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quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Bispo ortodoxo e sua diocese na Ucrânia se unem à Igreja Católica

          Segue abaixo a tradução livre de uma reportagem da mídia digital católica The Pillar que conta como foi o processo de conversão de um bispo ortodoxo da Ucrânia à Igreja Católica e sua diocese, e também as causas dessa mudança.

          Boa leitura!


Na Ucrânia, um bispo entra na Igreja

Como um bispo ortodoxo ucraniano levou sua diocese à comunhão com Roma

(por Anatolii Babynskyi, 6 de setembro de 2022)

(Ihor Isichenko, ao centro.)

          O arcebispo Ihor Isichenlko é um bispo incomum. Ele é um intelectual formidável e um estudioso literário sério. Tem sido um líder entre os fiéis ortodoxos ucranianos por mais de duas décadas. E sete anos atrás, iniciou um caminho que levou sua diocese ortodoxa à plena comunhão com a Igreja Católica, mesmo em meio a cismas e fraturas entre os fiéis ortodoxos ucranianos e durante uma guerra que mudou dramaticamente a vida em seu país. 

          O arcebispo Isichenko entrou em plena comunhão com a Igreja Greco-Católica Ucraniana no início desse ano; as paróquias da diocese que ele liderou são agora parte do Exarcado Católico Ucraniano de Kharkiv e da Arqueparquia de Kiev. Com o status de um arcebispo emérito, Isichenko liderará agora uma filial da Universidade Católica Ucraniana.

          A notável história do arcebispo começou décadas atrás, quando a Ucrânia declarou sua independência, a União Soviética caiu e o Patriarcado de Moscou perdeu seu monopólio sobre a religião no país. 

          Em 1989, a Igreja Grego-Católica Ucraniana, que havia sido destituída de seu stratus legal em 1946, foi legalmente autorizada a existir novamente na Ucrânia. A maior das 23 Igrejas Católicas Orientais em plena comunhão com Roma saiu da clandestinidade.

          Ao mesmo tempo, alguns fiéis ortodoxos ucranianos começaram a pressionar por um tipo de autocefalia - por uma Igreja Ortodoxa separada de jurisdição e supervisão do patriarca ortodoxo russo em Moscou.

          O movimento não foi homogêneo. Ao invés disso, duas estruturas surgiram no início dos anos 1990 reivindicando jurisdição autocéfala no país: a Igreja Ortodoxa Autocéfala Ucraniana (IOAU) e a Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Kiev (IOU-PK).

          Ambas as estruturas possuíam problemas internos. Mas em meados dos anos 1990, a IOU-PK ficou sob liderança do Patriarca Filaret, que durante a era soviética serviu como exarca da Igreja Russa na Ucrânia e foi um dos principais candidatos ao trono do Patriarca de Moscou em 1990.

          Com Filaret no comando, a IOC-PK conseguiu estabilizar sua estrutura. Com o tempo, a instituição começou a reivindicar o papel de igreja "estatal" ucraniana.

          A IOAU foi menos bem-sucedida na Ucrânia. Em vez disso, concentrou-se nas igrejas ortodoxas ucranianas na diáspora, nos EUA e no Canadá, que com o tempo se retiraram dos assuntos ucranianos. Muitas paróquias se afastaram gradualmente da IOAU e entram na jurisdição de Constantinopla.

          Dentro de uma década, a IOAU começou a se fragmentar. Desde o início dos anos 2000, ela existe como uma coleção de dioceses quase independentes unidas apenas por um nome comum.

          Em 2018, a recém criada Igreja Ortodoxa da Ucrânia absorveu a maioria das igrejas, clérigos e recursos da IOU-PK e da IOAU. Como a maior estrutura que reivindica jurisdição ortodoxa autocéfala na Ucrânia, ela recebeu um reconhecimento de autocefalia do Patriarcado de Constantinopla em 2019.

          Mas nem todos seguiram esse caminho.

          A diocese de Kharkiv-Poltava da IOAU, que cobria o nordeste da Ucrânia, estava se movendo numa direção bem diferente.

          A diocese se tornou um importante centro para o movimento autocéfalo logo depois de sua fundação em 1992. Sua catedral, São Demétrio, em Kharkiv, se tornou ao longo dos anos um centro cultural e educacional que forneceu treinamento teológico para os futuros padres da IOAU.

          E sete anos atrás, o arcebispo Isichenko e a diocese Kharkiv-Poltava da IOAU decidiram que as divisões entre as facções ortodoxas ucranianas haviam se tornado muito profundas, e a unidade entre as Igrejas Ortodoxas da Ucrânia era improvável.

          A diocese decidiu tornar-se católica - unir-se à Igreja Greco-Católica Ucraniana (IGCU).

          Em primeiro de abril de 2015, uma assembleia eparquial declarou que estava "convencida da impossibilidade de unificação canônica com as igrejas ortodoxas ucranianas na diáspora, rejeita[va] formas não canônicas de unificação de igrejas e acredita[va] na perspectiva de uma comunhão da Igreja Ucraniana com as igrejas da antiga e da nova Roma."

          Numa requisição formal, a diocese pediu ao sínodo dos bispos da Igreja Greco-Católica Ucraniana "por conselho fraternal para alcançar a comunhão eucarística e a unidade administrativa da diocese de Kharkiv-Poltava da Igreja Ortodoxa Autocéfala da Ucrânia com a Igreja Grego-Católica Ucraniana."

          O processo para alcançar a unidade não foi fácil; levou quase sete anos. E de acordo com o arcebispo Isichenko, que liderava a diocese desde 1993, nem todos nela aderiram ao plano de unir sua diocese local para a Igreja Católica - em vez disso, algumas paróquias se juntaram a outras comunhões ortodoxas. 

"Devo dizer que a maioria dos padres se assustou. Por várias razões: seja pelo medo de perder o apoio do rebanho, devido à falta de compreensão dos fiéis de tal passo, porque estavam sobrecarregados de vários tipos de mitos anticatólicos, ou devido ao conservadorismo humano comum, de medo algo novo," disse ao The Pillar.

          Mas "as congregações mais maduras apoiaram a ideia, e agora se juntaram ao exarcado de Kharkiv e a arquidiocese de Kiev da IGCU."

          Embora as paróquias tenham sido totalmente incorporadas à estrutura da Igreja Católica ucraniana nos últimos dois anos, o status do arcebispo não era claro até esta primavera, após o início da invasão em larga escala da Rússia na Ucrânia.

          "Eu me aposentei e agora sou arcebispo-emérito com a manutenção de minha autoridade como chefe do Collegium do Patriarca Mstyslav, que este ano adquire o stratus de um projeto da Universidade Católica em Kharkiv," explicou o arcebispo.

          Desde seus primeiros dias, o arcebispo Isichenko era um figura um tanto atípica na ortodoxia ucraniana. Na época de sua tonsura monástica e ordenação como sacerdote, era professor de história literária na Universidade Estatal de Kharkiv.

          Ele liderou uma diocese por 27 anos sem parar suas atividades acadêmicas e docentes. É o autor de tratados acadêmicos sobre a história da literatura medieval e barroca ucraniana, literatura ascética, e a polêmica ortodoxa-católica dos séculos XVI-XVII. Na verdade, ele é um dos maiores especialistas do mundo no seu campo.

          Mas para explicar a decisão que sua eparquia tomou - a decisão de se tornar católica - o arcebispo olhou para a história mais recente.

          Ele disse que a sabedoria de seus planos não pode ser compreendida sem entender a experiência dos ucranianos ortodoxos durante o século XX e o colapso da União Soviética.

          "A restauração da independência da Ucrânia também possibilitou a restauração da IOAU, cujas estruturas na época sobreviveram apenas na diáspora. Mas as igrejas nos EUA e no Canadá estavam bastante esgotadas e não poderiam prover assistência efetiva à igreja reavivada em sua terra natal. Por outro lado, a comunidade ortodoxa autocéfala ucraniana precisava reconstruir a identidade da ortodoxia de Kiev como era antes de sua subordinação a Moscou no século XVII. A tarefa não era reviver, mas reconstruir," disse o arcebispo.

          "Ainda assim, as fraquezas nessa tarefa foram imediatamente evidentes: uma base espiritual fraca, uma falta de durabilidade da tradição monástica, etc. A IOAU nunca foi capaz de criar um único monastério ou uma única escola acadêmica séria. E havia vários cismas infames que a igreja sofreu e, o mais importante, esforços constantes dos funcionários do Estado e de algumas forças da igreja para formar uma igreja "estatal". Tudo isso levou à decepção na perspectiva desse caminho."

          O arcebispo Isichenko afirmou que se tornou evidente com o tempo que uma tendência permaneceu constante na Igreja Ortodoxa desde os tempos bizantinos, a saber, a inclinação à governamentalização da Igreja e uma maior cooperação entre a Igreja e o Estado.

          "Servi como bispo governante na IOAU de 1993 a 2020, quando renunciei. Me convenci de que a ideia da Ortodoxia como uma alternativa ao catolicismo leva à formação de Russkiy mirs - mundos russos em miniatura, ou no sentido pleno da palavra.

          "Seja na Sérvia ou na Rússia... Infelizmente, essa tendência também existe na Ucrânia. Tal particularismo suspende a natureza universal da Igreja, sua catolicidade."

          O arcebispo disse que sua diocese começou a considerar a perspectiva de unidade com a Igreja Católica quando a agressão russa contra a Ucrânia começou em 2014; afirmou que assistiu ao uso da Igreja Ortodoxa Russa para promover o imperialismo russo.

          "O que está sendo feito com a ortodoxia de Moscou é o grande drama do mundo inteiro. A ideologia da 'Russkyi mir' mostra a todas as igrejas ortodoxas o perigo de inverter o sistema de prioridades - a perda de prioridade dos valores cristãos sobre as prioridades nacionais, estatais, políticas ou partidárias," disse ao The Pillar.

          Os padres da antiga diocese de Kharkiv-Poltava da IOAU, que entraram na Igreja Católica Ucraniana com suas congregação este ano, disseram ao The Pillar que se sentiam seguros de suas escolhas devido à sua confiança no arcebispo Isichenko. 

          Padre Ihor Lytvyn, que comandou uma paróquia da IOAU em Polatava, explicou que mesmo antes de 2015 as relações entre a IGCU e sua diocese eram amigáveis. Os greco-católicos frequentemente ensinavam no Collegium do Patriarca Mstylav, onde ele recebeu sua educação teológica.

          E em sua paróquias, os paroquianos sentiam uma afinidade em relação aos católicos ucranianos, afirmou.

          "Não foi surpresa para os meus paroquianos. Então, quando nossa diocese estava em crise, eles se solidarizaram com o caminho escolhido pelo arcebispo. A maioria votou pela transição, embora alguns tenham se afastado da paróquia. Pessoalmente, sempre estive convencido de que se você não é ortodoxo, é um herege, e se você não é católico, é um cismático. Portanto, para mim, nunca houve oposição entre os conceitos 'ortodoxo' e 'católico'," disse o padre Lytvyn.

          O padre Oleh Bondaruk, que agora serve na arquidiocese de Kiev da IGCU, foi ordenado sacerdote em 2016, quando a diocese de Kharkiv-Poltava já havia começado seu diálogo de reunião com a IGCU. Em 2018, sua paróquia optou por se transferir para a Igreja Ortodoxa da Ucrânia, mas Bondurak decidiu se tornar católico. 

          Padre Bondaruk disse ao The Pillar que seu caminho foi um pouco diferente do de outros clérigos da diocese, o que tornou mais fácil para ele se tornar um padre católico.

          "A maioria dos padres que não se juntaram à IGCU foram ordenados anos atrás. E penso que a fronteira mais difícil para uma pessoa cruzar na vida é a fronteira interconfessional. Fui ordenado na época em que a diocese de Kharkiv-Poltava já havia começado seu movimento para se unir à IGCU. Foi minha escolha consciente."

          "Por outro lado, embora tenha sido batizado na Igreja Ortodoxa, cresci num ambiente católico romano na região de Khmelnytskyi, e tenho muitos poloneses na minha família. Desde a oitava série, frequentei uma igreja católica romana. Até fui para um seminário católico romano por um ano. Mas depois me mudei para Bovarka, próximo de Kiev, e me afastei um pouco da igreja. Um dia me pediram para dar uma carona para o arcebispo Ihor para Kaniv, e nosso contato deixou uma grande impressão em mim. Assim, me tornei um padre ortodoxo."

          O padre Viacheslav Trush de Lozova, na região de Kharkiv, disse ao The Pillar que, diante de uma questão tão difícil, ele e sua congregação buscaram acima de tudo discernir a vontade de Deus sobre qual caminho deveriam seguir.

          "Um fator importante que influenciou minha decisão foi também estudar e compreender a experiência da Igreja Católica, me familiarizar com sua doutrina, dogma e história, tanto globalmente quanto na Ucrânia. Portanto, nossa decisão se baseou não apenas na confiança em nosso bispo, mas também no aprofundamento de nosso conhecimento da Igreja Católica," explicou.

          Na paróquia, discutimos muitas questões e estudando a história da Igreja. Tudo isso deu frutos. Temos uma atmosfera bastante familiar em nossa comunidade, com o padre e os fiéis discutindo tudo entre si, então não há segredos. Assim, quando anunciei a decisão do conselho diocesano, os fiéis a enfrentaram com confiança em mim e no arcebispo Ihor."

          Ksenia Pidopryhora, da Igreja São Demétrio em Kharkiv, foi forçada e deixar a cidade em março de 2022 devido à guerra e agora vive em Lviv.

          Ela disse ao The Pillar que sonhava em retornar à sua cidade natal e sua paróquia, à qual pertence desde os seis anos de idade. Pidopryhora afirmou que ela começou com perguntas sobre a nova unidade da paróquia com Roma, mas disse que agora estava favoravelmente inclinada à mudança.

          "Em primeiro lugar, foi a familiarização pessoal com o clero e os paroquianos da IGCU em Kharkiv, bem como a observação de figuras bem conhecidas que representam a IGCU no mundo, como o ex-líder da IGCU Lumobyr Husar, de abençoada memória, ou o extraordinário intelectual bispo Borys Gudziak. Suas palavras e ações correspondiam à minha ideia do que deveria ser a vida de um cristão num mundo moderno, vida na unidade. Consequentemente, o desejo de fazer parte dessa unidade era natural."   

          "Além disso, a própria IGCU como instituição tinha - e tem - uma reputação excepcionalmente positiva pela consistência e unidade, em contraste com a comunidade da Igreja Ortodoxa na Ucrânia, cujas divisões e brigas experimentamos como paróquia. Também, a transparência em responder quaisquer questões do clero de nossa diocese e a própria possibilidade de ver, conversar e fazer perguntas durante o processo contribuíram para uma conscientização da conveniência e lógica dessa 'transição'," disse Pidopryhora.

          Apesar de sua tradição litúrgica bizantina comum, existem algumas diferenças litúrgicas entre a Igreja Greco-Católica Ucraniana e a ortodoxia ucraniana. Pidopryhora disse estar grata que as paróquias da antiga diocese de Kharkiv-Poltava mantiveram alguns costumes específicos de culto, mesmo quando se tornaram católicos.

          "Felizmente, a ausência de mudanças na ordem do culto e o direito de observar o calendário da Igreja como era antes da 'transição' ajudaram os paroquianos de nossa Igreja a se integrarem suavemente na vida paroquial como membros plenos da IGCU," explicou ela.

          O bispo Vasyl Tuchapets, exarca de Kharkiv da IGCU, disse ao The Pillar que as diferenças litúrgicas entre as paróquias da IGCU e as antigas comunidades da diocese de Kharkiv-Poltava da IOAU não eram fundamentais, mas diziam respeito a nuances rituais.

          Mas em todos os outros aspectos, as comunidades estão plenamente integradas na vida do exarcado. Seus pastores participam em retiros e encontros conjuntas, cursos de formação do exarcado e outros projetos da Igreja.

          De sua vez, o padre Trush disse que a "integração" tem sido uma experiência positiva para ele e sua paróquia.

          Sua vida paroquial antes parecia isolada - cercada pelas divisões e políticas das Igrejas Ortodoxas na Ucrânia. Mas agora, disse, as coisas haviam mudado.

          "Agora sentimos que pertencemos a uma comunidade global - a Igreja Greco-Católica e a Igreja Católica espalhadas pelo mundo, há um sentimento de apoio. Para mim pessoalmente, como um sacerdote, isso é muito importante," concluiu o padre.


* tradução livre



quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Essa é a nossa guerra

 

          Em determinando momento do dia de hoje estive pensando um pouco na guerra em que vivemos atualmente. O pensamento me ocorreu enquanto fazia uma corrida durante o crepúsculo do sol de verão. A tarde havia sido quente, mas o vento do fim do dia tornava tudo muito mais agradável, e sem fones de ouvido centrei-me nessa guerra a fim de suportar a ansiedade de um passo a passo monótono.

          Muitos talvez pensem em guerra no seu sentido estritamente material. Não falo de guerras mundo afora, da Síria ou da possível guerra na Ucrânia, nem da violência urbana ou do problema das drogas, mas da guerra espiritual. É lá que está a batalha decisiva, esteja você no meio de um tiroteio ou não. Isto é o que importa.

          Destruída a autoridade divina no coração dos homens, o que resta? Nada. Ou melhor: qualquer coisa. Dostoiévski ensinava, em Os Irmãos Karamázov, que se Deus não existe tudo é permitido. Ou pior ainda: podemos realmente acreditar em Deus, mas não aceitar, por uma profunda revolta espiritual e demoníaca, o mundo que Ele criou. Essa era a atitude de Dmitri, irmão de Aliócha, no romance escrito pelo grande escritor russo, em que o personagem descrente em Deus declarava abertamente que jamais aceitaria o mundo como ele é mesmo que Deus existisse. Estava declarada a guerra de uma alma que já havia perdido a própria guerra. 

          Este é o nosso mundo, a ordem criada por almas confusas e obscurecidas pela obstinação do erro. Parece que cada vez mais pessoas decidem pela rebelião, seja por acreditar que estão se libertando ao aderirem às ideias, modas e movimentos do momento, seja porque simplesmente não aceitam o mundo que existe e querem mudá-lo à sua imagem e semelhança, mesmo que isto signifique bater de frente com o Criador. O pior é que os dirigentes deste mundo, do alto de seus castelos civis, econômicos, militares, intelectuais e mesmo religiosos, estão empedernidos em sua luta contra o espírito tentando, a todo o custo, enclausurar o restante da humanidade num lockdown existencial eterno.

          Vejam à sua volta os frutos da revolta: confusão, insegurança e medo. Do espírito nascem a clareza, a segurança e a paz. Abolida a referência que permite medir todos os nossos atos, tudo se torna não apenas permitido, mas relativo. Não há medida ou poder que forneça a paz necessária, pois a paz precisa de ordem, e só há ordem quando a fundamento dela mesma é admitido como princípio e fim de todas as coisas, que se ordenam no passar da linha do tempo

          Se na guerra escolhermos o lado da luz, poderemos ao menos enxergar e identificar os perigos que nos rodeiam, inclusive em sua dimensão física. Este é um dos papéis da sabedoria, tão rara numa época em que o Espírito Santo é contrito pela obstinação humana, pela rigidez dos que apelam pela retidão da razão. A sabedoria é o cruzamento da ciência, outro dom do Espírito, com o amor. Sabemos, por exemplo, qual pessoa se faz digna de uma ajuda desesperada e qual, cobrindo seu rosto com a face de um cordeiro, é apenas digna de pena. Por isso pouco importa o bem-estar físico se a vida afunda na desesperança, pois os recursos transformam-se em bodes expiatórios dos próprios erros, quando não instrumentos de desgraça. 

          Para evitarmos a desgraça do medo ou a guerra que se avizinha no horizonte é necessário adentrarmos nas tropas do espírito. É ali que o exército dos anjos atuam e onde encontramos - pasmem, meu amigos mais humildes - milhares e milhares de empregados a trabalhar para nós, desde que estejamos dispostos a trabalhar com eles. Por isso a atitude de abertura confiante a Deus é tão relevante, pois esta é a garantia de nunca estarmos sozinhos.

          É necessário dizer sim e agir sobre o sim. Seja com o Rosário ou a cruz na mão, seja invocando o nome do Criador à forma da sua tradição, esta é nossa trincheira, esta é nossa batalha. No mundo, nenhuma guerra ou desgraça cessará por completo sem que peçamos auxílio a Quem fez todas as coisas, inclusive as que permitiram a criação das armas. "Rezem o terço todos os dias para alcançar o fim da guerra.", disse certa vez a Mãe de Deus. Essa é a nossa guerra, a única necessária para vencer todas as guerras.

terça-feira, 9 de novembro de 2021

Dia 8 de novembro de 2021

          Após anos de participação em um grupo de oração aqui de Porto Alegre, comecei a notar que certas intuições em momentos de concentração eram, na verdade, indicativos de coisas que estavam acontecendo. 

          Mas é preciso não confundir as coisas. Tais intuições dependem de duas condições: oração e silêncio interior. Nada de dirigismos mentais, pois o que eu "vejo" é, na verdade, meus próprios pensamentos e não visões místicas que podem ocorrer em algumas pessoas, mas que não são tão banais quanto a intuição que brota através da mente.

          Minha mente fica como que suspensa com a devida paz e concentração, e surgem pensamentos que, se bem notados, fluem livremente ao sabor do momento meditativo e espiritual que pouco ou nada tem a ver com alguma intenção pessoal. Em outras palavras, os pensamentos surgem e se desenvolvem em mim sem que eu os dirija deliberadamente confirmando, momentos depois, que aquilo que vinha à mente dizia respeito a algo ou alguém próximo.

          E mais uma vez notei um insistente apelo da Mãe de Deus, dessa vez ao mundo. Era noite de segunda-feira, momento tradicional de um dos encontros do grupo, e as canções à Nossa Senhora, embaladas ao vivo pelo coordenador do encontro, também ele um devoto mariano e cantor profissional, enchiam a nave da igreja. Como que transportados para outra dimensão, o som do teclado e a voz ungida faziam o Céu descer, e sentíamos como que envolvidos por uma nova atmosfera, invisível aos olhos mas perceptível aos órgãos da alma.

          Apesar do momento ser para lembrar todas as pessoas próximas que necessitavam do auxílio de Nossa Senhora, pensei também, cá comigo, na situação do mundo, e me concentrei deliberadamente na mensagem de Fátima para a humanidade, mensagem que há tempo me atraía, mas que só recentemente resolvi conhecer de forma verdadeira. 

          Recordei-me do Anjo com a espada de fogo, que os três pastorinhos haviam visto na terceira parte da mensagem, descrita pela irmã Lúcia em suas memórias. Nessa passagem, o Anjo aponta sua espada com a mão esquerda em direção à Terra para incendiá-la, mas seu fogo é apagado pela luz que emana da mão direita de Nossa Senhora. Com a outra mão, o Anjo aponta para a Terra e diz com voz forte "Penitência! Penitência! Penitência!" Enquanto Deus, pela boca do Anjo, pede urgentemente que o homem se redima de seus pecados praticando sacrifícios, Nossa Senhora segura a ira divina com sua intercessão, dando algum tempo à humanidade para sua remissão.

          Por algum motivo, essa imagem em pensamento buscava tomar vida própria. Não havia mais Nossa Senhora, e o Anjo ficou apenas em minha lembrança. Notava que o fogo, agora tomando proporções mastodônticas, descia sobre a Terra não como labaredas, mas imensas bolas de fogo, tão grandes que pareciam quase não se mover em relação às enormes dimensões de terra que engolia. Cidades inteiras eram cobertas pelo fogo, que calcinava absolutamente tudo ao seu alcance.

          Eu tentava imaginar que locais poderiam ser esses, mas as especulações eram puramente artificiais. A importância não estava nos locais em si, e sim no fato de que Nossa Senhora já não poderia mais intervir para impedir o sofrimento que viria ao mundo por seus vastos e contínuos pecados. Passaram-se mais de cem anos, e a humanidade, após um início aparentemente promissor, deu as costas à mensagem de Fátima, e agora parece não haver mais tempo para evitar as catástrofes vindouras, a tão necessária purificação do mundo pela via dolorosa. E no meio da dor, haverá guerra.

          Escrevo isso porque é pelo menos a quarta vez que percebo em mim um forte apelo de Nossa Senhora para que rezemos, urgentemente, pela paz no mundo. Particularmente não creio ser mais possível evitar o fogo da espada do Anjo, cujo contexto se dá em meio a uma cidade parcialmente destruída, mas ao menos podemos evitar o pior ou amenizar as dores do parto que serão necessárias para o surgimento de uma nova humanidade, o triunfo do Imaculado Coração de Maria.