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sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

O paradoxo da luz

 

          Poucas coisas me deprimem mais do que aqueles dias de calorão intenso, céu limpo e luz estourada ao ponto de enrugar o rosto ao pô-lo pelo lado de fora da janela. O calor opressivo e úmido desanima o corpo, a ausência de nuvens dissolve a esperança e a luz intensa - além da radiação emanada dessa mesma luz e que provoca o calor - exige proteção que, começando pelos olhos, acaba por puxar o corpo inteiro ao recolhimento.

          Psicologia à parte, tenho repulsa a essa experiência típica de final de ano e início das chamadas férias, onde a sociedade brasileira, refratária a tudo o que diz respeito à vida interior e ao senso mais básico de realidade, se joga ansiosamente ao culto de tudo o que essa época representa, virando a ordem de cabeça para baixo na medida em que a temperatura sobe. 

          Opressão, mal-estar, depressão e dispersão. Um caldo perfeito para os fracos de espírito se deixarem levar pelos três primeiros e, ao bater do desespero, se jogar de cabeça no quarto. Não por acaso o carnaval, tomado como o ápice de nossa "cultura" e "diversão", foi alçado às alturas muito além da festa da Páscoa no país que se ufana em dizer ser o "mais católico do mundo".

          Mas hoje, em meio à luz estourada do início de dezembro, vi outra luz. Não necessariamente com os olhos, pois os olhos veem o mundo, mas aquilo que a alma contempla e podemos chamar de graça. E essa graça não seria alcançável se o mundo não fosse também simbólico transcendente à sua forma imediata.

          A luz que cega é a mesma que ilumina, o calor que arde é o mesmo que dá a vida e a sensação de opressão que se abate é a mesma que nos impulsiona à vida interior. 

          Me recordo de uma viagem recente em fins de outubro quando voltava de Gramado para Porto Alegre num dia de céu limpo, e meu padrinho de crisma comentava sobre a luz forte já no miolo da primavera. Partindo dessa luz tropical intensa, dizia ele que os pintores europeus tinham à sua disposição a luz do sol das regiões de clima temperado, o que lhes conferia maior contraste de cores com as estações do ano. 

          Assim, se a luz menos intensa dá cores mais vivas, a luz mais intensa dá vida mais abundante, materialmente falando. Em ambos os casos ela realça a vida, ora pela estética, ora pela abundância.

          Mas a luz vai além do simbolismo, ela ilumina a alma, dá movimento e sentido à vida enquanto tal.

          São Boaventura chama Deus de Pai das Luzes, numa referência a Ele como origem da inteligência humana com sua capacidade de contemplar e transformar o mundo. Luz, aqui, é intelecção, inteligência, apreensão da realidade. Pois se a natureza não é apenas material, mas também simbólica, então ela nos diz muito mais do que a forma encerrada em si mesma. A natureza é o primeiro Evangelho, que nos exige contemplação e compreensão para uma vivência correta segundo a ordem estabelecida desde o Alto.

          Portanto, sem luz não haveria visão e, mais ainda, não haveria inteligência, atributo exclusivamente humano por graça divina. A luz compreende o tripé que permite o homem existir, ver e entender, e por isso mesmo se faz humano e tão próximo d'Aquele que o criou.

          Subitamente, a luz estourada desse início de dezembro que observei pela janela se transformou, por um instante, num chamado do Céu, como se dissesse: "Eu estou aqui". O ambiente opressivo se transformou em ânimo e força para um vida abundante, como se a radiação fosse transmutada em energia física, num alegoria da alma que se vivifica com a luz que vem do Céu.  

          Ninguém vive se não foi antes pensado pela mente divina. A luz é um fiat, o impulso vital que anima e dá a vida, como o ardente sol de verão que, paradoxalmente, ao mesmo tempo em que oprime dá a vida em abundância.

domingo, 31 de outubro de 2021

Dia 31 de outubro de 2021

 

          Na grande maioria dos locais afetados pelas altas temperaturas, o calor vem acompanhado de umidade e ambos criam o mais conhecido e vital dos fenômenos atmosféricos: a chuva. 

         Primeiro brotam aqueles pequenos algodãozinhos no fundo azul que sinalizam os efeitos do sol forte e do calor. Em seguida, seu volume cresce, e se pudéssemos gravar com os olhos o que as técnicas modernas de filmagem permitem contemplar, veríamos múltiplos borbulhamentos de vapor como se as bolhas de algodão crescessem e se multiplicassem dando enorme volume à pequena almofada flutuante.

          Um olhar atento por debaixo dessas nuvens - que os meteorologistas batizaram de cumulus - permite notar, com a devida calma e paciência, o movimento do vapor d'água, lento à distância mas turbulento nas alturas. Estirar o corpo sobre a grama e fixar o olhar na vertical as nuvens que anunciam a chegada da chuva são uma boa forma para captar o que uma rápida olhada jamais poderá notar.

          Quando a nuvem ganha o corpo de uma couve-flor - que os meteorologias classificam como cumulus congestus -, está pronta a receita para seu próprio peso se derramar em água e liberar os primeiros raios devolvendo à terra o que o calor lhe tirou sem pedir licença. Mas quando o pequeno algodãozinho não pode mais crescer e se esparrama num teto invisível - e é nesse momento que os meteorologistas dão à nuvem sua classificação mais famosa, cumulonimbus - então temos o pacote completo de surpresas atmosféricas: água em abundância, luzes por vezes ativas como um estroboscópio ligado na alta voltagem, sons que anunciam a chegada de uma autoridade importante e até mesmo o rufar dos ventos que, em alguns momentos, ultrapassam o mero conceito de "beleza" e se transforma em beleza destruidora.  

          Existe um diálogo divino entre a nuvem que cresce e a pessoa que a admira. Certa vez, em dezembro do ano 2000, eu estava no campus de minha faculdade, e pude presenciar, com ânimo e admiração, o momento em que uma chuva de verão desabou sobre o local. Andei entusiasmado pelo do corredor coberto que abria espaço por entre os baixos edifícios e me acheguei ao corrimão de metal pintado de amarelo que dava fim ao meu trajeto e início à vastidão verde morro acima. Olhava claramente os pingos grossos caindo de forma intensa em contraste com o fundo recheado por uma densa mata nativa. Era bonito demais notar a beleza, a ordem e a dinâmica viva de um céu que desaguava suas bênçãos para quem era capaz de enxergá-las. Expressei meu maravilhamento como uma amiga que me acompanhava e que também admirava a chuva como se compartilhasse do mesmo diálogo que o meu.

          O maravilhamento tem a capacidade de imprimir na alma uma marca inexpugnável, mais impactante e profunda do que a marca de ferro em brasa. É a atitude de se deixar impregnar, mas não de se deixar levar pelo mundo, porque é a chuva que passa, mas experiência nos desperta e se integra à nossa personalidade. Por isso se engana quem pensa que o primeiro Evangelho escrito está na Bíblia. Não, ele se encontra na própria Criação, que forneceu os elementos necessários para que a alma fosse preparada para receber a Palavra de fato. 

sábado, 26 de setembro de 2020

A dimensão sobrenatural do prazer

"O segredo da recuperação dos prazeres naturais reside em considerá-los à luz de um prazer sobrenatural." (G. K. Chesterton, em "São Francisco de Assis")

O que Chesterton chama aqui de "prazeres naturais" nada mais é do que o prazer sensível das coisas simples. Uma boa comida, sentir a brisa batendo no rosto, o descanso e outras atividades que nos dão prazer e alegram a alma graças às satisfações dadas ao corpo.
Os dias de hoje tomaram estes prazeres como o cume da liberdade humana. Ser livre é fazer o que se quer, e ninguém quer aquilo que é ruim e desagradável.
Assim, ao entronizar a opinião como valor supremo, a era pós-moderna acabou por entronizar o desejo e a busca pelo prazer. Deseja-se aquilo é bom, portanto, as opiniões se guiam conforme o prazer daquilo que é desejado.
Opinião e desejo se tornaram os princípios sobre os quais se concebe hoje a liberdade humana. Ser livre tornou-se sinônimo de dizer "acho que" e ficar, não feliz, mas meramente alegre com isso.
É "feliz" aquele que omite uma opinião e acha que tem razão, razão esta confirmada pelo seu desejo que, pensa o homem pós-moderno, coincide com a realidade mesma.
A banalização do desejo na eterna busca pelo prazer leva inevitavelmente ao marasmo e à depressão, não por acaso um mal muito comum em nossos dias.
Chesterton lembra, nesta passagem da obra "São Francisco de Assis", que é a dimensão sobrenatural que dá sentido real aos prezares naturais.
De imediato, porque a dimensão sobrenatural tempera as coisas do mundo, e tudo o que é moderado e bom jamais torna-se enfadonho justamente porque é moderado.
Mas a dimensão dos prazeres eleva-se ao vermos que estes são uma antessala do Paraíso, um gosto de um mundo que nos espera se, entre outras coisas, soubermos moderar as coisas do mundo.
Assim como numa refeição, o apetite do homem, que no fundo é uma ânsia pelo Eterno, não pode ser satisfeito com o prato de entrada. É necessário se resguardar para que, no momento oportuno, ele esteja pronto para o banquete.

sábado, 20 de junho de 2020

Muito além de um jargão


          Todo mundo que passa por um problema sério e aparentemente insolúvel sente a situação como se estivesse fechado num beco sem saída, sem luz no fim do túnel. A atual crise relacionada ao coronavírus, com consequências muito além da própria doença, traz esta mesma dimensão, mesmo que jargões como o "vai passar" seja repetido constantemente, mas que, no fundo, reflete um mero desejo sem causa objetiva que o sustente.

          Do túnel escuro surge o ditado popular que diz "a esperança é a última que morre", mesmo que tudo esteja desabando ao redor.

          Mas o cético sabe, apesar da esperança, que não há luz em situações aparentemente insolúveis. Na verdade, qualquer pessoa dotada de alguma inteligência advinda das experiências da própria vida sabe disto. Há, portanto, uma dimensão da alma humana que mantém a pessoa viva apesar de todo o ceticismo ou jargão vazio. 

          Nesta dimensão está a esperança, que se justifica e se resguarda em dois planos: no futuro e no mistério. No primeiro caso, porque o futuro é indeterminado. O momento presente, cuja existência consiste num instante de duração nula, que não pode ser medida, e cuja estrutura consiste numa infinita conjugação de sua carga precedente, ou seja, o passado, é o ponto de partida a partir do qual se abrem todas as possibilidades futuras. Dito de outra forma, o momento presente é resultado de infinitas possibilidades passadas que se fizeram reais e que, portanto, podem se conjugar em infinitas possibilidades futuras a partir de sua carga atual. De forma ainda mais resumida, no futuro qualquer coisa pode acontecer. 

          Um exemplo simples: há um ano eu estava desempregado. Demoraria menos de dez dias para, de repente, ser chamado para o emprego atual. Havia em mim o desejo, possível pelas circunstâncias da época, de que uma porta se abriria para mim. Mas o processo foi melhor do que o esperado dado que a iniciativa do novo emprego não partiu apenas de minha pessoa, mas de um futuro colega de trabalho. O acontecido poderia ter tido outro rumo caso eu dissesse "não" ou buscasse outra alternativa, ou ainda se desistisse da busca. Tudo poderia acontecer.

          O segundo caso, o mistério, é justamente o plano no qual o futuro está em potência, mas que é maior do que o próprio futuro. O mistério consiste numa realidade que é tão grande que não podemos compreende-la por completo, nem mesmo imaginá-la, porque a própria imaginação faz parte de sua dimensão. Nossa limitação no tempo e no espaço limita necessariamente nosso conhecimento. Não podemos conhecer o passado porque lá não estivemos, bem como todo o futuro, porque em algum momento morreremos. O mesmo é válido para a nossa presença física, especialmente limitada. 

          A limitação do conhecimento é alargada e preenchida pelas tradições religiosas, que nos apresentam uma estrutura coerente do mundo e de sua relação com o para-além. tanto físico quanto não físico. Ou seja, nosso desconhecimento é preenchido pela fé, que não nega, mas amplia e complementa o conhecimento existente. A infinita dimensão do mistério, da mesma proporção daquilo que chamamos de Deus, infinito por definição, nos leva a acreditar que as possibilidades futuras se conjuguem conforme o desejado por um ato de fé; e a fé é precedida pela esperança, uma das virtudes teologais. Esperamos, assim, que do futuro indeterminado consigamos realizar o que buscamos.

          Portanto, por mais fundo que seja nosso buraco ou do nosso mundo, em nós vive uma esperança que é ainda mais profunda do que este buraco; e a fé, nosso sustentáculo último, não só abarca a escuridão como a transcende e dá sentido a ela por situá-la e defini-la no plano da totalidade.

          Para os doentes, amargurados, pessimistas, deprimidos e desencorajados pela situação do mundo, há a certeza, pelo ato de fé, de que tais situações são transitórias. Este é o único "vai passar" que faz sentido. O resto é propaganda da televisão. 

          

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Santos, doutores e analfabetos: os leitores do livro da vida


          Há momentos no meu dia-a-dia em que percebo que estou percebendo algo. Isto mesmo: tomo a consciência de que estou vendo, entendendo o que se passa ao meu redor. É como se eu tomasse posse de parte da realidade, aquela parte que me é apresentada num determinado instante.

          Explico: às vezes estou na rua e vejo o trânsito de automóveis e as pessoas caminhando. Vejo que cada um faz seu caminho próprio e que ao mesmo tempo tem que se movimentar sem se chocar com os outros e os objetos à volta. Porém, ninguém sabe com exatidão se alguém ao lado realizará o movimento esperado. Isto é comum no trânsito: sabemos que o carro à frente seguirá seu curso, mas temos a real certeza de que ele realmente fará isto? Não estará o motorista pensando em dar uma guinada à esquerda de surpresa ou encostar subitamente sem dar sinal? Ou o pedestre à beira da calçada, ele olha para nosso carro em movimento, mas será que temos absoluta certeza de que ele está concentrado em nós e não está distraído com algum pensamento, consciente apenas à sua própria mente, e irá se jogar na frente do carro sem perceber? 

        Nesta situação tudo para mim parece claro, objetivo, evidente. Não que eu saiba o que os demais estão pensando, mas eu vejo, intelectualmente, que todas as pessoas partilham da incerteza sobre o que todas as demais irão fazer, e mesmo assim as coisas funcionam perfeitamente bem. E se há um acidente (uma batida entre dois carros, por exemplo), eles são infinitamente raros se observamos a infinidade variáveis que entrelaçam um fato, que em volta do acidente são milhares, milhões ao mesmo tempo. Podemos ver isto num único toque, num único olhar. É o que chamamos de intelecção, a capacidade de entender a realidade entorno. 

          Este é o meu deleite e talvez o de alguns leitores deste texto. Eu morreria de tédio e de desgosto se pudesse viver momentos assim. Não fico entendendo tudo o tempo todo, mas minha vida correria o risco de perder o sentido caso eu perdesse esses momentos de maravilhamento da realidade que, no fundo, são comum a todos. É neste sentido que a vida é um livro aberto: tudo à nossa volta induz à leitura do mundo e esta leitura se torna, no seu acontecer, uma leitura da alma, porque ler a realidade é tomar consciência de uma operação da alma que se revela na relação com o mundo. Isto é entendimento, isto é intelecção, isto é vida. Portanto, para o ser humano viver é necessariamente entender por mais ignorante que a pessoa possa parecer aos olhos das convenções sociais. 

        Quanto mais límpidos são os olhos da alma, mais clara é esta intelecção, mesmo que a pessoa não tenho inteligência segundo a erudição e a ciência. É neste sentido que a alma santa, mesmo analfabeta, sabe muito mais do que os doutores: ela lê o mundo e não precisa de meios ou instrumentos rebuscados para entender o que precisa ser entendido. O instrumento está nela mesma, está em todas as pessoas. Basta entender, ato este que é um dom dado desde o Alto. A alma santa entende tudo ainda que lhe faltem palavras. 

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Ignorância e desprezo: um microcosmo do inferno


          No último dia 11 de outubro, escrevi a seguinte mensagem no Facebook:

"As pessoas imaginam que o oposto do amor é o ódio. Não é. O oposto é o desprezo. Não há coisa pior no mundo do que alguém, a não ser por uma razão muito justa, lhe dar as costas de graça, por besteira ou mesmo por má índole. Confesso que há uma pessoa que faz isto comigo toda a vez que me vê, não por má índole, mas sem razão clara. Prefiro não especular o real motivo da atitude, mas ponho a mão no fogo: é uma sensação absolutamente horrível, que exige de nós uma defesa psicológica e espiritual firme e, dependendo da situação, uma esforço recíproco de indiferença. Do contrário o sentimento é de ser simplesmente destruído, de aniquilação interior completa, e o que é pior, de graça, sem motivo algum. Não é à toa que no inferno Deus não fica nos torturando: Ele simplesmente está ausente. O que mata é a falta de amor, o total desprezo. É a coisa mais triste de nossa existência."

          Santo Agostinho já dizia que o Mal não é uma substância: é a ausência do Bem. Por isso mesmo a ação do demônio, mais do que querer nos dominar com sua presença maléfica, tem como principal objetivo nos afastar de Deus. Mesmo porque o inimigo não pode agir onde Deus está presente, ou pelo menos ativo, o que implicaria na Sua presença. A ausência do Bem, a perda completa da presença divina, é a ausência do amor, já que o amor pressupõe o desejo de união. Só ali o demônio pode habitar em definitivo.

          Quando alguém diz "eu te amo" esta pessoa está dizendo "quero ser um contigo"; quando esta mesma pessoa diz "eu te odeio" ela pode até desejar sua ausência, mas precisa de você para externar seu ódio. Você precisa estar presente. Mas a ignorância é um mal que está em outro patamar: quando alguém ignora o outro solenemente, seja fingindo a sua ausência, dando-lhe às costas, desviando o olhar ou agindo com total e absoluta indiferença, o que temos aí não é o amor que deseja a união, nem mesmo o ódio que exige que seu adversário esteja presente: aí temos o nada, o não-presente, o não-ser, a negação absoluta, o oposto da existência. É um não-sentimento, uma não-ação, o Bem que se ausenta por completo. A ausência do Absoluto, do Eterno, de Deus. Em suma: o inferno.

(A espanhola Teresa d´Ávila, santa e doutora da Igreja: experiências místicas essenciais para entender a relação do homem com o mundo espiritual, de Deus aos demônios.)

          Santa Teresa D´Ávila descreveu sua experiência mística do inferno em O Livro da Vida, autobiografia onde apresenta várias de suas experiências místicas e espirituais. Depois de descrever o local que os demônios estavam preparando caso fosse condenada (um buraco encravado na parede) e como seriam as dores do corpo (dado que a alma tem estes registros), a santa destaca as dores da alma, que considera infinitamente piores do que as primeiras:

"Pois então, isso não é nada em comparação com a agonia da alma. Um aperto, um sufocamento, uma aflição tão sensível e com tão desesperada e aflita tristeza que não sei como explicar. Porque dizer que é como estar sempre arrancando a alma é pouco, porque ainda pareceria que outro é que acaba com a vida. Mas aí é a própria alma que despedaça." (p. 297, capítulo 32)

          Não é coincidência que meu relato utiliza "destruição" e "aniquilação interior" para descrever uma recente experiência de desprezo, assim como Santa Teresa fala que a alma se "despedaça" ao estar no inferno. Primeiro porque já havia lido o livro dela em 2011 e segundo porque, ao escrever a mensagem, lembrei deste trecho, que é a melhor tradução possível para expressar o sentimento de ser solenemente ignorado por alguém que se tinha uma relação íntima até pouco tempo e, sem saber exatamente porque, resolveu fingir que você está numa cova. A sensação é absolutamente horrível, um misto de agonia e tristeza que não possui saída e acaba por quebrar as nossas pernas. Guardadas as proporções, este é o sentimento, esta é a situação de alguém que lhe dá as costas e lhe trata como nada, no sentido mais estrito da palavra. É uma dor sem saída e aparentemente sem fim, um microcosmo do inferno.

          Por isso é tão importante e crucial o tratamento decente para com o próximo, o cumprimento do segundo mandamento. É ali que Deus habita, e por isto mesmo Jesus Cristo ensina que o primeiro e segundo mandamentos estão unidos num só: onde há Deus não há ignorância; onde há amor ao próximo Deus necessariamente ali está se manifestando de forma que você e seu próximo sejam um. O que fere uma pessoa não é necessariamente o ataque, mas a ignorância, uma agressão infinitamente mais poderosa do que o ódio e um antídoto perfeito à presença divina.   



domingo, 27 de novembro de 2016

Hollywood e a guerra contra o espírito

(Cena do filme "A Chegada": nave alienígena em Montana, EUA.)

Ontem assisti no cinema o filme "A Chegada". A estória trata de um tema muito batido nos filmes de Hollywood: alienígenas subitamente chegam à Terra causando muito tumulto entre os humanos, não necessariamente uma guerra, mas discussão, tensão, debate, questões que mexem com nossa existência.

A principal personagem do filme, Louise (Amy Adams), é uma linguista americana recrutada pelo exército para estabelecer uma comunicação com alienígenas que, subitamente, pousaram suas naves em doze diferentes pontos da Terra. Uma delas está no interior do estado de Montana, nos EUA, onde se passa grande parte do filme. Não cabe aqui contar todo o enredo, mas alguns eventos estranhos acontecem ao longo do filme: Louise começa a ter visões sobre sua vida. Mais tarde, ela descobre que essas visões são de sua vida no futuro e que, de alguma forma (e isto não fica claro), eram os alienígenas que lhe conferiam essas visões.

Outras questões que chamaram minha atenção foi a tensão política e militar causada pelas naves. Uma delas estava sobre o mar junto à cidade de Shanghai, na China, cujo exército exigiu que a nave no espaço aéreo chinês se retirasse do local. A exigência veio depois de um  por erro de comunicação, e caso o prazo não fosse cumprido a China atacaria a nave.A  Rússia (que tinha duas naves sobre seu território) e o pobre Sudão decidiram fazer o mesmo.

Num determinado momento do filme, Louise tem a visão de uma conversa que ocorreria dentro de uma ano e meio no futuro, com o general Shang, chefe do Exército de Libertação Popular da China, que decidira pelo ataque. O diálogo acontece durante uma celebração num salão de eventos. O general agradece o papel da linguista pela união de todos. Isto mesmo: união. No salão há bandeiras das potências mundiais, e ao centro um dos símbolos de linguagem utilizado pelos alienígenas. O mundo estava, portanto, politicamente unido. EUA e China eram não só amigos, mas aliados, bem como todas as potências mundiais.

O filme também repete o enredo de muitos outras produções hollywoodianas: os alienígenas estavam na Terra muito tempo. Neste caso, há três mil anos. Louise descobre isso num diálogo direto com os visitantes, quando estes a trazem sozinha à nave. A razão que levou o exército da China a decidir pelo ataque foi o erro de interpretação dado pelos chineses à frase "oferecer arma" que, no sentido dos aliens, era na verdade "oferecer presente". Louise descobrira isto numa simples conversa e fora a chave para evitar uma guerra.

Ela também descobrira que a linguagem alienígena possuía uma estrutura totalmente diversa da linguagem humana, dentre elas a de que o tempo não era linear. A escrita tinha outra estrutura de tempo. Havia uma relação, portanto, entre a linguagem e as visões do futuro que brotavam na mente de Louise. A linguagem alienígena era representativa da imagem unificada de tempo, onde passado, presente e futuro se unificavam numa mesma imagem.

(Cena do filme "A Chegada": exército chinês decide pelo ultimato seguido de ataque à nave alienígena. Para o filme, a ameaça à paz está na divisão entre Estados. É necessário uni-los.)

O que chamou minha atenção, porém, não foi o papel da personagem, mas o mistério profundo envolvendo a longa presença alienígena e sua missão profética. Os aliens não só estavam há três mil anos na Terra como ele ofereciam, como profetas de uma nova humanidade, um "presente" que, se não entendi errado, era uma nova forma de ver o tempo e a ordem do real, cujo efeito seria um futuro de paz e harmonia. Os grandes inimigos dos profetas vindos do espaço eram os agentes de Estado. Assim como generais chineses, russos (que no filme assassinaram um dos pesquisadores envolvidos nas tentativas de comunicação) e africanos, membros do exército americano, obcecados pela segurança nacional, tratavam as naves como ameaça. Os inimigos da paz, portanto, eram os Estados nacionais e suas lógicas de poder, ao passo que os proponentes da paz eram os alienígenas, capazes, de forma misteriosa, de prever o futuro e apresentá-lo na intimidade da mente humana. A paz que Louise conseguira junto ao general chinês foi possível porque ela, num ato quase desesperado, entrou em contato com ele pelo sistema de comunicação utilizado pelos pesquisadores para lhe dizer algumas poucas palavras em mandarim. Estas palavras eram as que sua mulher lhe dissera instantes antes de sua morte, e que Louise ouvira durante a visão que tivera.

Aqui chego ao ponto que me interessa: a concepção de tempo dos alienígenas no filme é a concepção de eternidade. Se era possível ver o futuro, era porque os aliens tinham a capacidade, por algum meio misterioso, de conhecê-lo. Mas o filme não explica de onde vinha esta capacidade, nem de qual lugar do Cosmo as naves tinham origem. Elas simplesmente apareceram e estavam na Terra de forma invisível. Também não havia qualquer indicativo ou mecanismo utilizado pelos alienígenas (se um máquina, se telepatia ou mesmo alguma força espiritual) para projetar na mente de Louise as visões do futuro. As visões simplesmente apareciam

Dado o mistério e a enorme capacidade de influenciar os acontecimentos, o filme propõe que, sim, toda a humanidade fora mais ou menos guiada por forças alienígenas, a despeito da história das civilizações, das grandes religiões e dos grandes acontecimentos que marcaram época.

(Cena final do filme "Presságio": reprodução do Paraíso por mãos alienígenas. Deus está fora da estória.)

Muitos outros filmes hollywoodianos têm a mesma cosmovisão: depois de filmes como "Contatos Imediatos com o Terceiro Grau" e "E.T., o Extraterrestre", dos anos 80, a saga de alienígenas criadas a partir de "Independence Day" de 1996 é um misto de mistério com ameaça à Terra. Todos eles clamam aos alienígenas como guias espirituais do homem, à necessidade de unificação política planetária em nome da paz e da segurança da humanidade, a salvação da natureza, ou a isto tudo junto. No primeiro "Independence Day" o mundo, liderado pelos EUA, consegue libertar a humanidade da ameaça de extermíni; no segundo filme, "Independence Day: Ressurgimento", os alienígenas retornam vinte anos depois a uma Terra cujas forças militares estão unificadas sob comando da ONU. Na refilmagem "Guerra dos Mundos", os aliens, depois de causarem caos no mundo inteiro, simplesmente são enfraquecidos e morrem unicamente por terem se contaminado com uma Terra poluída pelo homem (foi o pior filme do gênero que já vi). No original "O Dia em que a Terra parou", os visitantes vêm alertar sobre o perigo que uma guerra nuclear poderia causar à humanidade e ao sistema solar, cuja solução passaria pela coordenação de um acordo global. A refilmagem rebaixou a proposta da política para o ambientalismo: o homem estava destruindo o planeta, e cabia às forças alienígenas alertar, mesmo que sob ameça, a humanidade sobre os rumos que seguia. Em "Presságio", o personagem vivido por Nicholas Cage decodifica uma série de mensagens em números que dão as datas, coordenas e números de mortos de uma série de tragédias. Até que ele descobre a data do fim do mundo. Quem comunica essas informações são alienígenas, que vêm à Terra salvar seus filhos e trazê-los de volta quando o planeta tem sua superfície renovada. A cena final é uma literalização do Gênesis: o casal de filhos corre sobre um campo brilhoso com uma árvore ao centro, numa reprodução ufológica do Paraíso de Adão e Eva, enquanto as naves partiam para o espaço. Os deuses alienígenas davam reinício à humanidade. Hollywood reecrevera a Bíblia.

(Base na lua do sistema de defesa global no filme "Independence Day: Ressurgência": ataque alienígena foi razão para a unificação militar planetária.)

Reparem que em todos estes filmes não há qualquer menção a Deus ou ao plano transcendente, mesmo que de forma vaga. O horizonte existencial de Hollywood fecha-se totalmente no mundo imanente: todos os mistérios, todos os acontecimentos, todo o sentido da vida está encerrado na presença da vida alienígena. A psique é a única dimensão para além do mundo sensível, sendo este mesmo dominado pelos extraterrestres.

Alguém pode ainda lembrar que Hollywood filmou "A Paixão de Cristo". Em primeiro lugar isto já mostra a dimensão do problema: fora um filme essencialmente religioso, as questões espirituais ou transcendentais estão abolidas das grandes produções americanas, a exemplo do cinema-catástrofe e dos filmes de super-heróis (impossível não lembrar do personagem Apocalypse, do último filme da série X-Men, uma literalização histórica e material do último capítulo da Bíblia, dos Quatro Cavalheiros e de outras tradições religiosas). Jim Caviezel, que fez o papel de Jesus Cristo, teve sua carreira praticamente encerrada após as filmagens do épico. Motivo? Boicote velado de Hollywood. Aos que duvidam que seja exagero, quem declara isto é o próprio ator.

As referências religiosas que se apresentam nos filmes hollywoodianos geralmente estão desconectadas de seu sentido original. O personagem Apocalypse é um exemplo. Em "Guerra dos Mundos" a desconexão vai ainda mais longe: a cena em que a frente de uma igreja se desloca abrindo a frente do prédio, e em seguida surge a nave alienígena de debaixo da terra (o tripod) matando todo mundo, sugere que o mal estava lá há muito tempo e que finalmente foi liberto. O filme inverte o sentido da religião cristã.

(Cena da refilmagem "Guerra dos Mundos", quando surge a primeira nave alienígena que começa o extermínio da população: inversão e escamoteamento do cristianismo.)

A importância do cinema de Hollywood está no seu alcance a milhões de pessoas. O cinema, assim como a literatura e as novelas, moldam o imaginário social das massas. Hollywood está promovendo, de forma deliberada ou não (não saberia julgar) uma cosmovisão onde Deus está ausente ou, pior ainda, onde nem mesmo o transcendente existe. E se existe, é inacessível a nós. Não podendo vencer o espírito, estas grandes produções o enclausuram numa gaiola e acostumam o imaginário a desconsiderar a transcendência. Paralelo à ignorância espiritual, somos estimulados ao apelo à paz, à harmonia, à salvação do planeta, possível apenas pela união de todos para com todos. Hollywood propõe que ignoremos o espírito e aceitemos o governo mundial.