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quarta-feira, 15 de abril de 2020

A sabedoria do humor


          Há situações que merecem desprezo, mas na medida certa. Ser mal tratado, xingado ou humilhado nunca é bom, mas muitos casos talvez exijam um certo jogo de cintura ao invés de serem tratados, como diz o ditado popular, "à ponta de faca".
          O humor funciona como uma defesa às más situações e companhias. Mesmo em casos extremos.
          Em sua experiência como prisioneiro nos campos de concentração nazistas, Viktor Frankl relata que seus companheiros judeus faziam piadas de si mesmos e isto os ajudava a suportar a terrível situação de vida.
          O mesmo pode ser dito, na devida proporção, aos pacientes de hospitais, cujo bom humor se torna fundamental para a recuperação da saúde. Ninguém precisa ser médico para saber disto, basta ter alguma experiência de vida ou apostar na sabedoria do senso comum.

          A citação de Chesterton reproduzida abaixo vai de encontro com as dificuldades da vida. É mais fácil lidar com elas como uma tragédia bem humorada do que ser rígido em cada um dos desafios. A auto cobrança e o perfeccionismo estão associadas a personalidades difíceis que tendem à tristeza e à depressão.

          Se a vida é difícil, sorria para ela. Tal afirmação pode parecer boba, mas um monstro que é desprezado se torna mais fraco e menos assustador.


quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Ser luz no mundo e ator da História


 
          Quando criei meu blog sobre a Rússia em junho de 2015, tinha como objetivo investigar os pormenores da política, história e cultura deste país para entender alguns eventos que envolviam a Rússia e o mundo. Uma das motivações para estas investigações foi minha experiência como aluno de mestrado, realizado pelas Ciências Sociais da PUCRS entre 2010 e 2012.
 
          Durante o curso realizei minha dissertação de mestrado, e ao longo de todo o ano de 2011 e início de 2012 realizei minha pesquisa de campo, onde fiz em torno de 45 visitas a 19 hospitais de Porto Alegre (o trabalho versava sobre a religiosidade em hospitais) e entrevistei 28 pessoas. Após o mestrado percebi o que já observava durante minha pesquisa de campo: que os acontecimentos históricos dependiam de decisões, e decisões são feitas por pessoas, indivíduos, que em algum momento decidem tomar a decisão A para alcançar o resultado B. Como nem sempre as coisas saem conforme o esperado, muitas vezes o resultado é C, e não B.
 
(Segunda edição brasileira do livro de Peter Berger e Thomas Luckmann.)
 
          O mais importante, porém, é atinar para a origem dos acontecimentos: há uma pessoa ou um grupo de pessoas a partir do qual surge uma ideia e, daí, uma decisão, que se transforma em ato conforme grupo ao qual ela pertence leva adiante sua intenção. Utilizo aqui uma linguagem coloquial que caberia a uma investigação mais profunda na Filosofia da História ou na Sociologia. Acredito que o livro de Peter Berger e Thomas Luckmann, A Construção Social da Realidade, ajude a entender um pouco as contingências que permitem que uma decisão seja levada adiante. Afinal, dizendo o óbvio, vivemos em sociedade e temos uma vida cotidiana, a "realidade por excelência" nas palavras dos autores, e estamos limitados ao que eles chamam de "mundo escuro", a realidade que está além de nosso conhecimento. Dispomos de recursos limitados (conhecimento, tempo de vida, condição econômica, física, psicológica) para tomar tais decisões. Dispomos de um corpo, certo conhecimento adquirido de experiência e estudos, um círculo de relacionamentos que permite aplicarmos nossas ações sobre outras pessoas e tentar propagar seus efeitos conforme a intenção inicial, recursos físicos para isso (corpo, telefone), e assim por diante. Resgatando novamente Viktor Frankl, o que importa é que independente do local e da cultura em que vivemos nós tomamos decisões.
 
          Aqui entra meu último texto neste blog, onde comento sobre minha experiência na TIP e minha decisão de ser "luz no mundo". É claro que minha decisão não me faz uma pessoa boa por si só, muito menos alguém melhor do que os demais, mas se a expectativa é que no mínimo eu tenha uma vida decente preciso antes de mais nada decidir em ser luz, senão para o mundo, ao menos para mim mesmo. "É infeliz quem decide ser." Esta é uma frase que certamente já ouvi da minha psicóloga da TIP, não necessariamente nesta ordem. Esta decisão é, em muitos casos, a nível inconsciente.
 
          Nossa decisão mais profunda é também a decisão que orientará nossas ações. Isto na TIP é chamado registro. O registro não é a memória de um acontecimento, mas a decisão em dar determinada resposta a uma determinada experiência. Esta resposta torna-se o modelo de resposta a situações no futuro que ativem o registro. Mas este registro só existe porque nós decidimos adotá-lo como nosso. Na TIP, utilizando a técnica da ADI, é preciso se conscientizar do registro que queremos nos livrar e buscar um outro, desta vez positivo, que tenha sido decidido em outra situação similar, substituindo o primeiro pelo segundo. Em muitas ocasiões pude ver que muitos projetos de vida que eu tive no passado foram abortados ou se tornaram insustentáveis porque, inconscientemente, eu havia decidido, ainda no útero materno, rejeitar o mundo que eu concebida como ruim e insuportável. E já que o mundo lá fora era uma droga, então que eu tornasse tudo um inferno mesmo. 
 
          Acontece que na decisão de "ser luz" todos os meu projetos de vida passaram a ser afetados (tomo isso como hipótese, dado que este é um evento muito recente, de segunda-feira passada, e hoje é recém quarta-feira). Isto quer dizer que decisões futuras serão afetadas por esta nova decisão, este novo registro, inserido nas contingências em que eu vivo, mudará pelo menos em parte o rumo de minha vida. Assim espero, e é isto que a TIP nos propõe.
 
(Ir à guerra - ou detê-la - depende de decisões, apesar das contingências que possam dificultar sua execução. Na foto, soldado pró-Rússia na Ucrânia.)
 
          A decisão de ser uma nova pessoa impacta diretamente suas ações, e aí voltamos ao contexto do livro de Berger e Luckmann: o impacto numa sociedade dependerá de decisões de certas pessoas que tomem a iniciativa de mudar o curso dos acontecimentos segundo suas limitações. Todo mundo gostaria de acabar com a violência, por exemplo, mas quem dispõe de meios capazes de eliminá-la ou ao menos contê-la? Quem tem conhecimento e, principalmente, meios de ação para tal? Foi esta realidade que encontrei no meu trabalho de mestrado, quando trabalhei com o ambiente hospitalar: decisões administrativas e iniciativas pessoais nem sempre chegavam ao resultado esperado, principalmente porque as pessoas não concordavam, ou seja, decidiam que certas atitude eram erradas e agiam contra. Quando procuro investigar algo sobre a Rússia não estou lá para falar com as pessoas, e busco o caminho inverso partindo do geral para descobrir o particular. Se vasculharmos as causas da guerra na Ucrânia, por exemplo, encontraremos muitos atores que aparentemente nada tinham a ver com a guerra, mas que foram determinantes para que ela acontecesse. Não me consta que conflitos armados aconteçam porque os canhões começaram a disparar sozinhos. Alguém puxou o gatilho, e tinha razões para isso, fossem elas justas ou não.
 
          Pequenos ou grandes, visíveis ou invisíveis, pessoal ou mundial, tudo o que acontece é decisão nossa. A História é uma teia de atos precedidos por decisões. Ninguém se levanta da cama só porque acordou. Há uma razão para sair para trabalhar; a uma razão para começar ou parar uma guerra. Quando tomei a decisão de "ser luz" no mundo, não pretendia fazer nada de excepcional, mas não haverá mudança no rumo dos acontecimentos que nos afetam negativamente minha vida se não decidir por agir na direção contrária. E falo isso sem qualquer pretensão de grandeza, pois não só considero inviável como rejeito abertamente a ideia de um "mundo melhor" sem antes melhorar a mim mesmo, e rejeito ainda mais esta ideia com base num plano universal que é inevitavelmente imperfeito dada as contingências dos planejadores, tão limitados quanto qualquer um de nós. As decisões são necessárias tanto para o levantar da cama quanto para o planejamento de uma guerra. Tudo o que fazemos fazemos porque queremos e arcamos com as responsabilidades de nossas ações.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

A decisão de ser luz no mundo


          Nesta semana realizei duas sessões da Terapia de Integração Pessoal (TIP), que utiliza a técnica da Abordagem Direta do Inconsciente (ADI), terapia criada pela psicóloga gaúcha Renate Jost de Morais, falecida em 2013.

          A ADI, como diz o nome, permite uma leitura direta do inconsciente através de uma técnica de mergulho da consciência nesta área da mente. Conduzido por um preceptor (psicólogo), entramos em diálogo com o "sábio", o eu original, saudável e perfeito, que nos mostra os pontos-chave que devem ser analisados e curados.

          Não vou contar o que vi no meu inconsciente, mas a decisão que tomei com base numa situação desagradável: decidi, ainda nos seis meses de gravidez (a ADI permite que observemos nossas decisões desde a concepção da vida humana) em dar as costas ao mundo e trabalhar para "ferrá-lo", se eu puder assim dizer. Em outras palavras: já que o mundo exterior era um horror e eu não tinha outra solução a não se viver nele depois de nascer, então que eu fizesse dele um inferno. No ventre eu estava de costas para o lado de fora da barriga e com a cabeça abaixada em direção ao corpo de minha mãe, como que não suportando o "horror" do lado de fora.


          Minha decisão foi tomada numa situação de estresse entre as pessoas que estavam no ambiente (no caso, meus pais e um terceiro não identificado) confirmando outras experiências anteriores de que, sim, o mundo era uma porcaria que não valia a pena viver.

          O problema é que tomando uma decisão, uma atitude na qual eu me tornava inimigo do mundo, todas as esferas de minha vida, social, privada, profissional, familiar, sexual, etc, se tornavam bem mais difíceis e complicadas. Neste dia eu estava preocupado com minha vida profissional, que nunca foi bem sucedida. O problema, como foi percebido, estava muito mais embaixo, e era muito mais amplo do que uma mera questão profissional ou de vivência prática do cotidiano. 

          Quando indaguei meu sábio sobre uma saída para isso, sua resposta foi um sentimento de tristeza. Acima dele foi visto uma nuvem, uma camada escura que não apenas obscurecia seu ser como não tinha nada a oferecer que pudesse ser aproveitado. Sua tristeza era consequência do fato de não ver saída para este problema. Num mundo maldito, numa experiência de vida marcada por um pessimismo que havia contaminado, em maior ou menor grau, todas as esferas de minha vida real, não havia setor ou "lugar" que permitisse investir minhas forças e encontrar um rumo para minhas escolhas.

          Mas eis que o sábio, perfeito em sua condição, viu o que poderia ser feito: se o mundo era um horror, se muitas coisas estavam fora do lugar, com pessoas em discórdia, sociedade em crise, dificuldades para todo o lado, então que eu fosse a luz num mundo escuro. Que o sábio (eu, meu eu real) fosse fator de iluminação e solução para os problemas reais, a começar por si mesmo, decidindo torna-se novo para criar uma vida nova e ser luz num mundo velho e corrupto. Disso, retornei ao ventre materno e me vi voltando-me ao mundo e saindo do ventre na figura de uma criança que, de pé e fora do ventre, prefigurava-se numa pessoa luminosa envolvida por um halo estrelado em volta da cabeça, um misto de Menino Jesus com Nossa Senhora.

          Esta foi a inspiração para o texto que escrevi no Facebook e que reproduzo abaixo:

"Quando vemos que as coisas a nossa volta e na vida pessoal estão erradas, ou tortas, ou se tornando um inferno, cabe a nós, individualmente, sermos luz no mundo. Quando falo em "ser luz" não é ser bonzinho ou queridinho, mas o FATOR de iluminação, conscientização e acima de tudo EXEMPLO para aquilo que propomos. Isso, ao contrário do que muitos podem pensar, não é mudar o mundo, MUITO MENOS uma proposta e fazê-lo. Primeiro porque a mudança é uma atitude, uma postura frente ao mundo, a si mesmo e a Deus. Por isso Viktor Frankl dizia que éramos totalmente responsáveis pela nossa vida: cada pessoa vive em circunstâncias que lhe são próprias, e as respostas aos desafios de sua vida cabem unicamente a ela e a ninguém mais. Ser luz no mundo é, antes de mais nada, assumir, decidir pela nova atitude frente aos desafios que nos cercam e os medos interiores. Só aí, depois de muito esforço, podemos fazer algo pelo próximo, e ainda assim aos poucos. Querer ir longe demais só sendo santo ou revolucionário. O primeiro venceu todas as etapas a custa de seu sacrifício; o segundo queimou etapas e sacrificou os outros."

(O ódio a alvos genéricos como "a vida", "a humanidade", "a sociedade" é projeção de ódio a si mesmo e/ou de fatores que parecem sem solução.)

          Não é possível mudar a vida a não ser decidindo pela mudança de personalidade, o que é óbvio. Mas ocorre que a ânsia de ter uma vida feliz nos joga não apenas na frustração como no sentimento de revolta que, não podendo ser canalizado contra si, acaba por ser descarregado no mundo. O século XX nos deu muitos exemplos de líderes que propunham consertar os erros da humanidade mediante o ódio e a força, ódio esse que no fundo era ódio à condição humana e acima de tudo a si mesmos, reformadores do mundo, que como demônios reproduziam o inferno à sua volta. Não há felicidade na queima de etapas. Somos chamado à santidade pela própria ordem das coisas.




sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Conhecimento muito além de opiniões: a busca por verdades cruciais

(A vida possui muitas "pergunta cruciais", aquelas cuja resposta depende de um profundo esforço pessoal e fazem a diferença quando encontradas. Na foto: Biblioteca Nacional da República Tcheca, em Praga.)

Recentemente foi publicado no Youtube o áudio de uma aula do filósofo Luiz Gonzaga de Carvalho Neto realizada em 4 de junho de 2008. A aula era direcionada a funcionários de uma instituição, cujo nome não é revelado. Essa situação exigiu de Luiz Gonzaga uma breve observação no início de sua fala: todas as pessoas têm necessidade de algum conhecimento, mesmo para as coisas mais básicas do cotidiano. Mas quando esta necessidade logo é sanada, o interesse pelo conhecimento é abandonado. Dar uma aula para funcionários implicava se colocar no desafio de instigar alunos que, em princípio, não estavam lá por interesse genuíno no conteúdo, e sim para cumprir deveres profissionais ou evitar uma punição por não cumprimento da norma.

O tema da aula era a relação entre estudo e conhecimento. Luiz Gonzaga inicia sua apresentação diferenciando quatro tipos de conhecimento: aquele que utilizamos para fins meramente objetivos, como escovar os dentes, dirigir um carro, passar num concurso, etc; o que exige um aperfeiçoamento periódico, como aquele buscado por médicos, professores, cientistas, etc, preocupados em melhorar sua vida profissional; o conhecimento que é buscado com a finalidade de encontrar uma resposta específica e fazer disso uma carreira para a vida toda, como fazem escritores, filósofos, determinados cientistas empenhados na descoberta de cura para doenças ou o desenvolvimento de determinadas tecnologias; e o conhecimento voltado (este mais raro) para uma completude pessoal, para engrandecer a alma e fazer com que a pessoa sinta-se mais completa como ser humano.

(Segundo Luiz Gonzaga, grande parte do conhecimento é voltado para fins meramente utilitários, no máximo para aperfeiçoar habilidades profissionais.)

A esmagadora maioria das pessoas no mundo, e no Brasil em particular, dedicam-se às duas primeiras formas de conhecimento. Acontece que esta massa pára por aí, não indo além daquilo que é estritamente necessário saber ou para melhorar seu desempenho profissional. Isto faz com que as pessoas jamais passem do nível da opinião na esmagadora maioria dos assuntos, e que aqueles dedicados à sua especialidade profissional se tornem, no máximo, bons profissionais especializados na sua área.

(O conhecimento voltado às "perguntas cruciais", às quais determinadas pessoas dedicam toda uma vida a respondê-las, deixa um legado às gerações futuras. Na foto, catedral anglicana de Saint Paul, em Londres: símbolo da cidade, estrutura imponente, bela arquitetura e técnica revolucionária de construção para o século XVI.)

As pessoas dedicadas a responder questões pertinentes da nossa vida (que Luiz Gonzaga chama de "perguntas cruciais"), como os grandes problemas filosóficos, os melhores meios de organizar a sociedade ou de encontrar respostas para problemas pessoais ou coletivos, são aquelas que saltam da mera opinião e passam ao conhecimento. Luiz Gonzaga retoma os termos gregos doxa e episteme, que significam "opinião" e "conhecimento", respectivamente, para explicar que o primeiro dá um salto qualitativo para o segundo quando é submetido ao crivo de todas as perguntas e experiências que estão em posse do questionador. Quando um cientista, por exemplo, quer inventar um equipamento que ninguém inventou ele busca meios de superar as experiências anteriores que tentaram cria-lo sem sucesso. Isto quer dizer que tudo o que feito pelo homem foi antes pensado para depois ser aplicado, isto é, passou da mera opinião para o conhecimento e daí a sua aplicação na realidade. Os princípios que regem um sistema político, as grandes religiões (dada suas manifestações humanas) e todo o qualquer produto industrial foi antes pensado e depois aplicado, e eles hoje só existem porque são os melhores resultados de todas as experiências anteriores em seus respectivos campos.

Em grande parte do vídeo Luiz Gonzaga relaciona a capacidade humana de conhecer com a democracia. Neste texto não vem ao caso esta problemática, mas cabe aqui destacar um ponto: uma democracia só é viável, segundo o filósofo, porque há pessoas que são capazes de superar sua mera opinião e testá-la no mundo real, isto é, transformá-la em conhecimento. Nenhum povo pode exercer pressão real sobre seus governantes com o objetivo de melhorar sua condição social se não for capaz de mostrar que sua ideia é melhor do que "aquilo que está aí" e que vai muito além da mera vontade, como vemos nas reivindicações por melhores salários, "mais educação", "mais segurança", etc. Isto pressupõe um meio de alcançar a esfera de poder, já que o governante, por mais ignorante que seja, em algum momento analisou seriamente a possibilidade de como chegar lá, transformando sua mera vontade em realidade de fato. Os governados incapazes de transformar sua opinião em conhecimento consistente sobre um assunto qualquer será sempre tratado pelos governados como crianças. Alguém que, por exemplo, saiba como realmente melhorar o atendimento da saúde pública terá muito mais legitimidade e influência no sistema político do que se fizer apenas barulho reclamando por aquilo que acha que é melhor. Nenhum governo terá a legitimidade necessária para governar se sua ação não for contestada por alguém que realmente conhece os assuntos pertinentes à vida cotidiana dos indivíduos. Não há democracia se não há um número mínimo de pessoas, uma verdadeira aristocracia capaz de apresentar projetos reais para a vida, se não de todas, ao menos da grande maioria das pessoas.

(Uma vida dedicada às "perguntas cruciais" levará ao encontro de "verdades cruciais" que estarão acima da esfera das meras opiniões e ficarão como legado para outras pessoas em diversas esferas da sociedade.)

O mais importante de tudo, porém, não está nos efeitos do conhecimento na esfera política. Dedicar-se ao conhecimento, à busca da dúvida que paira sobre nossa cabeça durante grande parte de nossa vida, mexe, antes de tudo, com nossa vida pessoal. Alguém que tem uma pergunta crucial e se dedica verdadeiramente a responde-la está dando sentido à sua própria vida. Não importa se este interesse é em contribuição às outras pessoas ou para alcançar a plenitude enquanto ser humano; o que importa é a busca em si, cujo resultado dará sentido à sua existência. Ter um interesse real sobre algo é um sinal de que este algo lhe diz respeito verdadeiramente. Cabe a esta pessoa, portanto, responder à pergunta que lhe é pertinente. Não importa se o alvo é a busca por uma vacina contra a AIDS ou os critérios para educar corretamente os filhos. É a dedicação pela busca às respostas que levarão à descoberta daquilo que Luiz Gonzaga mencionou como "as verdades cruciais da vida humana". "Nem que seja uma só", completou o filósofo.

Viktor Frankl, fundador da logoterapia, fez exatamente esta busca. Ele suportou a prisão  nos campos de concentração nazistas porque tinha dois objetivos de vida: reencontrar sua mulher, a qual perdeu contato com a prisão, e continuar seus trabalhos no novo ramo de conhecimento que viria a fundar. Sua mulher morreu num dos campos de concentração, mas sua pesquisa, que veio a desembocar na logoterapia, deu rumo à sua vida. Desconheço as razões que levaram Frankl a continuar atuando na psicologia (talvez seu livro de memórias ajude a responder esta pergunta), mas certamente sua atividade científica era busca por respostas a perguntas que ele antes havia formulado. A prova da veracidade desta busca está no livro Em Busca de Sentido, onde ele explica como o desejo de continuar suas pesquisas na psicologia o motivaram (e deram sentido) a continuar vivo.

(Para Luiz Gonzaga de Carvalho Neto, só é possível responder às "perguntas cruciais" individualmente, e o encontro dessas respostas faz a vida valer à pena.)

No final da aula, Luiz Gonzaga diz que as descobertas sobre questões cruciais da vida humana só podem ser feitas pela consciência individual. "Isso é único", diz ele sobre a busca. "O que torna a gente único... são as respostas que a gente pode oferecer às pessoas." A descoberta às questões cruciais inserem-se numa sequência de respostas já dadas. O importante, portanto, não é dar respostas novas a um velho problema, e sim reatualiza-lo, trazê-lo novamente ao momento presente, reforçá-lo na consciência das pessoas. Encontrar essas respostas é crucial para apostar a vida em algo que valha à pena, é dedicar-se a algo maior do que nós mesmos e que será legado para a gerações futuras. É auto-transcender-se, como diz Frankl, e é na auto-transcendência que está o sentido da vida, em algo fora, maior e mais elevado do que nós. Como conclui Luiz Gonzaga: "Isto é para você terminar a sua vida e falar: 'foi bom!'" Uma vida que foi existencialmente boa é uma vida plena de sentido.

Infelizmente há uma segunda parte da aula que não está disponível no Youtube. De qualquer forma esta lição de vida é inspiração para ampliar nossos horizontes e, por que não, legar às pessoas com as quais vivemos respostas que elas gostariam de ter mas são incapazes de possuir. Isto é mais do que ser um aristocrata. É ser bom.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

A providência divina como o sentido da vida

(A vida - ou a prrovidência - nos coloca desafios a todo o instante. A questão não é por que isto, mas para quê.)

É normal ouvirmos coisas como "eu nasci na época errada" ou "as coisas deveriam ser diferentes", sendo a palavra "coisas" uma referência à condição humana ou ao Cosmos.

Mesmo sendo normal, este tipo de questionamento é, no fundo, sem sentido e uma crítica à vontade divina. Explico. Se eu, Marcos, nasci em Porto Alegre em 1981 de um determinado casal com uma determinada história familiar, então este é o meu tempo e o meu lugar. Se as condições de vida da qual eu surgi são estas e não outras, é porque estas devem ser as condições para que eu venha ao mundo. Eu sou a melhor pessoa para viver exatamente esta condição neste tempo e neste lugar. Caso contrário eu teria nascido noutra época e noutro lugar, nem que fosse do casal vizinho um minuto mais tarde. 

A questão que se coloca aí é: o que vou fazer com esta minha condição? Como a nossa vida carece de uma resposta definitiva, como seu sentido, resta-nos lidar com o que temos. Viktor Frankl, no seu best-seller Em Busca de Sentido, diz que não somos nós que questionamos o sentido da vida, mas é a vida que me pergunta que sentido damos a ela. Dito de outra forma dentro de uma perspectiva religiosa: não é Deus que me propõe a descobrir o sentido geral da minha existência, mas é Ele que me propõe, a cada instante, responder aos desafios propostos por sua Vontade. Sou eu quem dou sentido à cada ato da providência divina respondendo a Ele. E o sentido não é uma resposta única e definitiva, mas uma ação, a autotranscendência, como diz Frankl, em me projetar para um objetivo para além de mim mesmo a cada instante, a cada passo. Eu devo responder e arcar com a reponsabilidade de cada instante da providência. Da decisão de se casar ao de arrumar a cama pela manhã, sou eu que dou a resposta e arco com esta responsabilidade. Talvez isto seja o que chamamos de felicidade, uma vida plena de sentido.

(Última edição em português do livro de Frankl.)

Se a resposta do sentido da vida, no seu sentido abrangente, é inviável à primeira vista, resta-nos a pergunta inicial: o que vou fazer com esta minha condição? Mais importante do que perguntarmos o sentido da vida talvez seja para quê ela serve. É apenas na atitude diária que podemos dar sentido e encontrar respostas à pergunta inicial. O desafio revelado por Frankl é antes de tudo um desafio prático sobre o qual se revela seu sentido existencial.

Portanto a crítica à "época errada" ou "às coisas" como ela são é jogar por terra o sentido da vida e a própria vida em si. Ademais, é uma pecado contra Deus, porque estamos colocando em cheque não só o que Ele nos deu, mas também sua onisciência e a infinitude de Seu amor. Se Deus é perfeito e nos ama infinitamente seria absolutamente absurdo que Ele nos colocasse numa situação que não fosse a melhor possível dentro do Universo criado. O próprio Universo tem de ser o melhor possível, porque só o melhor Universo é compatível com a perfectibilidade divina.  

Se a vida está muito ruim, talvez seja melhor repensar as decisões e o peso da consequente responsabilidade. Isto vale, acima de tudo, para mim mesmo. Se eu não consigo de alguma forma dar um sentido pleno à minha vida (algo difícil, diga-se), quanto mais poderia falar pelos outros.

O trabalho começa em casa sabendo que não estou só.