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quarta-feira, 27 de maio de 2020

Os relativistas e o dogma irrefutável da morte


"A morte é um dogma, visto que não há dúvida a respeito dela. Nenhum modernista pode torná-la discutível, nenhum evolucionista pode fazê-la imprecisa, nenhum hegeliano pode transformá-la em vida." (G. K. Chesterton, citado em "O pensador completo" de Dale Ahlquist)

          A inevitabilidade da morte se impõe sobre todo e qualquer relativismo.
          A citação acima do escritor inglês G. K. Chesterton afirma que ela não pode ser evitada, relativizada ou transformada em vida. Ela é o que é, se impõe como um bloco monolítico imutável que cai e esmaga nossa cabeça.
          É uma destas "leis" do Universo ou da natureza que falam por si mesmas ao se manifestarem no decorrer da História.
          Afinal, ninguém pode negar coisas óbvias (como uma pessoa querer atravessar uma parede caminhando, por exemplo) sem arcar com as duras consequências de bater de frente com a estrutura mesma da realidade.
          O relativismo morre quando morre o relativista, pois suas afirmações cessam em definitivo mesmo que ele as enuncie por décadas.
          Da mesma forma, o relativismo morre quanto homem e mulher geram um filho, pois este filho veio de um homem e uma mulher e não de um gênero A com um gênero Y determinados por uma comissão de especialistas.
          O relativismo também morre quando uma doença acomete um corpo, pois não são questões subjetivas capazes de curar uma pessoa, mas a concretude da ação, que inclui (pasmem!) atitudes de fé, como mostra o crescente número de estudos que relacionam saúde com espiritualidade.
          O relativismo morre no próprio diálogo com o vizinho pois, como bem mostrou Ortega y Gasset, para que um diálogo exista é necessário reconhecer que existe uma série de regras e elementos prévios (idioma, sinais, signos, etc) através do qual ele ocorre e cuja existência não depende dos dois indivíduos em questão. Do contrário, o diálogo seria impossível e o conflito a única forma de interação.
          O relativismo morre pela própria boca ao declarar que a verdade não existe, o que anula o enunciado por si mesmo, tornando-o falso.
          Mas a morte não pode ser falsificada. Não só o acontecimento em si, mas a consumação de uma vida significa que uma pessoa adquiriu uma identidade definitiva no tempo, cuja forma se projeta na eternidade.
          Se o relativista tem de aceitar a morte como um dado do real, resta a ele admitir que foi alguém em definitivo antes de sumir do mundo e deixar para trás as correntes de pensamento às quais foi adepto, e de que no eterno não servirão para nada.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

A medida de todas as coisas


          A morte é o fechamento da vida na Terra, é a consumação de uma história que na eternidade, onde todos os tempos estão condensados simultaneamente numa imagem única, pode ser contemplada.
          Portanto, com a morte podemos ver quem nós somos e poderíamos ter sido.
          Sem este fechamento não é possível balizar nossa vida, porque a morte dá a nossa medida, que é refletida no plano do eterno, a medida de todas as coisas.
          Descobrimos quem somos com a contemplação da eternidade.
          Por isto só podemos ter uma compreensão do mundo, uma filosofia de vida, como aponta esta passagem de Chesterton escrita em outubro de 1924, a partir de uma referência que nunca muda, que é para sempre, para, a partir disto, construirmos o edifício de nossa vida. E é a morte que nos aponta onde está esta referência.
          Esta é uma das leituras do possíveis para a passagem do Evangelho, onde Jesus diz: "Aquele que crê em mim, mesmo que morra, viverá" (Jo 11:25).
          Porque quem concebe o eterno sabe como viver desde já e ainda viverá eternamente.
          O cético, perdido na incerteza ou no desprezo do para-além, não pode ter uma filosofia porque não tem esta baliza do eterno apresentada pela morte.
          Sua filosofia é o relativismo ou o desespero niilista, onde tudo passa e perece na escuridão do nada.
          Sem referência, ele vaga nos redemoinhos dos tempos perdendo-se na caminhada da vida e podendo, ainda, se perder para sempre.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

A necessidade da morte para sermos humanos


          Existe uma constante na totalidade dos seres vivos sobre a Terra: todos, sem exceção, nascem, crescem, envelhecem e morrem. Mais cedo ou mais tarde, todos morrem.
          Mas se a morte é inevitável, ela também é desagradável. Desagradável porque nos força a encará-la mesmo que a esqueçamos; desagradável porque é inevitável.
          Mesmo que não pensemos na morte, ela paira nas profundezas de nossa mente, marcada pela realidade que nos envolve ao vermos plantas, animais e pessoas morrerem e pela própria condição humana.
          No fundo, sabemos quem somos, e o que somos não dura para sempre neste mundo.
          Não fosse o desconforto da morte e estaríamos presos no eterno presente despreocupados com o vindouro; presos no aqui e agora, ao sabor das circunstâncias de cada momento.
          Seríamos moldados pelos tempos, pelas pulsões, pelos meros desejos fugazes que variam segundo os ponteiros do relógio e as estações.
          Perderíamos, em suma, a condição de homem, porque a natureza humana é imutável e válida para todas as épocas e lugares, recoberta apenas pelas culturas das comunidades e as experiências pessoais dos indivíduos.
          Não fosse a morte e perderíamos o contato com o que nos é mais essencial, o nosso coração, dimensão onde habitam conjuntamente nossa memória, vontade e inteligência.
          Não fosse a morte e deixaríamos de ver esta condição inevitável que, justamente por ser desagradável, nos fixa em algo permanente forçando-nos a não viver única e exclusivamente segundo os sinais dos tempos.
          O homem é homem porque morre. A eternidade não é, nem pode ser neste mundo. A eternidade neste mundo é para as bestas, no outro para os santos.

domingo, 26 de maio de 2019

A medida do sucesso


           Ultimamente tenho passado, dito de forma suave, por um período da vida sem qualquer inspiração. Não sei dos propósitos das coisas que faço (mesmo que tenha consciência deles, mas não me penetram no coração), não tenho muito ânimo para resolver as coisas do cotidiano e há um bom tempo abdiquei de alguns sonhos, ao menos temporariamente.

          Na vida moderna somos ensinados, como jumentos atrás da cenoura, a idolatrar o sucesso profissional e a paixão amorosa. Agora me pergunto: quem consegue atingir estes objetivos? Quem faz o que realmente gosta e ganha fortunas com isso? E quem consegue viver uma paixão duradoura e sem conflitos? Evidentemente tais ideias são mentira. Não que eles não sejam possíveis, pois até são, mas porque a grande maioria das pessoas se frustra nesta busca e, pior de tudo, aprisiona o sentido das suas vidas a duas linhas de chegada transformadas em miragem de felicidade.

          Se na vida o que vale mesmo é o sucesso no trabalho e no amor, do que vale a conquista quando realizadas? O sucesso encerra-se em si mesmo e só pode ser substituído por uma nova busca e uma nova conquista. É um ciclo sem fim interrompido apenas pela morte, a causa única do fim de todas as lutas e conquistas. Os ideais de sucesso fecham a pessoa nas coisas do mundo, e tem sido assim nas últimas gerações, que afastaram de suas vidas agitadas a consciência da morte e o teatro profundo e oculto dentro do qual as lutas e conquistas se desenrolam. Decaído os ideais da alma que antes buscavam a perfeição e o Céu, a honra e a dignidade, resta-lhes mirar e lutar pelos ideias do mundo, que valem tanto quanto valiam antes de nós nascermos: nada. 

          As lutas cotidianas têm de ser absorvidas na perspectiva da morte, isto é, tratadas como lutas por um legado no mundo e para que não nos arrependamos ao chegarmos ao fim da vida, seja no leito de morte, seja no Tribunal diante do qual veremos a Deus e a nós mesmos exatamente como somos, com todas as suas belezas e terríveis feiuras. Quanto melhor fizermos nosso trabalho ao longo da vida, mais luminosa será nossa beleza e menores serão nossas feiuras. É a alma que brilha. O corpo morre. 

          O sucesso profissional e a felicidade no relacionamento fariam sentido se a vida se fechasse com a morte. Mas é justamente o mistério da morte a medida justa da busca destas conquistas, tornando-as relativas de acordo com os princípios e o amor com que são realizadas. Nos últimos momentos, será a beleza do que fizemos que contará, bem como a forma com que seremos lembrados, aqui e no outro mundo. 

domingo, 18 de junho de 2017

Nem doença, nem frustração, nem morte: meu medo perante a vida

 

          Há pouco mais de um ano comecei a me defrontar com a seguinte pergunta: do que eu tenho medo? Na verdade, antes de fazer esta pergunta, comecei a tomar consciência da resposta. Só depois vi que a pergunta deveria ser esta.
 
          Pois bem, não tenho medo de morrer, ficar doente, pobre, de ser agredido ou me frustrar com as pessoas. Tenho medo de chegar ao final da vida e ver que eu não fiz o que deveria ter feito. Medo de chegar lá no final da minha trajetória, quando o ciclo da vida se fecha e podemos enxergar o conjunto da obra tal qual observamos na eternidade, e ver que o que fiz não valeu à pena, ou que tomei e insisti no caminho errado de forma que não pude viver de forma plena.
 
          Esta última frase parece um tanto poética ou idealista, mas é isto mesmo: uma vida de erros para consigo mesmo é uma vida falsa, uma forçação de barra constante, cujo efeito é o sufocamento dos próprios dons, das próprias habilidades e o sentimento permanente de incompletude, de que aquilo que eu gostaria de ter feito com a plenitude de minhas forças não foi realizado. Porque pouco importa o que fazer: importa o quão verdadeiro foi este fazer, o quanto da alma foi impresso em cada ato. A ação verdadeira adquire sentido quanto voltada a um objetivo maior do que nós mesmos (Viktor Frankl chamou isto de autotranscedência), fazendo que cada passo, cada momento tenha um valor único justamente por estar voltado ao grande objetivo de vida cujo valor é incalculável. Muitas vezes penso na questão profissional, mas a profissão é um meio, não um fim em si; também penso na formação da família, mas será que ter uma família sem estar preparado é o que preciso para fechar meu ciclo de vida e dizer para mim mesmo: "É isso!"? Creio que não.
 
          Acredito que a concretização desta realização plena não está numa resposta. Esta resposta seria o caminhar, o ato cotidiano que revela, aos poucos, os caminhos a serem tomados. O mesmo diz Frankl quanto ao sentido da vida. Para ele não devemos pergunta o sentido da vida, mas é a vida que nos pergunta que sentido damos a ela. E dar sentido é responder a cada situação com cada ato novo, preenchendo-o com o valor que julgamos verdadeiro.
 
          Há o ditado que diz que "Deus ajuda quem cedo madruga". A providência ajuda quem caminha sempre adiante. Não é possível chegar realizado ao fim da vida sem antes levantar da cama para a busca deste fim. Não falo do trabalho, e sim da disposição de encarar o cotidiano de forma verdadeira, de ser você mesmo a cada instante. Me assusta a ideia de que posso um dia chegar no descanso eterno e ver que não fiz o que deveria ter feito, que não consegui ser eu mesmo em grande parte de minha vida. Aí não haverá nem mesmo descanso. Deus não quer amargurados no Paraíso.