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terça-feira, 24 de maio de 2022

Uma vida não vivida

          Você está aí, no alto de um grande edifício. A brisa bate no rosto, o sol esquenta sua pele, nuvens algodoadas transitam lentamente pelo céu. Vez ou outra alguns pássaros atravessam o alto e soltam cantos e burburinhos em línguas não compreensíveis. A cidade se estende a grande distância e depois há uma floresta a perder de vista. Abaixo, carros, ônibus, pessoas em movimento. Tudo aberto e funcionando: crianças indo à escola, consumidores entrando e saindo das lojas, moradores abrindo e fechando as janelas, ora para ventilar os cômodos, ora para barrar a luz direta do sol. Mas você está aí, em pé sem dar um passo adiante num mundo cuja única regra é não parar.

          Esta é a melhor forma de não viver: deixar de escolher, desistir dos objetivos, não cumprir com as necessidades e não se comprometer com as circunstâncias que lhe são apresentadas. A pessoa que não vive não decide e, por isso mesmo, não arrisca. Diria melhor: decide não arriscar pois, seja por comodismo ou trauma de um maldito evento passado, acredita ser melhor deixar o mundo andar por si mesmo. Mas não é.

          Porque o mundo que anda assim o faz porque decide. É claro que as nuvens e mesmo os animais não decidem por si, vivem plenamente a condição de seu ser conforme lhes imputa sua natureza, mas há uma razão para as nuvens virem de leste e não de oeste e os pássaros voarem em bando e não sozinhos. Assim como há razão para sua inércia, nascida da apatia da vontade, da não decisão, ou melhor, da decisão de não viver. Só nós podemos escolher, atitude essencialmente humana e necessariamente moral: somos livres para trilhar o caminho do Bem e do Mal. Somos responsáveis pelo bem e o mal que fazemos, a começar a nós mesmos. 

          O caminho se abre a cada momento, a cada instante, e é definitivamente mau não decidir. Sabe aquela garota que você sonhava que um dia estaria contigo? Você não teve coragem e não fez nada ou não disse nada. Sequer tentou e agora está aí unicamente submerso em seus sonhos e desejos. Onde estão os seus amigos que há anos você não vê? Acreditou que a eles caberia a atitude de chamar para um encontro ou puxar uma conversa. Toda a atitude exigida dos outros é primeiro nossa, sempre. Você acha seu trabalho um porre e nem de longe imagina fazer o que mais lhe dá prazer? Abdicou de sua óbvia vocação profissional e preferiu seguir uma carreira mais segura. Ou ainda pior: deixou o trabalho de lado para apenas "fazer o que gosta". Nunca, jamais pare de trabalhar. Não há sonho sem sustentação material mínima, e não há sonho mais estúpido do que acreditar num trabalho de prazer constante ou viver unicamente de amor como se o sustento brotasse de bons sentimentos.

          Não viver é uma decisão cujas implicações não são apenas materiais, mas morais, pois aqueles à sua volta vivem o fardo de seus erros, isso quando não têm de sustentar materialmente este erro. Viver começa por decidir, e a primeira luta está na contemplação do fardo, de sua própria cruz, de que ela nunca é tão pesada que não se possa carregar.

          Um mundo que se move é um mundo vivo. No arrasto do tempo, até os cemitérios estão em movimento.

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Dia 10 de novembro de 2021

 

          Para quem gosta de meteorologia como eu e tem como um dos entretenimentos observar as condições do tempo nada mais chato do que dias e dias na mesma condição.

          Este é o padrão do tempo desde fins de outubro, e hoje não foi diferente: manhã fresca, tarde agradável; tempo bom com sol e nuvens, vento soprando de sudeste ou leste devido a um centro de alta pressão no oceano; ao final do dia as nuvens diminuem, o vento continua mas um pouco mais fraco, e a sensação de frio leve aumenta. Enfim, um enfado atmosférico que parece não ter fim e que faz esquecer o agitado mês de setembro, quando tivemos pelo menos quatro episódios de temporais aqui em Porto Alegre, um deles durando mais de dois dias, para minha empolgação e alegria.

          Essa eternidade coincidiu com um assustador e impressionante trecho da obra Retrato de um artista quando jovem, do escritor irlandês James Joyce. Sentado na rede e sentindo o vento leve que soprava trazendo as nuvens algodoadas típicas desta época, fiquei impactado com a longa descrição do que seria o inferno pela fala de um dos personagens do enredo. 

          Seu nome é Pe. Arnall, que realizava um impactante sermão durante um retiro em que participava o personagem principal, o introspectivo Stephen Dedalus, com seus colegas do Belvedere College. Vivendo uma vida cinzenta e atormentado na consciência por ter se entregue aos prazeres de uma prostituta, os ouvidos de Stephen estavam atentos a toda a explanação do que era o inferno.

          A descrição de Joyce é incrivelmente bem construída, didática e muito profunda. O leitor consegue imaginar as cenas do que seria o inferno, com as almas esmagadas umas sobre as outras e sofrendo por tormentos interiores e exteriores dos mais diversos tipos, imersas na escuridão que não se vê mas se sente e, acima de tudo, que dura para sempre. O sofrimento é tão vasto e absoluto quanto a eternidade, apresentada na analogia que o Pe. Arnall faz com o trabalho de um pássaro que, de grão em grão, vai retirando a areia de muitos milhões de milhões de montes de areia amontoados uns sobre os outros. Assim é a indizível duração da eternidade, cravadas a fogo na consciência das almas condenadas, que sabem, agora e para sempre, quão duradouro é o seu sofrimento.

          Obviamente o tédio do tempo não muda não se compara ao sofrimento que não passa. Mas há algo de infernal nisso: para quem tem apreço pela mudança, se anima ao ver as radicais transformações do tempo com bigornas de vapor d'água a ejetar raios, clarões e estrondos, se agita com a chuva que cai com força e faz vibrar o telhado, se anima ao ver o efeito do ar gelado sobre a relva que congela, fica na expectativa de alguma neve num local próximo, e se impressiona - mas reclama - com o calor que parece fazer tudo derreter, nada pior do que o marasmo. Felizmente isso não é tudo, mas apenas um aspecto, um detalhe da vida cotidiana. Se o tempo não era atrativo, a obra de Joyce, que aos poucos revelava sua impressionante profundidade, o era. 

          No dia anterior, enquanto dava prosseguimento ao livro, meu gato se aproximou e se jogou aos meus pés como se quisesse me acompanhar, mesmo que fisicamente, na aventura ficcional ambientada na Irlanda de cem anos atrás. Na expectativa de que meus dedos, cobertos pela fina camada da meia azul que eu usava, lhe acariciassem o pescoço e massageassem o profundo das orelhas, ele rolou no chão, e meus membros inferiores não tardaram a lhe preencher os sentidos de conforto e alegria. 

          Se eu estivesse totalmente preso a um único desejo, a um único afazer, se minha vida se resumisse a um único prazer que é observar e analisar o tempo, sim, a vida seria um inferno, e o tédio, mesmo que durando alguns dias, se tornaria quase tão insuportável quanto a consciência de uma eternidade dolorosa. Mas a vida não é assim. Mesmo num momento de poucos afazeres, sempre há algo diferente ou uma agradável surpresa a brotar do mundo que nos rodeia ronronando aos nossos pés e ouvidos. Enquanto estivermos vivos teremos a chance de sermos salvos.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Dia 20 de outubro de 2021

          A pior que pode acontecer para quem está frustrado com as coisas em geral e principalmente sua vida particular é julgar que o mundo é uma merda. Nesse cenário desestimulante para o bem e estimulante para a morte ou a revolução, para que ter um plano de vida? Para que ser bom? Enfim, para que viver?

          A desesperança é um veneno que mancha o olhar sobre o mundo. No fundo, a desesperança não é o resultado de um mundo mau, mas um escurecimento da alma, elemento que mancha, ao gosto do diabo, a visão sobre o mundo como se este fosse mau. Não por acaso a Divina Comédia, de Dante Alighieri, apresenta na porta de entrada do inferno a seguinte inscrição: "Ó, vós que entrais, abandonai toda a esperança". Quem desesperançado é acaba por perder a fé.

          Mas como o mundo é essencialmente bom, sobre ele também brota a virtude, e seu cultivo é o melhor combate ao escotoma diabólico que nos cega à bondade do mundo. Não basta ser apenas bom, temos de querer se bom para provar, ante si e em consonância com o mundo ao redor, que a esperança não só existe como vive, se sustenta e cresce mediante um ato de decisão. É este o primeiro despertador da manhã, o real motivador para saltar da cama e começar mais um dia ordinário. Não fosse a esperança e já acordaríamos mortos. 

sábado, 24 de outubro de 2020

Vocação e sacrifício

(Sísifo dormindo)

          Todas as pessoas possuem uma vocação. Não falo aqui em vocação no sentido religioso ou matrimonial, mas enquanto pessoa, enquanto ser. 

          Nossa caminhada na vida é uma revelação de nós para nós mesmos. É olhar para si e descobrir, aos poucos, que temos uma certa personalidade que deve ser descoberta e ser trabalhada para cumprir seu pleno potencial.

          Este vídeo, divulgado no início de 2020 pelo pelo ICLS (Instituto Cultural Lux et Sapientia), dirigida pelo professor Luiz Gonzaga de Carvalho, mostra como as pessoas descobrem sua vocação ao longo da vida e os erros que muitos cometem, muitas vezes por uma má educação na família ou orientação errada dada pela educação moderna, ao confundir vocação profissional com vocação de vida.

          Todos os dias tomamos atitudes com vistas a um fim, e este itinerário vai formando nossa narrativa. Assim como numa viagem, olhamos para trás e vemos a distância percorrida; o passar do tempo nos pesa, e conseguimos perceber, com maior ou menos consciência, as conquistas (ou a falta de) ao longo da vida. Conquistas essas que são o cumprimento de uma narrativa.

          Quem chegou aos trinta e cinco, quarenta anos sentiu nas costas o que fez ou deixou de fazer. É o período da vida, segundo o apresentado no vídeo, em que descobrimos nossa vocação enquanto pessoa.

          Por experiência, posso dizer a dificuldade que é chegar nesta faixa de idade e ver o que não foi criado e construído, o peso que pode ser a narrativa não narrada, a vida não vivida e a vocação não descoberta.

          Na verdade, o problema não está em não descobrir a vocação no prazo, mas em não buscá-la, não se descobrir na experiência de vida, seja pela sucessão de erros cometidos, a recusa de viver plenamente com os esforços exigidos para isso, ou os dois.

          A felicidade se faz nesta caminhada, que deve fazer criar músculos nas pernas, cujo esforço resulta em dor e sacrifício. A descoberta da vocação é uma toalha que deve ser torcida para fazer verter a água da vida. Do contrário, a personalidade apodrecerá na frustração e na infelicidade.

terça-feira, 14 de julho de 2020

A antessala do Paraíso


"O temor a Deus é o começo do prazer."
(G. K. Chesterton, em "Varied Types", 1905)

          Chesterton é um daqueles escritores habilidosos que conseguem condensar numa única frase ideias profundas em poucas palavras e, mais incrível ainda, aparentemente contraditórias como "temor a Deus" e "prazer".
          Ao contrário do que muitos imaginam, o temor a Deus não é ter medo Dele, mas respeito, reverência; e esta atitude implica o reconhecimento de quem Ele é, ou seja, Deus, um ser magnânimo, infinito e absoluto.
          O reconhecimento da natureza divina traz por consequência o reconhecimento de nossa natureza, infinitamente desproporcional a Deus.

          Não há como ficar indiferente à infinitude divina, cuja reação é, ou de aceitação, ou de fechamento e revolta. Nossa condição como criaturas de um ser infinito implica necessariamente um chamado à humildade. Do contrário, colheremos desordem e sofrimento.
          A vida dos santos mostra que a virtude mais admirada por Deus é justamente a humildade; seu reconhecimento pelos santos os levaram ao cumprimento dócil e reverencial à vontade divina.
          Se Deus, em sua bondade e magnanimidade, dá de comer aos animais e águas às plantas, por que não daria muito mais aos seus filhos prediletos e ainda mais àqueles bons e obedientes?
          Disto surgem nossas alegrias e prazeres, que se manifestam em situações cotidianas específicas a cada pessoa, porque cada um vale muito mais do que muitos pardais, muitas árvores e muitas montanhas.
          A filiação divina é universal e, portanto, real para todas as pessoas de todas as épocas e lugares, pois a condição humana é a mesma sob as culturas, sociedades e personalidades.
          O reconhecimento desta filiação dá novo gosto e nova cor a todas as coisas. É característico do homem sentir prazer, que é uma reação de satisfação imediata com aquilo que interage. E ao vermos que somos filhos de Alguém que não tem medida, igualmente sem medida será a alegria da vida e o prazer das coisas que através dela Deus nos proporciona.
          Na verdade, isto é mais do que prazer, mais mesmo do que alegria. É um êxtase, uma antessala do Paraíso.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Um chamado para honrar o que a vida nos deu


"A menos que possam aprender novamente a apreciar a vida, não apreciaremos
por muito tempo os temperos da vida." (G. K. Chesterton)

          Este aforisma de Chesterton pode ser lido para aqueles que, por razões das mais diversas, perderam o rumo da vida, abdicaram, seja por erro ou falta de decisão, por cumprir sua vocação enquanto pessoa.
          Porque sempre há tempo para uma mudança de rumo, que depende, no fundo, unicamente daquilo que chamamos de decisão.
          Os que retornam para o caminho de sua realização pessoal (que a era moderna reduziu ao sucesso profissional e o amor romântico) passam a admirar novamente as maravilhas antes contempladas na infância e que marcaram a memória dos "velhos tempos".
          O que Chesterton chama de "temperos" é isto: o que há de bom, belo e verdadeiro, que faz nossa história valer à pena e onde temos os primeiros gostos de uma vida que recém se inicia.
          É época em que a alma humana ainda é uma terra virgem ávida pela água e as sementes que fazem brotar vida, e vida em abundância.
          Se tudo fosse sofrimento, não haveria o que contemplar, não haveria tempero, beleza a se guardar na memória.
          Mas a vida é um misto do feio e do belo, do insosso e do saboroso; na verdade, ela é bela em si mesma, sua dimensão insondável abarca o feio de forma a transformá-lo em belo ao integrá-lo nos rumos da História ditados pela Providência.
          É neste cenário que temos de recomeçar. Deus dá os meios, faz tudo por nós naquilo que não podemos fazer. No que podemos, Ele não move uma palha.
          É decisão nossa resgatar os temperos da vida para honrá-la até o último instante.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

A medida de todas as coisas


          A morte é o fechamento da vida na Terra, é a consumação de uma história que na eternidade, onde todos os tempos estão condensados simultaneamente numa imagem única, pode ser contemplada.
          Portanto, com a morte podemos ver quem nós somos e poderíamos ter sido.
          Sem este fechamento não é possível balizar nossa vida, porque a morte dá a nossa medida, que é refletida no plano do eterno, a medida de todas as coisas.
          Descobrimos quem somos com a contemplação da eternidade.
          Por isto só podemos ter uma compreensão do mundo, uma filosofia de vida, como aponta esta passagem de Chesterton escrita em outubro de 1924, a partir de uma referência que nunca muda, que é para sempre, para, a partir disto, construirmos o edifício de nossa vida. E é a morte que nos aponta onde está esta referência.
          Esta é uma das leituras do possíveis para a passagem do Evangelho, onde Jesus diz: "Aquele que crê em mim, mesmo que morra, viverá" (Jo 11:25).
          Porque quem concebe o eterno sabe como viver desde já e ainda viverá eternamente.
          O cético, perdido na incerteza ou no desprezo do para-além, não pode ter uma filosofia porque não tem esta baliza do eterno apresentada pela morte.
          Sua filosofia é o relativismo ou o desespero niilista, onde tudo passa e perece na escuridão do nada.
          Sem referência, ele vaga nos redemoinhos dos tempos perdendo-se na caminhada da vida e podendo, ainda, se perder para sempre.

Outono. O Espírito de preparação para uma vida nova



          O outono é a época de preparação para o recolhimento, o anúncio de uma vida interior que se prepara para voltar mais forte no alvorecer da primavera.

          Época melancólica e profunda, remete à firmeza e à introspecção e revela a beleza que está por detrás da exuberância e da extravagância do calor, época de expansão por excelência.

          Mostra também o fogo interior pelas cores fortes, a chama do Espírito que habita o homem e dá vida a todas as coisas.

          Assim, o outono não é a morte, mas a preparação para a vida. Do recolhimento dos mosteiros brota a seiva espiritual que sacia a Santa Igreja; da introspecção nos estudos cria-se as obras da alta cultura que forjam civilizações; da intimidade do casal nasce a vida nova que dá continuidade à humanidade.

          O Espírito vive no recolhimento. Apenas mais tarde, no momento providencial e oportuno, fiat!, se faz o mundo novo.

          O fogo não pode arder se não contrasta com o gelo. Do que seria da chama da vida se esta não brotasse do frio, e este não fosse preparado pelo próprio Espírito que tudo renova? Do que seria da vida se ela não brotasse da terra estéril, antes preparada para que pudesse ser sustentada?

          Porque é morrendo que se vive para a vida eterna; é morrendo para uma época que se renasce, puro e fortalecido, para uma época nova, uma vida nova.

          O outono é tão belo quanto o Espírito que nele habita.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

A necessidade da morte para sermos humanos


          Existe uma constante na totalidade dos seres vivos sobre a Terra: todos, sem exceção, nascem, crescem, envelhecem e morrem. Mais cedo ou mais tarde, todos morrem.
          Mas se a morte é inevitável, ela também é desagradável. Desagradável porque nos força a encará-la mesmo que a esqueçamos; desagradável porque é inevitável.
          Mesmo que não pensemos na morte, ela paira nas profundezas de nossa mente, marcada pela realidade que nos envolve ao vermos plantas, animais e pessoas morrerem e pela própria condição humana.
          No fundo, sabemos quem somos, e o que somos não dura para sempre neste mundo.
          Não fosse o desconforto da morte e estaríamos presos no eterno presente despreocupados com o vindouro; presos no aqui e agora, ao sabor das circunstâncias de cada momento.
          Seríamos moldados pelos tempos, pelas pulsões, pelos meros desejos fugazes que variam segundo os ponteiros do relógio e as estações.
          Perderíamos, em suma, a condição de homem, porque a natureza humana é imutável e válida para todas as épocas e lugares, recoberta apenas pelas culturas das comunidades e as experiências pessoais dos indivíduos.
          Não fosse a morte e perderíamos o contato com o que nos é mais essencial, o nosso coração, dimensão onde habitam conjuntamente nossa memória, vontade e inteligência.
          Não fosse a morte e deixaríamos de ver esta condição inevitável que, justamente por ser desagradável, nos fixa em algo permanente forçando-nos a não viver única e exclusivamente segundo os sinais dos tempos.
          O homem é homem porque morre. A eternidade não é, nem pode ser neste mundo. A eternidade neste mundo é para as bestas, no outro para os santos.

sábado, 2 de maio de 2020

O grande perigo de nossas vidas


          José Ortega y Gasset afirmava que a vida é sacrifício, que as criações da civilização demandaram enorme esforços, muitos erros e poucos acertos.
          Isto significa que viver é arriscar-se, não necessariamente na sua dimensão física, mas de frustrar-se com o fracasso de ações e planos para além das possibilidades.
          Chesterton provavelmente concordaria com o seu contemporâneo filósofo espanhol.
          O homem que buscar evitar demasiadamente os riscos amputa seu viver.
          Porque se a vida é sacrifício, isto significa que nada é feito sem esforço, e todo o esforço abre a possibilidade do erro.
          Quanto maior o esforço necessário a uma conquista, maior a chance do erro; quanto mais se estica uma corda, maior a chance de arrebenta-la
          Os que almejam a segurança almejam a fantasia, porque a segurança não existe. Ter um trabalho exige esforço, e nada garante que uma crise não o faça perde-lo; ter uma família exige abdicar de liberdades, e nada garante que seus queridos chegarão a salvos em casa depois de uma viagem; praticar um exercício exige suor, e nada garante que em algum momento o músculo relaxará sem dor.
          Pois aqueles que preferem uma vida sem tais perigos escolheram não viver, escolheram abdicar da vida mesma como a criança que se recusa a sair do útero da mãe.
          A criança que não nasce morre afogada no líquido que a alimenta; quem se recusar a enfrentar os perigos da vida morre sufocado na própria segurança, porque quem não arrisca já está morto mesmo que não saiba.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

A sabedoria do humor


          Há situações que merecem desprezo, mas na medida certa. Ser mal tratado, xingado ou humilhado nunca é bom, mas muitos casos talvez exijam um certo jogo de cintura ao invés de serem tratados, como diz o ditado popular, "à ponta de faca".
          O humor funciona como uma defesa às más situações e companhias. Mesmo em casos extremos.
          Em sua experiência como prisioneiro nos campos de concentração nazistas, Viktor Frankl relata que seus companheiros judeus faziam piadas de si mesmos e isto os ajudava a suportar a terrível situação de vida.
          O mesmo pode ser dito, na devida proporção, aos pacientes de hospitais, cujo bom humor se torna fundamental para a recuperação da saúde. Ninguém precisa ser médico para saber disto, basta ter alguma experiência de vida ou apostar na sabedoria do senso comum.

          A citação de Chesterton reproduzida abaixo vai de encontro com as dificuldades da vida. É mais fácil lidar com elas como uma tragédia bem humorada do que ser rígido em cada um dos desafios. A auto cobrança e o perfeccionismo estão associadas a personalidades difíceis que tendem à tristeza e à depressão.

          Se a vida é difícil, sorria para ela. Tal afirmação pode parecer boba, mas um monstro que é desprezado se torna mais fraco e menos assustador.


quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Santos, doutores e analfabetos: os leitores do livro da vida


          Há momentos no meu dia-a-dia em que percebo que estou percebendo algo. Isto mesmo: tomo a consciência de que estou vendo, entendendo o que se passa ao meu redor. É como se eu tomasse posse de parte da realidade, aquela parte que me é apresentada num determinado instante.

          Explico: às vezes estou na rua e vejo o trânsito de automóveis e as pessoas caminhando. Vejo que cada um faz seu caminho próprio e que ao mesmo tempo tem que se movimentar sem se chocar com os outros e os objetos à volta. Porém, ninguém sabe com exatidão se alguém ao lado realizará o movimento esperado. Isto é comum no trânsito: sabemos que o carro à frente seguirá seu curso, mas temos a real certeza de que ele realmente fará isto? Não estará o motorista pensando em dar uma guinada à esquerda de surpresa ou encostar subitamente sem dar sinal? Ou o pedestre à beira da calçada, ele olha para nosso carro em movimento, mas será que temos absoluta certeza de que ele está concentrado em nós e não está distraído com algum pensamento, consciente apenas à sua própria mente, e irá se jogar na frente do carro sem perceber? 

        Nesta situação tudo para mim parece claro, objetivo, evidente. Não que eu saiba o que os demais estão pensando, mas eu vejo, intelectualmente, que todas as pessoas partilham da incerteza sobre o que todas as demais irão fazer, e mesmo assim as coisas funcionam perfeitamente bem. E se há um acidente (uma batida entre dois carros, por exemplo), eles são infinitamente raros se observamos a infinidade variáveis que entrelaçam um fato, que em volta do acidente são milhares, milhões ao mesmo tempo. Podemos ver isto num único toque, num único olhar. É o que chamamos de intelecção, a capacidade de entender a realidade entorno. 

          Este é o meu deleite e talvez o de alguns leitores deste texto. Eu morreria de tédio e de desgosto se pudesse viver momentos assim. Não fico entendendo tudo o tempo todo, mas minha vida correria o risco de perder o sentido caso eu perdesse esses momentos de maravilhamento da realidade que, no fundo, são comum a todos. É neste sentido que a vida é um livro aberto: tudo à nossa volta induz à leitura do mundo e esta leitura se torna, no seu acontecer, uma leitura da alma, porque ler a realidade é tomar consciência de uma operação da alma que se revela na relação com o mundo. Isto é entendimento, isto é intelecção, isto é vida. Portanto, para o ser humano viver é necessariamente entender por mais ignorante que a pessoa possa parecer aos olhos das convenções sociais. 

        Quanto mais límpidos são os olhos da alma, mais clara é esta intelecção, mesmo que a pessoa não tenho inteligência segundo a erudição e a ciência. É neste sentido que a alma santa, mesmo analfabeta, sabe muito mais do que os doutores: ela lê o mundo e não precisa de meios ou instrumentos rebuscados para entender o que precisa ser entendido. O instrumento está nela mesma, está em todas as pessoas. Basta entender, ato este que é um dom dado desde o Alto. A alma santa entende tudo ainda que lhe faltem palavras. 

terça-feira, 8 de agosto de 2017

A decisão de ser luz no mundo


          Nesta semana realizei duas sessões da Terapia de Integração Pessoal (TIP), que utiliza a técnica da Abordagem Direta do Inconsciente (ADI), terapia criada pela psicóloga gaúcha Renate Jost de Morais, falecida em 2013.

          A ADI, como diz o nome, permite uma leitura direta do inconsciente através de uma técnica de mergulho da consciência nesta área da mente. Conduzido por um preceptor (psicólogo), entramos em diálogo com o "sábio", o eu original, saudável e perfeito, que nos mostra os pontos-chave que devem ser analisados e curados.

          Não vou contar o que vi no meu inconsciente, mas a decisão que tomei com base numa situação desagradável: decidi, ainda nos seis meses de gravidez (a ADI permite que observemos nossas decisões desde a concepção da vida humana) em dar as costas ao mundo e trabalhar para "ferrá-lo", se eu puder assim dizer. Em outras palavras: já que o mundo exterior era um horror e eu não tinha outra solução a não se viver nele depois de nascer, então que eu fizesse dele um inferno. No ventre eu estava de costas para o lado de fora da barriga e com a cabeça abaixada em direção ao corpo de minha mãe, como que não suportando o "horror" do lado de fora.


          Minha decisão foi tomada numa situação de estresse entre as pessoas que estavam no ambiente (no caso, meus pais e um terceiro não identificado) confirmando outras experiências anteriores de que, sim, o mundo era uma porcaria que não valia a pena viver.

          O problema é que tomando uma decisão, uma atitude na qual eu me tornava inimigo do mundo, todas as esferas de minha vida, social, privada, profissional, familiar, sexual, etc, se tornavam bem mais difíceis e complicadas. Neste dia eu estava preocupado com minha vida profissional, que nunca foi bem sucedida. O problema, como foi percebido, estava muito mais embaixo, e era muito mais amplo do que uma mera questão profissional ou de vivência prática do cotidiano. 

          Quando indaguei meu sábio sobre uma saída para isso, sua resposta foi um sentimento de tristeza. Acima dele foi visto uma nuvem, uma camada escura que não apenas obscurecia seu ser como não tinha nada a oferecer que pudesse ser aproveitado. Sua tristeza era consequência do fato de não ver saída para este problema. Num mundo maldito, numa experiência de vida marcada por um pessimismo que havia contaminado, em maior ou menor grau, todas as esferas de minha vida real, não havia setor ou "lugar" que permitisse investir minhas forças e encontrar um rumo para minhas escolhas.

          Mas eis que o sábio, perfeito em sua condição, viu o que poderia ser feito: se o mundo era um horror, se muitas coisas estavam fora do lugar, com pessoas em discórdia, sociedade em crise, dificuldades para todo o lado, então que eu fosse a luz num mundo escuro. Que o sábio (eu, meu eu real) fosse fator de iluminação e solução para os problemas reais, a começar por si mesmo, decidindo torna-se novo para criar uma vida nova e ser luz num mundo velho e corrupto. Disso, retornei ao ventre materno e me vi voltando-me ao mundo e saindo do ventre na figura de uma criança que, de pé e fora do ventre, prefigurava-se numa pessoa luminosa envolvida por um halo estrelado em volta da cabeça, um misto de Menino Jesus com Nossa Senhora.

          Esta foi a inspiração para o texto que escrevi no Facebook e que reproduzo abaixo:

"Quando vemos que as coisas a nossa volta e na vida pessoal estão erradas, ou tortas, ou se tornando um inferno, cabe a nós, individualmente, sermos luz no mundo. Quando falo em "ser luz" não é ser bonzinho ou queridinho, mas o FATOR de iluminação, conscientização e acima de tudo EXEMPLO para aquilo que propomos. Isso, ao contrário do que muitos podem pensar, não é mudar o mundo, MUITO MENOS uma proposta e fazê-lo. Primeiro porque a mudança é uma atitude, uma postura frente ao mundo, a si mesmo e a Deus. Por isso Viktor Frankl dizia que éramos totalmente responsáveis pela nossa vida: cada pessoa vive em circunstâncias que lhe são próprias, e as respostas aos desafios de sua vida cabem unicamente a ela e a ninguém mais. Ser luz no mundo é, antes de mais nada, assumir, decidir pela nova atitude frente aos desafios que nos cercam e os medos interiores. Só aí, depois de muito esforço, podemos fazer algo pelo próximo, e ainda assim aos poucos. Querer ir longe demais só sendo santo ou revolucionário. O primeiro venceu todas as etapas a custa de seu sacrifício; o segundo queimou etapas e sacrificou os outros."

(O ódio a alvos genéricos como "a vida", "a humanidade", "a sociedade" é projeção de ódio a si mesmo e/ou de fatores que parecem sem solução.)

          Não é possível mudar a vida a não ser decidindo pela mudança de personalidade, o que é óbvio. Mas ocorre que a ânsia de ter uma vida feliz nos joga não apenas na frustração como no sentimento de revolta que, não podendo ser canalizado contra si, acaba por ser descarregado no mundo. O século XX nos deu muitos exemplos de líderes que propunham consertar os erros da humanidade mediante o ódio e a força, ódio esse que no fundo era ódio à condição humana e acima de tudo a si mesmos, reformadores do mundo, que como demônios reproduziam o inferno à sua volta. Não há felicidade na queima de etapas. Somos chamado à santidade pela própria ordem das coisas.




quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Falar do abortado. Para quê, não é?


Faço questão de reproduzir aqui um comentário sobre o aborto que coloquei no meu perfil no Facebook em 26 de outubro de 2011:

"O aborto é intrinsecamente absurdo já na hipótese. Todas as pessoas existentes, que existiram ou irão existir, passam pela condição da gestação. Quer dizer que TODOS, sem exceção, compartilham NECESSARIAMENTE de uma identidade comum, que foi a de ser concebido e viver no ventre materno. Ninguém pode escapar dessa marca indelével. A simples hipótese de considerar o aborto legal é colocar em dúvida a condição humana alheia, condição essa que não apresenta razão nenhuma para privilegiar quem defende esta monstruosidade. O aborto é anti-humano por excelência."

A pergunta é: qual é a razão para que os juízes do STF que liberaram esta prática até o terceiro mês de gestação têm para considerarem a si mesmos em condição humana diferente da dos fetos? Ou diferente da de todos nós? Não estiveram eles, um dia, exatamente na mesma situação cada um no seu momento? Ou será que eles, sendo adultos, desconsideram parte de sua própria história e, portanto, de sua própria identidade, já que todos nós, sem exceção, carregamos em nossas experiências como seres humanos os períodos iniciais de nossa vida no ventre materno?

O apoio à liberação do aborto sempre escamoteia a discussão sobre a existência ou não da vida humana na gestação. Sempre que eu li ou ouvi algo sobre o assunto este problema ficava em segundo plano e muitas vezes sequer era mencionado. O parecer do relator ministro Luís Roberto Barroso não foge desta regra. Diz o texto:

"É preciso reconhecer, porém, que o peso concreto do direito à vida do nascituro varia de acordo com o estágio de seu desenvolvimento na gestação. O grau de proteção constitucional ao feto é, assim, ampliado na medida em que a gestação avança e que o feto adquire viabilidade extrauterina, adquirindo progressivamente maior peso concreto."

Este é um pequeno trecho dentre dezessete páginas. Ademais, o texto é vago de por que até o terceiro mês. "Viabilidade extrauterina" não diz nada. Vale o mesmo para os que morrem por má gestação depois de nove meses? E por que não depois de nascer? O que prevalece são muitos outros direitos, principalmente a autonomia do corpo da mulher. Ela decide o que lhe aprouver até o terceiro mês de gestação. A questão da existência da vida humana não fica nem mesmo no segundo plano. Fica no enésimo.

Se alguém ignora ou determina arbitrariamente sua condição antes de nascer, que legisle única e exclusivamente sobre o próprio corpo, e não sobre o feto. E que falem por si mesmos. A começar pela Suprema Corte e os apoiadores da "causa".