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terça-feira, 24 de outubro de 2017

O dilema do trabalho: tanto esforço para quê?


          Ao longo de toda a minha vida pensei que a atividade profissional tivesse como objetivo principal "fazer o que se gosta". Demorei muito para ver que isto não era verdade. Pior: arraiguei em minha mente a ideia de que o único trabalho viável era aquele vinculado a este gosto ou a uma necessidade intrínseca. De fato, o trabalho é vinculado a uma necessidade (quem não trabalha não come ou depende do trabalho dos outros), mas isto não tem nada a ver com o gosto daquilo que se faz. Prazer e necessidade estão dissociados, e é melhor trabalhar com desgosto para matar a fome do que morrer de inanição enquanto se evita um ato desagradável. 

          É muito provável que a maioria das pessoas já tenha alguma vez se perguntado "de onde veio tudo isso?" enquanto olhava para sua cidade, o local em que vivia ou as paisagens que avistava. Tudo depende estritamente do esforço humano. Esta é uma das ideias base da obra A Rebelião das Massas, de Ortega y Gasset: o mundo que "está aí" só está aí por um enorme esforço combinado de gerações passadas ao qual o homem médio moderno, o "senhorzinho satisfeito", ignora e dá pouca importância. É muito fácil desrespeitar as leis quando não se tem em mente que o esforço de se organizar uma sociedade, cuja ordem está formalmente expressa nas leis, é o que mantém de pé a sociedade na qual vivemos. Se alguém assalta uma loja ou joga lixo no chão é porque ignora, guardada as devidas proporções, o esforço combinado para que um produto chegue a uma prateleira ou o trabalho organizado de dezenas de pessoas para manter o ambiente minimamente belo e agradável.

(Hong Kong, uma das cidades mais ricas e desenvolvidas no mundo. Grande esforço sem sentido?)

          Toda a vida que possuímos depende de uma combinação de esforços dos antepassados, muitos deles desagradáveis e impostos pelas suas próprias escolhas. O conforto é, no fundo, uma ilusão fundamentada no esforço precedente. Mas as pessoas das gerações passadas escolheram isso, e as pessoas de hoje também. É a vida voltada à busca do conforto, da posse, da criação de riqueza para o bem-estar físico e mental, para o prazer, para a misteriosa "felicidade",  para o progresso cuja grande realização foi dar à humanidade um maior domínio sobre a natureza e satisfazer os desejos mais profundamente humanos. Vivemos a "era burguesa" do livro O Fim de Uma Era, de John Lukacs. Para o historiador húngaro, a ideia de um progresso histórico baseado no desenvolvimento da ciência desembocou no mundo atual, como se a ciência pudesse se desenvolver de forma cumulativa e linear, levando o mundo sempre "para frente" e "superando" os tempos passados. Mas este mundo, como bem coloca, está em cheque. Não porque o trabalho para a conquista deste mundo desenvolvido seja desagradável, mas porque o domínio da natureza e da própria condição humana tem seus limites.

          O trabalho não é só prazer, muito pelo contrário, mas também não é puramente um esforço em direção ao progresso, à conquista do conforto e à realização de nossos desejos. No dia-a-dia vivemos a contradição de que quanto mais nos esforçamos no trabalho mais desejamos o seu fim, ao exemplo celebrado final de semana, como se o trabalho fosse intrinsecamente ruim e o ócio bom. O trabalho é um esforço por algo maior, maior mesmo do que a própria necessidade de sobrevivência ou a posse de fortunas. Afinal, que sentido há numa atividade que se resume a pastar para comer ou conquistar conforto em nome do prazer? O corpo morrerá e todos os bens aqui ficarão. A alma que um dia habitou a Terra irá embora sem os espólios de seu esforço. 

          Creio que o trabalho seja um sacrifício para a Eternidade. É para o Alto que nossos corpos devem se dobrar, mesmo porque nem mesmo nossos corpos são nossos, e nossos esforços se resumirão a uma fagulha frente ao Mistério que abrange e se perde nos confins de nossa existência mundana.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Sem fronteiras, sem distâncias, sem nações: o vínculo que nos une através dos tempos

(Budapeste, arrasada ao fim da Segunda Guerra: efeitos de um conflito que afetam a humanidade inteira.)

Estou lendo o livro "O fim do Século XX", do historiador húngaro-americano John Lukacs. No capítulo "Entre dois Mundos", Lukacs inicia relatando seu retorno à Hungria 44 anos depois. Ele fora convidado, junto com seu amigo e sacerdote Béla Varga, a comparecer na sessão de abertura do Parlamento Húngaro em 2 de maio de 1990. Ambos eram amigos e parentes próximos de alguns membros do novo governo húngaro. Béla faria o discurso, e Lukacs, seu amigo famoso, iria junto acompanha-lo.  No relato segue-se o testemunho de um homem que, fugindo da opressão comunista, voltava à sua terra natal e refletia sobre sua vida nos EUA e seu passado na Europa. Daí os "dois mundos" de seu livro.

Imediatamente minha mente me projetou na mesma situação. E se fosse eu, e não Lukacs (ou Béla) a ter de falar em público num evento desta importância? E com alguma autoridade dada pelos acontecimentos? O que eu diria? Não pretendo detalhar aqui um discurso ou todo o meu pensamento, mas não foge à minha memória o pouco conhecimento de que tenho da matança que se abateu sobre a Europa na Segunda Guerra e a repressão comunista que veio em seguida.
 
(Edifício do Parlamento Húngaro, em Budapeste, onde passa parte do relato de John Lukacs.)

Logo me pus a pensar no universo de almas lançadas ao purgatório. Pelo menos 60 milhões na Guerra e 2 milhões dos regimes comunistas do Leste Europeu (nem falo da Rússia e da China, que jogam esta cifra aos cem). É um universo de almas a clamar por ajuda. Quando pedimos pela vida de alguém que se foi, anjos e santos de movem para resgata-las para um estágio superior, um estado da alma mais luminoso.

Cá eu com meus pensamentos: todos esses acontecimento históricos separam a todos nós. Fora um período de 1999 quando recebi em minha casa um húngaro de intercâmbio, muito provavelmente não vou conhecer na intimidade alguém que viva na Hungria, menos ainda seus antepassados. Assim será com a esmagadora maioria das pessoas da face da Terra.

(O plano da eternidade vincula todos de todos os lugares e todas as épocas.)

Mas na eternidade não há tempo, como não há lugar. Não há nação. Por isto mesmo nós, aqui no Brasil, não estamos magicamente imunes aos acontecimentos de outro continente. As almas que clamam nossa ajuda não são apenas as de nossos familiares: são os que pereceram na guerra e na repressão, nos hospitais de cidades distantes, nas cabanas do interior da Ásia. Todos nós, pela comunhão dos santos, estamos vinculados uns aos outros num plano onde não há distância. O Brasil está, sim, ligado a todos os que se foram. Eu e você também. E este clamor nos "pesa", nos faz responsáveis por aqueles que podemos ajudar, mesmo que com uma simples oração. Por isso mesmo quando alguém reza para Nossa Senhora Ela não se ausenta das almas que resgata, nem de outros que chamam Seu nome em outro lugar do mundo. Ela está, por graça divina, em todos estes lugares simultaneamente. Na eternidade não há lugar, distâncias ou fronteiras. Não há espaço, no sentido físico e geográfico: há apenas uma figura onde todos os lugares se apresentam de forma plena e simultânea. Nossa Senhora ouve minhas orações assim como aquelas que ressoam dos confins do universo ou das casas de Budapeste.

Fazemos parte da mesma História, plano único dividido pelas contingências do Cosmo e do mundo, mas unidos pela raiz criadora. Por isso mesmo somos responsáveis por todos os que aqui estão ou um dia estiveram. Estamos vinculados uns aos outros pelo amor divino e pela identidade única, a Pátria Celeste, a Casa do Pai. A História um dia passará. O amor de Deus jamais.