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domingo, 3 de maio de 2020

Jacinta e a distância entre o Céu e a Terra

  
          Logo nas primeiras páginas de suas memórias, Irmã Lúcia de Fátima descreve a personalidade da pequena Jacinta Marto (1910 - 1920), sua prima que, junto com Lúcia e Francisco Marto, presenciaram as aparições de Nossa Senhora na Cova da Iria em 1917.

          Impressiona a simplicidade e a força da pequena Jacinta, então com sete anos. Segundo Lúcia, Jacinta era muito melindrosa e demonstrava ter grande sensibilidade emocional.

        Pois foi com esta sensibilidade que Jacinta se dispôs ao sacrifício como ninguém. Ela "parecia insaciável na prática do sacrifício", diz Lúcia, principalmente depois que os três pastorinhos tiveram uma breve e intensa visão do inferno na aparição de 13 de julho.

          Após o pedido de Nossa Senhora em 13 de maio, em tudo ela queria se sacrificar pelos pecadores e buscava meios de fazer sacrifícios pela conversão deles. 

          Certa vez, quando ela e Lúcia foram pastorear as ovelhas da família, Jacinta decidiu por entregar seu almoço a um grupo de pobres pedintes no caminho para o campo, e logo eles passaram a esperar as duas todos os dias para receber alimento. Um ato de sacrifício pelos pecadores. 

          E a situação se repetia: recusou-se a beber água oferecida por Lúcia num dia de calor intenso, suportou a gritaria e a dor de cabeça provocada por grilos e rãs no campo onde pastoreavam as ovelhas, transformou o choro em oração quando ela, Lúcia e Francisco passaram a noite na cadeia de Ourém sob pressão das autoridades locais antes da aparição de agosto.  

          Tudo em sacrifício pelos pecadores, mas também ao Papa e a Jesus. Tudo pelos pedidos de Nossa Senhora. E assim deveria ser, sem questionar, sem entender, apenas crer. 

          Sua sensibilidade e extrema simplicidade com que concebia as coisas de Deus permitiram a Jacinta sublimar esta sensibilidade em coisas práticas do cotidiano, transformando a dor em graça para si e para os outros. Ou, como se diz nos dias de hoje, fazia do limão uma limonada.

          Impressiona a força e a disposição da pequena santa em vencer a si mesma, porque em seu lugar muitas outras pessoas não só reclamariam como também não aceitariam tais contratempos.

          A caminhada para o Céu é longa para aqueles que não o vislumbram. Jacinta era simples e humilde o suficiente para não colocar obstáculos entre ela e a vontade divina manifesta em Nossa Senhora, e por isto mesmo bastaram apenas dez anos para que ela alcançasse o Céu. Sua sensibilidade era um tempero, um elemento que ela escolheu utilizar para subir ao Alto e não para se fechar em sua murmuração. 

          Para os que não concebem a realidade como Jacinta concebia, o Céu parece muito distante. Mas ledo engano: nós já vivemos em meio ao Paraíso, cercados por Deus, seus anjos e santos. "Nele nos movemos, somos e existimos", ensinava o Apóstolo Paulo.

          A diferença é que escolhemos falsos atalhos em caminhos tortuosos que fazem o Paraíso ao lado parecer tão distante quanto as estrelas estão acima de nossas cabeças.        

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Como o matrimônio pode ser caminho de santidade: o caso de Nikolai Sheremetev

(Retrato de Praskovia, pintado por Ivan Argunov, servo de Nikolai, em 1802. No seu peito a medalha com o rosto do marido com quem recém se casara.)

          A cultura moderna erigiu o amor romântico como a forma de relacionamento ideal entre homem e mulher como se a relação fosse exclusivamente baseada num sentimento profundo e perfeito de entrega, paixão e sofrimento. A realidade, no entanto, é muito distinta do idealismo da ficção, tão presente no cinema, nas novelas e na literatura.

          O matrimônio é sim baseado no amor, mas também em muitas outras coisas, da necessidade de equilibrar e harmonizar os interesses, de trabalhar pelo bem do outro, de fazer sacrifícios. O amor é o desejo real de entregar-se ao outro, talvez o sacrifício mais profundo. O homem casado não tem uma esposa: ele é da esposa. Da mesma forma a mulher casada: ela não tem um marido, ela é do marido. Isto vale, segundo as possibilidades, para todos os casos da vida, inclusive na relação sexual: se o marido quer se satisfazer na cama, cabe à mulher satisfazê-lo; e vice-versa. O corpo de um pertence ao outro. O padre Paulo Ricardo, conhecido por suas aulas e vídeos de esclarecimento da doutrina católica e pelo seu perfil conservador, explica isto neste vídeo. O sexo visa a reprodução, mas também o amor, a união total. 

          A Igreja Católica vê o matrimônio como uma das quatro vocações existentes, sendo as outras três o sacerdócio (só para homens), a vida religiosa e a vida leiga consagrada. A grande massa é vocacionada ao matrimônio, e assim como as demais vocações tem como missão santificar a alma. Bem sabemos que a santidade não é vida boa, mas um caminho árduo de sacrifícios, a "porta estreita" que nos fala Jesus Cristo.

(Retrato do conde Nikolai)

          Um caso bastante específico e impressionante do que um matrimônio pode fazer com uma pessoa é o de Nikolai Petrovich Sheremetev. Conde que viveu na Rússia entre 1751 e 1809, Nikolai foi servo pessoal e amigo do imperador Paulo I e neto de Boris Sheremetev, último boiardo da Rússia. Boris era pessoa próxima do czar Pedro, o Grande, e fez fortuna com serviços prestados ao imperador ao longo de décadas. Fiel ao serviço da coroa, sua família recebeu terras, bens e honrarias e se tornou a segunda mais rica de toda a Rússia depois apenas da família dinástica dos Romanov.

          Segundo Orlando Figes no livro Uma história cultural da Rússia, Nikolai era mulherengo e costumava flertar com as servas que trabalhavam nas casas e palácios dos Sheremetev. Mas o aristocrata se apaixonou por uma delas, Praskovia Kovalyova-Zhemchugova, com quem se encontrou às escondidas até o casamento. Cabe especular até que ponto a serva submeteu-se à vontade do seu senhor, mas desde início sua relação foi marcada por dificuldades, principalmente pela necessidade de esconder os encontros dos olhos de outras pessoas. Praskovia teve de suportar os comentários e as piadas dos outros servos pelo envolvimento com alguém da aristocracia e as repreensões da família por viver um relacionamento incerto. Para protege-la e poder encontrar sua amada em privado, Nikolai alocou Praskovia na sua propriedade em Kuskovo, perto de Moscou, para onde viajava para encontrá-la, e depois construiu uma casa de madeira para ela. Mas com a ascensão de Paulo I ao trono, o conde foi nomeado camareiro-chefe do imperador e teve de se fixar definitivamente em São Petersburgo. Assim Praskovia voltou e passou a morar na mesma residência, a Casa da Fonte. Agora era a vez do conde lidar com a rejeição e raiva da aristocracia, que considerava um escândalo uma serva morar em sua casa. A família Sheremetev deserdou Nikolai, que ainda manteve suas propriedades. A rígida hierarquia social e a obsessão da nobreza russa por status dificultava muito o casamento com uma serva. Nobres e servos não formavam famílias publicamente, mas mantinham relacionamentos às escondidas e, ao exemplo da relação senhor-escravo no Brasil colonial, geravam filhos ilegítimos. Em 1801, Nikolai libertou Praskovia da servidão e casou-se com ela no dia 6 de novembro numa cerimônia secreta em uma pequena igreja na vila de Povarskaia, perto de Moscou.

(Casa da Fonte, principal propriedade da família Sheremetev. Símbolo de São Petersburgo, hoje sedia o Museu Anna Akhmatova, nome da poeta que viveu na casa entre 1926 e 1952.)

          O retorno de Nikolai a São Petersburgo e o casamento com Praskovia isolou o conde da vida pública, e poucos eram os amigos que mantiveram os laços de amizade, dentre eles o imperador Paulo I, que inclusive apoiou o relacionamento dos dois. A agora ex-serva e condessa sofria de tuberculosa e tinha uma saúde frágil. Depois de ter seu único filho, Dmitri, em 1802, sua saúde piorou, vindo a falecer três semanas depois. Praskovia, que viveu em torno de um ano casada, foi sepultada no Mosteiro Alexandre Nevski. O mais impressionante foi a presença das pessoas no enterro. Ou melhor: a falta delas. Como Paulo I fora assassinado, ninguém da corte esteve presente, bem como ninguém da nobreza e nem mesmo da própria família, os Sheremetev. 

          A tristeza e a amargura de Nikolai transformaram-se em ação que foi muito além da família e da aristocracia. Como descreve Figes no seu livro:

"Perdido de pesar, o conde demitiu-se da corte, virou as costas para a sociedade e, retirando-se para o campo, dedicou seus últimos anos ao estudo religioso e às obras de caridade em homenagem à esposa. É tentador concluir que havia um elemento de remorso e até culpa nessas obras de caridade - talvez a tentativa de ressarcir as fileiras sob servidão de onde viera Praskovia. Ele libertou dezenas de servos domésticos favoritos, gastou enormes quantias para construir hospitais e escolas de aldeia, criou fundos para cuidar de órfãos, fez doações a mosteiros para darem comida aos camponeses quando a colheita escasseava e reduziu pagamentos cobrados dos servos das suas propriedades. Mas o projeto mais ambicioso de todos foi o asilo que fundou em memória de Praskovia nos arredores de Moscou - a Strannoprimny Dom, que, naquela época, de certa forma, foi o maior hospital público do império, com dezesseis enfermarias masculinas e dezesseis femininas. "A morte da minha esposa", escreveu ele, " me abalou a tal ponto que a única maneira que conheço para acalmar o meu espírito sofredor é me dedicar a cumprir a sua ordem de cuidar dos pobres e doentes." Durante anos, o conde, abalado pelo pesar, saía da Casa da Fonte e andava incógnito elas ruas de Petersburgo, distribuindo dinheiro aos pobres. Morreu em 1809, o nobre mais rico de toda a Rússia e, sem dúvida, também o mais solitário. No seu depoimento ao filho, ele quase rejeitou por completo a civilização incorporada à obra da sua vida" (p. 70-71)

          No testamento ao filho, Nikolai escreveu, que sua paixão pelas artes, as coisas raras, "Não deixava a mais remota impressão na alma." E se questionava: "Para que todo este esplendor?"

          O solitário conde deixou para trás a opulência da nobreza e curvou sua riqueza para o bem do próximo. Encontrou sentido, infelizmente, pela dor, mas deixou um legado e um exemplo do que alguém com posses pode fazer por aqueles que necessitam. Esta foi a obra involuntária de Praskovia: fazer de Nikolai uma pessoa melhor, ou pelo menos fazer dele o instrumento de um legado e um exemplo. Se o conde dedicou-se à caridade por culpa, dor, fiel adesão ao segundo mandamento ou os três fatores juntos, pouco importa: o trauma da perda e a desilusão de uma vida falsa, a lembrança do amor verdadeiro e o sentimento de ter perdido tempo com coisas desnecessárias são razões mais do que suficientes para girar o leme e dar um novo rumo à vida. Sei por experiência própria que a perda de tempo por negligência ou decisões erradas dão uma sensação de urgência, a necessidade de encontrar, de forma tenaz e perseverante, um objetivo de vida. Parece que esta foi a experiência de Nikolai: encontrou numa ação substantiva e duradoura o preenchimento de um vazio e um pouco de alívio na dor que o dilacerava. Encontrou na caridade uma vida nova.


          Fiquei com forte impressão desta passagem do livro de Orlando Figes, talvez por ser alguém que demorou para descobrir que, de fato, eu não era vocacionado à vida religiosa. E que o casamento é uma via não só de santificação como de felicidade, que nunca é um oceano permanentemente calmo, mas recheado de tormentas onde um se torna o refugio do outro. E mais: a história do conde mostra a força que um matrimônio fincado no amor verdadeiro tem para transformar uma vida. Nikolai se viu impelido a tomar uma nova atitude, forçado, também, pela pressão social. Mas foi uma atitude que não pode deixar de ser admirada. Ela é a consumação do Evangelho de Mateus (25, 31-46) onde Jesus Cristo anuncia a separação dos rebanhos. Salvam-se os que fazem a caridade, os que vêem Ele nos outros. Se Praskovia não fez de Nikolai um santo (talvez longe disso), ao menos mostrou-lhe o caminho.  Devemos ser o farol para nossa cara metade.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Ignorância e desprezo: um microcosmo do inferno


          No último dia 11 de outubro, escrevi a seguinte mensagem no Facebook:

"As pessoas imaginam que o oposto do amor é o ódio. Não é. O oposto é o desprezo. Não há coisa pior no mundo do que alguém, a não ser por uma razão muito justa, lhe dar as costas de graça, por besteira ou mesmo por má índole. Confesso que há uma pessoa que faz isto comigo toda a vez que me vê, não por má índole, mas sem razão clara. Prefiro não especular o real motivo da atitude, mas ponho a mão no fogo: é uma sensação absolutamente horrível, que exige de nós uma defesa psicológica e espiritual firme e, dependendo da situação, uma esforço recíproco de indiferença. Do contrário o sentimento é de ser simplesmente destruído, de aniquilação interior completa, e o que é pior, de graça, sem motivo algum. Não é à toa que no inferno Deus não fica nos torturando: Ele simplesmente está ausente. O que mata é a falta de amor, o total desprezo. É a coisa mais triste de nossa existência."

          Santo Agostinho já dizia que o Mal não é uma substância: é a ausência do Bem. Por isso mesmo a ação do demônio, mais do que querer nos dominar com sua presença maléfica, tem como principal objetivo nos afastar de Deus. Mesmo porque o inimigo não pode agir onde Deus está presente, ou pelo menos ativo, o que implicaria na Sua presença. A ausência do Bem, a perda completa da presença divina, é a ausência do amor, já que o amor pressupõe o desejo de união. Só ali o demônio pode habitar em definitivo.

          Quando alguém diz "eu te amo" esta pessoa está dizendo "quero ser um contigo"; quando esta mesma pessoa diz "eu te odeio" ela pode até desejar sua ausência, mas precisa de você para externar seu ódio. Você precisa estar presente. Mas a ignorância é um mal que está em outro patamar: quando alguém ignora o outro solenemente, seja fingindo a sua ausência, dando-lhe às costas, desviando o olhar ou agindo com total e absoluta indiferença, o que temos aí não é o amor que deseja a união, nem mesmo o ódio que exige que seu adversário esteja presente: aí temos o nada, o não-presente, o não-ser, a negação absoluta, o oposto da existência. É um não-sentimento, uma não-ação, o Bem que se ausenta por completo. A ausência do Absoluto, do Eterno, de Deus. Em suma: o inferno.

(A espanhola Teresa d´Ávila, santa e doutora da Igreja: experiências místicas essenciais para entender a relação do homem com o mundo espiritual, de Deus aos demônios.)

          Santa Teresa D´Ávila descreveu sua experiência mística do inferno em O Livro da Vida, autobiografia onde apresenta várias de suas experiências místicas e espirituais. Depois de descrever o local que os demônios estavam preparando caso fosse condenada (um buraco encravado na parede) e como seriam as dores do corpo (dado que a alma tem estes registros), a santa destaca as dores da alma, que considera infinitamente piores do que as primeiras:

"Pois então, isso não é nada em comparação com a agonia da alma. Um aperto, um sufocamento, uma aflição tão sensível e com tão desesperada e aflita tristeza que não sei como explicar. Porque dizer que é como estar sempre arrancando a alma é pouco, porque ainda pareceria que outro é que acaba com a vida. Mas aí é a própria alma que despedaça." (p. 297, capítulo 32)

          Não é coincidência que meu relato utiliza "destruição" e "aniquilação interior" para descrever uma recente experiência de desprezo, assim como Santa Teresa fala que a alma se "despedaça" ao estar no inferno. Primeiro porque já havia lido o livro dela em 2011 e segundo porque, ao escrever a mensagem, lembrei deste trecho, que é a melhor tradução possível para expressar o sentimento de ser solenemente ignorado por alguém que se tinha uma relação íntima até pouco tempo e, sem saber exatamente porque, resolveu fingir que você está numa cova. A sensação é absolutamente horrível, um misto de agonia e tristeza que não possui saída e acaba por quebrar as nossas pernas. Guardadas as proporções, este é o sentimento, esta é a situação de alguém que lhe dá as costas e lhe trata como nada, no sentido mais estrito da palavra. É uma dor sem saída e aparentemente sem fim, um microcosmo do inferno.

          Por isso é tão importante e crucial o tratamento decente para com o próximo, o cumprimento do segundo mandamento. É ali que Deus habita, e por isto mesmo Jesus Cristo ensina que o primeiro e segundo mandamentos estão unidos num só: onde há Deus não há ignorância; onde há amor ao próximo Deus necessariamente ali está se manifestando de forma que você e seu próximo sejam um. O que fere uma pessoa não é necessariamente o ataque, mas a ignorância, uma agressão infinitamente mais poderosa do que o ódio e um antídoto perfeito à presença divina.   



terça-feira, 8 de agosto de 2017

A decisão de ser luz no mundo


          Nesta semana realizei duas sessões da Terapia de Integração Pessoal (TIP), que utiliza a técnica da Abordagem Direta do Inconsciente (ADI), terapia criada pela psicóloga gaúcha Renate Jost de Morais, falecida em 2013.

          A ADI, como diz o nome, permite uma leitura direta do inconsciente através de uma técnica de mergulho da consciência nesta área da mente. Conduzido por um preceptor (psicólogo), entramos em diálogo com o "sábio", o eu original, saudável e perfeito, que nos mostra os pontos-chave que devem ser analisados e curados.

          Não vou contar o que vi no meu inconsciente, mas a decisão que tomei com base numa situação desagradável: decidi, ainda nos seis meses de gravidez (a ADI permite que observemos nossas decisões desde a concepção da vida humana) em dar as costas ao mundo e trabalhar para "ferrá-lo", se eu puder assim dizer. Em outras palavras: já que o mundo exterior era um horror e eu não tinha outra solução a não se viver nele depois de nascer, então que eu fizesse dele um inferno. No ventre eu estava de costas para o lado de fora da barriga e com a cabeça abaixada em direção ao corpo de minha mãe, como que não suportando o "horror" do lado de fora.


          Minha decisão foi tomada numa situação de estresse entre as pessoas que estavam no ambiente (no caso, meus pais e um terceiro não identificado) confirmando outras experiências anteriores de que, sim, o mundo era uma porcaria que não valia a pena viver.

          O problema é que tomando uma decisão, uma atitude na qual eu me tornava inimigo do mundo, todas as esferas de minha vida, social, privada, profissional, familiar, sexual, etc, se tornavam bem mais difíceis e complicadas. Neste dia eu estava preocupado com minha vida profissional, que nunca foi bem sucedida. O problema, como foi percebido, estava muito mais embaixo, e era muito mais amplo do que uma mera questão profissional ou de vivência prática do cotidiano. 

          Quando indaguei meu sábio sobre uma saída para isso, sua resposta foi um sentimento de tristeza. Acima dele foi visto uma nuvem, uma camada escura que não apenas obscurecia seu ser como não tinha nada a oferecer que pudesse ser aproveitado. Sua tristeza era consequência do fato de não ver saída para este problema. Num mundo maldito, numa experiência de vida marcada por um pessimismo que havia contaminado, em maior ou menor grau, todas as esferas de minha vida real, não havia setor ou "lugar" que permitisse investir minhas forças e encontrar um rumo para minhas escolhas.

          Mas eis que o sábio, perfeito em sua condição, viu o que poderia ser feito: se o mundo era um horror, se muitas coisas estavam fora do lugar, com pessoas em discórdia, sociedade em crise, dificuldades para todo o lado, então que eu fosse a luz num mundo escuro. Que o sábio (eu, meu eu real) fosse fator de iluminação e solução para os problemas reais, a começar por si mesmo, decidindo torna-se novo para criar uma vida nova e ser luz num mundo velho e corrupto. Disso, retornei ao ventre materno e me vi voltando-me ao mundo e saindo do ventre na figura de uma criança que, de pé e fora do ventre, prefigurava-se numa pessoa luminosa envolvida por um halo estrelado em volta da cabeça, um misto de Menino Jesus com Nossa Senhora.

          Esta foi a inspiração para o texto que escrevi no Facebook e que reproduzo abaixo:

"Quando vemos que as coisas a nossa volta e na vida pessoal estão erradas, ou tortas, ou se tornando um inferno, cabe a nós, individualmente, sermos luz no mundo. Quando falo em "ser luz" não é ser bonzinho ou queridinho, mas o FATOR de iluminação, conscientização e acima de tudo EXEMPLO para aquilo que propomos. Isso, ao contrário do que muitos podem pensar, não é mudar o mundo, MUITO MENOS uma proposta e fazê-lo. Primeiro porque a mudança é uma atitude, uma postura frente ao mundo, a si mesmo e a Deus. Por isso Viktor Frankl dizia que éramos totalmente responsáveis pela nossa vida: cada pessoa vive em circunstâncias que lhe são próprias, e as respostas aos desafios de sua vida cabem unicamente a ela e a ninguém mais. Ser luz no mundo é, antes de mais nada, assumir, decidir pela nova atitude frente aos desafios que nos cercam e os medos interiores. Só aí, depois de muito esforço, podemos fazer algo pelo próximo, e ainda assim aos poucos. Querer ir longe demais só sendo santo ou revolucionário. O primeiro venceu todas as etapas a custa de seu sacrifício; o segundo queimou etapas e sacrificou os outros."

(O ódio a alvos genéricos como "a vida", "a humanidade", "a sociedade" é projeção de ódio a si mesmo e/ou de fatores que parecem sem solução.)

          Não é possível mudar a vida a não ser decidindo pela mudança de personalidade, o que é óbvio. Mas ocorre que a ânsia de ter uma vida feliz nos joga não apenas na frustração como no sentimento de revolta que, não podendo ser canalizado contra si, acaba por ser descarregado no mundo. O século XX nos deu muitos exemplos de líderes que propunham consertar os erros da humanidade mediante o ódio e a força, ódio esse que no fundo era ódio à condição humana e acima de tudo a si mesmos, reformadores do mundo, que como demônios reproduziam o inferno à sua volta. Não há felicidade na queima de etapas. Somos chamado à santidade pela própria ordem das coisas.




domingo, 4 de setembro de 2016

Madre Teresa de Calcutá: oficialmente santa, realmente santa

(Madre Teresa de Calcutá, falecida em 5 de setembro de 1997, foi beatificada pelo Papa Francisco depois de quase exatos 19 anos em 4 de setembro de 2016.)

Existe um certo "descompasso" entre a oficialidade da Igreja Católica e o mundo espiritual. Quando alguém é canonizado e torna-se santo, é porque esta pessoa já estava em estado de santidade antes da oficialização.

Desconheço um processo de canonização. Sei apenas que ele depende de uma série de averiguações da Congregação pela Causa dos Santos, órgãos vinculado à Santa Sé, e que para ser santo é necessário haver dois milagres comprovados (para ser beato basta um). "Comprovado" é, aí, uma palavra importante, porque pode haver muitos santos com muitos milagres que não foram comprovados mas que já estão atuantes na Igreja Gloriosa, isto é, no Céu, e portanto têm autorização de Deus para interceder pela Igreja Peregrina, que somos nós aqui na Terra.

(Capela em homenagem à "Maria Degolada", na Vila Maria da Conceição, em Porto Alegre. Reparem ao fundo as placas com agradecimentos. Foto tirada deste blog.)

A questão é que a canonização não apenas oficializa como torna segura a devoção, já que é difícil saber quem é santo ou não, e muitas devoções populares se misturam àquilo que seria seguro na vida espiritual. Aqui em Porto Alegre, por exemplo, existe há décadas uma devoção à Maria Francelina Trenes, também conhecida como Maria da Conceição ou "Maria Degolada", mulher que teve a garganta cortada pelo namorado, um oficial da Brigada Militar, em 12 de novembro de 1899. Depois que a família colocou uma imagem de Nossa Senhora no local de seu assassinato, começou uma devoção popular em torno da figura de moça, que passou a ser evocada pelos moradores locais e tratada como "santa". O local, onde hoje se encontra a Vila Maria da Conceição no bairro Partenon, tornou-se ponto de peregrinação, e foi inclusive construída uma capela em sua homenagem em meados de 1930-40 onde forma colocadas placas de agradecimentos e objetos pessoais por supostas curas. Mas a pergunta que se levanta aí é: qual é o estado espiritual de Maria? Como não temos este conhecimento não sabemos se é seguro ou não invoca-la como santa. Ademais, a Bíblia proíbe a evocação dos mortos em diversas passagens do Antigo Testamento, e Jesus pede que as pessoas deixaem os mortos em paz (Mateus 8, 21). Segundo o Catecismo da Igreja Católica, o purgatório é um estado de alma e nele não sabemos em que condição a pessoa falecida está. Por ter proibição divina, a evocação dos mortos leva-nos a compreender que tal ato torna Deus ausente e, portanto, passível de ser manipulado pelas forças do Mal. Salvo alguma evidência pessoal ou devoção popular que seja devidamente aprovada (ou permitida) pela Igreja, todo o cuidado é pouco.

Por isto mesmo, depois de beata, agora podemos invocar, com plena segurança e profunda devoção, uma mulher que desde seu período de vida já era vista como santa por suas obras e seu legado. Quando alguém deixa em vida evidências de que Deus agiu através de si, não é difícil perceber que esta é uma via segura para chegarmos a Ele. E basta a Igreja abrir os olhos, "oficialmente" falando, para confirmar o que já sabíamos.

Santa Madre Teresa de Calcutá, rogai por nós!