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sexta-feira, 30 de setembro de 2022

As origens pouco glamorosas do Leste de Londres

 

(Leytonstone Road em Stratford, Leste de Londres. Agosto de 2022.)


(Trecho inicial do capítulo The stinkin pile do livro London. The Concise Biography
de Peter Ackroyd.) 

          Tem sido frequentemente sugerido que o East End é uma criação do século XIX; certamente a frase em si não foi inventada até a década de 1880. Mas na verdade o East End sempre existiu como uma entidade distinta e separada. A área de Tower Hamlets, Limehouse e Bow se localiza numa faixa separada de cascalho, a dos cascalhos de Flood Plain que foi criada durante a última erupção glacial em torno de 15.000 anos atrás. Se essa longevidade desempenhou algum papel na criação da atmosfera única do East End talvez esteja em aberto, mas a importância simbólica do leste versus oeste não deve ser ignorada em qualquer análise do que se tornou conhecido no final do século XIX como "o abismo".

          Há uma característica interessante e significativa da zona leste que sugere uma tradição viva que remonta ao tempo dos romanos. No final do século XIX e início do XX foi encontrado evidência de uma grande "muralha" que corre ao longo da porção oriental do Tâmisa, descendo a margem do rio e ao longo das margens do Essex, para proteger as terras das depredações dos rios de maré; era constituído de bancos de madeira e terraplanagem. No fim do muro em Essex, próximo à área conhecida hoje como Bradwell Waterside - que pode plausivelmente ser traduzido, mesmo após dois mil anos de mudanças, como Broad Wall - foram descobertas terraplanagens de uma fortaleza romana bem como as ruínas de uma capela posterior, St. Peter-on-the-Wall, que se tornou um celeiro. Outros antiquários locais também encontraram pequenas igrejas ou capelas ao lado do que poderia ser chamada esta grande muralha oriental. Mantendo a água na baía e ajudando a drenar o pântano das áreas ao leste, se criou o East End ou o lado negro de Londres. Toda cidade deve ter um. 

          E onde começa o "East"? De acordo com certas autoridades urbanas o ponto de transição é marcado pelo Aldgate Pump, uma fonte de pedra construída ao lado do poço na confluência da Fenchurch Street com a Leadenhall Street; a bomba existente se localiza a poucos metros a oeste da original. Outros antiquários argumentam que o verdadeiro East End começa no ponto onde a Whitechapel Road e a Commercial Road se encontram. A mancha de pobreza, já aparente no fim do período medieval, de qualquer forma se estendeu gradualmente. Stow (1) observou que entre 1550 e 1590 havia "uma rua ou passagem estreita imunda contínua com becos de pequenos cortiços ou cabanas construídos... quase até Ratcliffe." Um relato de 1665 descrevia a superlotação criada por "pobres indigentes e pessoas ociosas e relaxadas". Portanto, as "cabanas imundas" do relato de Stow estavam cheias de pessoas "imundas". É a história de Londres.

          As indústrias do bairro leste gradualmente se tornaram imundas também. Muito de seu tráfico e comércio vinha do rio, mas no curso do século XVII a região se tornou cada vez mais industrializada. O "Easterly Pyle" (2) se tornou lar do que ficou conhecido como "as indústrias de fedor"; representava o foco do medo de Londres à corrupção e à doença. Portanto, o voo para o oeste continuou. A partir do século XVII o traçado das ruas e praças se moveu inexoravelmente naquela direção; os ricos, os bem-nascidos e os elegantes insistiram em morar no que Nash (2) chamou "as respeitáveis ruas do extremo oeste da cidade". 

          Tem sido observado que o West End tem o dinheiro e o East End tem a sujeira; há lazer para o Oeste e trabalho no Leste (3). Ainda nas primeiras décadas do século XIX, o East End não era apontado como sendo a mais terrível fonte de pobreza e violência. Era conhecido principalmente como o centro da navegação e da indústria e, portanto, lar dos trabalhadores pobres. Mas a indústria e a pobreza se intensificaram constantemente; tinturarias e químicas, fábricas de adubo e fábricas de fumo negro, fabricantes de cola e de parafina, produtores de tinta e farinha de osso, todos agrupados em Bow, Old Ford e Stratford. O Rio Lea foi por séculos o local da indústria e do transporte, mas ao longo do século XIX foi ainda mais explorado e degradado. Uma fábrica de fósforos na sua margem dava à água um gosto e aparência de urina, enquanto que o cheiro em toda a área se tornava desagradável. Toda a sujeira de Londres rastejou para o leste.  

     Mas então, em algum ponto da década de 1880, alcançou o que poderia ser chamado de massa crítica. Ele implodiu. O East End se tornou "o abismo" ou "o mundo inferior" de estranhos segredos e desejos. Era a área de Londres na qual se amontoavam mais pessoas pobres do que qualquer outra, e dessa congregação de pobreza surgiram relatos de maldade e imoralidade, selvageria e vício inominável.

(Atual marco da Aldgate Pump. Fenchurch St ao fundo e Leadenhall St no primeiro plano. Setembro de 2022. )

(1) John Stow (1525-1605), historiador e antiquário de Londres. 

(2) Um dos nomes dado ao East End. "Pyle" faz referência a um amontoado em grande quantidade.

(3) O autor utiliza os nomes "West" e "East" como trocadilhos dos pontos cardeais.



 

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Londres. O nascimento da Babilônia imperial


(Edifícios neoclássicos da Era Vitoriana na Regent Street. Agosto de 2022.)

(Trecho inicial do capítulo How many miles do Babylon? do livro London. The Concise Biography, de Peter Ackroyd.)

          Em torno da metade da década de 1840, Londres tinha se tornado conhecida como a maior cidade da Terra, a capital do império, o centro internacional de comércio e finanças, um vasto mercado mundial dentro do qual o mundo se derramava. Em fotografias e desenhos contemporâneos as imagens mais marcantes são as do trabalho e sofrimento. Mulheres sentadas e curvadas com seus braços cruzados; uma família de mendigos dorme sobre bancos de pedra debaixo de uma ponte com o contorno escuro da Catedral de São Paulo aparecendo detrás deles. Como Blanchard Jerrold (1) colocou: "Os velhos, os órfãos, os coxos e os cegos de Londres encheriam uma cidade comum." Essa é uma concepção estranha, uma cidade inteiramente composta por mutilados e feridos. Mas isso é, em parte, o que Londres era. Também o número de crianças e vagabundos sentados resignadamente na rua é infinito; infinitos são também os vendedores de rua, geralmente retratados contra um fundo maçante de tijolo ou pedra.

          Os interiores pobres da cidade vitoriana geralmente são crepusculares e imundos com trapos pendurados entre lâmpadas de sebo fétidas; muitos dos habitantes parecem não ter rostos, uma vez que estão voltados para a sombra, e em torno deles vigas de madeira dilapidadas e escadarias numa confusão maluca. Muitos, ao ar livre e dentro de casa, parecem encurvados e pequenos como se o próprio peso da cidade os tivesse esmagado. Há ainda um outro aspecto da cidade vitoriana que as fotografias e imagens evocam: de vastas inumeráveis multidões, as ruas cheias de vida fervilhante e combatente, a grande inspiração para o trabalho de mitógrafos do século XIX como Marx e Darwin. Há também lampejos de sentimentos - piedade, raiva e ternura - a serem observados ao passar dos rostos. E ao redor deles pode ser imaginado um ruído forte e permanente como um grito interminável. Essa é a Londres vitoriana.  

          "Londres vitoriana" é, obviamente, um termo genérico para uma sequência de mudanças de padrão de vida urbana. Nas primeiras décadas do século XIX, por exemplo, ainda se mantiveram muitas das características dos últimos anos do século anterior. Ainda era uma cidade compactada. Ainda era apenas parcialmente iluminada por gás, e a maioria das ruas eram clareadas por poucas lamparinas de óleo com garotos de tocha carregando luzes para escoltar os últimos pedestres para casa; havia mais "Charleys" (2) do que policiais fazendo suas rondas. Ainda era perigoso. Havia plantações de morango em Hammersmith e em Hackney, e as carroças ainda percorriam seu caminho em meio a outro tráfego puxado a cavalo para o Haymarket. Os grandes edifícios públicos, com os quais a base do império logo seria decorada, ainda não tinham surgidos. Os entretenimentos típico também eram aqueles do final do século XVIII com as brigas de cães, as rinhas de galo, o pelourinho e as execuções públicas. Todas as ruas e casas possuíam janelas rebocadas e pintadas como se fossem parte de uma pantomima. Havia ainda mascates ambulantes vendendo literatura popular barata, e cantores de bailes com a última novidade; havia teatros baratos e gráficas exibindo em suas janelas caricaturas que poderiam sempre segurar uma multidão; havia jardins de delícias e cavernas de harmonia (3), salões de bebidas e salões informais e de dança. Era uma cidade excêntrica. Ainda não havia sido padronizada ou submetida às agências vitorianas de uniformidade e propriedade.

          É impossível calcular quando essa transformação ocorreu. Certamente Londres tomou um outro aspecto quando continuou a crescer e se estender por Islington e St. John's Wood no norte; então por Peddington, Bayswater, South Kesington, Lambeth, Clerckenwell, Peckham e todos os pontos da bússola. Se tornou a maior cidade do mundo justamente no momento em que a própria Inglaterra se tornou a primeira sociedade urbanizada do mundo.

          Ela se tornou a cidade do relógio e da velocidade por si só. Se tornou o lar dos motores e da indústria movida a vapor; se tornou a cidade onde as forças eletromagnéticas foram descobertas e divulgadas. Também se tornou o centro da produção em massa, com as forças impessoais de oferta e demanda, lucros e perdas, intervindo entre fornecedor e cliente. No mesmo período negócios e governos eram supervisionados por um vasto exército de funcionários e escriturários que costumavam usar trajes escuros uniformes.

          Era a cidade do nevoeiro e da escuridão mas, também em outro sentido, estava cheia de escuridão. Uma população de um milhão no início do século cresceu para aproximadamente cinco milhões no seu fim. Em 1911, havia crescido para sete milhões. Tudo estava se tornando mais sombrio. Os trajes do homem londrino, como aqueles dos funcionários, mudou de cores variadas e brilhantes para o preto solene da sobrecasaca e da cartola. Se foi, também, a particular graciosidade e cores da cidade do início do século XIX; a simetria decorosa de sua arquitetura georgiana foi substituída pela forma neogótica ou neoclássica imperialista dos edifícios públicos vitorianos. Eles incorporavam o domínio do tempo bem como do espaço. Também nesse contexto emergiu uma Londres que era mais massiva, mais cautelosamente controlada e mais cuidadosamente organizada. A metrópole era muito maior, mas também se tornou mais anônima; era uma cidade mais pública e esplêndida, mas também menos humana. 

          Desse modo, se tornou o clímax, ou a epítome, de todas as cidades imperialistas anteriores. Se tornou Babilônia.


(1) Autor e jornalista inglês. Viveu entre 1826 e 1884.

(2) O termo "Charley" é, possivelmente, uma referência a pessoas solitárias.

(3) Locais públicos, como bares, onde intelectuais londrinos se reuniam.