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segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

A cruz da pessoa desajustada


          Se você é um desajustado num mundo que lhe exige cumprir certos preceitos e comportamentos - preceitos e comportamentos que, na verdade, você idealizou como corretos - talvez sinta que nunca, jamais sua vida entrará nos eixos segundo esses ideais, reais ou imaginários.

          Para não falarmos de casos reais, podemos recorrer à literatura para descobrir o rumo que um desajustado pode tomar em sua vida, geralmente a um preço muito elevado se comparado, à primeira vista - veja bem, à primeira vista -, com aqueles que consideramos "felizes" e "realizados".

          Mesmo entre as pessoas famosas e influentes, apontadas como exemplos de sucesso nas coisas do mundo, há muitos casos de vocações frustradas, mesmo quando elas cumprem aparentemente os dois pilares que compõem o ideal de felicidade na sociedade moderna, que são a plena realização no casamento e no trabalho.

          O escritor russo Fiódor Dostoiévski, por exemplo, vivia em condições paupérrimas apesar de seu enorme talento com o intelecto e as palavras. Alguém que "deu errado" mesmo em seu tempo, o século XIX, dada algumas qualidades tão evidentes em relação à esmagadora maioria das pessoas. 

          Cito este escritor porque um de seus personagens exemplifica muito bem a enorme dificuldade que uma pessoa pode ter para se adaptar ao mundo. Trata-se de Liev Nikoláievitch Míchkin, personagem principal do romance O Idiota e que carrega muitos traços característicos do autor. 

          O título do livro é um dos adjetivos do pobre homem que, sofrendo de epilepsia e fortemente afetado pela turbulência de um meio social conflituoso e agonizante, não consegue se adequar ao ambiente em que se inserira. Príncipe Míchkin, como é chamado, acaba numa clínica para doentes mentais na Suíça, longe do mundo que o rejeitara na Rússia, seu país natal.

          O mais interessante é que aquele que era chamado de "idiota" estava mais são do que todos os demais personagens. De alma pura, Míchkin não suportou as tensões emocionais de duas famílias aristocratas em conflito, a militância política de um grupo de revolucionários niilistas e a dubiedade e mesmo má intenção de uma das duas mulheres que por ele se apaixonaram. Sofrendo de epilepsia, doença que Dostoiévski possuía, eram muitas tempestades para alguém hipersensível para o ambiente entorno.

          Os críticos da obra caracterizam o príncipe Míchkin como um misto de Jesus Cristo com Dom Quixote para definir sua pureza e ingenuidade quase infantis. Pois num mundo doente, quem parece doente é justamente aquele que está são, e ainda mais doente aquele que é bom de coração. 

          Esse personagem é um claro exemplo de pessoas que não de enquadram no mundo, tomando aqui "mundo" não apenas no seu contexto social específico como também no sentido bíblico de sociedade humana. Mundo é a realidade organizada e criada pelo homem e, refletindo a imagem e semelhança de seu criador, carrega também suas incoerências e contradições.

          Pois o desajustado quer se evadir do mundo, e poucas coisas são mais tentadoras do que fugir deste mundo para um outro. Não, não falo de suicídio, e sim do refúgio na vida interior e o potencial dano que isso pode causar quando essa atitude cobra o preço de negar os deveres e necessidades da vida. 

          Ninguém está imune à necessidade de trabalhar para sobreviver, nem do dever de realizar coisas básicas no trato com o próximo como cumprir acordos tácitos que estão subjacentes, por exemplo, na resposta a uma pergunta ou num ato de compra e venda. Evadir-se do mundo não é a solução, mas fuga para o desejo imaginário de uma vida sem esforço, de um paraíso idílico sem o peso e o consequente suor cobrado pelo pecado original.

          A tentação de evasão do desajustado está em evitar os efeitos de um mundo que lhe agride por sua hipersensibilidade. O personagem Míchkin, ao mesmo tempo em que influenciava positivamente as pessoas ao seu redor com suas reflexões íntimas e exemplo de conduta, absorvia excessivamente o impacto das loucuras alheias. Um troca desigual causada por um sacrifício involuntário, o de iluminar os erros alheios através de um sofrimento psicológico que lhe tirava a paz a todo o instante.

          Não por acaso o mais bem acabado personagem de Dostoivéski acabou retornando à clínica onde estivera meses antes. O mundo era agressivo demais, louco demais para um homem excessivamente são e bom. Voltara à prisão a alma mais pura que não suportou a doença de um mundo que prenunciava a confusão e o caos que viria a perturbar muitas almas e se alastrar por toda a humanidade.

          Na literatura se multiplicam as figuras que não se encaixam no mundo. As obras distópicas são exemplares nesse ponto. Os personagens Bernard Marx de Admirável Mundo Novo, Winston Smith de 1984 e Juliana Frink de O homem do castelo alto se adaptam forçosamente a uma realidade hostil e lutam até o fim de suas forças para confrontar e vencer uma ordem repressiva e artificialmente imposta. Obviamente, estes são casos extremos, mas num mundo onde a liberdade a cada dia se torna mais exígua, mais e mais desajustados - e muitos conformados - começam a brotar em nossas esquinas.

          Possivelmente Dostoiévski corroboraria as atitudes desses heróis literários, como o enigmático personagem de Memórias do subsolo, que proclama em alta e profunda voz a liberdade humana em conflito com as limitações de sua própria condição existencial. Eis o desajustado por excelência, que se debate em sua impotência frente a um mundo que não pode transformar decaindo na apatia de uma experiência repleta de conflitos e frustrações, de uma vida num subterrâneo deprimido pela crosta que o oprime.

          Talvez a pessoa desajustada não seja apenas fora do lugar, mas sensível demais para aceitar uma ordem social deformada, doente na alma e conduzida por cegos rumo ao abismo. Mas isso não é razão para a apatia, e sim para a luta. Primeiro por sua própria sobrevivência, a necessidade de carregar uma cruz que, aparentemente, pesa mais do que a dos outros; e depois para, através dessa mesma superação, fazer do príncipe um vitorioso, iluminar pelo exemplo um mundo que jaz na escuridão.

domingo, 14 de novembro de 2021

Dia 13 de novembro de 2021

 

          Eu estou com quarenta anos e durante mais da metade de meu tempo de vida realizei uma busca, sem clareza do objetivo almejado, de minha vocação enquanto pessoa. A situação foi ainda mais complicada porque essa busca se confundiu muito com a ideia, profundamente arraigada na sociedade moderna, de vocação profissional, algo muito distinto mas alguma forma integrado à realização plena da personalidade. 

          Por vezes nossa alma recebe como que lampejos de consciência que nos situam nessa busca. São momentos que permitem ver, em instantes bastante precisos, onde estamos na caminhada de nossa realização, um estar no mundo onde vemos a integração de nossa pessoa com tudo o que há, um espécie de mapa cósmico e histórico que nos situa em nossa trajetória de vida. 

          Na obra Retrato de um artista quando jovem, o escritor irlandês James Joyce descreve, com o prolongamento e os detalhes que lhe são característicos, o processo de descoberta de vocação do jovem personagem Stephen Dedalus. Ao ler hoje o trecho a seguir notei o êxtase do personagem e pude lembrar de situações da minha vida que eram análogas à sua experiência:

O seu coração tremeu; a sua respiração tornou-se mais apressada; e um espírito selvagem passou por sobre os seus membros como se ele fosse escalar o sol. O seu coração tremia num êxtase de medo e a sua alma estava num voo. A sua alma estava se alando ar acima para lá do mundo, e o corpo, sabia ele, estava purificado, libertado da incerteza, e se tornara radiante, diluído no elemento mesmo do espírito. Um êxtase deslumbrado de voo tornava radiantes os seus olhos, desordenada a sua respiração, e trêmulos, selvagens e radiantes os seus membros arrebatados pelo vento. (p. 173)

          A experiência de Stephen é a tomada de consciência de quem era e quem queria ser enquanto pessoa. Ele acabara de ser questionado por dois padres jesuítas se não gostaria ser sacerdote, e vagando pelas praias próximas a Dublin foi descobrindo seu verdadeiro caminho através de um turbilhão de emoções, recordações e iluminações.

          Gostaria de dizer muito mais aqui, mas apenas sei que, enquanto estava à rede absorvendo esse momento especial da obra, notava que não estava tão consciente de meu caminho quanto o jovem Stephen com mais ou menos metade de minha idade. Ou como uma então amiga minha que, em 2003, descrevia num e-mail seu momento de êxtase e felicidade profunda enquanto caminhava nas ruas de uma cidade na costa leste do Canadá. Era um anúncio, à vista de todos, de como era feliz, e como aquele momento era revelador de sua bem sucedida caminhada de vida.

          A descrição da iluminação interior do personagem pode identificar muitas experiências reais nesse universo infinito que dimensiona a alma humana, ao exemplo da amiga no Canadá. A iluminação tem como alvo a consciência e se traduz num acontecimento secreto, mas profundamente real e palpável para quem o vivencia. É a sensação fulgurante de estar fazendo a coisa certa no momento certo, de ver a própria vida em sua totalidade onde tudo passa a fazer sentido, e se tem plena consciência de que a caminhada percorrida era a que deveria ter sido percorrida como se houvesse algo de providencial a guiar toda a trajetória de vida.

          A distância entre o momento em que lia James Joyce e a experiência que o escritor narrava no seu livro parecia infinita. Como ontem, o vento soprava de leste, a temperatura estava um pouco amena, e não havia nada de novo nos ares, tanto em seu plano físico quanto existencial. Mas talvez essa seja a grande surpresa: por detrás do dia a dia um universo inteiro vai se revelando, e se caminhamos conscientes de nossa busca, tateando aqui e ali, andando na beira da praia ou perdido numa rua, de repente somos arrebatados e nos vemos com o Livro da Vida em nossas mãos.

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Dia 10 de novembro de 2021

 

          Para quem gosta de meteorologia como eu e tem como um dos entretenimentos observar as condições do tempo nada mais chato do que dias e dias na mesma condição.

          Este é o padrão do tempo desde fins de outubro, e hoje não foi diferente: manhã fresca, tarde agradável; tempo bom com sol e nuvens, vento soprando de sudeste ou leste devido a um centro de alta pressão no oceano; ao final do dia as nuvens diminuem, o vento continua mas um pouco mais fraco, e a sensação de frio leve aumenta. Enfim, um enfado atmosférico que parece não ter fim e que faz esquecer o agitado mês de setembro, quando tivemos pelo menos quatro episódios de temporais aqui em Porto Alegre, um deles durando mais de dois dias, para minha empolgação e alegria.

          Essa eternidade coincidiu com um assustador e impressionante trecho da obra Retrato de um artista quando jovem, do escritor irlandês James Joyce. Sentado na rede e sentindo o vento leve que soprava trazendo as nuvens algodoadas típicas desta época, fiquei impactado com a longa descrição do que seria o inferno pela fala de um dos personagens do enredo. 

          Seu nome é Pe. Arnall, que realizava um impactante sermão durante um retiro em que participava o personagem principal, o introspectivo Stephen Dedalus, com seus colegas do Belvedere College. Vivendo uma vida cinzenta e atormentado na consciência por ter se entregue aos prazeres de uma prostituta, os ouvidos de Stephen estavam atentos a toda a explanação do que era o inferno.

          A descrição de Joyce é incrivelmente bem construída, didática e muito profunda. O leitor consegue imaginar as cenas do que seria o inferno, com as almas esmagadas umas sobre as outras e sofrendo por tormentos interiores e exteriores dos mais diversos tipos, imersas na escuridão que não se vê mas se sente e, acima de tudo, que dura para sempre. O sofrimento é tão vasto e absoluto quanto a eternidade, apresentada na analogia que o Pe. Arnall faz com o trabalho de um pássaro que, de grão em grão, vai retirando a areia de muitos milhões de milhões de montes de areia amontoados uns sobre os outros. Assim é a indizível duração da eternidade, cravadas a fogo na consciência das almas condenadas, que sabem, agora e para sempre, quão duradouro é o seu sofrimento.

          Obviamente o tédio do tempo não muda não se compara ao sofrimento que não passa. Mas há algo de infernal nisso: para quem tem apreço pela mudança, se anima ao ver as radicais transformações do tempo com bigornas de vapor d'água a ejetar raios, clarões e estrondos, se agita com a chuva que cai com força e faz vibrar o telhado, se anima ao ver o efeito do ar gelado sobre a relva que congela, fica na expectativa de alguma neve num local próximo, e se impressiona - mas reclama - com o calor que parece fazer tudo derreter, nada pior do que o marasmo. Felizmente isso não é tudo, mas apenas um aspecto, um detalhe da vida cotidiana. Se o tempo não era atrativo, a obra de Joyce, que aos poucos revelava sua impressionante profundidade, o era. 

          No dia anterior, enquanto dava prosseguimento ao livro, meu gato se aproximou e se jogou aos meus pés como se quisesse me acompanhar, mesmo que fisicamente, na aventura ficcional ambientada na Irlanda de cem anos atrás. Na expectativa de que meus dedos, cobertos pela fina camada da meia azul que eu usava, lhe acariciassem o pescoço e massageassem o profundo das orelhas, ele rolou no chão, e meus membros inferiores não tardaram a lhe preencher os sentidos de conforto e alegria. 

          Se eu estivesse totalmente preso a um único desejo, a um único afazer, se minha vida se resumisse a um único prazer que é observar e analisar o tempo, sim, a vida seria um inferno, e o tédio, mesmo que durando alguns dias, se tornaria quase tão insuportável quanto a consciência de uma eternidade dolorosa. Mas a vida não é assim. Mesmo num momento de poucos afazeres, sempre há algo diferente ou uma agradável surpresa a brotar do mundo que nos rodeia ronronando aos nossos pés e ouvidos. Enquanto estivermos vivos teremos a chance de sermos salvos.

sábado, 6 de novembro de 2021

Dia 4 de novembro de 2021

 

          Nesse dia comecei a leitura da livro Retrato do artista quando jovem, do escritor irlandês James Joyce. Logo fui pego um pouco com as calças na mão pela dificuldade na leitura, talvez devido à tradução da obra, porém o estilo de Joyce não me era familiar.

          Mas clássicos são clássicos, e como tais eles trazem no enredo um pouco da realidade que diz respeito a todas as pessoas na face na Terra. Do contrário, ficariam confinados à cultura local, muito mais significativos ao seu folclore do que à condição humana universal.

          Logo no início de Retrato, o personagem principal, o pequeno Stephen Dedalus, reflete sobre sua situação física no vasto mundo desconhecido. Após ler um lista que o situava geograficamente na vastidão indeterminada do Universo a partir de sua condição pessoal, o garoto salta ao seguinte pensamento (narrado por Joyce em terceira pessoa):

"Que é que haveria depois do universo? Nada. Mas haveria qualquer coisa em volta do universo para mostrar onde ele parava antes de começar o lugar do nada? Não poderia ser uma parede; mas bem que poderia ser uma linha fininha, bem fininha, lá bem em volta de tudo. Era uma coisa muito grande para poder pensar em todas aquelas coisas e em todos aqueles lugares. Só Deus podia fazer isso. Tentou imaginar que enorme pensamento poderia ser esse, mas só conseguia pensar em Deus." (p. 30)

          Joyce mostra a efusiva imaginação do garoto, mergulhada no universo da cultura irlandesa católica do início do século XX, mas ainda assim aberta ao mistério, esse grande mistério que ultrapassa os limites de qualquer cultura e que é preenchido não pela simples crença em si, mas pela confiante abertura espiritual. E continua: 

"Deus era o nome de Deus, assim como o nome dele era Stephen. Dieu era o nome francês para Deus, e era também o nome de Deus; e quando alguém rezava a Deus e dizia Dieu, então Deus imediatamente ficava sabendo que era uma pessoa francesa que estava rezando. Mas embora houvesse nomes diferentes para Deus em todas as diferentes línguas do mundo, e Deus compreendesse o que era que todas as pessoas que rezavam diziam em suas línguas diferentes, ainda assim Deus permanecia sempre o mesmo Deus e o nome verdadeiro de Deus era Deus." (p. 30)

          Fica bastante claro o apelo universal, não apenas da fé católica de Stephen, mas do amor à Verdade. Pois há só uma Verdade, e mesmo que haja vários prismas que a filtre e veja, essa Verdade continua sendo só uma. 

          Quando li essa passagem não apenas me identifiquei como me apaixonei por ela, pois são nesses momentos de mergulho em nós mesmos que encontramos o misterioso microcosmo que reflete o macrocosmo, uma espécie de ordem interior que tenta caminhar em consonância com a ordem exterior, e vemos que em nós há uma infinitude que também é reflexo da infinitude - ou pelo menos a indeterminação - do que há fora. Estamos no mistério e dele não podemos sair ou, como dizia São Paulo Apóstolo, "nele nos movemos, somos e existimos".

          Sentado na rede do lado de fora de casa, fui pego subitamente, mas de forma muito sutil, como que em oração, num momento de iluminação ignizado pela maravilha da obra. Por isso clássicos são clássicos. Cada um de nós traz em si um pouco da pureza de Stephen e da genialidade de Joyce.           

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

O que é a verdade? Nota de "O homem do castelo alto"

(Personagem Juliana Frink, interpretada pela atriz Alexa Davalos no seriado "The Man in the High Castle", baseado na obra de Dick.)

          A obra "O homem do castelo alto", de Philip K. Dick, é uma daquelas que só revelam seu real sentido nas últimas páginas. 

          Ambientado numa história alternativa, onde a Alemanha nazista e o Império do Japão haviam vencido a Segunda Guerra Mundial, o enredo se desenrola revelando uma rede de relacionamentos entre personagens envolvidos em intrigas políticas e vivências conflituosas. A teia é representativa dos poderes políticos que governam o mundo e insinua-se numa sociedade estratificada em raças.

          Os personagens vivem num ambiente repressivo e artificial e a todo instante buscam respostas sobre a verdade em suas vidas através de constantes consultas ao I Ching e da leitura da popular obra O Gafanhoto Torna-se Pesado

          Este livro de ficção apresenta de forma contagiante como seria o mundo se alemães e japoneses tivessem perdido a guerra. Seu autor vive num local chamado Castelo Alto e estaria recluso para evitar retaliações de possíveis atentados.

          Há, portanto, uma tensão que perpassa toda a narrativa, o conflito entre a artificialidade de um mundo dominado por dois impérios opressores e a sensação de que a verdade se revela insistentemente mas escapa por entre os dedos dos personagens. 

          O enredo se desenrola em 1962 num EUA divididos entre a porção oeste dominada pelo Japão, o centro e leste dominado pela Alemanha e a região das Rochosas como território neutro.

          Alguns dos personagens principais protagonizam a estranha vida em São Francisco e nas Rochosas americanas: Robert Childan, dono de uma loja de objetos antigos que tem como seus clientes japoneses ricos, sendo o principal deles o sr. Tagomi, Adido Comercial do Japão na costa do Pacífico; Frank Frink, judeu que havia servido no exército americano durante a guerra, perdera o emprego numa grande empresa e começava a trabalhar na confecção de pequenas joias metálicas; Juliana, sua ex-mulher e instrutora de judô, que conhecera o estranho Joe Cinadella, ex-combatente italiano na guerra e que secretamente trabalhava para o Reich; o misterioso sr. Baynes, nome falso do capitão da contra inteligência alemã Rudolph Wegener, viajando em missão especial para se encontrar com Yatabe, velho general japonês da guerra com contatos no governo de Tóquio.

          Todos eles, em algum grau, experimentam a falsidade do mundo. Seus problemas cotidianos têm raízes na dúvida sobre a veracidade das formas de vida adotadas dentro das limitações que os impérios lhes impunham: Childan lida com problemas sobre a autenticidade de suas peças para venda e tem dificuldade de conviver os japoneses que levam um estilo de vida americanizado; Frank, um judeu, vive escondendo sua real identidade e busca, com o amigo Ed McCarthy, um novo trabalho que dê um real sentido à sua vida; sua ex-mulher, Juliana, vive relacionamentos que nunca dão certo e se vê implicada numa trama secreta ao conhecer Joe, cuja identidade é revelada só mais tarde; o sr. Tagomi também se vê enrolado num conflito político muito maior do que é capaz lidar e que envolvem o alto escalão do Reich e do Império Japonês, nos quais Baynes e Yatabe são protagonistas.

          O contexto da trama está inserido nas disputas de poder do Terceiro Reich: com Hitler demente e internado, o grande império alemão é comandado por Martin Bormann. Sua morte desencadeia uma luta pelo poder em Berlim, tendo de um lado uma facção liderada por Goebbels, o chefe de propaganda, e Heydrych, líder da facção rival. E reflexos desta disputa ressoam na distante San Francisco.

          No mundo, os alemães e japoneses impõe uma ordem totalitária que estratifica as sociedades segundo raças pré-classificadas. Porém, é do lado alemão que se pratica toda a sorte de horrores em nome da mística totalitária do regime nazista: toda a população africana está num processo de eliminação física e seus restos mortais são utilizados para fins comerciais; boa parte dos eslavos são assassinados e os remanescentes expulsos à Sibéria; ingleses, americanos e latinos são subjugados e divididos em categorias, os negros ainda vivos trabalham como escravos e idosos são assassinados. A menina dos olhos do regime são as missões colonizadoras para Marte e Vênus tripuladas por alemães devidamente selecionados segundo o ideal da raça ariana. 

          E, por debaixo do pano, revela-se o plano de uma guerra nuclear contra o Império do Japão a fim de eliminar toda sua população e dar à Alemanha o domínio do mundo.

          É esta realidade falsa forçadamente construída sob a loucura dos nazistas e do artificial domínio japonês que vivem os personagens. Suas vidas são tão falsas quanto a realidade social politicamente construída. Cada relacionamento, cada contato reflete o desajuste e a tensão entre um mundo que é e o que deveria ser, entre a realidade criada e a verdade latente nas passagens do I Ching, constantemente consultado pelos personagens para orientar suas condutas; uma janela para o mundo verdadeiro.

          A apoteose da obra está no confronto de Juliana com Abendsen, autor de O Gafanhoto, onde descobre que o livro fora escrito segundo as ideias do misterioso autor, mas por decisão e orientação direta do I Ching. Seu enredo era, portanto, ação da velha sabedoria oriental e não da cabeça de um homem comum.

          Abendsen era mero instrumento de uma tradição de cinco mil anos, mas incapaz de acreditar que o conteúdo de seu próprio livro. O Gafanhoto versava sobre um mundo onde os aliados haviam vencido a Segunda Guerra, uma realidade parecida com o mundo atual e sonhada por aqueles cansados da opressão permanente. Era a apresentação do mundo livre, sonhado pelos personagens, mas silenciado pelas autoridades.

          Os questionamentos de Juliana contrariam o escritor, que se vê amargurado com a própria obra e se recusa a ver a verdade ali revelada preferindo dar as costas ao que escrevera e aceitar o mundo falso criado pelos impérios onipresentes. 

          O homem do Castelo Alto, na recusa em aceitar a revelação do I Ching em sua própria obra, é como Pôncio Pilatos na recusa em ver a Verdade no exato instante em que pergunta ao Verbo Encarnado o que é a Verdade mesma. Não podendo suportar Sua presença, A ignora.

          Este é o verdadeiro impacto da obra de Dick que, muito além da excelente trama, parece apresentar que toda sua narrativa é, na verdade, uma história de mentira onde nada daquilo havia mesmo acontecido. Talvez Juliana, Abendsen, Frink, Tagomi, nenhum deles tivesse vivido o que viveram. 

          Mas a possível falsidade de toda a narrativa do livro mostra a tensão entre o verdade revelada na conversa entre Abendsen e Juliana e o mundo falso construído por regimes totalitários de dentro do qual ambos viviam. 

          O enredo vai ainda mais longe: se esta história alternativa do mundo foi possível (e ainda é, mas sob outras formas de tirania), da mesma forma nossa história pessoal pode ter algo de falso, de artificial. Existe uma tensão entre a realidade que nós vivemos e a verdade que se esconde por detrás dos acontecimentos e que se revelam em acontecimentos cotidianos de nossas próprias vidas. 

          Philip Dick apresenta a necessidade de alargamento e aprofundamento da consciência para compreender muito mais do que o mundo, mas a verdade a ele subjacente. Este é um exercício típico da vida religiosa, onde o mergulho espiritual na própria vida e na existência do mundo nos leva à abertura para o sentido profundo de nossa caminhada diária. 

          Por mais que o homem insista em negá-la por trejeitos, artificialidade ou mesmo a força bruta, a verdade insiste em falar desde dentro da alma. E a literatura, graças à habilidade e sensibilidade de gênios profundos, tem a capacidade de expressá-la e  fazer contato com aquilo que temos dentro de nós mas somos incapazes de apresentar por palavras.

          "O homem do castelo alto" é, certamente, uma surpreendente revelação.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

O perdão em "Humilhados e Ofendidos"

(Natacha e Vânia representados em filme russo de mesmo nome, 1991)

          Pouco posso dizer sobre a obra "Humilhados e Ofendidos", de Dostoiévski, de leitura recém encerrada. O livro foi publicado em 1861, sendo o primeiro do autor após dez anos de exílio na Sibéria, de onde voltara dois anos antes.

          Certamente, esta não é sua obra mais elaborada nem está entre as mais conhecidas. É no livro seguinte, "Crime e Castigo", que o escritor mostra sua grandeza, e que é, no meu entender, a mais representativa na apresentação dos dilemas morais, da trama psicológica e do drama existencial do homem, ali expostos de forma bastante clara e elaborada, servindo de referência para outras leituras.  

          Ainda assim, Dostoiévski expõe os dramas e contradições da vida em "Humilhados e Ofendidos", mesmo que de forma menos profunda.

          O tema em questão aqui é o perdão. A dificuldade de perdoar é a tônica deste livro que, como o título já diz, apresenta o sofrimento causado pelas injustiças e a recusa por parte dos injustiçados de se desprenderem do ódio e do rancor.

          O enredo é narrado em primeira pessoa por Ivan Petróvich, o Vânia, que vai desenrolando suas memórias passadas ao fim da vida. E na medida em que a trama se revela, junto vêm os sofrimentos dos personagens que, aferrados ao orgulho, nunca ou raramente se dispõe a perdoar.

           É assim com Nikolai Serguêievicth, pai de Natacha, que se ressente da filha que abandona a família para se casar com o impulsivo e ingênuo Aliócha, filho do príncipe Piotr Aleksándrovitch. Este último um homem mau-caráter cheio de amor-próprio capaz de destruir vidas unicamente pela preservação de seu status e por vantagens financeiras.

          De outro lado, Vânia conhece inesperadamente Nelli, cujo nome verdadeiro é Elisa, e seu avô Jeremias Smith. Aos poucos, a trama revela a vida da falecida mãe de Nelli, o rancor persistente na família da garota, sua misteriosa doença e o vínculo do príncipe com a sofrida teia de relações mal resolvidas.

          Importante notar como estes personagens são direta ou indiretamente afetados pelo problema do perdão, que só a muito custo vem à tona, e a capacidade que corações puros e sofridos têm de romper as correntes que amarram pessoas embrutecidas pela dor.

          Nas obras "Crime e Castigo" e "Os Irmãos Karamázov", Dostoiévski mergulha mais fundo na tensão entre o rancor e a libertação advinda do perdão, e como este ato leva a uma radical mudança de vida e à redenção da alma humana.

          "Humilhados e Ofendidos" é o retrato da miséria causada pela falta de perdão, que arrasta não só os personagens obstinados no erro como afeta diretamente os mais íntimos, causando sofrimentos desnecessários e impedindo a realização de planos de vida, como ocorre com os personagens mencionados. 

           Assim, Dostoiévski revela a capacidade da literatura de lançar luz sobre problemas que de outra forma não seriam visíveis aos nossos olhos, pois tentar entender a trama do sofrimento através de uma realidade possível pode calar muito mais fundo do que simplesmente o ouvir falar.

          O que ouvimos podemos nem mesmo entender e simplesmente esquecer, mas o que nos esforçamos para assimilar se instala na alma de forma muito mais consistente. E Dostoiévski é um gênio na capacidade de abrir nossos olhos.          

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Como a literatura de ficção pode ser uma janela para o futuro

"Toda pessoa saudável, durante um período, deve se alimentar tanto da ficção quanto do fato; porque o fato é uma coisa que o mundo lhe dá, enquanto que a ficção é a coisa que ele dá ao mundo." (G. K. Chesterton)

          Há quem diga que o homem vive de sonhos, que não poderia viver se não sonhasse.

          O sonho é uma forma de apontar uma possibilidade futura desejável, mas enquadra-se na gama de todas as demais possibilidades imagináveis.

          Podemos sonhar, mas também temer as coisas futuras através de especulações. Isto é o que chamamos de preocupação: pré-ocupar-se, ocupar-se de algo que ainda não aconteceu ocupando a alma com pensamentos e sentimentos que estão na mera possibilidade.

          Nesta passagem, Chesterton mostra a capacidade de criação e, portanto, de decisão do homem.

          A literatura de ficção é um leque potencialmente infinito de possibilidades futuras, o exercício imaginativo do homem de antever o que ele poderia realizar se tomasse determinadas atitudes.

          Por isto ela é tão importante. A ficção mostra o que podemos ser e, portanto, aponta os meios possíveis de mudar nossa pessoa através de ações que já foram pensadas, mas ainda não realizadas.

          Quem não antevê, no plano do imaginário, os aspectos simbólicos e concretos do raio de possibilidades de ação, não pode fazer o que poderia fazer. Dito de forma mais, simples: não podemos fazer o que não conhecemos; e a ficção permite conhecer, por antecedência, um futuro possível.

          Se contra fatos não há argumentos, porque é por eles que o mundo chega até nós e somos passíveis àquilo que já passou, a favor da ficção os argumentos são infinitos, porque podemos concretizar infinitos acontecimentos possíveis.

          Chesterton sabia do potencial imaginativo do homem, e seu legado, que abrange desde ficção à apologética, filosofia e análise dos fatos, é um universo que não está apenas em palavras, mas pode tornar-se real.

          Ajamos para que assim seja.

domingo, 23 de agosto de 2020

Os frutos da boa literatura

 

(Estátua de Dante Alighieri em Nápoles.)

"A boa literatura pode nos revelar a inteligência de um homem; mas a má literatura nos mostra a inteligência de muitos homens."(G. K. Chesterton)

          A inteligência é um elemento presente individualmente em cada pessoa. Ela não é coletiva; pode ser desenvolvida com auxílio de outras pessoas, mas entender as coisas depende da cognição, a capacidade de apreender a realidade.

          Bons escritores expressam a realidade filtrada por seu olhar. Ainda que apresentem um ponto de vista (afinal, as palavras humanas não podem apreender a totalidade dos acontecimentos), elas expressam algo real que pode ser reconhecido por qualquer pessoa em qualquer lugar.

          Cícero, Dante, Dostoiévski, Mann e Chesterton quando lidos ao redor do mundo são compreendidos, apesar das variações de traduções, de forma mais ou menos semelhantes porque falam de uma realidade profunda comum a todos.

          Os clássicos são obras de gênios ou pessoas inspiradas que aguçaram a inteligência, este traço essencialmente individual.

          Mas quando a literatura é ruim, para não dizer má, ela expressa não apenas a inteligência de seu autor, mas de muitos outros, que vêem na má obra não o mundo como é, mas como gostariam de ver.

          Desde as obras produzidas para inundar as livrarias com estorinhas do momento e as editoras de dinheiro, até aquelas que pervertem o pensamento, a má literatura congrega todos os que se sentem seguros em participar da mesma massa evitando confrontar o mundo real e, portanto, as próprias vidas.

          É como a multidão que acorre às praias porque todo mundo acorre às praias. Muitos não sabem porque estão lá, mas vão porque outros vão fazendo com que todos, ao mesmo tempo, façam a mesma coisa e vejam com estranheza quem não comunga do mesmo desejo.

          Mas praias à parte, Chesterton revela nesta passagem que a inteligência é um atributo pessoal e que, portanto, chama à responsabilidade.

          É fácil empreender para agradar às multidões, independente dos efeitos deletérios que uma literatura para fins comerciais ou ativista possa ter; difícil é arcar com a responsabilidade de que cada página, linha ou palavra escrita terá no coração do próximo.

          O fruto da boa literatura é o surgimento de boas ações e boas pessoas.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Dostoiévski e a mentalidade de nosso tempo


          As obras de Fiódor Dostoiévski são extensas e incrivelmente ricas em muitos aspectos. Desde os complexos traços dos personagens até a abordagem de temas existenciais, o escritor consegue apresentar com muita perspicácia e conhecimento os problemas pessoais e sociais que envolvem o destino do homem e que compõem o sentido mais profundo de seu trabalho.

          O drama da existência não é seu único tema. Dentro deste, o autor mergulha nos acontecimentos e dilemas de seu país do século XIX e apresenta com clareza os movimentos políticos e a atmosfera psicológica que haveria de varrer a Rússia e o mundo a partir do início do século XX.

          Disseminando ideias deturpadas acerca do homem e do mundo e remando contra a própria condição humana, as criações de Dostoiévski apontam este caminho futuro. Rodion Románovich Raskólnikov em "Crime e Castigo" com sua atitude e moral revolucionária, Piotr Stiepánovitch Vierkohviénski e seus parceiros em "Os Demônios" com seu cinismo, militância e ação violenta, e Ivan Pávlovitch Karamázov em "Os Irmãos Karamázov" com sua soberba e relativismo ateu são alguns dos personagens que se apresentam como protótipos de personalidades tirânicas, imorais e psicóticas que em algumas décadas viriam a inspirar e liderar em todo o mundo os horrores da revolução, da guerra e do genocídio. 

          Mas é num trecho da obra "O Idiota" que o escritor revela sua capacidade de antever com bastante precisão essas possibilidades futuras. 

          No longo trecho reproduzido abaixo, a personagem Lisavieta Prokófievna assiste à uma discussão entre os amigos do personagem principal, Liev Nikoláievitch, o príncipe Míchkin, dentre eles um grupo de jovens niilistas e, absorvida e transtornada pela atmosfera de loucura reinante no ambiente, desabafa:

"Veja só, Ievguiêni Pávlovich, se até o senhor acabou de declarar que o próprio defensor declarou em um julgamento que não existe na mais natural do que matar seis pessoas movido pela nobreza, então é o final dos tempos. Isso eu ainda não tinha ouvido falar. Agora tudo ficou esclarecido para mim. Veja esse tartamudo, por acaso não degola um (ela apontou para Burdovski, que olhava para ela com extraordinária perplexidade)? Aposto que degola! Ele talvez não aceite o teu dinheiro, os dez mil, e não o aceite por uma questão de consciência, mas à noite ele aparece e te degola, e leva o dinheiro do cofre. Leva por consciência! Isso para ele não é uma desonra! É um 'impeto de desespero nobre', é a 'negação' ou sabe lá o diabo o quê... Arre! Tudo anda de pernas para o ar, tudo às avessas. A moça está crescendo em casa, de repente no meio da rua pula para dentro de uma carruagem: 'Mãezinha, há poucos dias eu me casei com um tal de Kárlitch ou Ivánitch, adeus!'. Então, a seu ver, essa é a boa forma de agir? Naturalmente digna de respeito? Questão feminina? Esse menino (apontou para Kólia), até ele discutiu comigo alguns dias atrás dizendo que isso é a 'questão feminina'. A mãe pode até ser uma imbecil, mas ainda assim tu deves ser um homem com ela!... Por que entraram há pouco de cabeça erguida? 'Não ousem aproximar-se': estamos entrando. 'Deem-nos todos os direitos, e quanto a ti não te atrevas a gaguejar diante de nós. Concede-nos todas as honras, mesmo aquelas que não existem, e quanto a ti, vamos tratá-lo pior que o último lacaio!' Procuram a verdade, insistem em seus direitos, mas o caluniaram como um desonesto artigo. 'Nós exigimos e não pedimos, e o senhor não ouvirá nenhum agradecimento de nossa parte porque nós estamos agindo para satisfazer a nossa própria consciência!' Que moral: e já que não haverá nenhum agradecimento de tua parte, então o príncipe pode te responder que ele não sente nenhuma gratidão por Pavlischov, porque Pavlischov fazia o bem para satisfazer a própria consciência. Mas tu contaste apenas com a gratidão dele para com Pavlischov: porque não foi de ti que ele pegou dinheiro emprestado, não é a ti que ele deve, então com quê tu contavas a não ser com gratidão? Como é que tu mesmo vai recusá-la? É uma loucura! Reconhecem a sociedade como bárbara e desumana porque ela difama uma moça seduzida. E se tu reconheces que a sociedade é desumana, então reconheces que essa sociedade causa dor a essa moça. E já que causa dor, como é que tu mesmo expões essa moça nos jornais diante dessa mesma sociedade e exige que isso não seja doloroso para ela? É uma loucura! Vaidosos! Não acreditam em Deus, não acreditam em Cristo! Mas acontece que os senhores estão de tal forma corroídos pela vaidade e pelo orgulho que vão acabar devorando uns aos outros, é isto que eu prevejo para os senhores. Isso não é uma bagunça, isso não é o caos, isso não é o horror?" (p. 325-326) (grifos meus)

          O discurso irado de Lisavieta é uma profecia do que a Rússia enfrentaria em menos de cinquenta anos (a obra foi divulgada em partes entre 1868 e 1869) e revela, com a devida ênfase de uma alma sã, a perversão moral da mentalidade revolucionária, baseada num relativismo que a subjuga em nome da estratégia política com vistas a formulação de uma sociedade ideal futura.

           No artigo A mentalidade revolucionária, o filósofo Olavo de Carvalho mostra que a cosmovisão dessa mentalidade baseia-se na inversão da concepção do tempo, cuja consequência é a inversão dos fundamentos da moral, não mais baseada na experiência de longa data do passado, mas no tempo ideal futuro, o Paraíso terrestre. Como este futuro não existe na realidade, a nova moral anunciada depende da boca daquele que proclama o ideal futuro, transformando-se no juiz e no carrasco que passa a julgar todas as pessoas e épocas com base em sua projeção mental.

          Esta mentalidade está resumida nas palavras dos niilistas repetidas por Lisavieta, que proclama: "Nós exigimos e não pedimos, e o senhor não ouvirá nenhum agradecimento de nossa parte porque nós estamos agindo para satisfazer a nossa própria consciência!" 

          O que poderia haver de mais soberbo do que exigir segundo a consciência? O que haveria de mais relativo do que medir as coisas por sua consciência, sua própria subjetividade? E onde está esta consciência senão no ideal subentendido por detrás de uma exigência moralizante?

          Se a consciência publicamente proclamada é a medida da nova moral, então a moral advinda da experiência da realidade é inválida e substituída por um parâmetro totalmente subjetivo, portanto, mutável. Na falta de uma referência fixa, vencerá a moral que se impor pela astúcia e pela força, transformando-se ela mesma na medida da realidade.

          Os niilistas de Dostoiévski acreditavam poder se impor aos outros pelas palavras intimidatórias e o desprezo sarcástico. Proclamavam a demolição de todos os valores e da ordem social acreditando que disto surgiria espontaneamente uma nova sociedade. 

          A mencionada "questão feminina", em voga na Rússia de então, o ateísmo, a "nobreza" da ação revolucionária expressa, nas palavras da personagem, pela coragem de matar por um ideal nobre, eram (e ainda são) princípios de ideias revolucionárias, que no século XX mudaram de conteúdo, mas não de forma. Podemos tirar a questão feminina e incluir a raça, a minoria oprimida, a questão de gênero, incluir mesmo a questão religiosa, mudar a tática da violência para a propaganda, mas a estrutura da mentalidade continua a mesma: transformar o mundo em nome de um ideal futuro subjugando todas as coisas ao objetivo autoproclamado.

          Quando Stálin perseguiu e matou seus próprios correligionários a partir de 1934 e deu início ao Terror Vermelho para continuar a construção do socialismo, quando Hitler eliminou a S.A. de Ernst Rohm matando os que não podia controlar diretamente para garantir a unidade do poder nazista, quando os militantes chineses mataram uns aos outros na Revolução Cultural e se engalfinharam numa luta pelo poder após a morte de Mao Tsé-Tung para continuar seu legado, quando os movimentos anticoloniais voltaram-se uns contra os outros na África e na Ásia como na Guerra Irã-Iraque e em inúmeras guerras civis acreditando levar seus povos à libertação; quando hoje, os extremistas islâmicos travam batalhas uns contra os outros e demais grupos religiosos acreditando lutar pela sociedade santa; quando os narcotraficantes matam e envenenam milhões de pessoas alegando realizar com isso justiça social, quando mães matam os próprios filhos por considerá-los um estorvo ainda antes de nascer. 

          E quando todos eles, em nome do ideal futuro, massacraram e ainda massacram milhões de pessoas que dizem honrar e defender, é impossível deixar de lembrar o que Dostoiévski, sensível ao drama da condição humana, declarou pelas palavras de Lisavieta:

É uma loucura! Vaidosos! Não acreditam em Deus, não acreditam em Cristo! Mas acontece que os senhores estão de tal forma corroídos pela vaidade e pelo orgulho que vão acabar devorando uns aos outros, é isto que eu prevejo para os senhores. Isso não é uma bagunça, isso não é o caos, isso não é o horror?

segunda-feira, 22 de junho de 2020

A perenidade da literatura clássica


"A literatura clássica e imortal faz a sua melhor obra ao nos lembrar perpetuamente 
da verdade completa e contrabalançar ideias outras, mais antigas, 
com ideias às quais por um momento podemos estar propensos."
(G. K. Chesterton, em "O Essencial de Chesterton")

          A literatura clássica recebe este carimbo por ser capaz de ressoar em todas as épocas e lugares.
          Esta qualidade é possível graças à penetração que realiza, pela ótica de uma cultura específica, na alma humana, que é comum à humanidade inteira.
          Por isto ela é, como bem nos lembra Chesterton nesta passagem, imortal. Mesmo que "morra" por algumas gerações, ela pode voltar num futuro indeterminado, porque sua melodia narrada é capaz de encontrar morada nos homens do porvir, tão iguais quanto nós em sua natureza.
          Sua imortalidade só é possível porque revela traços essenciais desta natureza. Nos apresenta uma verdade que, justamente por ser verdade, não podemos escapar.
          Mas, ao mesmo tempo, a literatura clássica também nos apresenta ideias novas que, no fundo, não são novas verdades, mas diferentes percepções acerca dela. Mantém-se a beleza fundamental da ordem suprema; mas muda a lente que a filtra, seja em seu modelo inglês ou brasileiro, italino ou russo, do século XIV ou XIX, todos com os pés fincados na Criação, ao mesmo tempo mutável e imutável tal qual nossa essência e nossas culturas.
          Porque o que é permanente não muda; muda, isto sim, a cultura, o olhar da pessoa, a linguagem, a perspectiva de nossa história. O impacto e o legado dos grandes homens das letras permanecem, porque mergulham por sob as muralhas que dividem os homens na babel das civilizações.
          Chesterton é um destes homens capazes de revelar coisas fundamentais de nossa vida, de nossa realidade. Do contrário, pouco interesse despertaria hoje; seria arrastado por seu microcosmo regional e dissolvido pelo ciclo do tempo.
          Nossa lembrança de sua obra não é apenas por seu estilo, mas porque ele tem muito a nos dizer sobre nós mesmos.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

A sociedade dos pedantes


          Quem são os poetas senão aqueles capazes de lerem a realidade, inapreensível por fórmulas científicas e pedantismo acadêmico, que pode ser transmitida através da forma marcada pelo pulso do escritor?
          Quem são os pedantes senão todos aqueles que, por ostentarem um diploma, lerem um punhado de livros ou terem acesso a um canal de televisão, se consideram capazes de julgar o mundo inteiro e toda a sua história pregressa?
          Nada mais artificial, falso e pedante do que o homem "do seu tempo" que olha para o mundo e acredita estar liberto das amarras da religião, da moral, da hipocrisia e da elite (a qual ele próprio faz parte!) e julga as coisas segundo a métrica de sua estatura intelectual, capaz de alcançar as alturas de uma poça d'água, se tanto.
          A era moderna, alargando a liberdade de consciência ao ponto de nivelar o certo com o errado, acabou por rebaixar a sabedoria e a Verdade a um mero jogo de opiniões.
          Como resultado, o mundo ficou cheio de pedantes que se sentem no direito de falar mesmo que nenhum mérito tenham ao falar o que dizem.
          Basta ligar a TV para ver que todo mundo, sem exceção, tem algo a dizer sobre planos de governo, política externa, saúde, meio ambiente, religião e toda a sorte de temáticas que chegam ao nosso conhecimento por meio de narrativas incansavelmente repetidas e jargões pré-fabricados em laboratório.
          A estes, todo o louvor e glória, toda a riqueza e atenção.
          Por outro lado, os gênios, sábios e santos trabalham no longo prazo e legam ao mundo uma rica e duradoura herança capazes de nos aproximarem do Céu.
          A estes, se se colocarem diante dos olhos do público, o desprezo; se vierem confrontar a opinião "mainstream" fabricada nas redações de jornais e TV, o escárnio e a supressão; se apresentarem planos para o real bem da humanidade e a glória de Deus, a dependência da pouca caridade.
          Os pedantes têm tudo porque o mundo moderno é o mundo da planificação, do rebaixamento, do nivelamento. Suas palavras facilmente se encaixam na moda vigente da época.
          Os poetas não têm nada a não ser a Verdade, porque sua compreensão da realidade não cabe na simplificação grosseira do mundo. Pairam acima, longe dos olhos da massa ignara, no caminho entre o Céu e a Terra.

sábado, 2 de maio de 2020

As memórias da infância e a tábua da salvação (Dostoiévski)


          As obras de Dostoiévski têm valor universal porque elas tocam no mais profundo da natureza humana.

          Uma de suas constantes é o caminho da redenção, traçado em linhas tortas (às vezes muito tortas), mas que desembocam na iluminação das almas de seus personagens.

          Ao final da obra "Os Irmãos Karamázov", o bem-aventurado Aliócha deixa uma mensagem para um grupo de garotos que acabara de acompanhar o enterro de um de seus membros. Disse ele:
"Sabei que não há nada mais elevado, nem mais forte, nem mais saudável, nem doravante mais útil para a vida do que uma boa lembrança, sobretudo aquela trazida ainda da infância, da casa paterna. Muito vos falam de vossa educação, mas uma lembrança maravilhosa, sagrada, conservada desde a infância, pode ser a melhor educação. Se o homem traz consigo muitas dessas lembranças para sua vida, está salvo pelo resto da existência. Mesmo que guardemos apenas uma boa lembrança no coração, algum dia só isto já poderá servir como salvação."

          A mensagem é clara: boas lembranças fazem boas pessoas, ou ao menos aumentam a chance de torná-las boas. 

          Talvez alguém diga que isto é pouco. Porém, para haver boas lembranças, é necessário atravessar boas experiências, e isto só é possível para os que se abrem a estas mesmas experiências. É deixar-se penetrar pelo bem de forma a guardá-lo em si tornando este parte de sua identidade.

          A educação moderna ignora por completo a necessidade de educar o imaginário humano atendo-se ao acúmulo de conteúdos voltados à vida meramente prática.

          O imaginário é o horizonte de nossas possibilidades futuras e a partir do qual medimos o mundo. Uma boa educação forma uma boa pessoa, fornece a ela a herança da literatura, da alta cultura e, acima de tudo, do exemplo dos pais numa boa família.

          Portanto, viver e guardar boas experiências é educar a alma para que possamos reproduzir ou projetar o bem no futuro, é poder reviver, através de uma reformulação da memória transposta numa nova ação, o bem vivido de forma que outros também o vivenciem. 

          Isto é fazer o bem, isto é fazer caridade. Como resultado, o mundo torna-se melhor, mas antes porque nos tornamos pessoas melhores. Aliviamos a dor do mundo ao mesmo tempo em que ascendemos ao Paraíso.

          Basta apenas uma, só uma boa lembrança para que o fazer o bem seja possível, para que ele se torne possibilidade futura. E nada mais importante do que cravar no coração esta experiência na terna infância, período onde fincamos as estacas mais profundas de nossa personalidade.          

        No enredo de Dostoiévski, Kólia, o mais inteligente e prepotente dos garotos, vaidoso e agarrado aos seus conhecimentos, cede à doçura de Aliócha e abraça a fé cristã na alegria que esta fé lhe infunde. "Ah! Como isso vai ser bom!", se extasia ao vislumbrar a ressurreição dos mortos.

          Em meio aos sofrimentos da vida e à loucura reinante, Dostoiévski deixa o caminho da esperança e o dever que a atual geração tem de legá-la para as gerações futuras.        

quinta-feira, 30 de abril de 2020

O porta-voz da humanidade


          A condição humana é misteriosa. Não sabemos de onde viemos nem sabemos para onde vamos.
          O suporte que nos é dado pelas tradições religiosas fornecem respostas sobre nossa origem e fim, mas, objetivamente, não sabemos como éramos antes de ser e como seremos depois que cristalizarmos o que somos.
          Compliquemos esta realidade com especificidades, contingências e escolhas de cada um. Eis um enorme desafio para os filósofos e cientistas, ávidos por levantar o véu do templo para revelar a realidade por detrás das aparências.
          Pois o escritor se aproxima destas respostas. Sim, o grande escritor, aquele que atinge a universalidade do homem, tem algo a dizer ao africano, chinês e americano, porque por ele atravessa a natureza comum que permite dividi-los mesmo estando unidos. Ele é o porta-voz da humanidade.
           Cientificamente impreciso, filosoficamente menos rebuscado, ele apreende a realidade humana melhor do que ninguém.
          Porque a realidade pode ser apreendida pelas palavras quando estas são dispostas na medida certa e na combinação exata, não no sentido matemático, mas na combinação que dá um tom eloquente na expressão, cuja prosa é sua medida.
          O escritor carrega a palavra mais do que com sentimentos, mas com a alma mesma, como se estas palavras fossem (e de fato são) a janela através do qual ele vê e também é visto.
          Nesta janela se revela, ao mesmo tempo, a simplicidade e a complexidade do homem em cada uma de suas variantes, porque somos comuns na natureza profunda, mas singulares na personalidade. Ali vivem as pessoas.
          O escritor canta a humanidade na singularidade de cada pessoa, no olhar a cada evento, e estes se conjugam para revelar que o escritor é como cada um de nós, mas mais do que nós mesmos, porque sua alma pulsante entende a nós e para além. 
          São suas palavras que se elevam acima de nosso horizonte, acima de nossas cabeças ante o Céu que tenta alcançar.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Dostoiévski e o homem incapaz de amar

(Personagens Aliócha e Zossima, no seriado russo homônimo da obra, de 2009.)

          Um leitor das obras de Dostoiévski não sai indiferente à crueza e à veracidade profunda dos diálogos e dramas de seus personagens. 

          Aparentemente exagerados, este revelam os meandros da complexa psicologia humana, as profundezas do dilema existencial e as loucuras do ativismo político que viriam virar o mundo de cabeça para baixo no século XX.

         Na obra "Os Irmãos Karamázov", o stárietz Zossima, monge ortodoxo superior de Aliócha, relata o diálogo com um médico sem nome, muito revelador da condição sombria do homem incapaz de amar:

          "...eu, dizia ele, amo a humanidade, mas me admiro de mim mesmo; quanto mais amo a humanidade em geral, menos amo os homens em particular, ou seja, em separado, como pessoas isoladas. Em meus sonhos, dizia ele, não raro chegava a intentos apaixonados de servir à humanidade e é até possível que me deixasse crucificar em benefício dos homens se de repente isso se fizesse de algum modo necessário, mas, não obstante, não consigo passar dois dias com ninguém num quarto, o que sei por experiência. Mal a pessoa se aproxima de mim, e eis que sua personalidade já esmaga meu amor-próprio e tolhe minha liberdade. Em vinte e quatro horas posso odiar até o melhor dos homens: este por demorar muito a almoçar, aquele por estar resfriado e não parar de assoar o nariz. Eu, dizia, viro inimigo das pessoas mal elas roçam em mim. Em compensação, sempre acontecia que quanto mais eu odiava os homens em particular, mais ardente se tornava meu amor pela humanidade em geral." (grifos meus)

          Mas caberia perguntar a este homem: o que seria do amor se não fosse ele justamente a doação, o desejo de ser um com o outro? Como amar "a humanidade" sendo esta uma abstração da soma da totalidade de homens concretos dotados de histórias, sentimentos, vidas e amor verdadeiro, e não um conjunto indefinido de pessoas?

          Quem ama abdica, quem ama suporta, quem ama tudo tolera. Jesus Cristo não pediu para que amássemos o todo, mas a todos, uns aos outros, eu, você e cada um com sua história real, incluindo aí seus defeitos, erros e mesmo crimes.

          Mesmo os inimigos não estão fora deste apelo do amor. Não se faz necessário ser íntimo do inimigo; o amor não é tolo e imbecil, antes sábio e prudente. Amar o assassino não é colocar-se ao seu alcance. Afinal, quem o amaria se aquele que o ama se expõe ao perigo de perecer pela crueldade alheia?

          Amar a humanidade é uma intenção oca, uma palavra jogada ao vento adaptável a qualquer discurso ou pretexto. Bem sabem os compatriotas de Dostoiévski, massacradoa aos milhões em nome do "mundo melhor", a humanidade perfeita, o paraíso terrestre.

          Da imaturidade decorre a incapacidade de amar, e da incapacidade de realmente amar decorre o amor à humanidade, que facilmente se converte em violência. É a projeção do ódio a si mesmo, da revolta de si que, incapaz de se reconhecer, aceitar seu próprio fracasso e perdoar a si mesmo, desemboca na enxurrada de violência contra o próximo, o bode expiatório de suas culpas mal resolvidas.

          O homem incapaz de amar não ama a si mesmo. Ninguém pode dar o que não tem. Do homem infeliz, resta apenas o sonho e a tristeza de não ser o que gostaria de ser. Falta-lhe amor.          

domingo, 12 de abril de 2020

Chesterton e o boato da salvação


          Deus fez o mundo e viu que era bom; fez o homem e viu que era muito bom! Mas aquilo que era muito bom corrompeu-se pelo mal uso de seu livre-arbítrio, e Deus teve de intervir na Sua Criação.
          Primeiro o dilúvio, eliminando grande parte dos homens; depois, revelando sua infinita misericórdia, enviando Seu Filho para mostrar Quem é e salvar a todos.
          Chesterton poderia afirmar não que Deus veio ao mundo para consertá-lo, mas sim para salvá-lo. Não salvar o mundo em si, porque este irá passar num futuro indeterminado, mas os homens que nele habitam.
          A retórica poética do escritor inglês chama a vinda de Cristo de "boato". Mesmo que muitos boatos sobre Cristo tenham realmente surgido enquanto vivia na Terra, no devido tempo Ele revelou Sua real identidade.
          A caneta de nosso querido escritor transmite, poeticamente, o "boato verdadeiro" da vinda de Cristo. Seu serviço na defesa da fé cristã mostra-se profunda e verdadeira, tal qual o Homem sobre O qual ele escreve.