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terça-feira, 2 de novembro de 2021

Dia 1º de novembro de 2021

 

           Certo dia, quando estava na séries iniciais do colégio, eu e meus colegas realizamos um jogo onde apostávamos nossos desejos futuros. Citávamos a profissão que teríamos, com quem casaríamos e com que idade. Me recordo da idade do meu casamento - 25 anos - e o nome de uma futura pretendente.

          Quase três décadas depois, não só a pretendente sumiu do meu horizonte de relacionamentos como o casamento não veio, bem como a esquecida profissão que havia mencionado. O sonho do ingênuo garoto, construído sobre os dois ideais mais cobiçados da sociedade moderna - o sucesso no trabalho e o casamento feliz -, simplesmente não se tornaram realidade.

          Há algo de frustrante nisso, mas também de altamente pedagógico. Pois o casamento pode simplesmente não ser a vocação de uma pessoa ou seu tempo não ser o tempo imaginado, e o trabalho, necessário a todos que têm um mínimo de sanidade mental e capacidade de caminhar com as próprias pernas, pode ser qualquer um, na grande maioria das vezes diferente do que foi sonhado na infância. E mesmo na faculdade.

          A frustração está na entronização do sonho. O problema é muito simples: sonhos humanos são apenas isso, sonhos humanos, e não decretos divinos. Eles têm a fugacidade do vento, não a estabilidade indeterminada da sucessão de dias e noites. Somos muito mais limitados do que nosso vão desejo e as ficções grotescas de Hollywood - com naves espaciais super avançadas criadas num espaço de vinte anos - nos fazem imaginar. O mundo é o ensinamento do I Ching: tudo está em permanente mutação, menos a mutação mesma, ainda mais se consideramos uma época que aposta no princípio de que as coisas têm fins utilitários, até mesmo a vida humana, e que a essência de sua dinâmica é o movimento frenético e permanente. Os sonhos de uma vida feliz dentro dos cânones modernos é não apenas difícil, como artificial e questionável. Afinal, felicidade seria ter uma carreira bem sucedida e um casamento feliz, mas quem realmente sobe este monte? E alcançada a almejada conquista, o que fazer?

          A pedagogia está na destruição dos ídolos, pois o homem é um ser essencialmente religioso, condição que Peter Berger bem afirmou quando, em sua longa carreira acadêmica, notou que mesmo em sociedades altamente desenvolvidas a religiosidade - mais especificamente a espiritualidade - sobrevive, mesmo que em formas bastante distintas das sociedade tradicionais. O anseio pelo eterno está traduzido nesse perfil religioso. Dê carreira bem-sucedida e casamento feliz a todos e verá se instaurar o caos, a vida sem sentido que é contemplar o tempo que passa sem novas conquistas no limitado tempo de vida. Sem a perspectiva do plano transcendente, a caminhada é vã e a conquista morta no momento de sua concretização, um troféu que acumula pó num canto da prateleira. É a morte e, portanto, a esperança de uma eternidade, a medida de nossas ações.

          Assim como sonhos pessoais facilmente caem na idolatria e na inevitável frustação, impérios inteiros também são arrastados pelo vento, mesmo os aparentemente poderosos. Nesse primeiro dia de novembro, repassei alguns trechos do recém lido O fim do homem soviético, de Svetlana Aleksiévich, e encontrei o depoimento de uma cidadã da antiga União Soviética declarando o seguinte:

"O poder soviético parecia eterno. Iria durar até os nossos filhos e os nossos netos! Foi inesperado para todo mundo quando ele acabou. Hoje já ficou claro que nem o próprio Gorbatchóv esperava por isso, ele queria mudar alguma coisa, mas não sabia como. Ninguém estava pronto. Ninguém!" (p. 82)

          Muitas vezes não estamos preparados para uma crise de relacionamento, uma demissão sem aviso prévio e muito menos para o desaparecimento de um império porque perdemos a visão daquilo que fixa as estrelas no alto e sustenta as civilizações. Felicidade mesmo, só no Céu. 

terça-feira, 26 de maio de 2020

Porque o destino de nossa alma é tão importante


"Nada importa, exceto o destino da alma."
(G. K. Chesterton, em "Appreciations and Criticisms of the Works of Charles Dickens")

           Todos têm a certeza da morte, porque a experiência de vida e a própria condição humana apontam a todo o instante para o mesmo destino.
          Por isto, a única coisa realmente relevante nesta vida é a morte ou, dito de outra forma, o destino da alma a que se refere Chesterton na frase citada acima.
          Ela resume a totalidade de nossa história, decisões, ações, omissões, vida em família, trabalho, sentimentos, pensamentos... tudo cessa no momento da morte.
          Em outras palavras, tudo cessa perante o destino da alma, que adquire prevalecimento absoluto não apenas no sentido do eterno, mas também nesta vida de hoje.
          Porque o plano do eterno para o qual a alma se projeta abrange desde já o tempo atual. Por definição, o eterno é maior do que o tempo.
          Se estamos vivos, isto significa que já estamos no para-além, já estamos na vida eterna! Apenas não a percebemos sensivelmente e não sabemos o momento em que o salto qualitativo para o outro mundo se dará.
          Por isso o destino de nossa alma deve ser nosso imperativo máximo, pois tudo o que aqui temos ficará. Até mesmo o corpo. Viemos a sós, nus, e iremos novamente sós, menos do que nus.
          Temos de ter o devido e especial cuidado com nosso destino, dado que a alma nada mais é do que nosso eu, nossa pessoa, com sua história e decisões carregadas para o eterno.
          Seria insuportável passar a eternidade acompanhado de alguém que consideramos insuportável. Amar a nós mesmos (sim, este é parte do segundo mandamento, não podemos esquecer) é garantir, em alguma medida, que vamos nos aguentar para sempre.
          E Deus tem preferência àqueles que se amam verdadeiramente. Não poderemos amá-Lo se não nos amarmos verdadeiramente e sem medida.

domingo, 12 de janeiro de 2020

O cotidiano eterno


          Há uma frase de G. K. Chesterton que afirma, não exatamente com estas palavras, que o homem maduro é o que suporta a rotina, esta mesma rotina que em grande parte está voltada ao trabalho. Na época do escrito inglês não era diferente. Faz parte da vida moderna viver em atividade. Modernidade é movimento e desprendimento do ciclo natural da vida; e mesmo as pessoas que vivem uma vida, digamos, "tradicional", dependem do trabalho para viver, e este depende dos ciclos naturais para serem realizados. Daí a maturidade: temos de enfrentar as obrigações concretas e inadiáveis que nos inserem numa aparente ou real mesmice cotidiano, que temos de suportar com fibra o suficiente para não cairmos no desânimo ou estourarmos na revolta.

          Viver, portanto, é viver na rotina por mais excêntrico e mutável que possa ser o trabalho de uma pessoa. Por isto o desempregado não apenas se angustia com a falta do ganha-pão como sente a pressão psicológica de todos os dias ser obrigado a organizar-se mentalmente para atravessar um dia inteiro sem um foco claro e um objetivo que lhe preencha as horas que ameaçam lançá-lo no ócio. Fugir ou ser arremessado para fora da rotina acaba, portanto, por mergulhar a pessoa na desorientação ou no desânimo.

          Chesterton está certo que o homem real é aquele que suporta a rotina, mas o desempregado, o desorientado, aquele que não tem foco na vida prática teria de ser um super-homem para suportar o peso não apenas da cobrança que a vida lhe exige, de sustento material, mas principalmente o caos mental que a falta de foco e sentido lhe provoca. Se o trabalhador tem, como diz o provérbio popular, de matar um leão por dia, o desempregado tem de matar vários para ocupar seu tempo. É uma luta infernal.

          O mais estranho nesta tensão com o cotidiano é a aparente falta de sentido, não apenas do sentido histórico da prática, como também da vida pessoal. A pessoa que sai de férias sente como se estivesse "fora da realidade" e, ao voltar, que está voltando ao "mundo real". O tempo do relógio, uma artificialidade que abstrai em números o ciclo natural do dia, prende-nos como se dependêssemos dele para nos sentirmos vivos e dizer, "sim, a vida tem sentido". O problema é que a vida do movimento, do trabalhar para pagar as contas, do cumprir leis e contratos, pegar filhos da escola e dar aquela atenção básica à esposa ou o marido como se o mundo real se resumisse à prática fria e espiritualmente estéril dominada pelo tic-tac das horas, como se estas brotassem do solo tal qual o trigo ou a cevada, é, em última instância, uma vida sem sentido aprisionada na contagem artificial do tempo. A vida moderna é uma autofagia centrada em si mesma, uma engrenagem falsamente harmônica forjada à sua imagem e semelhança, à imagem do ideal humano do mundo racional administrado que, como bem observamos em faltas de luz, engarrafamentos e enchentes, nunca é o ideal.

          Ser homem é suportar isto, porque este suporte só é possível por conseguirmos ver além da rotina das horas contadas. Porque o homem é primeiro espírito, e ele não pode ser aprisionado pelos afazeres práticos, nem mesmo pelo tempo. Ser homem é ser eterno e ver que nas obrigações cotidianas há, de uma forma ou de outra, um reflexo do amor e da eternidade. Trabalhamos porque buscamos o amor eterno, pagamos as contas pelos mesmos motivos, criamos família porque ansiamos pelo amor que nos escapa dentre os dedos. Ansiamos a todo o instante a perfeição, o Paraíso, que, ao exemplo das experiências totalitárias, é impossível de se realizar neste mundo.

          Nossa rotina não pode ser um fim em si mesma porque sua perfeição é impossível e, portanto, o sofrimento advindo quando fechados nela inevitável. Por isto nossos trabalhos passarão, mas o espírito, aquilo que movimenta as coisas dentro de um tempo administrado, jamais passará.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

A vida em dois tempos


          Na quarta-feira passada, dia 21, participei com meu grupo de oração, o São José, do Cerco de Jericó. O evento, que originalmente dura sete dias, foi feito em apenas pouco mais de seis horas, contando aí as duas missas de início e fim do cerco. Realizamos sete caminhadas por dentro da nave da Igreja Nossa Senhora da Paz em Porto Alegre reproduzindo os sete dias do cerco à cidade de Jericó conforme relata o Antigo Testamento. 

          Enquanto realizávamos as orações e fazíamos as caminhadas com o Santíssimo Sacramento nas mãos do sacerdote não percebíamos a passagem do tempo. O dia que começara fresco ficava quente, mas o ar-condicionado da nave (um luxo que recentemente tem se espalhado por algumas igrejas da cidade) impedia de sentirmos a temperatura que subia do lado de fora. Mal ouvíamos o barulho do trânsito na avenida à frente, estávamos absorvidos no ciclo de orações e caminhadas e não nos preocupávamos com as coisas do dia-a-dia. 

          Nosso Cerco de Jericó era um microcosmo da vida espiritual. Não quero entrar aqui no sentido que o cerco possui no Antigo Testamento, sobre o qual as orações são feitas, mas na experiência deste evento. Cercados pelas paredes da igreja, estávamos todos desligados do mundo em seu sentido amplo: não tínhamos percepção do tempo, não sabíamos o que acontecia do lado de fora e, em princípio, não estávamos preocupados com ninguém. "Preocupados" aqui quero dizer absorvidos com problemas que envolvem terceiros, como compromissos marcados, problemas de casa ou sentimentos dominadores projetados em outras pessoas.

          Esta experiência era como estar no Céu, mais especificamente no plano da eternidade. No Eterno não há tempo. Todos os tempos, passados, presente e futuros possíveis, estão lá dispostos de forma simultânea. Eles não passam, simplesmente estão presentes no que chamamos de "eterno presente de Deus". Ao menos tempo, estávamos desligados dos acontecimentos e obrigações humanas, que de nada servem para as almas que daqui já partiram, dado que elas não podem cumprir compromissos e acumulam sofrimentos se apegadas ao mundo que deixaram para trás. Da mesma forma, os sentidos estavam desligados da variação da temperatura externa e absorvidos no ritual cíclico que, no final das contas, reatualizava constantemente a presença de Deus através de Seu Corpo na eucaristia. 

          Na igreja estávamos no Céu. Ao passar sua porta da entrada ali estava o mundo. A igreja cercada pela cidade representava o inverso de sua dimensão física: ela era o plano infinito que abraçava a cidade, que abraçava o mundo inteiro. Este infinito é o eterno que não passa. Ele sempre é, enquanto o mundo, forjado nas lutas da História Humana, passa e um dia chegará ao fim. Mas só o Pai sabe quando.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Sem fronteiras, sem distâncias, sem nações: o vínculo que nos une através dos tempos

(Budapeste, arrasada ao fim da Segunda Guerra: efeitos de um conflito que afetam a humanidade inteira.)

Estou lendo o livro "O fim do Século XX", do historiador húngaro-americano John Lukacs. No capítulo "Entre dois Mundos", Lukacs inicia relatando seu retorno à Hungria 44 anos depois. Ele fora convidado, junto com seu amigo e sacerdote Béla Varga, a comparecer na sessão de abertura do Parlamento Húngaro em 2 de maio de 1990. Ambos eram amigos e parentes próximos de alguns membros do novo governo húngaro. Béla faria o discurso, e Lukacs, seu amigo famoso, iria junto acompanha-lo.  No relato segue-se o testemunho de um homem que, fugindo da opressão comunista, voltava à sua terra natal e refletia sobre sua vida nos EUA e seu passado na Europa. Daí os "dois mundos" de seu livro.

Imediatamente minha mente me projetou na mesma situação. E se fosse eu, e não Lukacs (ou Béla) a ter de falar em público num evento desta importância? E com alguma autoridade dada pelos acontecimentos? O que eu diria? Não pretendo detalhar aqui um discurso ou todo o meu pensamento, mas não foge à minha memória o pouco conhecimento de que tenho da matança que se abateu sobre a Europa na Segunda Guerra e a repressão comunista que veio em seguida.
 
(Edifício do Parlamento Húngaro, em Budapeste, onde passa parte do relato de John Lukacs.)

Logo me pus a pensar no universo de almas lançadas ao purgatório. Pelo menos 60 milhões na Guerra e 2 milhões dos regimes comunistas do Leste Europeu (nem falo da Rússia e da China, que jogam esta cifra aos cem). É um universo de almas a clamar por ajuda. Quando pedimos pela vida de alguém que se foi, anjos e santos de movem para resgata-las para um estágio superior, um estado da alma mais luminoso.

Cá eu com meus pensamentos: todos esses acontecimento históricos separam a todos nós. Fora um período de 1999 quando recebi em minha casa um húngaro de intercâmbio, muito provavelmente não vou conhecer na intimidade alguém que viva na Hungria, menos ainda seus antepassados. Assim será com a esmagadora maioria das pessoas da face da Terra.

(O plano da eternidade vincula todos de todos os lugares e todas as épocas.)

Mas na eternidade não há tempo, como não há lugar. Não há nação. Por isto mesmo nós, aqui no Brasil, não estamos magicamente imunes aos acontecimentos de outro continente. As almas que clamam nossa ajuda não são apenas as de nossos familiares: são os que pereceram na guerra e na repressão, nos hospitais de cidades distantes, nas cabanas do interior da Ásia. Todos nós, pela comunhão dos santos, estamos vinculados uns aos outros num plano onde não há distância. O Brasil está, sim, ligado a todos os que se foram. Eu e você também. E este clamor nos "pesa", nos faz responsáveis por aqueles que podemos ajudar, mesmo que com uma simples oração. Por isso mesmo quando alguém reza para Nossa Senhora Ela não se ausenta das almas que resgata, nem de outros que chamam Seu nome em outro lugar do mundo. Ela está, por graça divina, em todos estes lugares simultaneamente. Na eternidade não há lugar, distâncias ou fronteiras. Não há espaço, no sentido físico e geográfico: há apenas uma figura onde todos os lugares se apresentam de forma plena e simultânea. Nossa Senhora ouve minhas orações assim como aquelas que ressoam dos confins do universo ou das casas de Budapeste.

Fazemos parte da mesma História, plano único dividido pelas contingências do Cosmo e do mundo, mas unidos pela raiz criadora. Por isso mesmo somos responsáveis por todos os que aqui estão ou um dia estiveram. Estamos vinculados uns aos outros pelo amor divino e pela identidade única, a Pátria Celeste, a Casa do Pai. A História um dia passará. O amor de Deus jamais.