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sábado, 24 de dezembro de 2022

Feliz Natal | 2022

          Creio que o Cristianismo jamais será compreendido enquanto não for visto como realidade, e não meramente fé, como se essa fosse distinta do próprio mundo em que vivemos e, pior, como se fosse alheia à razão. Jesus Cristo é uma realidade, Seus milagres são realidades, Sua morte e ressurreição são realidades, Sua presença em pessoa na Santa Comunhão é uma realidade!

          O Natal, portanto, não é simplesmente história e tradição. É fato. É acontecimento!! E o mais impressionante é que Jesus, sendo Deus, que é o Eterno, o Infinito, o Absoluto, teve a infinita humildade de vir ao mundo e entrar na História como uma criança nascida numa estrebaria. Querem coisa mais chocante do que o Todo-Poderoso vir ao mundo da forma mais humilde possível? E mais, porque Ele quis? Porque foi Sua vontade? Ele poderia ficar lá, na Sua Glória, sorrindo eternamente para si mesmo.

          Mas não. Ele escolheu o amor. A maior prova de amor que o Natal traz é que um Ser tão poderoso se fez infinitamente pequeno por causa nossa, minha e sua. Ele se importa contigo. Isso é amor, meu camarada. Proporcionalmente você não é nada para Deus, mas por amor você é tudo para Ele. E Ele, ainda por cima, preparou-se por 33 anos para derramar todo o Seu sangue por você na cruz.

          O Natal é a celebração do amor mais profundo, mais largo, mais infinito que transcende a nossa inteligência. O amor de Jesus, de Deus, por nós é inimaginável! Absolutamente inimaginável!! Só o amor infinito seria capaz de cobrir o abismo intransponível entre a infinitude divina e a finitude humana. E Nosso Senhor Jesus Cristo, como Menino, cobriu esse abismo. O amor de Jesus por você é infinito, e por isso mesmo capaz de cobrir toda e qualquer distância, toda e qualquer solidão, toda e qualquer treva. O resto não importa. Só Ele importa. Só a Sua Pessoa, o Seu Amor importa. Tudo o mais é consequência.

          FELIZ NATAL!!

sábado, 29 de agosto de 2020

A perenidade da Igreja e as modas que passam

 "A Igreja sempre se coloca contra a moda passageira do mundo; e ela tem experiência suficiente para saber quão rapidamente as modas passam." (G. K. Chesterton, em "Por que sou católico")

          Esta afirmativa de Chesterton pode ser perfeitamente compreendida à luz da Revelação, que é a Palavra de Deus que nunca passa e que é, portanto, válida a todas às épocas.

          Mas nosso escritor está chamando a atenção não para a imutabilidade da Revelação, e sim o efeito da experiência da Igreja ao longo da História.

          É justamente a Revelação que dá à Igreja a firmeza inerente à sua condição de Igreja, que é ser construída sobre a rocha.

          Esta rocha permite à Igreja viver as épocas sem se deixar levar por elas, e como seu fundamento é absoluto, tudo o mais se torna relativo frente à ela.

          Assim, a Igreja sabe, pela Revelação, mas também pela experiência histórica, que tudo passa, em especial as modas que acompanham os desejos, estes cada vez mais loucos e fugazes na medida em que nosso tempo avança.

          O desafio da Igreja está não na resistência às modas, que ela já se mostrou capaz de enfrentar, mas sim manter viva a fé nos próprios fiéis, fazendo de cada pessoa um membro do corpo vivo e divino que foi fundado por Cristo.

          Há aqueles que desconfiam e mesmo maldizem, por exemplo, o Concílio Vaticano II, algumas aculturações ritualísticas e mesmo o Santo Padre; há outros que acreditam ser a Igreja um mero poder do mundo, um organismo de transformação social onde Jesus foi o primeiro revolucionário.

          Isto pode ser apenas nossa opinião sobre algo que não conhecemos o suficiente, e mesmo que as coisas pareçam desesperadoras, sempre haverá um número suficiente de pessoas inspiradas pelo Espírito Santo a manter a Igreja de pé mesmo com fortes ventos contrários.

          Estes conflitos refletem, no fundo, a fé que se abala.

          São Paulo VI nos alertava que a fumaça de Satanás havia entrado na Igreja; seu perfume veio camuflado pela desejada moda de cada época refletidas em ideias e comportamentos. Mas é o incenso, a presença de Deus que purifica os ares e traz a fé necessária para atravessar todos os tempos até a eternidade.

sábado, 20 de junho de 2020

Muito além de um jargão


          Todo mundo que passa por um problema sério e aparentemente insolúvel sente a situação como se estivesse fechado num beco sem saída, sem luz no fim do túnel. A atual crise relacionada ao coronavírus, com consequências muito além da própria doença, traz esta mesma dimensão, mesmo que jargões como o "vai passar" seja repetido constantemente, mas que, no fundo, reflete um mero desejo sem causa objetiva que o sustente.

          Do túnel escuro surge o ditado popular que diz "a esperança é a última que morre", mesmo que tudo esteja desabando ao redor.

          Mas o cético sabe, apesar da esperança, que não há luz em situações aparentemente insolúveis. Na verdade, qualquer pessoa dotada de alguma inteligência advinda das experiências da própria vida sabe disto. Há, portanto, uma dimensão da alma humana que mantém a pessoa viva apesar de todo o ceticismo ou jargão vazio. 

          Nesta dimensão está a esperança, que se justifica e se resguarda em dois planos: no futuro e no mistério. No primeiro caso, porque o futuro é indeterminado. O momento presente, cuja existência consiste num instante de duração nula, que não pode ser medida, e cuja estrutura consiste numa infinita conjugação de sua carga precedente, ou seja, o passado, é o ponto de partida a partir do qual se abrem todas as possibilidades futuras. Dito de outra forma, o momento presente é resultado de infinitas possibilidades passadas que se fizeram reais e que, portanto, podem se conjugar em infinitas possibilidades futuras a partir de sua carga atual. De forma ainda mais resumida, no futuro qualquer coisa pode acontecer. 

          Um exemplo simples: há um ano eu estava desempregado. Demoraria menos de dez dias para, de repente, ser chamado para o emprego atual. Havia em mim o desejo, possível pelas circunstâncias da época, de que uma porta se abriria para mim. Mas o processo foi melhor do que o esperado dado que a iniciativa do novo emprego não partiu apenas de minha pessoa, mas de um futuro colega de trabalho. O acontecido poderia ter tido outro rumo caso eu dissesse "não" ou buscasse outra alternativa, ou ainda se desistisse da busca. Tudo poderia acontecer.

          O segundo caso, o mistério, é justamente o plano no qual o futuro está em potência, mas que é maior do que o próprio futuro. O mistério consiste numa realidade que é tão grande que não podemos compreende-la por completo, nem mesmo imaginá-la, porque a própria imaginação faz parte de sua dimensão. Nossa limitação no tempo e no espaço limita necessariamente nosso conhecimento. Não podemos conhecer o passado porque lá não estivemos, bem como todo o futuro, porque em algum momento morreremos. O mesmo é válido para a nossa presença física, especialmente limitada. 

          A limitação do conhecimento é alargada e preenchida pelas tradições religiosas, que nos apresentam uma estrutura coerente do mundo e de sua relação com o para-além. tanto físico quanto não físico. Ou seja, nosso desconhecimento é preenchido pela fé, que não nega, mas amplia e complementa o conhecimento existente. A infinita dimensão do mistério, da mesma proporção daquilo que chamamos de Deus, infinito por definição, nos leva a acreditar que as possibilidades futuras se conjuguem conforme o desejado por um ato de fé; e a fé é precedida pela esperança, uma das virtudes teologais. Esperamos, assim, que do futuro indeterminado consigamos realizar o que buscamos.

          Portanto, por mais fundo que seja nosso buraco ou do nosso mundo, em nós vive uma esperança que é ainda mais profunda do que este buraco; e a fé, nosso sustentáculo último, não só abarca a escuridão como a transcende e dá sentido a ela por situá-la e defini-la no plano da totalidade.

          Para os doentes, amargurados, pessimistas, deprimidos e desencorajados pela situação do mundo, há a certeza, pelo ato de fé, de que tais situações são transitórias. Este é o único "vai passar" que faz sentido. O resto é propaganda da televisão. 

          

quarta-feira, 13 de maio de 2020

O fechamento de Fátima na era da apostasia


          A surpreendente paralisação de grande parte do mundo em meio à epidemia do coronavírus se torna mais impressionante quando vemos que aqueles que jamais deveriam abdicar de sua missão em aliviar o sofrimento das pessoas acabam por se submeter às ordens do mundo.

          Os próprios bispos e sacerdotes têm fechado igrejas para o público sob a justificativa de evitar aglomerações e a maior disseminação da epidemia. Evitam, assim, sua missão espiritual.

          Ocorre que jamais na História igrejas fecharam voluntariamente; que seu fechamento se deu por perseguição ostensiva de diversos grupos como jacobinos, comunistas, nazistas, laicistas republicanos e muçulmanos. Tudo regado a muito sangue.

          Desta vez, o fechamento se dá com "democratas" sob os auspícios do Estado liberal e o consentimento assustador da hierarquia católica. Tudo muito calmo, tranquilo, sem sangue algum, enganadoramente pacífico.

          Desde as aparições de Nossa Senhora, em 1917, esta é a primeira vez na história que o Santuário de Fátima é fechado para o público. 

          Apesar de Portugal estar em quarentena desde março, foi decisão do reitor do Santurário, Padre Cabecinhas, e do bispo de Leiria-Fátima, Antônio Marto, a decisão de fechar o local para o público. Ademais, 3.500 policiais foram colocados no local e nos pontos de peregrinação, onde se manifestaram Nossa Senhora e os anjos aos três pastorinhos, para impedir que houvesse entrada e aglomeração de pessoas, em particular nos dias 12 e 13 de maio. Não basta não abrir o Santuário, é necessário que haja também a polícia!

          Estas medidas provocaram, com razão, a reação de muitos católicos na internet, ao exemplo de uma crítica do historiador católico Roberto de Mattei.

          O fechamento do Santuário é um símbolo muito representativo de nossa época e, entendo, um sinal claro das profecias de Nossa Senhora. 

          Há mais de 150 anos Nossa Senhora vem alertando da apostasia geral no mundo, a começar pela própria hierarquia da Igreja Católica. Foi assim em La Salette (1846), Rosa Mística  (1947 e 1966) e Garabandal (1961-1965).

          Nossa Senhora foi muito clara na sua intenção ao se manifestar aos pastorinhos de Fátima. Na verdade, Ela veio na intenção de Nosso Senhor: "Jesus quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração", disse Ela na aparição de 13 de junho. 

           E mesmo que o homem não cumpra com seus pedidos, depois de muito sofrimento, Ela prometeu, na aparição de 13 de julho, que "No fim, Meu Imaculado Coração triunfará".

          Ela pediu a comunhão reparadora dos cinco primeiros sábados, que consiste, suscintamente, na oração do Santo Rosário mais confissão e comunhão (missa) com o objetivo de reparar o Imaculado Coração ultrajado pelos pecados do homem.

          Ela pediu a consagração da Rússia, cujo ato evitaria o espalhamento de seus erros, causaria sua conversão e a consequente paz no mundo. 

          Ela prometeu esta paz ao mundo se esta devoção e esta consagração fossem ambas realizadas.

          Os pecados do homem são a causa dos conflitos da humanidade, bem como da condenação das almas ao inferno. Também são consequência do afastamento do homem de Deus, de um mundo onde a Santa Igreja se vê abandonada, em crise e, finalmente, perseguida, como mostrou a visão do "terceiro segredo" aos pastorinhos, onde um bispo vestido de branco atravessava uma cidade destruída e, aos pés de uma cruz, era assassinado por soldados junto com bispos, padres, religiosos, religiosas e todo o tipo de gente comum.

          Fátima olha para a humanidade e alerta para que acordemos da apostasia que levará o mundo a um conflito e um caos ainda maior do que os já presenciados e culminará na perseguição aberta à Igreja. 

          O Santo Rosário e a reparação ao Imaculado Coração são o centro de Fátima, a "fórmula" para evitar o caos que se avizinha. 

          Quando os próprios bispos de curvam às exigências do mundo, é porque a fé não foi forte o suficiente para manter os braços da Igreja abertos para receber e testemunhar, em meio à ameaça da doença e do medo, a ação de Deus no mundo, na vida, na história, no dia-a-dia como atestam tantos relatos de cura daqueles que se recomendaram à Fátima desde o início das aparições. 

          O espírito se apaga e os próprios homens de Deus se curvam ao Reino de César. A mentalidade do mundo penetrou na Igreja.

          É absolutamente necessário, é urgente que realizemos a devoção ao Imaculado Coração como Nossa Senhora mostrou à Irmã Lúcia na aparição de dezembro de 1925, cumprindo sua promessa de 1917. Santo Rosário, confissão e comunhão. Em reparação a Ela, Mãe de Deus, minha Mãe, sua Mãe. Em agrado a Nosso Senhor Jesus Cristo.

          A reparação a Ela é a libertação espiritual que levará luz à consciência de uma humanidade desorientada na escuridão e que trilhou o caminho dos grandes erros, para salvar quantos puderem ser salvos e trazer paz ao mundo.

          O Santo Rosário deve ser rezado mais do que nunca e a devoção ao Imaculado Coração propagada pelos quatro cantos da Terra.

          Nossa Senhora de Fátima, rogai por nós!

domingo, 26 de abril de 2020

A impiedosa fé na política


          Uma sociedade que se preocupa excessivamente com a política se afastou do plano da transcendência. Porque a política é essencialmente imanente, depende de uma ordem objetiva e uma estrutura cujas leis obedecem ao mundo e ignoram o plano espiritual.

          A fé na política é inevitável quando esta toma grandes proporções, quando procura tudo legislar. Por consequência, as pessoas são forçadas a reagir, de forma favorável ou contrária ao poder estabelecido, engendrando-as no jogo político.

          A era moderna piorou muito esta situação porque ela gerou a técnica, e a técnica progride numa complexidade crescente. Esta complexidade exige novas normas e leis, que se multiplicam na medida em que a sociedade se torna mais complexa. Cresce, portanto, a máquina de poder do Estado que a todo o instante tenta tapar o buraco por uma nova realidade ainda não regulada.

          Mais Estado, mais legislação, mais restrição às liberdades em nome destas mesmas liberdades.

          Engolfadas nas disputas ideológicas e em planos de poder frequentemente confusos, as pessoas não sabem de onde vêm as decisões que impactam suas vidas ao mesmo tempo em que são obrigadas a lidar com elas, de impostos à máquina eleitoreira das eleições. 

          Como resultado, todos se veem impelidos, em algum grau, a se comprometerem em opinar e se posicionar no jogo de poder.

          Bastava acessar a internet para ver que ninguém ficou à parte do recente conflito entre o agora ex-ministro Sérgio Moro e o presidente Jair Bolsonaro. Este é mais um caso de como a política tomou proporções nunca antes vistas. 

          Todos têm algo a dizer (ou se sentem na obrigação de dizer) porque sabem que, de alguma forma, isto pode impactar suas vidas, mesmo sem entender como. Junto com o crescente poder político, cresce também o império da opinião.

          No fundo, esta luta é de ordem espiritual. Não porque por detrás de tudo isto estejam anjos e demônios. Não. Mas porque, ao darmos excessiva relevância às coisas do mundo, esquecemos que a fé deve ser depositada em Cristo e não em César. Nenhuma autoridade nos fará feliz. Nenhuma.

          Do contrário, seremos impiedosamente esmagados pela máquina que rege a política. Na lógica do mundo não há perdão.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

A fé na coisa errada


          Às vésperas de uma eleição importante é evidente que criamos expectativas. Afinal, o poder político adquiriu uma relevância enorme de forma que esperamos que o administrador, junto com seus aliados, realize o que desejamos para nossa sociedade, sociedade esta da qual nós fazemos parte. Isto faz de nós potenciais beneficiários dos comandos que vêm do alto, a exemplo da prosperidade material e uma vida cotidiana burocraticamente simples.

          Na medida em que uma sociedade se desenvolve economicamente mais complexa se torna seu funcionamento. Mais empresas, mais associações, mais produtos circulando, mais agitação. Disso, se faz necessário mais regulação e mais controle. Na medida em que uma sociedade se desenvolve economicamente cresce junto o poder do Estado, que não precisa dirigir a economia, mas regular seu funcionamento de forma que haja um ordenamento mínimo e que as relações sociais se harmonizem com este ordenamento. Em outras palavras: mais poder político atuando em cada vez mais setores da sociedade. Por isso a política importa tanto: ela penetrou em muitas áreas que antes não atuava e mais minucioso se tornou o controle que exerce sobre nosso dia-a-dia. Basta ver as regulações que se discutem acerca de, por exemplo, a internet ou combate ao contrabando. Junto a isso, surgem as regulações sobre nosso comportamento: como educar seus filhos, não fumar, limitar o consumo de determinados alimentos, cuidar com as palavras ditas na rua, mesmo os olhares. Quanto mais desenvolvimento, mais complexidade socioeconômica e maior a tentação de ir além, extrapolar os limites burocráticos e partir para a burocratização da vida íntima. Os direitos e as leis crescem e exigem cada vez mais controle social.

          Esta é a ilusão: acreditar que o poder político tudo pode e tudo deve. Daí a fé na política, a esperança de que o poder trará a nós a tão sonhada paz e prosperidade ou pelo menos uma boa paz e uma boa prosperidade. A vida se tornou tão complexa que fomos engolfados pelo cotidiano e temos enorme dificuldade de olhar além do mundo visível, retendo nele a fé que deveria saltar para o Eterno. Sufocados pela vida agitada, esta ilusão desemboca num erro fatal, que é a crença de que a ação humana tudo pode e é infalível. Não é. Caso fosse, ou as decisões estariam sempre corretas, ou a realidade física seria plástica à vontade humana. Esta fé vã é comprovada pelas sucessivas crises que tantos países passam mundo afora e, claro, pela que passa o Brasil neste momento. Só Deus pode tomar decisões sempre certas e ser capaz de manipular a realidade física de acordo com Sua vontade. É lá que devemos colocar nossas esperanças esperando sempre que se um político fizer besteira ele faça a menor besteira possível.  

           

terça-feira, 27 de junho de 2017

Você existe? Agradeça também a Nossa Senhora

(A Anunciação, pintura de Leonardo da Vinci, 1472-1475.) 

          Nesta semana fiz duas postagens no meu Facebook que gostaria de colocar aqui porque são complementares. 

          "A aceitação de Maria à oferta transmitida pelo arcanjo Gabriel de conceber Jesus é um ponto de partida na salvação de nossas almas e um momento decisivo na História mundial. Ponto de partida da salvação porque com a vinda de Jesus são resgatadas as almas da mansão dos mortos e estabelecida a via de salvação às pessoas de sua época e das épocas futuras (inclusive eu, você e todos nós); momento decisivo na História mundial porque da vida e do legado Jesus surgiu o cristianismo, que serviu de base de civilizações inteiras principalmente na América, Europa e no mundo eslavo. Nossa Senhora é como a chave que ao girar liga o motor de um carro: sem Ela não haveria viagem, não haveria futuro, não haveria vida. Deus, claro, poderia ter um plano B caso Nossa Senhora dissesse "não" ao arcanjo, mas neste plano nós muito provavelmente não estaríamos aqui. Nossa gratidão a Ela deve ser profunda e eterna."
          "Na hipótese de que Nossa Senhora tivesse recusado a oferta do arcanjo Gabriel e Deus não tivesse um plano B, nós definitivamente não existiríamos. A questão é simples: Deus não colocaria Seus filhos num mundo em que não houvesse uma via de salvação, condenando automaticamente todos ao inferno. Isto seria totalmente contrário ao amor divino, que é infinito e busca todas as formas possíveis de união com os seres que criou. Se tivéssemos de ser criados para sermos condenados, Deus simplesmente não nos criaria, do contrário entraria em contradição Consigo mesmo. Por definição, Deus é unidade, é harmonia, é coerência. Ele não pode ser auto-contraditório, o que faria Dele um deus falso, um deus que mente ao dizer que é amor. Se estamos aqui é porque podemos estar com Ele um dia, e o sim de Nossa Senhora foi o que permitiu a vinda de Jesus Cristo, por isso, a possibilidade um dia O encontrarmos. Agradeça também a Ela por sua vida."

          O papel de Nossa Senhora em nossa vida é, antes de tudo, o de permitir que viéssemos ao mundo. Ela poderia ter bloqueado os planos de Deus, que teria de buscar alternativas e, portanto, alterar o curso da História humana para que não se perdesse Seu plano de salvação da humanidade.

          A mente divina é insondável, e Seus propósitos são conhecidos apenas com a descoberta do sentido dos acontecimentos em nossa vida. Portanto é impossível saber se nós realmente estaríamos aqui caso Deus tivesse um plano B após um "não" de Nossa Senhora à oferta do arcanjo. De qualquer forma, Ele quis que Seu plano passasse por Ela. Deus fez de Maria a pessoa que permitiu que viéssemos ao mundo dentro do plano que Ele traçou para nós. A Deus devemos nossa vida, e a Ela também.

sábado, 17 de setembro de 2016

O Tratado e a pedagogia de Nossa Senhora

(Apostila de uma vida espiritual.)

Quando fiz a consagração à Nossa Senhora segundo o método de São Luís Montfort, lembro que estava cheio de escrúpulos, me considerava indigno da consagração, mas li o livro numa semana e me consagrei. Hoje percebo que esta consagração quase às pressas foi um salto no escuro, como quem diz "Nossa Senhora, me pega!" E lá fui eu me jogar de um edifício.

Com o tempo percebi que a consagração, que faz de Nossa Senhora a depositária de todas as nossas graças, bem como a mestra de como essas graças serão utilizadas, se para meu bem ou para o do próximo, reforçou minha estabilidade espiritual. Explico: sinto-me compromissado com Ela. Um exemplo são as orações: mesmo que eu deixe a oração do terço de lado, fico no compromisso de fazê-la no dia seguinte; se eu falo muitas coisas sem pensar ou muitas bobagens, como piadas além do ponto, volto atrás e sinto um arrependimento (já tinha isto antes, mas hoje esta atitude é mais consciente); fiquei muito mais sensível aos pecados, principalmente graves. A dor e o incômodo interiores numa briga sem sentido, por exemplo, se tornaram mais profundos.

São Luís Montfort afirma em Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem que o demônio faria brotar nos leitores de seu livro escrúpulos para que não realizassem a consagração. Foi o que ocorreu comigo, e esta é a resistência da maioria das pessoas ao se depararem com a proposta do Tratado.

(Foto de São João Paulo II com o lema do Tratado "Totus Tuus" - "Todo Teu". Papa se tornou um dos grandes divulgadores da obra de São Luiz Montfort.)

Ninguém é podre o suficiente para que não realize uma entrega total à Nossa Senhora que, no fundo, é a entrega à Deus, porque a misericórdia divina é infinita. Portanto, qualquer erro é de forma infinitamente menor, proporcionalmente, à capacidade que Deus tem de reparar tudo. Como tudo o que está nas mãos Dela vai para Jesus, a consagração à Nossa Senhora é um ato de reparação completa. Ela torna-se nossa pedagoga especial, nossa professora particular na vida espiritual que nos ensina a sermos como o Seu Filho. Ela educou Jesus, que era Deus, por trinta anos, e por isto mesmo saberá como lhe educar.

Montfort também previu que o demônio esconderia o Tratado por muito tempo. Foi assim desde sua publicação em 1712 até meados do século XX. Foi João Paulo II o maior propagandista do Tratado, afirmando que a consagração foi decisiva para sua vocação sacerdotal. Ele virou papa. E santo.

Não há milagre que Nossa Senhora não possa fazer, mesmo porque milagre é Deus quem faz. Ela lhe dará um bom banho e lhe ensinará a ser um bom filho para que aprenda a crescer na vida. E ainda lhe encherá de mimos, com uma boa mãe faz.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

A pesca do dia 11 de fevereiro de 2013

(Somos pescados por Deus para sermos pescadores de homens.)

Eu estava de férias na praia de Xangrilá, litoral norte do Rio Grande do Sul, na sexta-feira 11 de fevereiro de 2013. Ao me levantar da cama pela manhã dei de cara com a televisão ligada enquanto era apresentada a notícia de que o então Papa Bento XVI anunciou que renunciaria ao cargo no dia 28 daquele mês. Foi uma enorme surpresa. Não tardei a pensar que havia mão do inimigo nesta história dada a firmeza com que o Papa dirigia a Igreja.

De qualquer forma minha vida não foi abalada imediatamente pela notícia. Apenas mantive o sentimento de surpresa por algumas horas, mas pensava no assunto. Sou católico, e o Papa é como um pai, o guia da Igreja Católica por herança histórica vinda diretamente de Pedro e, deste, de Jesus Cristo. Jesus é o fundador da Igreja também em seu sentido histórico, e os papas são delegados diretamente por Ele para guiar Sua Igreja.

Acontece que nesta época eu tinha dúvida vocacional. Não sabia se meu caminho era o matrimônio, a vida leiga ou religiosa, e caso fosse vida religiosa provavelmente seria monge. Eu fazia perguntas demais, e na ânsia por respostas acabava por não ouvir os sinais de Deus. Tem gente que reza, reza e reza, mas de tanto tagarelar interiormente fica surdo à resposta que Ele nos dá.

(Igreja São Pedro, em Xangrilá, local onde ouvi o Evangelho: oração, calor e muitas dúvidas.)

Neste dia fiz a oração do terço pedindo à Nossa Senhora uma resposta à minha vocação. Sentia-me pressionado pela própria dúvida e a questão não saía da minha cabeça. Mais tarde fui à missa na única igreja de Xangrilá, a São Pedro, em frente à praça central da cidade Qual a minha surpresa quando foi lido o Evangelho do dia. Era o mesmo Evangelho deste 1° de setembro de 2016: a passagem em Lucas, capítulo 5, versículos de 1-11:

"Naquele tempo, Jesus estava na margem do lago de Genesaré, e a multidão apertava-se a seu redor para ouvir a palavra de Deus. Jesus viu duas barcas paradas na margem do lago. Os pescadores haviam desembarcado e lavavam as redes. Subindo numa das barcas, que era de Simão, pediu que se afastasse um pouco da margem. Depois sentou-se e, da barca, ensinava as multidões. Quando acabou de falar, disse a Simão: 'Avança para águas mais profundas, e lançai vossas redes para a pesca'. Simão respondeu: 'Mestre, nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes'. Assim fizeram, e apanharam tamanha quantidade de peixes que as redes se rompiam. Então fizeram sinal aos companheiros da outra barca, para que viessem ajudá-los. Eles vieram, e encheram as duas barcas, a ponto de quase afundarem. Ao ver aquilo, Simão Pedro atirou-se aos pés de Jesus, dizendo: 'Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador!' É que o espanto se apoderara de Simão e de todos os seus companheiros, por causa da pesca que acabavam de fazer. Tiago e João, filhos de Zebedeu, que se eram sócios de Simão, também ficaram espantados. Jesus, porém, disse a Simão: 'Não tenhas medo! De hoje em diante tu serás pescador de homens'. Então levaram as barcas para a margem, deixaram tudo e seguiram a Jesus."

(Representação do convite de Jesus à Pedro: "Não tenhas medo! De hoje em diante tu serás pescador de homens.")

Desnecessário dizer o que pensei deste trecho: Jesus Cristo em pessoa fazendo um milagre na frente de Simão (o Pedro), este reconhecendo a divindade de Jesus e sua pequenez, e Jesus convidando Simão para seguir-lhe e passar a anunciar a Boa Nova à humanidade. Simão, sem exitar, larga tudo e O segue. Tiago e João fazem o mesmo. Os três viraram apóstolos, e Pedro foi o primeiro papa da Igreja Católica, cuja herança Bento XVI havia abdicado pelo bem da Igreja. Toda história ouvida atentamente dentro da igreja que leva  nome do primeiro papa.

(Mosteiro de Nossa Senhora de Nazaré em Rio Pardo, RS, que visitei mais de dois anos depois em 9 e 10 de julho de 2015. Não era meu caminho.)

A resposta era clara: eu necessitava largar tudo e seguir Jesus. Mas como? Acontece que "largar tudo" não é necessariamente deixar tudo para trás, literalmente. É desapegar, fazer com que tudo seja menos importante do que o próprio Jesus, colocar as coisas (bens, pessoas, ideias, planos de vida, relacionamentos, emprego, memórias) num plano inferior quando confrontados com Sua pessoa. É, em última instância, cumprir o Primeiro Mandamento, independente da vocação. 

Obviamente, confuso que eu estava naquele ano e incapaz de silenciar minha vida interior para ouvir a Deus, senti-me pressionado a, sim, largar tudo e entrar para a vida religiosa, monástica de preferência. E provavelmente por alguma influência demoníaca entrava em confusões mentais e sentimentais que resultavam na supressão da capacidade de me ouvir e ouvir a Deus. Quanto mais repressão interior menos luz divina para iluminar a dúvida, menos Deus nas minhas decisões, mais confusão e melhor para o inimigo.

Mas como disse, abandonar tudo por Jesus não é necessariamente abandonar todas as coisas, literalmente, salvo situações muito específicas. Abandonar tudo é colocar as coisas abaixo Dele e Nele: é Ele quem cuida das nossas coisas, história, planos, família. É Ele a nossa barca, o depositário de todas os nossos bens, memórias, sentimentos, pessoas, guia do nosso rumo. Talvez eu tivesse que, realmente, abandonar tudo, deixar tudo para trás. Mas não era o caso, e hoje eu sei que não é.

(Bento XVI como Papa Emérito: título recebido depois do majestoso e humilde gesto consumado em 28 de fevereiro de 2013.) 

Na primeira homilia após anunciar sua renúncia, Bento XVI disse que abandonava a barca (referindo-se ao papado) porque a barca não era sua. Era de Deus. Ele abdicava do trono de Pedro porque sabia que o trono não era dele. Meses depois vi o real significado de sua renúncia: o Papa mostrava que Jesus Cristo estava em primeiro lugar para ele de tal forma que até mesmo a liderança da Igreja ele deveria abandonar caso fosse necessário. Bento XVI realizou aos olhos do mundo inteiro o que o Evangelho de Lucas pedia.

Poucas vezes na minha vida vi um testemunho tão eloquente da fé cristã. Bento XVI foi, para mim, o grande exemplo na época de minha dúvida vocacional: a chave está na entrega, no abandono de todas as coisas em Deus. Ele faz o resto. 

Com o tempo aprendi que eu estava sendo pescado por Deus através do exemplo de Bento. E também aprendi, mais recentemente, que a pesca que devo realizar é no mundo dentre as pessoas com as quais eu sempre vivi. Jesus me chamou naquele dia quanto em tantas outras vezes. Quer a mim pelas ruas.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Porque eu acredito em Deus

A um mês atrás [ano de 2011] me questionaram na internet "Por que VOCÊ acredita em Deus?". Minha resposta foi a seguinte:

"A minha real convicção em Deus se fundamentou quando percebi que Ele é a ÚNICA resposta viável para uma existência com sentido. A sensação de viver e ser "nada" é horripilante e enloquecedora. Em última instância, é a mística do demônio. 

Se formos especular as possibilidades de sentido numa vida sem Deus, entramos em espiral. Não é possível colocar tudo em dúvida, de imaginar como pode ser a vida se Deus não existe simplesmente porque isso NÃO FAZ SENTIDO. 

Pensar num Universo sem Deus é como tentar sair do mesmo Universo e Dele mesmo e daí questionar Sua existência, como se se pudesse ver a Existência "de fora". Isso exige um esforço tão monstruoso que, além de ser impossível, leva a pessoa à locura e à experiência do Mal.

Tenho a radical convicção que não há saída num Universo sem Deus. Ele é estritamente lógico e inevitável."