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sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

A Rússia me persegue

 

          Existe um país que me persegue. Ele é conhecido, entre bebidas destiladas e frio extremo, pela ostensiva prática de espionagem. Não que seja o único a praticar isso, obviamente, mas se convencionou a vê-lo do Ocidente como um mistério indecifrável, e o Brasil, fortemente influenciado por aquilo que dizem os americanos e europeus, entrou no roldão no carnaval desses estereótipos.

          A Rússia me persegue, ou talvez eu persiga a Rússia. E mais uma vez fui pego por uma espécie de espião invisível que, na hora "H", resolveu dar o ar da graça.

          O mais recente fato curioso foi neste último dia de novembro, quando estive mais uma vez no Centro de Porto Alegre para os afazeres burocráticos e aproveitei para dar uma esticadinha num sebo, na famosa ladeira que liga a Rua da Praia com a Praça da Matriz.

          Espremido entre elevadas paredes de livros, uma espécie de paraíso estreito, ao fundo do corredor mexi de forma um tanto aleatória nos livros sobre religião quando, de repente, um pequeno cartão de promoção da cultura soviética caiu ao chão. Não havia pensado em nada sobre a Rússia no momento, mas o cartãozinho comunista estava lá entre os livros quando, ao puxar um deles, veio num leve tombo ávido a se apresentar.

          O material comemorava os oitenta anos da Revolução Russa com a inscrição "1917 1987", e por entre os números se erguia a Torre Spasskaya, a principalmente do Kremlin de Moscou, com a sua famosa estrela vermelha ao topo, tendo do lado direito outras duas torres de seus muros avermelhados e do esquerdo a cúpula do Senado do Kremlin com a bandeira soviética tremulando. Ao centro, um exemplar de uma revista comunista em português e abaixo a chamada "Não se esqueça de assinar a tempo jornais e revistas soviéticas!".

          Não me furtei de pensar, no mesmo instante, que aquilo só poderia ser para mim. Não me refiro à propaganda comunista, mas à referência à Rússia, enorme nação imperial que, apesar de minha insignificância, volta e meia aparece para me dar um alô.

          Não sei quando comecei com o fascínio por esse país ao mesmo tempo tão distante e tão presente, mas algumas coisas dão o que pensar. Na juventude, sempre achei Moscou fascinante por sua arquitetura grandiosa e ruas largas, cujos projetos visavam remodelar a cidade como exemplo da cidade comunista ideal e uma portentosa capital imperial. Tanto as peculiares igrejas - com a emblemática figura da Catedral de São Basílio, símbolo máximo da Rússia - quanto as chamadas Sete Irmãs de Stálin, em parte inspirada na própria arquitetura russa com bordas e torres pontiagudas, apresentam Moscou como centro de um império. 

          Certamente fui atraído pelo imaginário popular ou, diria melhor, pela figura estereotipada e militante da "grandiosidade" comunista, que infundia nas consciências juvenis o sonho de transformação da humanidade em todas as suas dimensões. Grandiosidade, universalidade, ideal, uma sedução sem fim de um universo inteiramente novo representado pela Terceira Roma, agora sob vestimentas materialistas. Por detrás da imensidão material e espiritual da Rússia, pulsava o ímpeto revolucionário que fizera da nação hospedeira seu Cavalo de Tróia. Amarga ilusão regada a muito sangue.

          Recordo-me de um ex-professor de pós-graduação lendo um texto a respeito do cosmismo, ideologia tão exótica e misteriosa quanto o país que lhe dera origem, que propunha uma nova evolução da humanidade em sua exploração do espaço, cujo resultado seria - pasmem! - a vida eterna! Uma loucura tipicamente russa e sedutora para um país com mania de grandeza. No artigo, um integrante do governo declarava, abertamente, sobre "o caráter nacional do povo russo, acostumado a pensar em categorias globais e pronto a sacrificar a vida por uma ideia". Ora, ora, quão fascinado sou por ideias amplas, arrebatadoras e reveladoras a respeito da vida, do homem, da História humana, do Universo inteiro! 

          Este foi o principal motivo pelo qual sempre me senti atraído pela mensagem de Fátima. Uma atração que por muito tempo foi muito mais mental do que espiritual. Seduzido pela temática impactante e abrangente, via as revelações sobre a História como muito mais interessantes do que o plano divino de salvação das almas e de paz no mundo, suas verdadeiras razões de existir. E nessa história tão incrível quem estava lá com uma menção toda especial? A Rússia, como pivô de uma época, a minha época, chave para a paz no mundo. A mensagem se encaixava muito bem nas "categorias globais" como forma de pensar o mundo. Minha atração pelo conteúdo era inevitável, mas até então boiava em divagações ao estilo History Channel.

          Apenas recentemente, em 2019, entrei de roldão na mensagem de Fátima graças a uma paróquia próxima de casa que realizava a Devoção dos Cinco Primeiros Sábados, e só depois disso entendi claramente, lendo as memórias da Irmã Lúcia, que a Consagração da Rússia não era o único fator da paz mundial, mas um de seus pilares junto com a Comunhão Reparadora. Fisgado pelo interesse pessoal pela Rússia, fui parar na frente de Nossa Senhora de Fátima como que um participante não só da História humana, mas do tempo de Deus, que não se mede por padrões humanos nem se limita a fronteiras nacionais. 

          Estar com Fátima é estar na Rússia. Basta menos do que um passo e menos do que o pulsar do ponteiro do relógio para atravessar mais de meio mundo. Quando me dobro frente à Nossa Senhora de Fátima, sei que um pouco de meu espírito repousa no distante país, da foz do Rio Neva à tundra siberiana, pois foi de meu interesse pela imensa nação que descobri, para conforto interior, a real dimensão da devoção a que me vinculava.

          A revelação pessoal não pára por aí. Em fins de 2019, descobri o repositório digital do jornal Voz de Fátima, dedicado à difusão da mensagem e publicado todo o dia treze de cada mês desde outubro de 1922. 

          Este que voz escreve veio ao mundo em 12 de fevereiro de 1981, e dada as "coincidências" que surgem naqueles que buscam uma vida espiritual, resolvi investigar o que se publicava a edição do dia seguinte. A situação não poderia ser mais reveladora. Dizia o título da capa: "Fátima e a Consagração ao Imaculado Coração de Maria". Chamada chocante para quem se dispôs, há dez anos, realizar a Consagração Total pelo método de São Luís Montfort, uma devoção de entrega à Maria Santíssima. Mas as coisas não pararam por aí; o subtítulo continuava: "Em diversas manifestações, Nossa Senhora pediu a consagração ao Seu Coração Imaculado: Consagração do Mundo e Consagração da Rússia.", e no pé da capa, outra reportagem anunciava seu título: "O Coração de Maria e os Primeiros Sábados". 

          De boca aberta, fiquei a imaginar o por que da impressão desse jornal exatamente com esse conteúdo menos de vinte e quatro horas depois de sair do delicioso aconchego materno. Saído de um aconchego, já se preparava outro com material feito especialmente para mim no futuro. Sim, essa edição foi impressa para que eu pudesse lê-la trinta e oito anos anos mais tarde. Ninguém imaginava minha existência, mas Alguém desde antes do princípio das coisas não só imaginava como já havia decidido tudo.

          Outra impressionante "coincidência" é o salto no tempo e no espaço que me fez olhar para uma distante terra gelada no passado. Explico. Na Renovação Carismática, bem como em certos grupos de oração, realiza-se a cura da árvore genealógica, procedimento que é, pelas palavras do falecido exorcista Gabrielle Amorth, ponto de discussão na Igreja Católica dadas suas sensíveis implicações teológicas. Como nunca fui autoridade tarimbada no assunto, pude conhecer dessa árvore pelos frutos quando tive experiências com orações de libertação.

          Em meados de 2009, tive o enorme privilégio de receber umas dessas orações que penetram nas gerações passadas. Na ocasião, queria descobrir a origem das dificuldades de relacionamento com meu pai, algo que perpassou toda minha vida. 

          Fui colocado sentado no centro de um sala em frente a uma imagem de Jesus, que expressava um olhar simplesmente irresistível a causar um desarme da alma. Ao meu redor, um grupo de mulheres introduziam orações católicas e invocação a Santíssima Trindade, anjos e santos, e impunham docilmente as mãos sobre mim. Buscando responder à minha ansiosa dúvida, uma das mulheres presentes me informou que visualizava um cossaco, e este tentava impor ao seu filho modos de agir e até mesmo o que ele deveria ou não pensar. Isso mesmo, um cossaco, e na Rússia. O homem, distante no tempo e no espaço, era antepassado da linhagem paterna, coisa que jamais imaginei nem por desejo. Como não possuía dons e sensibilidades afloradas, muito menos tinha o conhecimento teológico de um Adolphe Tanqueray ou as experiências de Santa Teresa d'Ávila, tive de me contentar com a descrição do local: havia neve. E como poderia ser a Rússia? Pois era a Rússia, respondeu a mulher, e o homem era um cossaco, o que me faz concluir que a libertação retornava pela minha linha familiar até meados dos séculos XVII-XVIII.

          Outro laço com a Rússia foi mais indireto, mas não menos surpreendente. Ingressei no mencionado grupo de oração em 2012, e uma das mais marcantes experiências ocorreram com canções religiosas, mais especificamente uma versão específica da Ave Maria atribuída ao compositor italiano do século XVI Giulio Caccini.

          Todas as vezes em que ouvia o som pela voz de um dos coordenadores do grupo, meu peito borbulhava como se produzisse vapor a explodir pela garganta, e que subitamente transbordava como a caneca com leite fervilhante. Não era o curto Neva, mas o vasto Volga que vinha à tona. A combinação de sutileza, profundidade e força da melodia tiveram em mim efeito avassalador. Não só a melodia em si, mas quem a cantava foi determinante. Richard Emunds era cantor profissional e se tornou meu padrinho de crisma, instrumento providencial decisivo para minha volta à Igreja. Através da canção a Nossa Senhora, eu vivia aquilo que costumei chamar de "experiência de Deus", o "sentir", como diz a banal linguagem popular. As cicatrizes abertas pela canção eram como que buracos por onde penetrava e jorrava a graça. Nunca mais quis me curar. 

          Mas que raios esse episódio tem a ver com a Rússia? Nessa última semana de novembro descobri que a mencionada canção da Ave Maria não era de autoria de Caccini, mas de Vladimir Vavilov, compositor russo que criou a música em meados de 1970 na então Leningrado publicando-a de forma anônima. Um duplo sopro providencial que fez brotar uma canção profundamente espiritual num regime antirreligioso e a fez alcançar essa alma então desnorteada por sonhos ilusórios e sentimentos desequilibrados que pululavam em lágrimas. 

          Não sei se Vavilov pensava em conversões ou possuía alguma devoção mariana especial, mas por seu valiosíssimo instrumento Nossa Senhora fez comigo o que ainda pretende fazer - e fará - com a Rússia.

          Mas enquanto a conversão da Rússia prometida em Fátima e Garabandal não chega, a Santa Sé e o Patriarcado de Moscou trabalham sutilmente nos bastidores por uma aproximação. Um passo ousado foi dado após vinte anos de discussão quando ocorreu o primeiro encontro da história entre um Papa e um Patriarca russo, Francisco e Kirill. O encontro teve direto abraços, sorrisos e uma Declaração Conjunta com temas muito delicados O ano era 2016, e o dia - sim, acreditem - 12 de fevereiro. De tão pessoalmente representativa, a data soava quase como uma ironia. Era dia do meu aniversário, praticamente um presente pessoal. 

          Na época não pude esconder minha alegria, que brotou discretamente quando soube da novidade pela internet, como se eu tivesse colocado a mão na sensibilíssima diplomacia Santa Sé-Moscou e participado de algo tão surpreendente. Obviamente seria ingenuidade pensar que disso pudesse vir a definitiva união das igrejas, algo tão improvável como o Papa e o Patriarca acenderem velas num bolo de aniversário e cantarem "Parabéns pra você" para um habitante desconhecido nas plagas do Sul do Brasil.

          Voltando ao 30 de novembro, uma pequena coincidência se revelaria pouco menos de seis horas depois do cartãozinho soviético me dar um alô. Eu havia começado a escrever esse texto comentando da misteriosa perseguição que o mencionado misterioso país vem promovendo à minha pessoa quando interrompi a escrita, fui à missa e soube, pela voz do padre, que estávamos comemorando o dia de Santo André. 

          Um dos apóstolos de Cristo, André é considerado ninguém menos do que fundador do cristianismo no Oriente e o santo mais venerado na Ortodoxia. Coincidência? E no mesmo dia, o Papa exortava, junto ao Patriarca de Constantinopla, que os ortodoxos buscassem a unidade de ambas as igrejas. Este texto tinha de ser escrito. 

          Todos os dias somos pegos com as calças na mão ou com o cartãozinho que cai ao nossos pés. Se há algo providencial entre minha relação com a Rússia ou se ela é mais um instrumento da providência que Deus dispôs para minha conversão, só o futuro dirá. E o futuro a Deus pertence.   

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

O preço da submissão da Igreja ao Estado

 "Na Rússia, a única acusação real feita por gente religiosa (especialmente católicos romanos) contra a Igreja Ortodoxa não é sua ortodoxia ou heterodoxia, e sim sua dependência abjeta do Estado." (G. K. Chesterton, em "Eugenia e Outras Desgraças", 1922)

Chesterton posicionava-se favorável à retirada do apoio estatal às igrejas, como comenta em "Eugenia e Outras Desgraças", do qual este trecho foi transcrito.
A separação Igreja-Estado é um dogma da modernidade. Seu questionamento é visto como a defesa do contrário, um Estado confessional, como se fosse obrigatório, à alternativa da laicidade, um poder que patrocinasse oficialmente uma fé específica.
A questão é infinitamente mais complicada, porque, historicamente, Estados patrocinaram igrejas, o que levou à divisão dos fiéis e da luta uns contra os outros (a Inglaterra de Henrique VIII é um bom exemplo disso), e a laicidade, vista com um modelo ideal de Estado moderno, é, no seu sentido estrito, impossível.
Pois a laicidade será sempre relativa. Ela pressupõe que a população participe do poder vigente, e parte desta população é religiosa. Ela exige uma conduta "laica" do poder público, mas este poder é composto de pessoas que deveriam, por este ideal, deixar suas crenças em casa. Ela exige a divisão das consciências, o que significa abjurar da consciência religiosa.
O monstro bifronte do Estado laico existe no plano jurídico, mas não pode ser estritamente implementado segundo seu ideal. O Estado laico não é antirreligioso, mas juridicamente neutro às questões religiosas e, por consequência, nivelador do valor que confere aos grupos religiosos. Mas a população não condiz com este padrão, bem com a proporção de grupos religiosos numa sociedade.
Por outro lado, a solução do Estado confessional igualmente não é válida. Na mesma obra, Chesterton comenta a perda da vitalidade da fé nas igrejas que têm apoio oficial.
O caso da Rússia é emblemático, pois no país onde o czar estava acima do patriarca ortodoxo (título banido por Pedro, o Grande), o Patriarcado de Moscou era submetido a um sínodo diretamente controlada pelo Estado.
Quando Chesterton escreveu esta passagem, em 1922, a Igreja Russa estava sob o jugo dos bolcheviques, que estabeleceram controle ainda mais rígido sobre os religiosos, perseguindo e matando quase a totalidade deles na década de 1930.
A "santa" Rússia, que sacralizou o poder político, trouxe o primeiro Estado oficialmente ateu, de um laicismo feroz nunca antes visto. Não por acaso, nos confins de Portugal, Nossa Senhora viria alertar sobre as desgraças que viriam daquelas terras.
Os "erros da Rússia " estavam apenas começando.

sábado, 5 de setembro de 2020

A centralidade do primeiro sábado do mês na mensagem de Fátima

 

          Primeiro sábado do mês, dia de reparação ao Imaculado Coração de Maria, conforme Nossa Senhora instruiu à Irmã Lucia em 10 de dezembro de 1925.

          A chamada comunhão reparadora faz parte da revelação de Fátima, e Nossa Senhora prometeu revelá-la na aparição de 13 de julho de 1917.

          Esta devoção consiste na oração do Rosário, confissão, comunhão em reparação aos pecados da humanidade contra o Imaculado Coração de Maria e 15 minutos de meditação nos mistérios do Rosário.

          Ela volta-se à nossa salvação, à salvação de muitas almas que estão se perdendo no fogo eterno e à paz no mundo inteiro.

          É o centro da devoção à Nossa Senhora de Fátima, que prometeu: "Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará."

          É muito comum vermos em alguns círculos católicos o insistente pedido de consagração da Rússia como meio de trazer paz ao mundo.

          O vínculo entre os dois pontos é direto e explícito na mensagem de Fátima, mas, seja por ignorância, ativismo ou paixões políticas, esquecem que a paz mundial também está diretamente vinculada à comunhão reparadora, como Nossa Senhora mostra na mensagem de 13 de julho:

"Para impedir [a guerra], virei pedir a consagração da Rússia ao Meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados."

          Os pedidos de comunhão reparadora e de consagração da Rússia estão vinculados a um mesmo plano de misericórdia de Deus para com a humanidade. Ambos são inseparáveis. Em outras palavras: não haverá paz no mundo sem oração e conversão pessoal.

          O Papa junto com os bispos do mundo todo podem consagrar a Rússia muitas vezes, mas isto é ato da Santa Sé, e hoje é ponto de discordância sobre a validade de realização na consagração de 1984.

          Mas a reparação ao Imaculado Coração de Maria, centro da mensagem de Fátima, é nossa parte.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Dostoiévski e a mentalidade de nosso tempo


          As obras de Fiódor Dostoiévski são extensas e incrivelmente ricas em muitos aspectos. Desde os complexos traços dos personagens até a abordagem de temas existenciais, o escritor consegue apresentar com muita perspicácia e conhecimento os problemas pessoais e sociais que envolvem o destino do homem e que compõem o sentido mais profundo de seu trabalho.

          O drama da existência não é seu único tema. Dentro deste, o autor mergulha nos acontecimentos e dilemas de seu país do século XIX e apresenta com clareza os movimentos políticos e a atmosfera psicológica que haveria de varrer a Rússia e o mundo a partir do início do século XX.

          Disseminando ideias deturpadas acerca do homem e do mundo e remando contra a própria condição humana, as criações de Dostoiévski apontam este caminho futuro. Rodion Románovich Raskólnikov em "Crime e Castigo" com sua atitude e moral revolucionária, Piotr Stiepánovitch Vierkohviénski e seus parceiros em "Os Demônios" com seu cinismo, militância e ação violenta, e Ivan Pávlovitch Karamázov em "Os Irmãos Karamázov" com sua soberba e relativismo ateu são alguns dos personagens que se apresentam como protótipos de personalidades tirânicas, imorais e psicóticas que em algumas décadas viriam a inspirar e liderar em todo o mundo os horrores da revolução, da guerra e do genocídio. 

          Mas é num trecho da obra "O Idiota" que o escritor revela sua capacidade de antever com bastante precisão essas possibilidades futuras. 

          No longo trecho reproduzido abaixo, a personagem Lisavieta Prokófievna assiste à uma discussão entre os amigos do personagem principal, Liev Nikoláievitch, o príncipe Míchkin, dentre eles um grupo de jovens niilistas e, absorvida e transtornada pela atmosfera de loucura reinante no ambiente, desabafa:

"Veja só, Ievguiêni Pávlovich, se até o senhor acabou de declarar que o próprio defensor declarou em um julgamento que não existe na mais natural do que matar seis pessoas movido pela nobreza, então é o final dos tempos. Isso eu ainda não tinha ouvido falar. Agora tudo ficou esclarecido para mim. Veja esse tartamudo, por acaso não degola um (ela apontou para Burdovski, que olhava para ela com extraordinária perplexidade)? Aposto que degola! Ele talvez não aceite o teu dinheiro, os dez mil, e não o aceite por uma questão de consciência, mas à noite ele aparece e te degola, e leva o dinheiro do cofre. Leva por consciência! Isso para ele não é uma desonra! É um 'impeto de desespero nobre', é a 'negação' ou sabe lá o diabo o quê... Arre! Tudo anda de pernas para o ar, tudo às avessas. A moça está crescendo em casa, de repente no meio da rua pula para dentro de uma carruagem: 'Mãezinha, há poucos dias eu me casei com um tal de Kárlitch ou Ivánitch, adeus!'. Então, a seu ver, essa é a boa forma de agir? Naturalmente digna de respeito? Questão feminina? Esse menino (apontou para Kólia), até ele discutiu comigo alguns dias atrás dizendo que isso é a 'questão feminina'. A mãe pode até ser uma imbecil, mas ainda assim tu deves ser um homem com ela!... Por que entraram há pouco de cabeça erguida? 'Não ousem aproximar-se': estamos entrando. 'Deem-nos todos os direitos, e quanto a ti não te atrevas a gaguejar diante de nós. Concede-nos todas as honras, mesmo aquelas que não existem, e quanto a ti, vamos tratá-lo pior que o último lacaio!' Procuram a verdade, insistem em seus direitos, mas o caluniaram como um desonesto artigo. 'Nós exigimos e não pedimos, e o senhor não ouvirá nenhum agradecimento de nossa parte porque nós estamos agindo para satisfazer a nossa própria consciência!' Que moral: e já que não haverá nenhum agradecimento de tua parte, então o príncipe pode te responder que ele não sente nenhuma gratidão por Pavlischov, porque Pavlischov fazia o bem para satisfazer a própria consciência. Mas tu contaste apenas com a gratidão dele para com Pavlischov: porque não foi de ti que ele pegou dinheiro emprestado, não é a ti que ele deve, então com quê tu contavas a não ser com gratidão? Como é que tu mesmo vai recusá-la? É uma loucura! Reconhecem a sociedade como bárbara e desumana porque ela difama uma moça seduzida. E se tu reconheces que a sociedade é desumana, então reconheces que essa sociedade causa dor a essa moça. E já que causa dor, como é que tu mesmo expões essa moça nos jornais diante dessa mesma sociedade e exige que isso não seja doloroso para ela? É uma loucura! Vaidosos! Não acreditam em Deus, não acreditam em Cristo! Mas acontece que os senhores estão de tal forma corroídos pela vaidade e pelo orgulho que vão acabar devorando uns aos outros, é isto que eu prevejo para os senhores. Isso não é uma bagunça, isso não é o caos, isso não é o horror?" (p. 325-326) (grifos meus)

          O discurso irado de Lisavieta é uma profecia do que a Rússia enfrentaria em menos de cinquenta anos (a obra foi divulgada em partes entre 1868 e 1869) e revela, com a devida ênfase de uma alma sã, a perversão moral da mentalidade revolucionária, baseada num relativismo que a subjuga em nome da estratégia política com vistas a formulação de uma sociedade ideal futura.

           No artigo A mentalidade revolucionária, o filósofo Olavo de Carvalho mostra que a cosmovisão dessa mentalidade baseia-se na inversão da concepção do tempo, cuja consequência é a inversão dos fundamentos da moral, não mais baseada na experiência de longa data do passado, mas no tempo ideal futuro, o Paraíso terrestre. Como este futuro não existe na realidade, a nova moral anunciada depende da boca daquele que proclama o ideal futuro, transformando-se no juiz e no carrasco que passa a julgar todas as pessoas e épocas com base em sua projeção mental.

          Esta mentalidade está resumida nas palavras dos niilistas repetidas por Lisavieta, que proclama: "Nós exigimos e não pedimos, e o senhor não ouvirá nenhum agradecimento de nossa parte porque nós estamos agindo para satisfazer a nossa própria consciência!" 

          O que poderia haver de mais soberbo do que exigir segundo a consciência? O que haveria de mais relativo do que medir as coisas por sua consciência, sua própria subjetividade? E onde está esta consciência senão no ideal subentendido por detrás de uma exigência moralizante?

          Se a consciência publicamente proclamada é a medida da nova moral, então a moral advinda da experiência da realidade é inválida e substituída por um parâmetro totalmente subjetivo, portanto, mutável. Na falta de uma referência fixa, vencerá a moral que se impor pela astúcia e pela força, transformando-se ela mesma na medida da realidade.

          Os niilistas de Dostoiévski acreditavam poder se impor aos outros pelas palavras intimidatórias e o desprezo sarcástico. Proclamavam a demolição de todos os valores e da ordem social acreditando que disto surgiria espontaneamente uma nova sociedade. 

          A mencionada "questão feminina", em voga na Rússia de então, o ateísmo, a "nobreza" da ação revolucionária expressa, nas palavras da personagem, pela coragem de matar por um ideal nobre, eram (e ainda são) princípios de ideias revolucionárias, que no século XX mudaram de conteúdo, mas não de forma. Podemos tirar a questão feminina e incluir a raça, a minoria oprimida, a questão de gênero, incluir mesmo a questão religiosa, mudar a tática da violência para a propaganda, mas a estrutura da mentalidade continua a mesma: transformar o mundo em nome de um ideal futuro subjugando todas as coisas ao objetivo autoproclamado.

          Quando Stálin perseguiu e matou seus próprios correligionários a partir de 1934 e deu início ao Terror Vermelho para continuar a construção do socialismo, quando Hitler eliminou a S.A. de Ernst Rohm matando os que não podia controlar diretamente para garantir a unidade do poder nazista, quando os militantes chineses mataram uns aos outros na Revolução Cultural e se engalfinharam numa luta pelo poder após a morte de Mao Tsé-Tung para continuar seu legado, quando os movimentos anticoloniais voltaram-se uns contra os outros na África e na Ásia como na Guerra Irã-Iraque e em inúmeras guerras civis acreditando levar seus povos à libertação; quando hoje, os extremistas islâmicos travam batalhas uns contra os outros e demais grupos religiosos acreditando lutar pela sociedade santa; quando os narcotraficantes matam e envenenam milhões de pessoas alegando realizar com isso justiça social, quando mães matam os próprios filhos por considerá-los um estorvo ainda antes de nascer. 

          E quando todos eles, em nome do ideal futuro, massacraram e ainda massacram milhões de pessoas que dizem honrar e defender, é impossível deixar de lembrar o que Dostoiévski, sensível ao drama da condição humana, declarou pelas palavras de Lisavieta:

É uma loucura! Vaidosos! Não acreditam em Deus, não acreditam em Cristo! Mas acontece que os senhores estão de tal forma corroídos pela vaidade e pelo orgulho que vão acabar devorando uns aos outros, é isto que eu prevejo para os senhores. Isso não é uma bagunça, isso não é o caos, isso não é o horror?

segunda-feira, 13 de julho de 2020

A unidade da segunda parte da mensagem de Fátima (13 de julho)


Hoje, 13 de julho, faz 103 anos da aparição de Nossa Senhora de Fátima onde Ela afirmou que viria pedir a comunhão reparadora dos sábados e a consagração da Rússia, pedidos que realizou em 1925 e 1929, respectivamente. Destes dois atos, viriam a salvação das almas e a paz no mundo.

Estas mensagem mostram que não adianta pedir apenas a consagração da Rússia (ou seus efeitos, caso já tenha sido realizada por São João Paulo II em 1984 como muitos acreditam) sem a comunhão reparadora, o que inclui a oração completa do Rosário.

Se as pessoas não rezam e não há conversão, do que adianta apenas um ato solene da Santa Sé? Tanto é que Nossa Senhora, ao pedir a consagração da Rússia à irmã Lúcia em 1929 (representação acima), mostrou a ela seu Imaculado Coração, o mesmo ao qual Ela pediu reparação quatro anos antes ao especificar a comunhão reparadora. E no mesmo evento de 1929, apresentou à irmã o mistério da Santíssima Trindade e sua relação com a eucaristia como ato de graça e misericórdia vinculados ao seu Coração. Afinal, Maria sacrificou-se com seu Filho ao vê-Lo, em silêncio, Seu profundo sofrimento na cruz.

Resumindo: a comunhão reparadora é um ato de desagravo à Nossa Senhora e a Jesus cujo ato seria chancelado pela consagração da Rússia, sua conversão e a consequente paz no mundo, tornando visível aos olhos da humanidade o poder do Imaculado Coração. O mundo precisa ver a ação de Nossa Senhora. Este é o triunfo prometido do Imaculado Coração.

Infelizmente, parece que nada disto foi feito, e hoje pagamos as consequências.

terça-feira, 12 de maio de 2020

Nossa Senhora profanada na Rússia


          Neste 9 de maio, a Igreja Ortodoxa Russa inaugurou a majestosa e imponente Catedral Principal das Forças Armadas Russas, ou Catedral da Ressurreição de Cristo, no Parque Patriota, perto de Moscou. A igreja possui 97 metros de altura e foi dedicada ao 75º aniversário da vitória na Grande Guerra Patriótica, como é chamada na Rússia a Segunda Guerra Mundial.

          Dentro da igreja há vários mosaicos. Dois, porém, chamam a atenção.  

          O primeiro, acima à esquerda, mostra Nossa Senhora vestida com as cores da bandeira nacional. À esquerda da imagem há um cartaz onde se lê "A Crimeia é nossa", numa referência à anexação da Crimeia pela Rússia em 2014; em destaque ao centro, Vladimir Putin e o ministro da defesa Sergey Shoygu; nas bordas, o exército russo. A Mãe de Deus está abençoando a nação em seus feitos recentes.

        Neste início de maio, o comitê responsável pelas artes, arquitetura e restauração da Igreja Ortodoxa Russa afirmou que vai remover o mosaico. O pedido de remoção seria do próprio Putin.

          Mas o segundo mosaico é o mais problemático. Nele, Nossa Senhora abençoa o Exército Vermelho na vitória na Segunda Guerra. Os generais aparecem colocam à frente do Kremlin e da Catedral de São Basílio, símbolos máximos da Rússia, em meio à queima de fogos. À direita, há uma imagem de Stálin, líder do país no conflito. Nossa Senhora veste as cores do país comunista. 

          Este mosaico causou controvérsia e críticas de parte do clero da Igreja Russa devido à referência a Stálin. Apesar da discordância e do desconforto, decidiu-se manter a imagem. Há de se deduzir que há influência do Kremlin na questão, historicamente um patrocinador do reavivamento religioso na Rússia atual. 

          Como toda a imagem, o mosaico carrega uma representação, transmite uma mensagem, uma realidade. Este simbolismo é ainda mais profundo e impactante quando se trata dos sentimentos religioso e nacional, abundantes no mosaico. Ali estão cristianismo e comunismo soviético.  

          A associação da história soviética com Nossa Senhora é uma ofensa, uma blasfêmia que deve ser reparada com orações até que se tome a atitude de se reparar fisicamente esta profanação. Desnecessário dizer os crimes cometidos pelo regime que matou 30 milhões de pessoas do próprio povo.

          Outro elemento que chama a atenção é a data da inauguração da catedral, quatro dias antes do dia de Nossa Senhora de Fátima. 

          É de conhecimento dos católicos a mensagem de 13 de julho de 1917 onde Nossa Senhora afirmou que viria pedir a consagração da Rússia ao seu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. A devoção dos sábados é a devoção ao Imaculado Coração, que foi detalhada à irmã Lúcia na aparição que recebeu em 10 de dezembro de 1925, em Pontevedra, na Espanha.

          Em maio de 1930, Jesus Cristo informou à irmã Lúcia, então na clausura em Tuy, na Espanha, que o número de sábados eram em reparação a cinco ofensas e blasfêmias cometidas contra o Imaculado Coração de Maria. E uma destas era justamente os ultrajes dirigidos às imagens Dela, tal qual vemos na nova catedral.

          Importante lembrar sempre que devemos sempre rezar pelos mortos, independente quem sejam eles, porque não sabemos seu destino, determinado apenas por Jesus Cristo. Não sabemos, portanto, quem são, as causas e as motivações dos 27 milhões de cidadãos e soldados soviéticos que foram colocados à força para morrer na linha de frente da guerra.

          Há diferença entre pedir a intercessão materna pelas almas e associá-la à "glória" de um regime tirânico, promotor de conflitos e inimigo aberto da Igreja. O primeiro é um dever cristão, o segundo uma blasfêmia que pode e deve ser reparada com a devoção ao Imaculado Coração de Maria. 


quarta-feira, 25 de março de 2020

A crise do coronavírus e os "erros da Rússia"


          Esta pandemia e a confusão subsequente é mais um dos tantos efeitos dos chamados "erros da Rússia" profetizados em Fátima em 1917. Nossa Senhora afirmou que para alcançar a paz mundial era necessária a devoção ao seu Imaculado Coração e a consagração da Rússia. Do contrário, a Rússia espalharia seus erros pelo mundo.  Isto é a prova de que seus pedidos nas aparições não foram cumpridos, ao menos não totalmente.

          Ainda.

          Segundo O Livro Negro do Comunismo, em 1922, a NKVD (futura KGB) plantou a revolução no sul da China, na região de Cantão, fornecendo armas e expertise para a ação revolucionária. Os comunistas tomaram o poder em 1949 com apoio soviético.

          Não cabe aqui repetir o que muitos já sabem, que o governo de Pequim provocou a morte de pelo menos 60 milhões de pessoas, sendo a maioria por efeito e repressão do Grande Salto para Frente, que ceifou 40 milhões de vidas na maior fome de todos os tempos.

          Na atual crise relacionada ao coronavírus, há fontes que mostram que a China não só ocultou como destruiu provas de que estávamos frente a uma epidemia, além de perseguir e silenciar os médicos que tentaram avisar as pessoas. Só quando a situação começou a sair do controle, o PC Chinês comunicou a gravidade da situação.

          Na metade de março, a União Europeia denunciou que organismos de propaganda da Rússia espalharam notícias falsas e contraditórias sobre o coronavírus. Isto teria gerado aumento da confusão e maior dificuldade no combate à doença. O objetivo desta investida é afetar o Ocidente e enfraquecer seu poder político, econômico e militar, principal objetivo da política externa russa hoje. EUA, União Europeia e OTAN são seus maiores adversários.

          Não é preciso dizer que o que chineses e russos fizeram na atual crise foi uma monstruosidade. E não é de graça que os mais afetados pela pandemia e o medo, paralisia e confusão daí decorrentes são justamente os adversários geopolíticos destes dois países. A China é uma ditadura comunista, a Rússia é herdeira direta do poder soviético, e ambos são parceiros estratégicos para solapar o poder do Ocidente.

          Infelizmente, os "erros da Rússia" profetizados em Fátima vão muito além disso e têm uma longa história que é muito difícil de definir e apresentar. Abrangem, além das guerras, revoluções e genocídios promovidos diretamente pela URSS no século XX, mudanças políticas, sociais e culturais nas últimas gerações promovidas pela penetração do movimento comunista no campo da cultura. O movimento possuía como objetivo destruir as bases civilizacionais do Ocidente, como a religião, a família e os valores de convivência, e promover toda a sorte de propaganda, relativismo, revoltas e crimes.

          O mundo atual foi totalmente transformado por um movimento revolucionário de larga escala que influenciou todos os campos da vida pública e mesmo pessoal. A atual crise do coronavírus é apenas um aspecto desta realidade.

          Hoje vivemos dentro do "erros da Rússia". Mas isto já é outro.         

sábado, 8 de fevereiro de 2020

A Consagração da Rússia e a necessidade da devoção ao Imaculado Coração de Maria


          Volta e meia a questão da Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria na mensagem de Nossa Senhora de Fátima volta à tona pela internet.
         Pois bem. Na mensagem Dela existe uma associação direta entre três acontecimentos: a Consagração da Rússia com sua conversão, a devoção ao Seu Imaculado Coração (devoção dos cincos sábados) e a paz mundial.
          Não adianta consagrar a Rússia se não houver a devoção ao Imaculado Coração de Maria, ou seja, oração do Rosário, confissão e comunhão. O Papa pode fazer 10 consagrações conforme Ela pediu, mas sem as orações (e portanto, as conversões), não haverá o efeito esperado.
          Por isto que eu não sei se a Consagração feita por São João Paulo II em 1984 foi válida ou não. Portanto, faça sua parte que Nossa Senhora fará a sua, ou efetivando os efeitos da Consagração da Rússia (com sua conversão e paz mundial), ou induzindo a Santa Sé a fazê-la em definitivo.
          Sem oração, a devoção pessoal ao Imaculado Coração, não haverá resultados, e a humanidade continuará a sofrer as consequências de seus erros até o momento em que desembocará na guerra e na matança, que é a simbologia apresentada no "terceiro segredo".          
          Rezem!
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          Ao pegar o terço na mão, lembre-se: o Rosário da Santíssima Virgem circunda toda a Terra, mexe com a humanidade inteira e vai além. Não é pouca coisa.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Como o matrimônio pode ser caminho de santidade: o caso de Nikolai Sheremetev

(Retrato de Praskovia, pintado por Ivan Argunov, servo de Nikolai, em 1802. No seu peito a medalha com o rosto do marido com quem recém se casara.)

          A cultura moderna erigiu o amor romântico como a forma de relacionamento ideal entre homem e mulher como se a relação fosse exclusivamente baseada num sentimento profundo e perfeito de entrega, paixão e sofrimento. A realidade, no entanto, é muito distinta do idealismo da ficção, tão presente no cinema, nas novelas e na literatura.

          O matrimônio é sim baseado no amor, mas também em muitas outras coisas, da necessidade de equilibrar e harmonizar os interesses, de trabalhar pelo bem do outro, de fazer sacrifícios. O amor é o desejo real de entregar-se ao outro, talvez o sacrifício mais profundo. O homem casado não tem uma esposa: ele é da esposa. Da mesma forma a mulher casada: ela não tem um marido, ela é do marido. Isto vale, segundo as possibilidades, para todos os casos da vida, inclusive na relação sexual: se o marido quer se satisfazer na cama, cabe à mulher satisfazê-lo; e vice-versa. O corpo de um pertence ao outro. O padre Paulo Ricardo, conhecido por suas aulas e vídeos de esclarecimento da doutrina católica e pelo seu perfil conservador, explica isto neste vídeo. O sexo visa a reprodução, mas também o amor, a união total. 

          A Igreja Católica vê o matrimônio como uma das quatro vocações existentes, sendo as outras três o sacerdócio (só para homens), a vida religiosa e a vida leiga consagrada. A grande massa é vocacionada ao matrimônio, e assim como as demais vocações tem como missão santificar a alma. Bem sabemos que a santidade não é vida boa, mas um caminho árduo de sacrifícios, a "porta estreita" que nos fala Jesus Cristo.

(Retrato do conde Nikolai)

          Um caso bastante específico e impressionante do que um matrimônio pode fazer com uma pessoa é o de Nikolai Petrovich Sheremetev. Conde que viveu na Rússia entre 1751 e 1809, Nikolai foi servo pessoal e amigo do imperador Paulo I e neto de Boris Sheremetev, último boiardo da Rússia. Boris era pessoa próxima do czar Pedro, o Grande, e fez fortuna com serviços prestados ao imperador ao longo de décadas. Fiel ao serviço da coroa, sua família recebeu terras, bens e honrarias e se tornou a segunda mais rica de toda a Rússia depois apenas da família dinástica dos Romanov.

          Segundo Orlando Figes no livro Uma história cultural da Rússia, Nikolai era mulherengo e costumava flertar com as servas que trabalhavam nas casas e palácios dos Sheremetev. Mas o aristocrata se apaixonou por uma delas, Praskovia Kovalyova-Zhemchugova, com quem se encontrou às escondidas até o casamento. Cabe especular até que ponto a serva submeteu-se à vontade do seu senhor, mas desde início sua relação foi marcada por dificuldades, principalmente pela necessidade de esconder os encontros dos olhos de outras pessoas. Praskovia teve de suportar os comentários e as piadas dos outros servos pelo envolvimento com alguém da aristocracia e as repreensões da família por viver um relacionamento incerto. Para protege-la e poder encontrar sua amada em privado, Nikolai alocou Praskovia na sua propriedade em Kuskovo, perto de Moscou, para onde viajava para encontrá-la, e depois construiu uma casa de madeira para ela. Mas com a ascensão de Paulo I ao trono, o conde foi nomeado camareiro-chefe do imperador e teve de se fixar definitivamente em São Petersburgo. Assim Praskovia voltou e passou a morar na mesma residência, a Casa da Fonte. Agora era a vez do conde lidar com a rejeição e raiva da aristocracia, que considerava um escândalo uma serva morar em sua casa. A família Sheremetev deserdou Nikolai, que ainda manteve suas propriedades. A rígida hierarquia social e a obsessão da nobreza russa por status dificultava muito o casamento com uma serva. Nobres e servos não formavam famílias publicamente, mas mantinham relacionamentos às escondidas e, ao exemplo da relação senhor-escravo no Brasil colonial, geravam filhos ilegítimos. Em 1801, Nikolai libertou Praskovia da servidão e casou-se com ela no dia 6 de novembro numa cerimônia secreta em uma pequena igreja na vila de Povarskaia, perto de Moscou.

(Casa da Fonte, principal propriedade da família Sheremetev. Símbolo de São Petersburgo, hoje sedia o Museu Anna Akhmatova, nome da poeta que viveu na casa entre 1926 e 1952.)

          O retorno de Nikolai a São Petersburgo e o casamento com Praskovia isolou o conde da vida pública, e poucos eram os amigos que mantiveram os laços de amizade, dentre eles o imperador Paulo I, que inclusive apoiou o relacionamento dos dois. A agora ex-serva e condessa sofria de tuberculosa e tinha uma saúde frágil. Depois de ter seu único filho, Dmitri, em 1802, sua saúde piorou, vindo a falecer três semanas depois. Praskovia, que viveu em torno de um ano casada, foi sepultada no Mosteiro Alexandre Nevski. O mais impressionante foi a presença das pessoas no enterro. Ou melhor: a falta delas. Como Paulo I fora assassinado, ninguém da corte esteve presente, bem como ninguém da nobreza e nem mesmo da própria família, os Sheremetev. 

          A tristeza e a amargura de Nikolai transformaram-se em ação que foi muito além da família e da aristocracia. Como descreve Figes no seu livro:

"Perdido de pesar, o conde demitiu-se da corte, virou as costas para a sociedade e, retirando-se para o campo, dedicou seus últimos anos ao estudo religioso e às obras de caridade em homenagem à esposa. É tentador concluir que havia um elemento de remorso e até culpa nessas obras de caridade - talvez a tentativa de ressarcir as fileiras sob servidão de onde viera Praskovia. Ele libertou dezenas de servos domésticos favoritos, gastou enormes quantias para construir hospitais e escolas de aldeia, criou fundos para cuidar de órfãos, fez doações a mosteiros para darem comida aos camponeses quando a colheita escasseava e reduziu pagamentos cobrados dos servos das suas propriedades. Mas o projeto mais ambicioso de todos foi o asilo que fundou em memória de Praskovia nos arredores de Moscou - a Strannoprimny Dom, que, naquela época, de certa forma, foi o maior hospital público do império, com dezesseis enfermarias masculinas e dezesseis femininas. "A morte da minha esposa", escreveu ele, " me abalou a tal ponto que a única maneira que conheço para acalmar o meu espírito sofredor é me dedicar a cumprir a sua ordem de cuidar dos pobres e doentes." Durante anos, o conde, abalado pelo pesar, saía da Casa da Fonte e andava incógnito elas ruas de Petersburgo, distribuindo dinheiro aos pobres. Morreu em 1809, o nobre mais rico de toda a Rússia e, sem dúvida, também o mais solitário. No seu depoimento ao filho, ele quase rejeitou por completo a civilização incorporada à obra da sua vida" (p. 70-71)

          No testamento ao filho, Nikolai escreveu, que sua paixão pelas artes, as coisas raras, "Não deixava a mais remota impressão na alma." E se questionava: "Para que todo este esplendor?"

          O solitário conde deixou para trás a opulência da nobreza e curvou sua riqueza para o bem do próximo. Encontrou sentido, infelizmente, pela dor, mas deixou um legado e um exemplo do que alguém com posses pode fazer por aqueles que necessitam. Esta foi a obra involuntária de Praskovia: fazer de Nikolai uma pessoa melhor, ou pelo menos fazer dele o instrumento de um legado e um exemplo. Se o conde dedicou-se à caridade por culpa, dor, fiel adesão ao segundo mandamento ou os três fatores juntos, pouco importa: o trauma da perda e a desilusão de uma vida falsa, a lembrança do amor verdadeiro e o sentimento de ter perdido tempo com coisas desnecessárias são razões mais do que suficientes para girar o leme e dar um novo rumo à vida. Sei por experiência própria que a perda de tempo por negligência ou decisões erradas dão uma sensação de urgência, a necessidade de encontrar, de forma tenaz e perseverante, um objetivo de vida. Parece que esta foi a experiência de Nikolai: encontrou numa ação substantiva e duradoura o preenchimento de um vazio e um pouco de alívio na dor que o dilacerava. Encontrou na caridade uma vida nova.


          Fiquei com forte impressão desta passagem do livro de Orlando Figes, talvez por ser alguém que demorou para descobrir que, de fato, eu não era vocacionado à vida religiosa. E que o casamento é uma via não só de santificação como de felicidade, que nunca é um oceano permanentemente calmo, mas recheado de tormentas onde um se torna o refugio do outro. E mais: a história do conde mostra a força que um matrimônio fincado no amor verdadeiro tem para transformar uma vida. Nikolai se viu impelido a tomar uma nova atitude, forçado, também, pela pressão social. Mas foi uma atitude que não pode deixar de ser admirada. Ela é a consumação do Evangelho de Mateus (25, 31-46) onde Jesus Cristo anuncia a separação dos rebanhos. Salvam-se os que fazem a caridade, os que vêem Ele nos outros. Se Praskovia não fez de Nikolai um santo (talvez longe disso), ao menos mostrou-lhe o caminho.  Devemos ser o farol para nossa cara metade.

sábado, 22 de outubro de 2016

Russos, livros e bebidas: testemunhos de um estereótipo

(Rússia e vodka: combinação que não é exatamente um estereótipo.)

Quem acompanha brevemente meus escritos na internet sabe que tenho o blog "A Rússia e o Mundo" onde publico análises e comentários sobre política, história e cultura da Rússia. Para tentar entender um pouco realmente que país é este e quem são os russos (tanto em sua concepção étnica quanto nacional, como didadicamente distingue Angelo Segrillo no seu livro "Os Russos"), busco acompanhar alguns eventos que tratam de temas a respeito da cultura. E ainda por cima encarei o desafio de aprender a língua russa.

Comecei as aulas de russo em agosto deste ano. Minha professora Elena é diretora do Instituto Cultural Russo. Nossas aulas ocorrem uma vez por semana, salvo percalços criados pela agitada agenda da professora.

(Letras e fonéticas do alfabeto russo.)

A primeira dificuldade é conhecer o alfabeto cirílico. O mais complicado no aprendizado para quem fala português não é, no meu entender, conhecer as trinta e três letras do alfabeto (alguma extremamente esquisitas, como o "jé", cuja escrita é um asterisco de seis pontas, ou o "iú", escrito como IO vinculados por um traço), e sim não confundir a letra de forma com a fonética em português. Por exemplo: a letra "H" tem som de "N" em português; o "N" invertido tem som de "I"; o "B" de "V", "Y" de "U"; e a escrita similar ao número "3" som de "Z". Tornar estas associações natura naturais sem confundir com a fonética do português dá frequentes curto-circuitos nos meus neurônios. 

(Entre os russos é comum os encontros serem acompanhados pela vodka, cujo hábito é não tomar só.)

Mas como boa russa que minha professora é, natural da cidade de Krasnoiarsk no sul da Rússia, ela nos ensinou uma das coisas mais comuns do país: as bebidas. Estão lá os vinte nomes de bebidas listados em russo no meu caderno, da água ao conhaque. Elena nos contou que a imagem do russo beberrão de vodka é verdadeira, e que nos encontros sociais é extremamente comum o uso da bebida. É "tradição" entre os russos tomar a vodka em três pessoas, e a razão é bastante prática: depois de muitas doses alguém acaba tonto, incapaz de sair caminhando por aí, restando dois para ajudar. É comum ver na rua duas pessoas carregando um bêbado, como também são comuns os casos de atropelamento de pessoas sob efeito do álcool. Inclusive é pouco educado recusar uma bebida quando se é convidado a um encontro. Ser russo é estar realmente familiarizado com a vodka.

(Uma das vitrines da Rússia, São Petersburgo possui arquitetura essencialmente europeia. Em destaque a cúpula dourada da Catedral de Santo Isaac, de estilo neoclássico, ao contrário do bizantino das demais igrejas ortodoxas.)

Outro exemplo do comportamento dos russos tive na semana passada quando assisti a uma aula ministrada pela professora de literatura russa da UFRGS Denise Regina de Sales sobre a cidade de São Petersburgo.  O tema era a cidade pela ótica de dois ex-moradores e famosos escritores: Nikolai Gogol (1809-1852) e Fyodor Dostoyevsky (1821 - 1881). Fui ao encontro mais atraído em conhecer a história da cidade do que a visão que seus famosos escritores tinha dela, cujas obras, confesso com um pouco de vergonha, ignoro por completo. Interessante notar que esta cidade, fundada em 1703 pelo czar Pedro, o Grande, rivaliza com Moscou não só como capital histórica do país, mas também por suas associações simbólicas e culturais. São Petersburgo é a cidade masculina, ocidentalizada, aberta, jovem; Moscou é a cidade feminina, propriamente russa, reservada e mais antiga.

       
                  (Gogol e Dostoyevsky: ex-moradores de São Petersburgo dão vida à cidade.)

Enquanto ouvíamos os trechos dos autores lidos pelos alunos da aula entrávamos e imaginávamos as cenas às quais Gogol e Dostoyevsky nos transportavam. Tive de ler dois trechos deste último, e fiquei impressionado com o mergulho que o leitor fazia no corpo do personagem bem como no ambiente físico. Brinquei por um momento que o aprisionamento emocional descrito pelo personagem de Dostoyevsky era angustiante e me levaria a ficar sem ar. Infelizmente não me recordo da fonte dos trechos. De qualquer forma a experiência foi muito válida porque me ajudou um pouco a ter uma breve ideia da dimensão do impacto da literatura russa do século XIX no mundo todo.  e de minha ignorância sobre o tema.

(Pushkin: orgulho nacional.)

O que também chamou minha atenção foi, segundo os relatos, o valor que os russos dão à literatura e à cultura do país. Além da professora, muitos alunos já estiveram na Rússia. Um dos presentes comentou em dado momento que um amigo(a) em viagem ao país contemplou o busto de um homem num local público. Depois perguntou a uma pessoa próxima de quem se tratava. A pessoa ficou assombrada com a ignorância da pergunta. Ela não entendia como alguém não sabia de quem era a representação. O busto era do poeta Alexander Pushkin (1799-1837), nascido em Moscou e falecido em São Petersburgo, considerado pelo russos o maior de todos os seus escritores. Na medida em que a pessoa explicava à visitante quem era Pushkin, apareceu um policial para ver o que estava acontecendo. Mas o policial foi tragado pela conversa. Depois vieram outras pessoas e mais outras formando um aglomerado de indivíduos que discutiam em grupo quem era Pushkin. Isso denota que o poeta tem alguma fama em seu país de origem. Diria, pelos comentários da professora e dos alunos, muita fama.

É claro que os relatos acima não resumem quem são os russos, nem dão forma acabada a este povo. Associar russos com vodka e literatura é mais ou menos como associar brasileiros à samba e futebol. É uma associação meramente popularesca. Diz pouco sobre a sociedade, ou mesmo distorce sua verdadeira identidade. Vodkas à parte, quem dera fôssemos também nós apaixonados pelos intérpretes de nossa pátria, e não unicamente pelas diversões passageiras. Faria um bem danado à nossa mentalidade e à auto-estima. Mas resgatar uma cultura que foi substituída pelas paixões mais superficiais e efêmeras será um trabalho que levará gerações.