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quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Praia da Armação, 15 de dezembro de 2021

          Nos seis dias em que fiquei em Florianópolis nesse mês de dezembro, a quarta-feira foi o mais movimentado. Conheci dois locais diferentes do município - Armação e Pântano do Sul - e ainda transitei brevemente por aqueles becos tipicamente nacionais, que na ilha são chamados de servidão.

          Cabe destacar que Floripa tem seis rodovias só para si, as SC's 401, 402, 403, 404, 405 e 406, sendo que a penúltima liga o Campeche ao Pântano do Sul. Se por vezes a pista é estreita e a velocidade é limitada, imagina o que não é num servidão, onde o espelho do carro quase bate nos muros das casas.

          A primeira parada foi na Armação, bairro criado em 1772 com o nome de Armação da Lagoinha, uma referência aos locais de beneficiamento de produtos vindos da pesca da baleia, prática que se espalhou na região a partir de 1730. Chegando ao seu minúsculo centro, damos de cara com uma igreja, a Sant'Ana e São Joaquim, com a inscrição "1772" sobre a porta de entrada. 

          Fiquei um tanto contrariado ao me deparar com a cor vibrante do amarelo recém pintado e a data estampada na fachada. O conjunto não combinava, havia algo de não-espontâneo naquilo. E sua torre, acrescentada ao prédio em 1953, parecia um pouco deslocada para um edifício religioso do século XVIII. Só depois descobri que, apesar de antiga, a tradicional igrejinha não é mais a mesma que fora no passado e nunca fora tombada tendo sofrido diversas intervenções. 

          Na sua frente, outro contraste, o asfalto largo que se abre até a beira da praia e os fios de alta tensão que recortam o limitado visual da igreja. A área aberta, disputada por alguns motoristas ansiosos para estacionar um automóvel - ou largá-lo sem muito critério num momento de emergência - também é arena de manobras ousadas de uma linha de ônibus que, para cumprir a rota, realiza um habilidoso retorno sem deixar marcas nos arredores. 

          A praia larga ao longo da rodovia pela qual havíamos passado uns minutos antes se torna mais estreita na medida em que se aproxima do conjunto de casas do bairro. A areia, farta e macia, se torna mais exígua entre o novo calçadão do bairro e a passarela que dá acesso a Ponta das Campanhas; as águas calmas mantém os vários barcos de pesca flutuando livremente sob a proteção da Ponta; as casas, que ainda lembram suas origens portuguesas, se mesclam com algumas construções mais modernas perfiladas ao longo da linha da praia; e o verdejante Morro do Matadeiro, ao fundo, comprime as construções junto ao oceano fechando o conjunto da obra com sua onipresença. Está formado o cenário perfeito para um refúgio de tranquilidade e paz.

         O dia abafado, depois transformado num cinza mais agradável que começava a tomar o topo do morro com uma neblina, parecia ideal para uma praia - até um grupo de três gurias se colocarem atrás de nós e uma delas, sem o menor pudor, resolver abrir sua vida privada para meia humanidade ouvir. 

          Passando pela passarela que dá acesso a Ponta das Campanhas, encontramos no alto uma imagem que, para minha frustração, não era de Nossa Senhora, mas de Iemanjá. É evidente que a expectativa para alguém apegado à Mãe de Deus era de que uma figura feminina, visível ainda na subida da Ponta, fosse Maria, mas logo percebi, pelo perfil da imagem, o cabelo negro e o tipo de vestimenta que a pessoa representada era alguém parecida com Ela, e não deu outra. Passando ao lado da imagem à beira do rochedo, me deparei com uma oferenda a Iemanjá de alguém que teve o bom senso de deixá-lo numa caixa protegido do vento. No alto do rochedo, a belíssima vista da Praia do Matadeiro, com a enseada arenosa, o pontilhado de surfistas - a praia está voltada ao mar aberto - e a foz do Rio Quincas (ou Rio da Armação) que recebe as águas do Rio Sangradouro e deságua para o mar num leito raso, travessia de acesso à praia vizinha. Se na areia reina - ou deveria reinar - a paz e a tranquilidade, no alto da Ponta das Campanhas a atmosfera é mais profunda, há um convite à contemplação, típica das paisagens amplas que transmitem, por sua vastidão, o senso de eternidade.

          A Armação continuava tranquila ao longo da tarde. Com o horário de almoço totalmente desregulado, com pastéis e caipirinhas aleatórias, entramos num café cuja rua dá acesso à frente da igreja, com o detalhe de que já eram quase quatro horas. O tempo carregado com a umidade vinda do mar desaguou num chuvisqueiro reforçando a percepção de que estávamos num local frio, apesar do ambiente, da cidade e da temperatura dizerem o contrário. E detrás da janela ampla que dava para a rua estreita passaram as escandalosas, ao menos expansivas do que na praia. Seria realmente estranho chamar a atenção no meio da rua. Até mesmo nas praias brasileiras as coisas têm limite.

          Com os bancos molhados e sujos pela areia deixados para trás, seguimos aos extremo-sul da ilha, na Praia do Pântano do Sul.

           

            

sábado, 20 de novembro de 2021

Dia 17 de novembro de 2021

          Para alívio dos que sofrem com o calor, foi uma alegria acordar pela manhã e ver o termômetro abaixo dos vinte graus na metade de novembro. No dia anterior, o calor seco havia feito o termômetro bater os trinta e dois, mas felizmente a chuva, essa entidade tão distante nesse seco mês, resolveu dar as caras e propiciar, entre uma ou outra trovoada, um pequeno alívio tanto para meu corpo quanto à vegetação agora sedenta de água.

          Aqueles que moram distantes do Rio Grande do Sul tem uma imagem romantizada do clima local, essa senhora de humores instáveis. Muitos acreditam piamente na permanência do frio ao longo de todo o ano com verão bem ameno e neve sempre presente no inverno. Essa realidade é distante ao ponto de vermos certos constrangimentos fashion para os desavisados dos extremos dessa porção meridional do Brasil.

          Há muito tempo atrás, nos primeiro dias de janeiro de 1999, encontrei um carioca perdido em Porto Alegre durante uma forte chuva de verão. Descendo do ônibus, o pobre homem firmou os pés na calçada com seu corpo desengonçado e todo encharcado, suado e reclamando do calor. "Não imaginava que aqui fosse tão quente", disse mais ou menos com essas palavras. E eu, abrigado na parada de ônibus em meio à chuva inesperada, tive de responder, com a franqueza que tanto incomoda o tão ensaboado jeito brasileiro de não querer desagradar o próximo, de que as coisas aqui não eram como o estereótipo nacional imaginava.

          Mas esse dia de frio incomum para o mês de novembro foi uma das poucas confirmações do imaginário carioca. Numa data em que o sol já faz arder a pele dos desavisados e a temperatura já não é tão agradável como no mês interior, o céu carrancudo e o vento úmido e frio retiveram o termômetro o dia todo abaixo dos vinte graus. Cumprindo o único compromisso do dia, estive no aeroporto da cidade. Encostei meu carro, caminhei pelo canteiro da avenida próxima, cruzei para o estacionamento; senti o ar incomum para o mês com o vento que soprava canalizado por um prédio ao lado. Uma atmosfera de campo aberto em meio ao asfalto, de um mês de maio no mês de novembro. Um garoa leve aqui, outra acolá; volta e meia uma branda cortina esbranquiçada passava pela cidade, e o vento reforçava sensação de ter recuado alguns meses no calendário.

          Os ares do inverno, acrescentado pelo fato de ocuparem o período em que o verão já dá seu primeiros sinais, foram para mim o brotamento de outra memória, o de sentir o aconchego do envolvente ar frio e de saber, para a realização de minha vingança particular, que o desconforto do calor ficou para outras bandas distantes deste país tropical. Talvez haja algum evento em meu passado que tenha encrustado em minha alma essa satisfação, quiçá mesmo um antepassado que tenha legado esta alegria ou nostalgia como a geada que se propaga pela árvore genealógica, que faça minha alegria crescer na medida em que a temperatura diminui. Nessa época, meus descendentes vindos da Itália já estariam se preparando para a chegado do inverno como manda o sábio e velho hábito de obedecer aos ciclos naturais. 

          O envolvimento emocional engendrado pelas mudanças no tempo pode ser a memória viva de um passado que se foi mas que ficou como parte de minha personalidade. Porque somos o extremo de uma árvore viva que fincou suas raízes em tempos imemoriáveis. Alguns de meus galhos estão cobertos pela neve que cobre toda a paisagem.

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Dia 24 de outubro de 2021

          Há tempo não participava de um encontro de família. Domingo, dia de tempo bom e temperatura muito agradável, algumas pessoas, todas elas conhecidas, receberam uma moradora expatriada para o outro hemisfério da Terra. Estávamos em um pequeno salão de festas encravado nos fundos de um pequeno condomínio. Um refúgio que apenas olhares um pouco atentos poderiam notar.

          Havia pouca luz natural, e mesmo com amplas janelas do lado do sol que descia ao oeste, o grande e novo edifício vizinho fazia sombra no salão. No lado oposto, a leste, quatro janelas davam acesso ao corredor de pedestres que, se estendendo da entrada do condomínio até o fundo do comprido terreno, tinha parte de sua extensão coberta pelos apartamentos e outra parte com vista ao céu por entre tijolos avermelhados. Ao norte, apenas uma parede com uma uma mesa e sobre ela a comida da tarde, como pizza de sardinha - delícia, há tempo não me deparava com uma -, cuca, cachorrinhos e algumas bebidas, e do outro lado, ao sul, a porta de entrada do salão, através da qual era possível ver a escada que dava acesso aos andares acima.

          Notava que a parede que nos separava do corredor parecia ter um revestimento de madeira e em alguns momentos prendia minha atenção. Bati no material, como alguém que bate levemente em uma porta, que parecia estar oco. Bati noutra porção do lado oposto da coluna de concreto, mas o som confirmava a solidez do objeto. A fugaz curiosidade da estrutura interna da parede mostrava que havia, sim, um ponto oco, questão que não valia à pena a atenção, senão sua textura e cor.

          A madeira tem uma capacidade de nos remeter a uma residência, um lar, local de convívio entre pessoas e membros da família. É ela mesma parte da vida, extraída de um ser que doou um pouco de si - não necessariamente de forma consensual, claro - para acolher outros seres que se doam uns aos outros. Um material perfeito para se sentir o aconchego de um ambiente discreto e privado.

          Por outro lado, o salão tinha o paradoxo de ter seu único período de sol coberto por um edifício com aquelas linhas retilíneas típicas da arquitetura moderna, fazendo o local perder boa parte de sua luz natural. Mas estar ali, debaixo de dois andares de tijolos avermelhados e escondido detrás de um monstro de concreto, não parecia ser algo tão ruim assim. Pouca luz, poucas janelas vizinhas capazes de notarem o murmúrio e as risadas das conversas em família, pouco som das raras pessoas que transitavam pelo corredor ao lado, algumas camadas de tijolos entre a mesa coberta com bebidas, doces e salgados e os moradores acima e ao lado e muitos metros da distante rua onde alguns automóveis deslizavam sobre o asfalto novinho. O salão, que era de festas, também era ideal para ler um livro, relaxar ou dormir.

          Em dado momento de aperto, pedi a chave ao meu primo morador do local e subi ao apartamento, onde também satisfiz minha curiosidade visual após anos de ausência. Ao entrar na sala, deparei-me com um dos presentes assistindo a um jogo de futebol deitado no sofá, um tablet à sua frente e com a cabeça mais para lá do que para cá, como denunciavam as pálpebras que oscilavam entre uma débil atenção ao jogo e um fechamento da consciência para o inexplorado mundo interior. Ambiente escuro, janela quase totalmente fechada e ainda o edifício com sua imponente sombra do lado de fora. Madeira e tijolos em muitos detalhes e, finalmente, o pequeno banheiro, alvo de minha rápida visita. Ao lado esquerdo do vaso acima de quem está em suas necessidades - não era meu caso - havia uma janela de vidro fosco com molde em madeira dividida em duas porções, uma delas aberta com uma estreita vista para o vão livre do corredor. Olhei celeremente para fora e pensei: ninguém jamais imaginaria que eu poderia espionar os transeuntes daqui. Me sentia como se estivesse em um esconderijo com acesso exclusivo para mim, meu local secreto com vistas para o mundo, o pequeno mundo dos vizinhos desconhecidos e das luzes refletidas nas paredes

          Se estivesse de posse do apartamento ou do salão teria a oportunidade diária de gozar da privacidade e da reclusão tão caros aos leitores e estudiosos e do aconchego ideal para noites frias ou de chuva - já que raramente poderia contar com a neve em minha cidade. Me sentiria em casa ou, na pior das hipóteses, no local perfeito para um trabalho perfeito.

          Não cheguei a ponderar se moraria em local como esse, que exigira uma mudança radical de rotina. É difícil sintetizar a complexidade de uma vida cotidiana numa equação simplificada em tão pouco tempo. Mas certamente teria momentos de felicidade se pudesse mergulhar num espaço onde o mundo exterior fosse suspenso por algumas horas e estivesse protegido das loucuras alheias. Seria possível realizar, quem sabe, um pouco da felicidade que, para mim, sustentam-se em momentos de paz duradoura. Um monasticismo urbano voltado às atividades do mundo.

          Findo o encontro, voltei para casa já com minha cidade mergulhada na metade escura do mundo. Mas foi comigo a lembrança, há tempos hibernada em minha memória, de um desejo juvenil de ter um local só para mim onde pudesse ter uma vida à parte do constante transição das coisas, onde o tempo pudesse ser suspenso para que eu pudesse ser eu. 

          Às vezes temos esta nostalgia de sangue, queremos reproduzir nas coisas da vida o aconchego uterino, como se fora de nosso ambiente ideal tudo fosse um parto. Mas a vida é isso mesmo: um parto.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Os críticos legítimos do poder

 "A verdade é que apenas homens para quem a família é sagrada podem atingir um padrão ou parâmetro que lhes permite criticar o Estado." (G. K. Chesterton, em "O Homem Eterno")

Criticar o Estado implica em duas coisas: saber do que se fala e ter legitimidade para falar o que se fala.
O Estado é uma estrutura de poder que organiza uma autoridade, cuja cabeça varia ao longo dos anos.
Ora, criticar o Estado é questionar sua autoridade (ou daqueles que a detém no momento), o que implica, em contrapartida, se considerar capaz do mesmo papel que a autoridade constituída.
Só homens maduros podem, de forma legítima, criticar o Estado desde que, claro, este mesmo Estado seja dirigido por homens maduros.
A maturidade pressupõe a capacidade de tomar decisões por conta própria e assumir suas consequências, e nenhuma decisão é mais séria, permanente e profunda do que decidir por constituir uma família.
Esta defesa que Chesterton faz da autoridade da família em "O Homem Eterno" baseia-se numa visão típica de toda sua obra: a veracidade que pressupõe um empreendimento tão natural como a união de um homem e uma mulher com seus filhos.
A família dá ao homem o encargo da decisão sobre vidas, cujos frutos virão, em grande parte, da forma como sua autoridade é exercida.
Diria mais: a própria vida gerada é o fruto da decisão, um fruto material inegável.
Portanto, são autoridades de famílias que podem questionar legitimamente a autoridade do Estado, pois ambos são análogos, o que torna compreensível o que é e o que faz o Estado com sua vida e a dos outros.
A crítica ao Estado também se estende àqueles os quais não têm família, mas a consideram sagrada, pois reconhecem a importância de sua existência, a começar por aquela que os gerou e sem a qual sequer poderiam emitir uma opinião.
Não por acaso, o pátrio poder é o grande obstáculo às pretensões estatais de se apoderar de tudo e de todos.
O credo contemporâneo, calcado na moralização (ou imoralização) da sociedade por meios jurídicos e legais, encontra limites em famílias cujos membros compreendem o limite do poder estabelecido e de sua ação.
Pais e mães firmes, bem como pessoas devotas a honrar seus nomes, sabem que o devido respeito à autoridade começa em casa, e que o palácio é apenas uma extensão, por vezes ilegítima, de um poder que depende indelevelmente daqueles que decidem por gerar novas vidas.

sábado, 10 de outubro de 2020

O sistema moderno contra a família

"O mundo ao nosso redor aceitou um sistema social que nega a família. Às vezes, ajudará à criança em vez da família; à mãe em lugar da família; ao avô em lugar da família. Mas ajudará a família." (G. K. Chesterton, "G.K.'s Weekly", 1930)

Ainda que a família seja uma instituição natural que esteja distribuída em praticamente todas as culturas nos quatro cantos da Terra, variando sua estrutura, há uma tensão entre esta ordem e o impulso dos desejos humanos de romperem com ela.
Pois o homem, na sua animalidade, não busca a família, mas a concretização de desejos. A fidelidade no casamento é obra da perseverança e da fé; deixadas à própria vontade, as pessoas fariam da fidelidade uma ficção, e a família seria impossível.
Mas o grande problema está justamente na promoção por meio da mídia e da reinterpretação das leis destes mesmos desejos. Por exemplo: ao tornar o casamento um evento civil, o Estado arroga para si os efeitos reais do casamento, esvaziando parte de seu sentido espiritual. E nas cortes, a concepção de "casamento" e família são alargados para implementar, à revelia da maioria da população, a agenda diversitária.
Aos poucos, a mentalidade progressista vai minando o casamento por dentro e, por consequência, a própria família, cuja destruição pode muito bem ocorrer através da promoção dos interesses de seus membros.
É o que Chesterton enuncia nesta passagem do seu semanário "G.K.'s Weekly", publicado há 90 anos, em 20 de setembro de 1930.
A crítica acadêmica e midiática à ordem patriarcal (e tudo o que é classificado de "patriarcal"), a denúncia de crimes violentos apenas contra determinados grupos sociais, o moralismo politicamente correto e toda a sorte de propaganda de comportamentos que insuflam a infidelidade e o desejo de ser "livre", no sentido estrito que o liberalismo dá à palavra, concorrem para formar uma atmosfera onde a formação da família é cada vez mais difícil.
Colocar uma criança na escola, por exemplo, é arriscá-la a um conflito com os pais. A obrigatoriedade da educação pode ajudar a criança em algum aspecto, mas não a família, atentando contra a criança mesma.
Não por acaso, Chesterton afirmava que a educação moderna considerava os pais a maior ameaça às crianças. Em nome da proteção a elas, é necessário dissolver o pátrio poder.
Proteger o casamento e as crianças é proteger a família. E por isso mesmo a mentalidade progressista, encarnada num sistema pervertido, atenta contra crianças e casais a fim de melhor educá-los para uma sociedade dirigida.

domingo, 27 de setembro de 2020

Autocontrole de natalidade


"Todo mundo acredita em controle de natalidade e quase todo mundo já exerceu alguma controle sobre as condições de nascimento. (...) O controle de natalidade real e verdadeiro se chama autocontrole. Se alguém diz que não funciona, eu digo que funciona." (G. K. Chesterton, em "O Essencial de Chesterton)

O tema do controle de natalidade sempre gera muita discussão e controvérsia, e todo mundo tem algo a dizer sobre ele.
Apesar de estarmos numa época em que ter opinião é quase um ato sagrado, não é errado que todo mundo tenha algum opinião sobre o assunto.
Afinal, a totalidade das pessoas veio ao mundo através do ato sexual. Salvo poucos casos, nossos pais decidiram pela geração de uma vida e a forma de viver o futuro.
Portanto, as pessoas sabem ter o controle sobre a própria vida no que diz respeito à família, e não cabe a ninguém nem a autoridade alguma tomar este tipo de decisão.
O comentário de Chesterton sobre o controle de natalidade sobre a população pega este ponto. Controle de natalidade é autocontrole, ou seja, são os pais que decidem sobre ter ou não filhos. O resto é "um senhor embuste", para usar as palavras do capítulo "Reforma Social Vs. Controle de Natalidade" do livro acima citado, já que o termo "controle de natalidade" não significa nada em específico e, portanto, pode significar qualquer coisa.
Para Chesterton, o controle de natalidade nada mais é do que a busca de controle sobre a vida alheia. No mencionado capítulo, analisava como as corporações buscavam controlar não os seus custos, mas o número de pessoas delas dependentes para que custos pudessem ser cortados.
Menos filhos, menor a pressão social e moral das empresas sustentarem famílias de trabalhadores.
Talvez nosso escritor ficasse chocado ao ver a escala como que esta forma de controle tomou, não tanto por razões econômicas, mas políticas, na soberba ânsia por um planejamento geral do mundo.
Essas mesmas corporações, que por meios médicos, de propaganda e patrocínio de grupos de pesquisa, hoje aliam-se a Estados para forjar uma subcultura de diminuição da família ou mesmo sua destruição. O pátrio poder é o principal obstáculo à engenharia social.
Desta forma, controle de natalidade significa controle social, uma maior possibilidade de planejamento coletivo onde os governos entram com a burocracia e a força armada, as corporações com o dinheiro e ambos com a propaganda.
Uma família não é "apenas" uma comunhão de pessoas, mas o campo onde floresce nossa liberdade, de preferência numa casa cheia.

segunda-feira, 20 de julho de 2020

O pátrio poder e a defesa da liberdade individual

"Se indivíduos têm qualquer esperança de proteger suas liberdades, 
eles precisam proteger sua vida familiar." (G. K. Chesterton)

          A principal defesa da liberdade individual contra a interferência de um poder externo, principalmente do Estado, é a família. Não por acaso Chesterton defendia com tanta frequência esta divina instituição.
          O pátrio poder (ou poder familiar) é a fonte não só de proteção física, com o sustento necessário à pessoa em momentos de dificuldade, mas também psicológica, dado que a família dá orientação e segurança sobre o que se deve ou não deve fazer no dia a dia e nos rumos da própria vida.
          Isto significa seguir apenas um senhor, obedecer a uma autoridade ou a princípios a ela vinculados sem ter de prestar contas a um terceiro sobre o que faz ou deixa de fazer.
          O vínculo familiar reforça a proteção das liberdades também devido ao seu caráter emocional. Trair a família, afastar-se dos parentes, desobedecer os pais ou intimidar os filhos gera sofrimento, e para evitá-lo é melhor manter-se unido aos entes queridos, um escudo natural e espontâneo a qualquer ameaça externa.
          E tais ameaças muita vezes se manifestam de forma sutil, como nos meios de comunicação, que inculcam valores e visões de mundo por vezes abertamente contrários à família.
          Desagregar a família é deixar seu componentes expostos, a sós, contra todo o tipo de influência e crises externas. Necessitadas de vínculos, as pessoas buscam, na ausência de uma relação íntima, fincar suas raízes em outras coisas ou, pior, aderir de imediato às modas do momento.
          Por isto a mentalidade contemporânea de postergar indefinidamente a geração de filhos ou de delegar à escola sua formação moral é abdicar da formação da família e, portanto, das próprias defesas que garantem suas liberdades pessoais.
          Se as pessoas querem simplesmente "curtir" a vida, o preço a pagar será sua submissão, que a cada dia se manifesta de forma mais sutil e ostensiva até o dia em que ter uma família fora dos cânones progressistas se tornará crime.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Família: fundamento da ordem e continuidade da tradição


          Esta afirmação de Chesterton soa óbvia, até mesmo irônica, como alguém fazendo chover no molhado em tom de zombaria.
          Por vezes, é necessário dizer o óbvio para que as pessoas atentem e tomem consciência da realidade profunda das coisas.
          Por detrás de uma fazenda familiar, diz nosso escritor, é necessário haver uma família. O mesmo pode ser dito de uma empresa familiar, por definição dirigida por uma família.
          A partir do momento que um negócio adota métodos de promoção de cargos por meio de uma seleção racional prévia, o poder de direção da empresa muda não só de escala como de plano: passa de uma ordem "natural" para uma ordem moderna, artificial.
          Talvez seja esta a consciência que Chesterton quer aqui nos infundir. Um mundo que espera preservar suas tradições tem de preservar os fundamentos de onde essas tradições brotam.
          Não podemos falar de educação para crianças pensando apenas na escola. É óbvio, mas frequentemente esquecido (deliberadamente) nos planejamentos governamentais, que a educação pertence primordialmente aos pais, não à escola, seja pública ou privada.
         A afirmação de que a educação começa em casa é tão tautológica quanto dizer que a empresa familiar se dirige com uma família.
          Num mundo onde tudo foi burocratizado e regulado por autoridades que se manifestam de forma impessoal, como "Estado", "lei", "governo", "prefeitura", "secretaria", etc, é sempre necessário recordar que alguém de carne e osso de posse de suas intenções e consciência está dirigindo o curso dos acontecimentos.
          A artérias por onde corre a vida são necessariamente humanas. Quanto mais artificiais são estas artérias, mais difícil tende a ser a vida e mais de nossa história tende a ser perder pelo caminho.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

O coração dividido de uma sogra feliz


          Alvo de certa desconfiança e muitas piadas, a sogra é uma pessoa de coração dividido que ora deseja a felicidade de seu filho, ora deseja nunca perde-lo para alguém de fora de seu ninho.
          O ventre antes cheio de amor e realização agora assiste, absorto, o adeus daquele que preenchia sua vida.
          O cordão umbilical antes ligava seu corpo; agora une dois corações e duas carnes num coração e numa só carne. Ela, a sogra, é expectadora da união. Não são três carnes.
          Da mesma forma que está dividia entre a pessoa que se vai e o desejo de mantê-la sob sua proteção, a sogra também divide-se entre o filho distante e o esposo ao seu lado.
          É comum os casais passarem pela crise conhecida como "síndrome do ninho vazio": quando os filhos saem de casa, o homem e a mulher precisam reajustar não só suas vidas como suas expectativas.
          A mãe, que é o centro da vida familiar, o arquétipo da casa que tudo abraça e guarda, agora possui um espaço vazio preenchido apenas pela metade por seu esposo.
          Mas o sol brilha na vida da sogra, a felicidade não é uma ilusão; a luz que se afasta com o passarinho que voa distante é a mesma que a mantém viva e luminosa tal qual o luar que brilha à luz do sol distante.
          O amor vive e se espalha pelo Universo inteiro.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

A liberdade começa em casa


          Ninguém nega que uma casa de tijolos é feita de tijolos, nem que o tronco das árvores é feito de madeira ou, sendo quase irônico, que a água é molhada.
          Seria bom e justo que tivéssemos a mesma certeza quanto à associação entre as liberdades civis e a formação de famílias.
          As famílias são o núcleo mais básico e consistente da ordem social. Delas partem as normas mais básicas de convivência, interiorizadas por seus integrantes de forma espontânea, não dependendo de um ator externo para que sejam colocadas em prática.
          Esta vivência fornece uma forma de vida não burocraticamente administrada, não tecnicamente determinada, não matematicamente calculada.
          Graças a isto as pessoas experimentam e vivem um estado de liberdade que o Estado não pode fornecer. É um plano de vida onde a condição humana pode se desenvolver em seu potencial máximo, na liberdade mais plena.
          Não há poder, não há Estado que possa fornecer isto, e a maravilha desta experiência mostra que lutar por sua preservação contra uma autoridade tirânica vale a pena.

terça-feira, 14 de abril de 2020

O objetivo profundo da educação


          A educação é utilizada para toda a sorte de objetivos: se preparar para uma carreira, conseguir um simples emprego, ganhar dinheiro, saber (ou ao menos inculcar a ideia de que realmente vamos aprender algo de substantivo), gerar desenvolvimento, trazer paz, formar cidadãos, etc.
          Seus alegados objetivos quase sempre são de ordem puramente material.
          Ademais, espera-se que a educação seja obra do Estado, um direito inalienável cuja omissão é vista como um dos mais perversos crimes.
          Desta forma, a educação é dada como obrigatória. No Brasil, a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) considera crime não matricular uma criança na escola. Mesmo que haja brechas para o homeschooling, os pais ou responsáveis podem responder por esta omissão e pagar até mesmo com a cadeia.
          Mas por que tamanha ênfase na educação? Não poderia alguém ter outro objetivo que não os propalados por governos e meios de comunicação?
          Ocorre que educar uma pessoa não é simplesmente prepara-la para objetivos meramente técnicos, nem formar um bom cidadão. Educação é formar alguém de forma integral, não só com o conhecimento necessário para o cotidiano, mas também com a estatura moral que esta pessoa necessita. 
          O ensino das sete Artes Liberais são uma forma de fornecer não apenas o conhecimento básico e amplo de onde brotam todas as ciências e conhecimentos humanos, como também fornece o terreno fértil do qual brota uma formação moral firme e consistente abrangendo todas as dimensões da pessoa.
          Mas a família é a organização social mais básica e, portanto, a mais importante que existe. Sem ela, toda e qualquer formação humana ficará capenga, o substrato emocional da pessoa se tornará problemático. Uma educação que ignore isto sempre estará incompleta, seja na família, seja na escola.
         A Sagrada Família é o modelo mais perfeito de família. Para os cristãos (e todas as pessoas) preocupados com seus filhos, este é o objetivo maior de sua formação. Portanto, sempre que pensarmos em formar pessoas lembremos que a escola começa na casa, que esta casa também é o objetivo maior desta educação, e seus que exemplos devem ser o Pai e a Mãe, os mais perfeitos.