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segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Dia 29 de novembro de 2021

 

          O primeiro dia útil da semana começou com aquela ventania típica de inverno, com a diferença de que a temperatura estava dez graus mais alta do que no período mais frio do ano. O uivo do ar a penetrar pelo vão das janelas tão mal vedadas e por debaixo do vão da porta do quarto lembrava, mais uma vez, o quão porco é o isolamento de nossas casas, more você num barraco ou numa mansão. 

          Não por acaso, quando esteve na cidade em agosto de 1942, o francês Albert Camus caracterizou Porto Alegre como fria - e feia, além de cinzenta -, e registrava no seu diário de viagem que fora recebido no aeroporto por homens vestidos com capotes, nossos famosos ponchos. Ficou em minha imaginação sua experiência com o típico sofrimento porto-alegrense, para provável surpresa do escritor laureado, cujo inverno não se compara ao de sua terra natal, mesmo visitando a cidade justamente durante a maior onda de frio daquele ano.

          Ao olhar para a paisagem limitada de minha residência, observei as nuvens "correndo" por sobre a cidade. As árvores, acostumadas aos temporais e aos dias ventosos do meio do ano, vergavam seus galhos, e um grupo de jerivás na residência à frente à minha ora punham seus galhos na horizontal, ora caídos na vertical, lembrando a passagem das rajadas de vento com a sonoridade de suas folhas alongadas.

          Como devem ter percebido, gosto das coisas do tempo, e nada melhor pelo apaixonado por suas loucuras do que a mudança constante. Nunca, jamais, de modo algum os ares são iguais de um dia ao outro, e aí está a beleza e a atração da coisa - com o devido parênteses aos dias de calor, esses, sim, dispensáveis na quase totalidade deles.

          Não fosse a incomum ventania para fins de novembro e seria mais um início de semana sem atrativos especiais. Não pela rotina, mas pela falta dela ou pela insatisfação, talvez um tanto juvenil, de encontrar alguma novidade num mundo que, apesar de estar em constante mudança, possui a estabilidade da ordem sem a qual a mudança não poderia fazer referência. 

          Há uma paradoxo entre se chatear pela mesmice e contemplar que é a ordem que traz beleza ao mundo. É a alma que cansa. Deus nunca dorme.

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Dia 3 de novembro de 2021

 

          Depois de vários meses, pisei novamente nas ruas do Centro de Porto Alegre. Sorte minha, justamente num dia de tempo nublado com nuvens cada vez mais espessas a bloquear a ardente luz do sol do miolo da primavera, capaz de tornar desagradável um dia de ar agradável. Bastaram alguns minutos em deslocamento para que uma chuva leve começasse a molhar a superfície. Meu guarda-chuva fora bastante útil.

          Cheguei ao destino numa travessa de nome curioso - Mario Três Paus, ó raios! - e me deparei com o edifício do lado contrário: um monstro de concreto em formato da letra "H", cujas paredes mais visíveis estão viradas ao norte e ao sul com janelas encravadas entre faixas retilíneas que bloqueiam as luzes laterais, formando o horrendo paredão típico da arquitetura moderna.

          Pude notar o quão insignificante eu era frente ao monstro de concreto, aço e vidro. A faixa central do "H", escondida pelas estrutura principais, era melhor notada na travessa de nome esquisito, ela mesma de design altamente duvidoso, formando o eixo a partir do qual irradiava toda sua estrutura. Ao seus pés, uma pequena fila de pessoas para o atendimento do INSS, tão insignificante quanto eu, mas incrivelmente desproporcional ao gigante que se destacava para quem o observava junto a Mario Três Paus ou ao Mercado Público logo ao lado.

          Impactado com as dimensões do edifício - que já conhecia há tempos mas nunca notara com atenção - resolvi investigar qual era sua identidade. Tão oculto quanto o seu estilo insosso e burocrático é o seu nome, pois demorei tempo para descobrir que o famoso "edifício do INSS" chama-se Edifício Getúlio Vargas, sede do então IPASE, construído na onda modernista que arrasou os belos estilos português e neoclássico das grandes cidades brasileiras entre os anos 1950 e 1970. Robusto, retilíneo e de bordas bem delimitadas, o gigante enquadrava-se perfeitamente nos cânones da arquitetura moderna, num estilo que um artigo escrito em 1990 classificou como miesiano, adjetivo derivado do nome do arquiteto alemão Ludwig Mies van der Rohe. Uma olhada rápida no perfil da famosa personalidade evidencia as características do edifício: estilo racional, funcionalista e minimalista, uma obra voltada para fins utilitários.

          Grandes construções como a que encarei com espanto em minha breve visita ao Centro são opressoras, não pelo tamanho em si, mas por aquilo que significam. Quando estive pela primeira vez em Londres, em setembro de 2015, fiquei espantado com o tamanho do Big Ben, mas igualmente maravilhado com a riqueza de seus traços e a relevância de sua simbologia. O mesmo poderia ser dito com relação a muitas outras construções da cidade, que remetiam constantemente o visitante às glórias do Império Britânico.

          Em Porto Alegre, fiquei apenas espantado, e nada mais do que espantado, pois a racionalidade monumental da construção se impôs sobre mim como se eu estivesse submetido a uma força invisível e impessoal. Este é o efeito de uma obra gigantesca, que comunica, como que pela força da presença, a ordem à qual se refere. Ninguém estava ali a passeio e nem estaria caso fosse um dia de descanso, pois não há nada a admirar a não ser o inevitável fato de, ao olhar para alguma direção, se deparar inevitavelmente com um enorme objeto pura e simplesmente por sua dimensão. Em momento nada divertido, eu também estava lá cumprindo meu dever financeiro-burocrático, bem ao estilo da paisagem cinzenta e deprimente.

        A opressão desse estilo arquitetônico não poderia causar outro efeito senão a opressão de seu próprio fim. Grande parte do Edifício Getúlio Vargas ficou vários anos abandonado - e parece que ainda está - porque, no fundo, como dizia o filósofo Roger Scruton, ele é feio, e as pessoas não gostam de coisas feias. Se uma obra possui fins racionais e utilitários, ela perde sua razão de existir tão logo sua funcionalidade perca o sentido, transformando-se em uma obra morta. Salvo o discreto movimento do térreo, o trambolho do Centro da cidade era um ser quase morto respirando por aparelhos.

          Cumprido meu compromisso, saí do prédio em frente com a chuva agora moderada e, surpreendentemente, presenciei dois relâmpagos seguidos de trovoadas. O céu bradava contra a opressão da feiura sem alma. Bastou alguns minutos para que a revolta contra a beleza desabasse numa chuvarada. Eu estava de alma lavada.

domingo, 31 de outubro de 2021

Dia 31 de outubro de 2021

 

          Na grande maioria dos locais afetados pelas altas temperaturas, o calor vem acompanhado de umidade e ambos criam o mais conhecido e vital dos fenômenos atmosféricos: a chuva. 

         Primeiro brotam aqueles pequenos algodãozinhos no fundo azul que sinalizam os efeitos do sol forte e do calor. Em seguida, seu volume cresce, e se pudéssemos gravar com os olhos o que as técnicas modernas de filmagem permitem contemplar, veríamos múltiplos borbulhamentos de vapor como se as bolhas de algodão crescessem e se multiplicassem dando enorme volume à pequena almofada flutuante.

          Um olhar atento por debaixo dessas nuvens - que os meteorologistas batizaram de cumulus - permite notar, com a devida calma e paciência, o movimento do vapor d'água, lento à distância mas turbulento nas alturas. Estirar o corpo sobre a grama e fixar o olhar na vertical as nuvens que anunciam a chegada da chuva são uma boa forma para captar o que uma rápida olhada jamais poderá notar.

          Quando a nuvem ganha o corpo de uma couve-flor - que os meteorologias classificam como cumulus congestus -, está pronta a receita para seu próprio peso se derramar em água e liberar os primeiros raios devolvendo à terra o que o calor lhe tirou sem pedir licença. Mas quando o pequeno algodãozinho não pode mais crescer e se esparrama num teto invisível - e é nesse momento que os meteorologistas dão à nuvem sua classificação mais famosa, cumulonimbus - então temos o pacote completo de surpresas atmosféricas: água em abundância, luzes por vezes ativas como um estroboscópio ligado na alta voltagem, sons que anunciam a chegada de uma autoridade importante e até mesmo o rufar dos ventos que, em alguns momentos, ultrapassam o mero conceito de "beleza" e se transforma em beleza destruidora.  

          Existe um diálogo divino entre a nuvem que cresce e a pessoa que a admira. Certa vez, em dezembro do ano 2000, eu estava no campus de minha faculdade, e pude presenciar, com ânimo e admiração, o momento em que uma chuva de verão desabou sobre o local. Andei entusiasmado pelo do corredor coberto que abria espaço por entre os baixos edifícios e me acheguei ao corrimão de metal pintado de amarelo que dava fim ao meu trajeto e início à vastidão verde morro acima. Olhava claramente os pingos grossos caindo de forma intensa em contraste com o fundo recheado por uma densa mata nativa. Era bonito demais notar a beleza, a ordem e a dinâmica viva de um céu que desaguava suas bênçãos para quem era capaz de enxergá-las. Expressei meu maravilhamento como uma amiga que me acompanhava e que também admirava a chuva como se compartilhasse do mesmo diálogo que o meu.

          O maravilhamento tem a capacidade de imprimir na alma uma marca inexpugnável, mais impactante e profunda do que a marca de ferro em brasa. É a atitude de se deixar impregnar, mas não de se deixar levar pelo mundo, porque é a chuva que passa, mas experiência nos desperta e se integra à nossa personalidade. Por isso se engana quem pensa que o primeiro Evangelho escrito está na Bíblia. Não, ele se encontra na própria Criação, que forneceu os elementos necessários para que a alma fosse preparada para receber a Palavra de fato. 

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Dia 7 de outubro de 2021

          Hoje pela manhã levantei e pude observar, na limitada vista do meu quarto, uns poucos eucaliptos que ainda restavam no lugar de uma nova obra a ser erguida. Horas depois, eles haviam sumido deixando em seu lugar um horizonte indefinido emoldurado parcialmente por duas construções tão belas e harmônicas quanto os produtos fresquinhos do meu gato mais gordinho.

          Depois de trinta e cinco anos de contemplação diária, o conjunto de enormes eucaliptos de mais de quarenta metros de altura foi finalmente posto a baixo. Todos os dias eles estavam lá, denunciando a direção do vento e a intensidade da chuva, quando esta, caindo de forma intensa, embaçava sua visão.

          Sempre tive apreço às coisas naturais, muito mais pela beleza e intensidade com que seus elementos se manifestam do que pela ideologia, louca e fanática, que nivela ou mesmo inverte o homem na sua relação com o mundo natural. 

          O verde não é só bonito como agradável. Desde criança fui fascinado pelas mudanças no tempo e, seja por ter nascido num dos dias mais quentes do verão de 1981 ou por influência distante de algum antepassado, sempre tive predileção pelo inverno. Mais verde significa, para mim, não só mais beleza, como menos calor. O sol inclemente torna-se tolerável pelo manto natural, assim com o frio do inverno mais sensível, diferentemente de quando estamos sob o solzinho a penetrar seus raios sobre a capa de um belo asfalto. Mal sabem os citadinos que é justamente a cidade que cria a ilusão de que "nos tempos dos avós os invernos eram mais frios". O concreto não é convidativo para a geada, que torna visível, pelo tênue manto de cristal, o campo de verde abundante horas antes. 

          Como bem afirmei e friso novamente, meu apreço pelo natural não está na ideologia. Não demonizo o que chamamos de "progresso" quando limitado à sua dimensão material, pois é de se esperar que na era do movimento haja mudanças não só permanentes como inevitáveis em certas situações. A expansão e transformação das cidades são os exemplos mais explícitos. Ao contrário do que gostariam os ideólogos do ambientalismo, árvores não são gente (e os defensores dos animais, é bom frisar, já estão no limiar deste nível de psicose), e não há crime, nem imoralidade, em derrubar um conjunto de grandes eucaliptos para erguer um edifício. 

          Mas a feiura é imoral quando deliberada, e mais perigosa quando tomada por beleza. Na visão dentro da qual se erguiam as majestosas árvores, há dois obstáculos que formam metade da moldura de um quadro: um edifício coberto de vidros espelhados azuis-esverdeados e uma residência com formato de loja de móveis. O primeiro no chamado estilo internacional (nome pomposo para a uniformidade horrorosa que não distingue os centros financeiros um dos outros em todo o globo); o segundo de arquitetura minimalista que lembra o velho e totalitário brutalismo, mas como toques de modernidade clean, um sovietismo light erguido com muito dinheiro e muito mau gosto.

          Da minha frustração com as árvores desaparecidas surge o medo: será que o conteúdo do quadro será tão horroroso quanto sua moldura? O que será que colocarão no lugar do enorme volume de troncos e folhas esvoaçantes? Na propaganda em frente ao terreno, o anúncio apresenta um edifício residencial de altíssimo padrão, definição socioeconômica que passa anos-luz de qualquer padrão estético definido. 

          Na competição de quem faz pior, surgem torres residenciais luxuosas destacadas pela má e nova arquitetura de estilo internacional. Estranho imaginar que detrás de uma parede de vidro esverdeada haja uma família jantando ou pessoas dormindo; mas como a própria visão pós-moderna que acompanha esse estilo sugere, não há parâmetros, não há regras fixas para o ordenamento da sociedade e todas suas expressões que chamamos de "cultura", pois os valores também passam, mudam conforme o vento. E assim é com nossos espelhos. A estética "evolui" conforme a originalidade de quem inventa a nova moda. Se tornou símbolo de status morar num pequeno apartamento que os arquitetos imaginam ser escritórios em Manhattan. É o progresso da alma.

          Minha única certeza é de que a sombra e a beleza das árvores se foram para sempre. Quisera eu que erguessem uma modesta residência portuguesa ou o Edifício Martinelli. Não é só a temperatura que vai aumentar. Provavelmente a feiura também. 

sábado, 27 de junho de 2020

A experiência espiritual da beleza


"O espanto diante do universo não é misticismo senão bom senso transcendental."
(G. K. Chesterton, em The Independent)

          O homem moderno está anestesiado à beleza. Não vê nas coisas belas do cotidiano, o quão incrível e exuberante são coisas simples como a luz do dia, a chuva, a vegetação das ruas e os gestos das pessoas.
          Quem dirá este homem conseguirá ver o belo naquilo que convencionalmente classificamos como "feio".
          Ocorre que temos um senso inerente de beleza que se manifesta na nossa percepção de ordem; e isto ocorre porque temos uma natureza, uma ordem interior que se relaciona com a exterior e, portanto, a entende.
          É normal, é absolutamente natural que fiquemos surpresos com o universo que nos rodeia. Talvez não devêssemos ficar assim, dado que nosso senso de beleza é inerente à alma, mas perceber o belo é espantar-se!
          Jamais ficamos exauridos, cansados ou "de saco cheio" da beleza. Ela é constante, como que se "emanasse" do conjunto das coisas. E sua constância é reflexo direto da ordem. Ficamos continuamente surpresos ao percebermos como tudo de encaixa e faz sentido.
          Para que o universo deixasse de ser belo teria ele de decair para o caos, deixar de ser ele mesmo. Pois onde há existência, há ordem e, portanto, beleza.
          Neste enunciado, Chesterton é muito certeiro e profundo. O espanto com o universo não é (e nem poderia ser) um misticismo, no sentido da prática religiosa, ainda que sua manifestação seja uma experiência espiritual. Esta experiência manifesta-se pelo simples bom senso perante a realidade, uma aceitação, manifesta no senso comum, de que as coisas são como são.
          Porque se a percepção da ordem e do belo é natural ao homem, também é sua natureza essencialmente espiritual e religiosa.
          Podemos negar a existência de Deus se quisermos, mas não podemos negar a sua obra, autoevidente por excelência. Não crer em Deus pode ser uma decisão, mas deixar de vivê-Lo não é uma opção.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Uma defesa da beleza num mundo feio

(Roger Scruton, 27/02/1944 - 12/01/2020)

          Neste 12 de janeiro de 2020, faleceu o filósofo inglês Roger Scruton. Pensador de linha conservadora, Scruton foi autor de mais de 50 livros e recebeu reconhecimento oficial de pelo menos quatro governos por seu trabalho.

          Mas se engana quem pensa que vou falar de sua obra. Não li qualquer livro de Scruton, que se tornou bastante conhecido no Brasil há mais ou menos quinze anos devido à divulgação pelo filósofo Olavo de Carvalho. O pensador inglês se tornou um dos favoritos da nova direita brasileira que ascendeu publicamente nos últimos anos.

          Uma obra sua, porém, tomei conhecimento: o documentário Why Beauty Matters (Porque a Beleza Importa), produzido pela rede BBC e disponível no Youtube com legenda em português. Nela, Scruton narra a relevância para a vida humana do senso de beleza estética, mas que, no século XX, as artes, a arquitetura e a música abandonaram este senso e passaram a expressar finalidades meramente pragmáticas e subjetivas. O resultado foi a profusão da feiura e o rebaixamento e destruição do senso de beleza.

          Um trecho do documentário marcou minha memória, quando Roger Scruton mostra um bairro de Readings, sua cidade natal no Reino Unido, que fora demolido para dar lugar a escritórios e uma estação de ônibus. A antigas casinhas inglesas típicas da Revolução Industrial, todas harmonizadas e ordenadas com tijolinhos escuros e chaminés, deram lugar a edifícios quadriculados, feios e decadentes hoje abandonados e sem utilidade. E Scruton pergunta por que as pessoas abandonaram este local. Porque é feio, responde, e o que é feio perde sua utilidade porque as pessoas simplesmente não gostam da feiura. No fundo - concluo eu - a feiura é uma agressão à nossa própria natureza. Temos um senso inato do belo, e o feio é naturalmente repulsivo. É inumano viver em locais horrendos, condenados a serem esquecidos e demolidos.

          Por isto mesmo as pessoas buscam a beleza, seja no que consideram belo, mesmo que este senso esteja pervertido pela mentalidade moderna e pós-moderna, seja no que vêem que é realmente belo. Se observarmos o Brasil, por exemplo, ficará evidente o estrago que a arquitetura moderna e o concreto armado fizeram com nossas grandes e médias cidades. Basta ver uma foto antiga dos palácios, casarões e edifícios suntuosos que haviam em cidades como São Paulo ou Rio e comparar com os espigões de concreto, vidro e aço que os substituíram nos mesmos local. Vale do Anhangabaú, Praça da Sé, Avenida Paulista, Avenida Rio Branco, o centro das metrópoles brasileiras, todos transformados numa ode ao horror.

          Não tenho fórmula para o resgate da beleza, mas uma coisa é certa: um ambiente naturalmente belo e ambientes com ornamentos harmônicos e agradáveis certamente ajudam além, é claro, do desenvolvimento de uma vida interior que seja capaz de nos revelar, pelo autoconhecimento e pela espiritualidade, o senso intuitivo de ordem - e, portanto, de beleza - que existe na vida humana e na realidade na qual ela está inserida. Quem exercita uma vida espiritual percebe isto naturalmente.

          Se "a beleza salvará o mundo", como diz o escritor russo Fiódor Dostoiévski em sua profunda e complexa obra O Idiota, não sei responder, mas certamente ela reforçará nas pessoas um senso do que é bom e verdadeiro. Scruton defendia a unidade desta tríade, já conhecida desde a Antiguidade pelos filósofos gregos. Assim com o belo, o bom e o verdadeiro são inatos no homem, e despertar um deles ajuda a despertar os outros dois.

          A beleza, portanto, pode não salvar o mundo, mas certamente o tornará melhor.