirituais devem ficar em primeiro lugar


"Um ser humano realmente humano colocaria, sempre, as coisas espirituais em primeiro lugar."
(G. K. Chesterton, no artigo "O País de Pernas para o Ar" em "Tremendas Trivialidades")

          Todos nós sabemos que nascemos de pai e mãe. Mas o que havia antes? E o que haverá depois com o fim inexorável da vida?
          A vida humana é um mistério: não sabemos de onde viemos, nem para onde vamos.
          Porém, no fundo temos uma ânsia pelo eterno, a necessidade de preencher este mistério marcado no microcosmo de nossa alma, cuja satisfação só pode ser na plenitude do Absoluto.
          O ser humano é essencialmente religioso, espiritual. É da condição humana ter consciência e, portanto, ter de lidar necessariamente com este mistério.
          A vida espiritual é uma forma de buscar resposta, dirigir o drama da existência e aplacar a angústia que permeia, em maior ou menor grau, este teatro da vida.
          E se, após a morte, houver nada? Seremos apagados da existência na eternidade do vazio? Ou há algo para o qual fomos criados? E este algo é bom ou mau?
          Todas as pessoas que negam este problema estão inevitavelmente respondendo ao mistério, mas através de um fechamento espiritual e do fingimento de que o plano do espírito não existe.
          Ser um ser humano é, portanto, ter uma atitude perante o mistério, seja de fechamento temeroso ou de abertura confiante.
          Por isto, ao exemplo da frase acima, o escritor G. K. Chesterton afirma que um humano é essencialmente humano quando coloca as coisas espirituais em primeiro lugar.
          Porque nosso drama fundamental é espiritual e só pode ser respondido pela atitude do espírito. A fuga disto é medo, é covardia, é reduzir-se a um desesperado punhado de matéria orgânica a negar a própria humanidade.
          O drama da existência não é para covardes.

domingo, 22 de março de 2020

Um golpe no delírio de onipotência


          A era moderna colocou na cabeça das pessoas que o homem é onipotente sobre a natureza, incluso aí a natureza humana. 

          Esta mentalidade se reflete na administração da sociedade e, portanto, no poder político. Os modelos de Estado fascista e comunista foram tentativas de estabelecer um controle total sobre o mundo, mas, além de matarem milhões de pessoas, falharam de forma miserável.

          Se engana, porém, quem pensa que no regime democrático ficamos mais humildes. Este delírio de onipotência vive forte nas democracias. Acreditamos que os governos, através do estabelecimento de leis, normas e garantias das liberdades civis, podem nos fornecer ou permitir uma vida progressivamente melhor. O delírio é ainda pior com a ostensiva agenda progressista tocada ao toque de caixa no mundo inteiro que estabelece todo o tipo de normas para os mais sutis comportamentos no que se refere ao racismo, gênero, discriminação, preconceitos, minorias, etc.

          Em suma, acreditamos que o Estado democrático e liberal pode nos garantir a paz e a felicidade.

          Mas, de repente, "do nada", aparece um inimigo microscópico que paralisa tudo, põe em cheque nossa forma de agir e pensa e tira de cena todos os nossos ideais de vida. Derruba por terra todas as previsões e planos dos governos e solapa todas as expectativas futuras, de casamentos ao aumento do PIB. Agora, olhamos para o futuro com incerteza, porque nenhum poder estabelecido é capaz de garantir, não nossas liberdades civis e felicidade, mas nossas vidas!

          O controle total do mundo é impossível pelo simples fato de não possuirmos o conhecimento total. Se tivéssemos o conhecimento total conheceríamos também os meios de controle; em suma, seríamos Deus. Mas só Deus tem estas características, que são parte de Sua definição.

          Não é de graça que estamos sendo forçados a parar. Isto é um chamado para a vida interior, não no sentido de que devemos ficar fechados em nós, mas para descobrir, no silêncio, que Deus, o mesmo que governa o mundo e está acima dos poderes estabelecidos, é o fundamento de nossa paz e segurança.

          Estamos sendo chamados à humildade. O mundo não está aos nossos pés. Está aos pés Dele. 
          

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

A vida em dois tempos


          Na quarta-feira passada, dia 21, participei com meu grupo de oração, o São José, do Cerco de Jericó. O evento, que originalmente dura sete dias, foi feito em apenas pouco mais de seis horas, contando aí as duas missas de início e fim do cerco. Realizamos sete caminhadas por dentro da nave da Igreja Nossa Senhora da Paz em Porto Alegre reproduzindo os sete dias do cerco à cidade de Jericó conforme relata o Antigo Testamento. 

          Enquanto realizávamos as orações e fazíamos as caminhadas com o Santíssimo Sacramento nas mãos do sacerdote não percebíamos a passagem do tempo. O dia que começara fresco ficava quente, mas o ar-condicionado da nave (um luxo que recentemente tem se espalhado por algumas igrejas da cidade) impedia de sentirmos a temperatura que subia do lado de fora. Mal ouvíamos o barulho do trânsito na avenida à frente, estávamos absorvidos no ciclo de orações e caminhadas e não nos preocupávamos com as coisas do dia-a-dia. 

          Nosso Cerco de Jericó era um microcosmo da vida espiritual. Não quero entrar aqui no sentido que o cerco possui no Antigo Testamento, sobre o qual as orações são feitas, mas na experiência deste evento. Cercados pelas paredes da igreja, estávamos todos desligados do mundo em seu sentido amplo: não tínhamos percepção do tempo, não sabíamos o que acontecia do lado de fora e, em princípio, não estávamos preocupados com ninguém. "Preocupados" aqui quero dizer absorvidos com problemas que envolvem terceiros, como compromissos marcados, problemas de casa ou sentimentos dominadores projetados em outras pessoas.

          Esta experiência era como estar no Céu, mais especificamente no plano da eternidade. No Eterno não há tempo. Todos os tempos, passados, presente e futuros possíveis, estão lá dispostos de forma simultânea. Eles não passam, simplesmente estão presentes no que chamamos de "eterno presente de Deus". Ao menos tempo, estávamos desligados dos acontecimentos e obrigações humanas, que de nada servem para as almas que daqui já partiram, dado que elas não podem cumprir compromissos e acumulam sofrimentos se apegadas ao mundo que deixaram para trás. Da mesma forma, os sentidos estavam desligados da variação da temperatura externa e absorvidos no ritual cíclico que, no final das contas, reatualizava constantemente a presença de Deus através de Seu Corpo na eucaristia. 

          Na igreja estávamos no Céu. Ao passar sua porta da entrada ali estava o mundo. A igreja cercada pela cidade representava o inverso de sua dimensão física: ela era o plano infinito que abraçava a cidade, que abraçava o mundo inteiro. Este infinito é o eterno que não passa. Ele sempre é, enquanto o mundo, forjado nas lutas da História Humana, passa e um dia chegará ao fim. Mas só o Pai sabe quando.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

TIP e oração: como mente e espírito podem caminhar juntos

          Há anos atrás, quando ainda frequentava sessões semanais de psicanálise, costumava dizer para minha psicanalista que eu não acreditava que recuperar certas pessoas é impossível. Ela me dizia que indivíduo como psicopatas ou determinados doentes mentais não tinham recuperação. Mas eu me recusava a acreditar nisso. Para mim sempre havia como recuperar uma pessoa, mesmo que por milagre, no sentido estrito da palavra.

          Nos últimos meses tenho lembrado com frequência sobre o poder que a oração pode ter em nossas vidas. A questão voltou à tona, entre outros fatores, em alguns encontros com minha atual psicóloga, preceptora da Terapia de Integração Pessoal (TIP), onde ela insistia que Deus não faria por nós aquilo que inconscientemente não queremos. Um exemplo: eu por muito tempo quis morar sozinho, mas inconscientemente eu estava preso a questões familiares mal resolvidas. Não fazia sentido rezar a Deus pedindo que Ele me tirasse de casa se, no fundo, eu não queria e utilizava como desculpa questões de ordem emocional que impediam de focar em minha vida e trabalhar ativamente para esta saída. A sabotagem de minha vida profissional era uma desculpa para me manter preso à esta situação. Não adiantaria, portanto, pedir em oração a solução de um problema que encontrava oposição a nível inconsciente.

          Minha oposição a este tipo de argumento é que ele parece limitar o poder da oração e, acima de tudo, a capacidade da ação de Deus em nossa vida. A cláusula pétrea das leis divinas é a liberdade humana. Deus jamais interfere em nossas decisões, a potência da vontade, que brota do espírito. Mas se nossa vontade profunda é mudar atitudes e comportamento, mesmo que nossa mente diga o contrário, por que ela não poderia prevalecer ajudado por um suporte espiritual divino? 

          A TIP sustenta que agimos condicionados por nossos registros. Condicionados, mas não limitados e muito menos determinados. Registros são as decisões-chave tomadas em momentos de nossas vidas que se tornam fundamento de comportamentos futuros. Estes fundamentos ficam mergulhados no inconsciente. Ou seja: o registro é uma decisão que tomamos e que pode ter como raiz um evento no período uterino, talvez mesmo no momento da concepção do óvulo. Portanto, uma oração que vai de contrário a um registro encontraria como barreira para sua eficácia a decisão sobre a qual este registro esta fundamentado. Uma ação divina neste sentido feriria o livre-arbítrio.


          Mas a pergunta que eu faço é: se eu realmente quero mudar um comportamento pela oração (utilizando, claro, um esforço deliberado para atingir meu objetivo), não poderia o próprio Deus remover este registro por via espiritual já que não temos consciência do que precisamos mudar realmente? A oração feita "em espírito e em verdade", como ensina Jesus, já traz no seu bojo a decisão profunda de seu prevalecimento. Destaco aí a palavra "verdade". A oração "em verdade" significa a intenção verdadeira e, portanto, abarca a totalidade da existência de determinado problema que é orado. Se o foco é o comportamento, então a oração tem eficácia sobre toda a estrutura deste comportamento, incluindo os registros inconscientes. É como se a pessoa trouxesse à consciência o obstáculo que impede a oração de transformar tal realidade: no confronto das intenções o da oração prevaleceria sobre este registro. A pessoa decidiria assim. Mas como disse: a oração deve ser "em verdade", e não um pedido ambivalente ou da boca para fora como muitas vezes fazemos.  

          Não estou dizendo aqui que o trabalho da TIP é desnecessário. Muito pelo contrário. Sou testemunha fiel da sua eficácia, principalmente porque sua técnica, a Abordagem Direta do Inconsciente (ADI), nos revela os pontos certos que devem ser abordados. A oração é muito mais eficaz se direcionada sobre estes pontos e mais eficaz ainda quando o registro é trazido à tona. A TIP pode ser feita sem a oração e a oração pode ser feita sem a TIP, mas certamente o segundo dinamiza o primeiro; e quem é distante das coisas do espírito descobrirá, pela TIP, a dimensão e o poder que as decisões espirituais (a dimensão noológica) têm sobre nossas vidas. Mente e espírito caminham juntos e se fortalecem mutuamente. 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Doenças e remédios: as marcas de um tempo


          Nesta semana estive no aeroporto de Porto Alegre. Meu irmão e a cunhada estavam de viagem marcada para voltar à Londres. Alguns contratempos seguraram os dois por uma hora no check-in, enquanto eu, minha mãe, a mãe da cunhada e um amigo dela ficávamos conversando no saguão. Eu, como de costume, muito mais quieto do que tagarelo.

          O único estabelecimento comercial que realmente chama minha atenção quando estou disperso ou a passeio é uma livraria ou uma banca de revistas. Durante a conversa olhei para um canto do saguão do aeroporto onde havia uma grande banca, mas ela não estava mais lá. No lugar havia uma farmácia. Uma livraria nova, e bem menor, foi aberta ao lado num compartimento construído para este fim.

       Já tinha visto esta mudança há meses atrás, mas só agora percebi seu significado. Muito sugestivo que no lugar dos livros e revistas apareçam remédios. Muito ouvimos falar de doenças, pessoas doentes, sofrimentos devido à saúde, etc, e muitos testemunhos tenho recebido por parte de pessoas que têm parentes em sofrimentos ou mesmo em situações de risco de vida.

          Eu participo de um grupo de oração católico há nove anos, sendo cinco como membro ativo, cujo carisma é cura e libertação. Quando tratamos de cura, abrangemos as dimensões espiritual, mental e física, e é natural, portanto, que eu tome conhecimento de um grande número de pessoas que estejam fisicamente doentes. As doenças do corpo são as que mais chamam a atenção por serem visíveis: podemos ver claramente quando alguém está doente, ao passo que doenças mentais (psicológicas) e principalmente espirituais (noológicas) não saltam aos nossos olhos. Muitas doenças, conforme mostra a psicóloga Renate J. de Moraes, fundadora da Terapia de Integração Pessoal (TIP) através da técnica da Abordagem Direta do Inconsciente (ADI) e cujas ideias estão expostas no seu livro "As Chaves do Inconsciente", são de caráter noopsicosomáticas, ou seja, têm raíz espiritual, afetam o psicológico e, por fim, somatizam no corpo.

(O mencionado livro da Renate, falecida em 2013.)

          A quantidade e a gravidade das doenças de que temos notícias impressionam: todas as semanas há pelo menos um ou dois relatos de pessoas que realizam cirurgias e casos de câncer, doença grave mais recorrente. E pior: alguns casos são de crianças e adolescentes, sendo isto muito mais comum do que se imagina. Muitos dos pedidos de oração chegam por e-mail ao alcance de algumas centenas de pessoas. Como o grupo possui algo como pouco mais de cem membros, é de se esperar que alguns milhares tenham acesso a alguém que envie os pedidos. De qualquer forma, é evidente, por simples probabilidade, que muitos casos não cheguem ao conhecimento do grupo e não são orados. Além dos casos de doenças graves de que tomamos conhecimento, provavelmente há muitos outros que não são sequer divulgados por razões desconhecidas.

          No período em que lecionei em escolas, fui testemunha de alguns alunos que possuíam doenças graves ou que tomavam medicações pesadas. Recordo-me de um aluna que era doente desde nascimento, a quem tinha um carinho especial, quase como uma filha; em outro caso, atuando como professor particular, tive um aluna que tomava medicações para concentração e que alegava ter visões em casa, e numa das aulas ela estava visivelmente alterada por efeito da medicação; também conheci alguns alunos evidentemente depressivos em sala de aula e, como de costume, muitos carregavam graves problemas familiares e tomavam medicações. 

          Mesmo que este meu panorama seja impreciso, é assustador o sofrimento que há por trás dos rostos de muitas pessoas, sendo que algumas sequer têm idade para compreender a gravidade da situação em que vivem.

          Eu realizei anos de psicanálise e dois da TIP que mencionei acima. No meu grupo de oração tive um punhado de libertações, cujos efeitos podiam ser sentidos nas horas seguintes depois de recebê-la, inclusive no corpo. Mas um elemento chave para essa minha mudança de vida (um dia posso contar isso com mais calma) foi a aquisição de conhecimento pela leitura. Por aproximadamente oito anos li livros e artigos com a intenção quase exclusiva de encontrar respostas para mim e para o mundo. Foi através da leitura que me aproximei da Igreja Católica e tive minha reconversão, como demonstrei num texto anterior. Foi também o meio pelo qual busquei orientações em minha vida pessoal e capacidade de expressão para o que eu vivia e sentia. Foi a leitura, enfim, que me fez compreender a existência de uma coisa chamada realidade (os escritos de Olavo de Carvalho foram determinantes neste sentido) e que eu poderia, através de uma ação espiritual, agir sobre ela. Para mim não há dissociação entre fé e concretude, entre o espírito e o mundo. Ambos interagem num continuum e ampliam nossa liberdade de agir para nossa cura física, mental e espiritual, além de permitir alcançarmos nossa realização pessoal nas diversas dimensões da vida.

          É evidente que uma vida espiritual não é razão para o abandono da medicina moderna. Ambos caminham juntos, e medicações estão aí para isso. Mas é sugestivo que num tempo de enorme pressão, instabilidade e incerteza as pessoas abandonem um meio de cura para se voltarem aos avanços da medicina sem atentarem para a raíz dos problemas. É muito mais fácil (e também mais urgente) buscar soluções práticas do que trabalhar a vida pessoal e interior para arrancar as raízes profundas de nossos males pessoais. Por isso minha atenção ao fim da banca de revistas no aeroporto e sua substituição pele farmácia: eu tive nos livros um meio de me aproximar dos meus problemas e mistérios mais profundos. Daí para a vida espiritual, para a fé católica, para Deus, para a busca de uma paz verdadeira, foi um salto. O problema é que muita gente não tem mais tempo para isso, e num tempo marcado pela confusão e desorientação talvez nem saibam o que acontece com elas. O tempo urge, e a saúde e a paz não podem esperar.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

A fuga para o jardim, a fuga para a realidade

(Jardim das Oliveiras em Jerusalém)

Ontem, 14 de junho, assisti a "O Jardim das Aflições" no cinema, filme que explica brevemente a filosofia de Olavo de Carvalho e que tem como fundamento o livro de mesmo nome. Li este livro em 2005, e foi o que maior impacto causou em minha vida, sendo ele chave para a minha volta à Igreja Católica.

O filme é dividido em três partes. Mas o importante para texto é a segunda. Nela Olavo comenta a necessidade de traçarmos a origem das ideias e dos fatores sociais e pessoais que impactam nossa pessoa com a finalidade de exercitar nossa liberdade de consciência e descobrir quem originalmente somos. A ideia em destaque aí é uma passagem do livro "O Jardim das Aflições", e que Olavo discorre praticamente com as mesmas palavras no filme, em que o mundo de hoje é apresentado como uma construção excessivamente artificial. O mundo moderno nos sufoca com leis, regras, ambientes artificiais, poses, a necessidade de agraços, e assim por diante. Vale à pena transcrever esta ideia como está no livro, para mim um dos trechos mais marcantes da obra. Depois de discorrer sobre o que chama de "divinização do tempo" e os impactos da Revolução Francesa e do positivismo no Ocidente, Olavo de Carvalho continua:

"Mas deixaram lá, e cá, uma infinidade de marcas, entre as quais um inesgotável calendário cívico, que, celebrando as secretárias, os motoristas, as mães, os pais, os namorados e tutti quanti, oferecem duas vantagens indiscutíveis: fazem esquecer o calendário litúrgico da Igreja e fomentam os negócios. Na verdade mais que isto: fornecendo um Ersatz para a experiência religiosa do 'tempo qualificado' - épocas especiais em que o fluxo dos eventos muda ciclicamente de tonalidade, recordando o homem a relatividade do tempo e a imersão de tudo no eterno -, o calendário cívico ajuda a aprisionar a mente humana no tempo socioeconômico, no tempo administrativo, elevado ao estatuto de uma realidade metafísica. No quadro de uma organização social onde horários e rotinas, frutos da decisão humana, pesam sobre os homens com o peso de uma coerção física, não é de espantar que o empregado em férias, contemplando o mar e as montanhas, imagine sonhar, e que, ao retomar seu lugar na fila do relógio de ponto, sinta retornar à 'realidade'" (p. 208, 2ª ed.)   

Hoje, um dia depois de ter ido no cinema, o filme continua muito vivo na minha cabeça, resgatando em mim um pouco do efeito que o livro me provocara doze anos atrás.

Nesta tarde eu estive num parque lotado. O dia era de sol e a temperatura agradável. Procurei um local mais vazio e silencioso e me sentei no gramado. Havia feito orações desde que saí de casa, à pé, e me preparei para uma oração do terço (sim, faço isto num parque, e é ótimo). Logo que me acomodei e deitei no gramado. Com os ouvidos junto à relva, os sons à volta baixaram de volume e eu podia ouvir muito além das pessoas à volta. Sons de carros a centenas de metros, insetos, o burburinho da multidão ao fundo. Acima de mim havia apenas o céu azul com nuvens ralas, de tipo cirrus, que sinalizam tempo bom. Aos poucos fui invadido por um universo que estava "oculto", o mundo natural que estava abafado pela artificialidade do meio urbano e pelo peso da minha rotina enfadonha. Tomado pela contemplação, me sentei novamente e fechei os olhos para me concentrar na reza que viria. De coração, pedi para saber quem estava comigo. "Vi" Nossa Senhora com o título de Fátima (digo "vi" entre aspas porque não tenho o dom da visão). Em seguida pude "ver", quase que com os olhos, o Imaculado Coração acima Dela, num vermelho intenso com a cruz acima cravada e uma luz dourada iluminando a escuridão. A imagem era tão clara e tão real que quase pude ver com os olhos que vêem esta tela, e fui invadido por uma alegria e uma certeza incomuns. Foi um experiência dupla: o mundo natural à volta me apresentava uma realidade escondida pela artificialidade humana e funcionava como depositário das condições que permitiam o desabrochar da vida interior. Era com Nossa Senhora que eu conversava durante a caminhada até me fixar no gramado, mas foi só sob o mundo criado pelo próprio Deus que eu pude "ver" que Ela estava comigo. Havia gente demais, regras demais entre eu e meu coração, onde Deus habita.

(Capa da segunda edição do livro "O Jardim as Aflições", que dá nome ao filme. Para mim, o livro de Olavo de Carvalho foi como um despertar, recapitulado pelo filme.)

Este momento foi como um despertar, um sair do mundo "real" para o "oculto", enquanto que na verdade eu saía do falso para o verdadeiro. Meu sentimento era de paz, certeza e ânimo, ânimo este que eu buscava durante as orações da caminhada. Foi na fuga do mundo excessivamente humano que encontrei motivação e resposta: o foco num Coração que acolheu tudo o que eu dizia e o ânimo gerado por este acolhimento. Foi na fuga para um jardim (neste caso também literal), que encontrei resposta e paz para meu coração aflito. Passei algum tempo ali, sentado, na oração do terço, mais motivado para tocar adiante meu projetos pessoais e, dentre outras coisas, descrever esta experiência neste texto.

Nossa vida é tão falsificada por obstáculos e convenções modernas que perdemos completamente o mundo que nos cerca. No jardim das aflições não basta administrar a aflição, não basta a fuga mediante novos ornamentos no jardim. Assim como Jesus Cristo sofreu angustiado nas oliveiras sentindo-se só antes da Sua condenação, assim é nossa vida, cuja solidão é abafada pela artificialidade e poses de uma vida falsa. Não há vida interior sem o reconhecimento desta condição, sem saber que habitamos o mesmo jardim que Deus habita. Nem inteligência verdadeira, nem verdadeira paz, nem verdadeira liberdade.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

A inteligência como um acesso a Deus

(Deus é luz: luz que tudo ilumina, tudo torna claro e, portanto, inteligível.)

Neste recorte do vídeo sobre o lançamento do seu livro O Pai Nosso, Luiz Gonzaga de Carvalho Neto relaciona a vida espiritual/religiosa com a vida intelectual.

Não é de graça que Gugu, como é conhecido, é filho de Olavo de Carvalho. Olavo foi um dos três principais responsáveis pelo meu retorno à Igreja Católica. A relevância de seu trabalho para minha reconversão foi sua capacidade de me fazer compreender que o que chamamos de "religião" trata, em última instância, de realidade. Meu retorno está vinculado à intelecção, a inteligência como meio de me aproximar de Deus (um dia contarei esta história melhor).

Pois bem. No vídeo Luiz Gonzaga, em conversa com Renan Santos, amigo meu e fundador da Editora Concreta pela qual o livro foi lançado, diz que a vida intelectual é parte da vida religiosa. Tudo o que nos aproxima do bom, do belo e do verdadeiro, diz ele, serve à nossa vida religiosa. Em última instância o conhecimento busca a Causa primeira de todas as coisas, o Ser, o Princípio ou seja lá como você queira chamar o que se define como "Deus". Por diversos momentos Luiz Gonzaga lembra que foram os monges católicos que preservaram a literatura pagã, porque eles viram nestas obras elementos edificantes à vida espiritual que poderiam nos ajudar na construção do edifício interior em direção ao Alto. Este fato também é lembrado pelo historiador Thomas Woods Jr. no seu livro Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental. Woods comenta que a literatura pagã e os trabalhos científicos provenientes do mundo islâmico foram reproduzidos e guardados pelos monges copistas, preservando estes trabalhos da ação dos bárbaros ao longo do primeiro milênio do cristianismo.

 (Livros de Luiz Gonzaga e Thomas Woods Jr, respectivamente.)

Na medida em que fui tomando conhecimento dos trabalhos do pai de Luiz Gonzaga fui percebendo a dimensão concreta da revelação cristã. Quando vemos que Deus age na realidade, vemos, portanto, que a realidade, independente do meio pela qual temos acesso a ela, seja por livros de literatura, imagens, experiência científicas ou observação direta do cotidiano, pode ser acessada por diversos prismas que, no fundo, levam à mesma Origem ainda que não tenhamos acesso direto à esta Origem por estes meios. Quando chegamos na distância certa, é Ele Quem dá o salto para nosso encontro, o salto qualitativo que falta para que Ele revele Sua presença.

Eu diria que Deus está quase ao alcance de nossa inteligência, porque inteligir é um ato espiritual. O ato de compreender e tomar consciência de certos aspectos da realidade pode ser uma forma de nos aproximarmos de Deus, que no momento certo dará Seu salto para nós.

É Ele quem nos busca. Na sanha de querer compreender a realidade a inteligência poderá ser o meio pelo qual teremos conhecimento de uma realidade que está muito além do que nosso pensamento pode acessar. Jamais teríamos este acesso se não fosse a iniciativa divina de nos buscar. E isto é misericórdia.