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terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Dia 7 de dezembro de 2021

          Há tempo notei a existência de um paradoxo: quanto menos tempo temos para fazer as coisas, mais disposição temos para realizar outras coisas; e quanto mais tempo temos, menos disposição temos para outras iniciativas. Pela lógica, deveria ser o contrário: se temos tempo livre, oras, então deveríamos ter mais disposição para agir. Minha afirmação surgiu basicamente por experiência pessoal, depois confirmada com outras pessoas.

          Olhar o tempo livre é contemplar o potencial que temos para ir além daquilo que somos. Em outras palavras, é a oportunidade de crescer, de realizar aquilo que os gregos chamavam de "ócio": o cultivo da alma e do corpo para melhorarmos enquanto pessoa, o que inclui nos aprimorarmos intelectual, moral e fisicamente através dos estudos, do cultivo das artes, do esporte, da oração, e assim por diante. Quem dera essa disposição surgisse automaticamente no contemplar do tempo livre, como se o cair de um gota de água límpida fizesse imediatamente a semente se transformar numa árvore de copa larga.

          Essa observação diz respeito às pessoas com rotina definida e que, após o trabalho, têm algum momento em que podem cultivar a si mesmas ou a vida em família ou com amigos.

          Quando fiz uma breve busca na internet na tarde de hoje para ver os concursos públicos disponíveis, me deparei com um "azar": um deles havia encerrado as inscrições vinte e cinco minutos antes de eu acessar o site; outro anunciava o dia do pagamento da inscrição no mesmo dia em que eu descobria o edital. Azar entre aspas, pois as coisas dependem da providência e de nossa iniciativa; no meu caso, da falta dela.

          Onde eu estava na falta da busca? Se estou com um problema a resolver, a questão é simples: dê o primeiro passo, vá atrás. Uma longa viagem da casa até a fazenda, do Brasil à China, do desemprego ao emprego começa com o primeiro passo. Se a casa se erguesse antes do primeiro tijolo, bastaria o desejo de conseguir um trabalho para que parte do caminho já estivesse trilhado antes mesmo de ser conhecido. Deus faz muito por nós, mas não o que cabe a nós fazer, pois somos os remadores que só encontram o rumo certo na vida ao remar guiados por aquilo que confiamos de coração.

          O tempo que sobra torna-se um fardo como num trabalho exaustivo quando o tempo do ócio confunde-se com o do negócio, para utilizar outro termo dos gregos antigos, agora referente à prática de nossas necessidades cotidianas. Por isso costumo dizer que o desempregado não tem férias, mas um problema a resolver que contrasta vivamente quando seu amigo ou vizinho, cansado mas realizado, despacha o próprio corpo à beira de uma praia. 

          Na ausência do primeiro passo o fosso só se alarga e aprofunda, engolfando ócio e negócio, lazer a trabalho, vida particular e pública numa grande sopa que apodrece à falta de luz do sol.  

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Dia 5 de outubro de 2021

          Chego a este dia dando o título que ele merece: sua data mesma. Eu, porém, mereceria muito mais. Deveria nomear este dia de outra forma para que fosse possível apreender seu real sentido para mim, para todo o meu ser plasmado e integrado na totalidade do real. 

          É aí que está o problema. Como seria possível compreender o real sentido deste dia para minha vida se não sou capaz de apreendê-lo de forma plena e verdadeira em minha consciência? Isto exigira uma reflexão profunda e um autoconhecimento completo de minha pessoa de forma que, combinados, dessem a resposta em meu coração sobre o real sentido do dia de hoje.

          Como esse mérito (ou melhor, graça) cabe ao sábios e santos, deixo o título desse texto apenas com o dia de hoje, 5 de outubro de 2021. E assim será em muitos textos subsequentes que pretendo desenvolver aqui.

          Ainda assim, a presente data tem algo a me dizer, o que significa tomar consciência de alguns acontecimentos pedagógicos na minha caminhada nesta vida. Nenhum dia é totalmente vão, e caso algum seja, seu vazio já é algo que incorporamos em nossa personalidade e gravamos no Livro da Vida. Um ensinamento para a eternidade.

sexta-feira, 10 de julho de 2020

A conquista da liberdade pela vida religiosa


          Quando pensarmos que somos obrigados a ficar em casa por força das autoridades públicas, que alegam tal medida com base em questões científicas sob o coro homogêneo de todos os grandes veículos de comunicação, lembremos que já estamos presos há várias décadas. A diferença é que a tirania da "ciência", do Estado e da autoridade se tornou mais explícita.

          Faço referência ao mundo administrado no qual vivemos.

          Até duas ou três gerações atrás, parte significativa das pessoas vivia no campo ao sabor das estações e dos ciclos naturais. O cotidiano era regrado principalmente por estes elementos; a vida religiosa era mais abundante e ambiente de confraternização dentro da comunidade as famílias não só mais unidas como maiores.

          Obviamente, não é prudente romantizar este passado recente. Violência familiar, assaltos, pobreza, doenças hoje banais que antes não possuíam tratamento, vulnerabilidade quanto aos humores da natureza, isto tudo pesava e causava sofrimento. Não por acaso, a expectativa de vida, que no Brasil do início do século XX mal chegava aos quarenta anos, hoje chega aos setenta e quatro.

          Ocorre que mais tempo de vida não significa mais qualidade, menos ainda mais felicidade. Tomo qualidade como realização pessoal e paz; felicidade como consequência destes dois atributos.

          Pois hoje, nascidos principalmente nas cidades e submetidos a todo o tipo de enquadramento comportamental, somos enviados obrigatoriamente às escolas, sob risco de termos os pais presos pela polícia, para ficarmos horas e horas ao longo de mais de uma década colocando na cabeça informações enquadradas em ciências dadas como espelhos da realidade e que em grande parte não servirão para nada; perdemos a noção do agradável som da natureza ao substituirmos a vida ao ar livre pela prisão de apartamentos e infindáveis salas de aula, reuniões e trabalhos; ficamos sob a tirania das horas numa contagem matemática do tempo, e sob a tirania do calendário ao ponto de imaginarmos estar fora da realidade quando simplesmente entramos em férias do trabalho.

          A vida religiosa, ela mesma veículo de uma vida espiritual (pois "religioso" e "espiritual" são coisas diferentes), antes regradora da ordem e semeadora de princípios, perdeu espaço para um mundo no qual não podemos dialogar, mas nos submeter. Podemos ser perdoados por Deus pelos nossos pecados, mas o relógio é implacável, bem como a sanção da lei por simples erros involuntários.

          É esta vida religiosa que alarga nossa liberdade e não apenas alivia como contém a pressão do mundo administrado, pois planta no cotidiano das pessoas a consciência de que acima do mundo há um Deus que acompanha nossos passos, aproxima as pessoas pelo senso de irmandade diminuindo a necessidade de uma autoridade que regule a vida pública, e abre um elo de confiança em Deus (a fé), cuja intervenção comanda as regras do jogo, podendo flexibilizá-las, tanto no regramento quanto nas sanções dos erros, de acordo com nossas necessidades e pedidos que elevamos aos Céus.

          Se nos sentimos presos nas coisas do mundo talvez seja porque falte a descoberta da imensidão incomensurável que é a alma humana, cuja exploração nos mostra que estamos vinculados a um Deus infinito dentro do Qual temos a liberdade absoluta. Esta liberdade não é a de fazer qualquer coisa, mas de ter atitudes livres conforme as circunstâncias, as mesmas que podem ser alteradas pela Providência.

          Não faço apelo para que abandonemos nossas vidas, mas sim que nos ajoelhemos e rezemos para descobrir este jugo que é suave e este fardo que é leve. Onde viceja uma vida interior abundante viceja igualmente a liberdade que acreditamos encontrar apenas no mundo.

domingo, 12 de janeiro de 2020

O cotidiano eterno


          Há uma frase de G. K. Chesterton que afirma, não exatamente com estas palavras, que o homem maduro é o que suporta a rotina, esta mesma rotina que em grande parte está voltada ao trabalho. Na época do escrito inglês não era diferente. Faz parte da vida moderna viver em atividade. Modernidade é movimento e desprendimento do ciclo natural da vida; e mesmo as pessoas que vivem uma vida, digamos, "tradicional", dependem do trabalho para viver, e este depende dos ciclos naturais para serem realizados. Daí a maturidade: temos de enfrentar as obrigações concretas e inadiáveis que nos inserem numa aparente ou real mesmice cotidiano, que temos de suportar com fibra o suficiente para não cairmos no desânimo ou estourarmos na revolta.

          Viver, portanto, é viver na rotina por mais excêntrico e mutável que possa ser o trabalho de uma pessoa. Por isto o desempregado não apenas se angustia com a falta do ganha-pão como sente a pressão psicológica de todos os dias ser obrigado a organizar-se mentalmente para atravessar um dia inteiro sem um foco claro e um objetivo que lhe preencha as horas que ameaçam lançá-lo no ócio. Fugir ou ser arremessado para fora da rotina acaba, portanto, por mergulhar a pessoa na desorientação ou no desânimo.

          Chesterton está certo que o homem real é aquele que suporta a rotina, mas o desempregado, o desorientado, aquele que não tem foco na vida prática teria de ser um super-homem para suportar o peso não apenas da cobrança que a vida lhe exige, de sustento material, mas principalmente o caos mental que a falta de foco e sentido lhe provoca. Se o trabalhador tem, como diz o provérbio popular, de matar um leão por dia, o desempregado tem de matar vários para ocupar seu tempo. É uma luta infernal.

          O mais estranho nesta tensão com o cotidiano é a aparente falta de sentido, não apenas do sentido histórico da prática, como também da vida pessoal. A pessoa que sai de férias sente como se estivesse "fora da realidade" e, ao voltar, que está voltando ao "mundo real". O tempo do relógio, uma artificialidade que abstrai em números o ciclo natural do dia, prende-nos como se dependêssemos dele para nos sentirmos vivos e dizer, "sim, a vida tem sentido". O problema é que a vida do movimento, do trabalhar para pagar as contas, do cumprir leis e contratos, pegar filhos da escola e dar aquela atenção básica à esposa ou o marido como se o mundo real se resumisse à prática fria e espiritualmente estéril dominada pelo tic-tac das horas, como se estas brotassem do solo tal qual o trigo ou a cevada, é, em última instância, uma vida sem sentido aprisionada na contagem artificial do tempo. A vida moderna é uma autofagia centrada em si mesma, uma engrenagem falsamente harmônica forjada à sua imagem e semelhança, à imagem do ideal humano do mundo racional administrado que, como bem observamos em faltas de luz, engarrafamentos e enchentes, nunca é o ideal.

          Ser homem é suportar isto, porque este suporte só é possível por conseguirmos ver além da rotina das horas contadas. Porque o homem é primeiro espírito, e ele não pode ser aprisionado pelos afazeres práticos, nem mesmo pelo tempo. Ser homem é ser eterno e ver que nas obrigações cotidianas há, de uma forma ou de outra, um reflexo do amor e da eternidade. Trabalhamos porque buscamos o amor eterno, pagamos as contas pelos mesmos motivos, criamos família porque ansiamos pelo amor que nos escapa dentre os dedos. Ansiamos a todo o instante a perfeição, o Paraíso, que, ao exemplo das experiências totalitárias, é impossível de se realizar neste mundo.

          Nossa rotina não pode ser um fim em si mesma porque sua perfeição é impossível e, portanto, o sofrimento advindo quando fechados nela inevitável. Por isto nossos trabalhos passarão, mas o espírito, aquilo que movimenta as coisas dentro de um tempo administrado, jamais passará.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

O dilema do dia a dia


          Há muitos anos, desde o final da infância pelo menos, lembro-me de ter uma mente agitada, excessivamente agitada eu diria. Desta mente em constante ebulição nasceu não apenas a criatividade, mas também o tormento. Não é fácil ter a mente agitada, porque é necessário (sumamente necessário) ter momentos de paz interior que é alcançada através do silêncio interior (e exterior também) e a contemplação da realidade entorno.

          Todos os dias, e hoje lembro vagamente desta mesma experiência, tenho na mente e no coração a dúvida sobre a vida, o questionamento de seu sentido e a razão de eu estar neste mundo, neste local e nesta época. Então penso: "Não deveria ficar mais tranquilo, viver o cotidiano com mais leveza e deixar que as coisas, minha missão de revele pela Providência?" Sim, deveria. Porque é na caminhada, não no questionamento e na reflexão filosófica, que brota a resposta. A reflexão filosófica é, ou deveria ser, muitas vezes, parte da caminhada, não a resposta mesma. Viktor Frankl já ensinou que o sentido da vida não está na pergunta em si, mas é a vida que pergunta lhe que sentido você dá a ela. A "vida" é, em última instância, a Providência. Cabe agir, ter a atitude cotidiana de fazer seu dever, trabalhar, pagar as contas, respeitar as pessoas, se arrumar para dormir, etc, enfim, incorporar no seu coração o seu dever e dar Glória de Deus por isto.

          Estar aqui, penso eu neste momento, em frente a um computador onde escreve este texto faz parte do caminhar, e a caminhada, o agir no dia-a-dia depende da iniciativa. "Deus ajuda quem cedo madruga", diz o provérbio popular; e ajuda não só no sentido prático, Ele dá a paz a quem faz por merecê-la, isto é, quem está aberto a ela. Isto não é uma questão de mera intenção, de mera reflexão filosófica, mas de ser quem se deve ser, sem desejos hiperbólicos nem sem desânimo depressivo; de viver a vida na sua normalidade alicerçada na fé de que, sim, a Providência é o lastro sobre o qual tomamos nossas decisões e construímos nossa História.

          O coração que não estiver aberto a este porvir que se abre no cotidiano viverá a angústia de buscar eternamente a resposta inicial. A mente, é claro, pode ajudar na caminhada, mas também pode atrapalhar. É necessário fazer silêncio às perguntas e deixar brotar as respostas tal qual a semente mergulhada numa terra úmida e fecunda.

domingo, 4 de novembro de 2018

A ilusão do poder

(Arco do Triunfo em Paris: símbolo da Revolução Francesa, que deu origem ao modelo de Estado moderno adotado no mundo todo.)

          Encerrada a guerra das eleições, resta-nos, além de monitorar e fazer pressão no novo governo quando necessário, tocar a vida adiante. A política é uma das faces de nosso cotidiano. Ainda que ela permeie cada vez mais nossos afazeres, ela não é nosso dia-a-dia.

          Nosso dia-a-dia é o levantar, arrumar a cama, falar com as pessoas da família em casa, trabalhar, ir ao mercado, manter as amizades e cuidar um pouco da saúde (e também da aparência, por que não?). Mas vivemos numa época em que a política parece que resolverá tudo, como se devêssemos ter o líder ideal, mais que um salvador da pátria, um salvador da humanidade a guiar seu povo no caminho sonhado em direção ao Paraíso terrestre.

          Na era das democracias (ou seja lá o que isso signifique realmente), acreditamos que o Estado e a legislação trarão tanta alegria e felicidade como outrora o "ideal" comunista prometeu. Pior: ainda promete. Porque a mentalidade do Estado totalizador da vida humana, ainda que nas suas vestes de Estado de direito, insiste em prometer o que não pode dar. Porque quanto mais direitos, mais deveres e mais pessoas obrigadas a trabalhar para a realização desses direitos pela força da lei. Se isso não é totalitarismo, não sei o que é. 

         Seja nos moldes do Estado comunista, fascista ou liberal, o Estado moderno cresce e vive às custas de uma esperança da vida pós-morte que a modernidade colocou para além de nosso horizonte cotidiano. Na obra "Rumor de Anjos", Peter Berger afirma que um dos efeitos mais espantosos da secularização, isto é, a subtração de expressões e símbolos religiosos da sociedade, é a eliminação da ideia da morte. A vida moderna fez o homem voltar-se apenas às coisas do mundo. Relegado o plano da transcendência ao esquecimento, surgem as coisas meramente cotidianas como totalizadoras da vida, dentro das quais o Estado é o principal ator a nível coletivo, o condutor da sociedade. Assim como a técnica busca dominar a natureza, o Estado busca dominar a vida humana, guiando-a para a perfeição segundo suas diretrizes e os planos ideológicos de seus mentores e administradores. A utopia floresce na mente dos que se colocam na direção do mundo, que caminha rumo ao desconhecido e, por isto mesmo, ao fracasso. 

          Enquanto levamos nosso dia-a-dia adiante continuamos a viver no crescente domínio do poder político sobre nossas vidas, cada vez mais dependentes dos meios modernos de vivência. É paradoxal que vivamos como se a política não existisse ao mesmo tempo em que esperemos tudo dela. Talvez este seja um caminho: viver como se o governo não existisse, como se a política fosse irrelevante, como se o Estado fosse uma ficção. Cumprindo sempre os deveres legais, mas menosprezando-os como meramente legais. Desenvolvendo uma vida interior ativa e vigorosa que forneça a consciência pessoal e espiritual de nosso papel no mundo. Afinal, um dia nós nascemos sem necessitarmos disso, e após a morte romperemos com a ilusão totalizadora do mundo, deixando posses, poderes e ideologias para trás.      

          

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Santos, doutores e analfabetos: os leitores do livro da vida


          Há momentos no meu dia-a-dia em que percebo que estou percebendo algo. Isto mesmo: tomo a consciência de que estou vendo, entendendo o que se passa ao meu redor. É como se eu tomasse posse de parte da realidade, aquela parte que me é apresentada num determinado instante.

          Explico: às vezes estou na rua e vejo o trânsito de automóveis e as pessoas caminhando. Vejo que cada um faz seu caminho próprio e que ao mesmo tempo tem que se movimentar sem se chocar com os outros e os objetos à volta. Porém, ninguém sabe com exatidão se alguém ao lado realizará o movimento esperado. Isto é comum no trânsito: sabemos que o carro à frente seguirá seu curso, mas temos a real certeza de que ele realmente fará isto? Não estará o motorista pensando em dar uma guinada à esquerda de surpresa ou encostar subitamente sem dar sinal? Ou o pedestre à beira da calçada, ele olha para nosso carro em movimento, mas será que temos absoluta certeza de que ele está concentrado em nós e não está distraído com algum pensamento, consciente apenas à sua própria mente, e irá se jogar na frente do carro sem perceber? 

        Nesta situação tudo para mim parece claro, objetivo, evidente. Não que eu saiba o que os demais estão pensando, mas eu vejo, intelectualmente, que todas as pessoas partilham da incerteza sobre o que todas as demais irão fazer, e mesmo assim as coisas funcionam perfeitamente bem. E se há um acidente (uma batida entre dois carros, por exemplo), eles são infinitamente raros se observamos a infinidade variáveis que entrelaçam um fato, que em volta do acidente são milhares, milhões ao mesmo tempo. Podemos ver isto num único toque, num único olhar. É o que chamamos de intelecção, a capacidade de entender a realidade entorno. 

          Este é o meu deleite e talvez o de alguns leitores deste texto. Eu morreria de tédio e de desgosto se pudesse viver momentos assim. Não fico entendendo tudo o tempo todo, mas minha vida correria o risco de perder o sentido caso eu perdesse esses momentos de maravilhamento da realidade que, no fundo, são comum a todos. É neste sentido que a vida é um livro aberto: tudo à nossa volta induz à leitura do mundo e esta leitura se torna, no seu acontecer, uma leitura da alma, porque ler a realidade é tomar consciência de uma operação da alma que se revela na relação com o mundo. Isto é entendimento, isto é intelecção, isto é vida. Portanto, para o ser humano viver é necessariamente entender por mais ignorante que a pessoa possa parecer aos olhos das convenções sociais. 

        Quanto mais límpidos são os olhos da alma, mais clara é esta intelecção, mesmo que a pessoa não tenho inteligência segundo a erudição e a ciência. É neste sentido que a alma santa, mesmo analfabeta, sabe muito mais do que os doutores: ela lê o mundo e não precisa de meios ou instrumentos rebuscados para entender o que precisa ser entendido. O instrumento está nela mesma, está em todas as pessoas. Basta entender, ato este que é um dom dado desde o Alto. A alma santa entende tudo ainda que lhe faltem palavras. 

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Ser luz no mundo e ator da História


 
          Quando criei meu blog sobre a Rússia em junho de 2015, tinha como objetivo investigar os pormenores da política, história e cultura deste país para entender alguns eventos que envolviam a Rússia e o mundo. Uma das motivações para estas investigações foi minha experiência como aluno de mestrado, realizado pelas Ciências Sociais da PUCRS entre 2010 e 2012.
 
          Durante o curso realizei minha dissertação de mestrado, e ao longo de todo o ano de 2011 e início de 2012 realizei minha pesquisa de campo, onde fiz em torno de 45 visitas a 19 hospitais de Porto Alegre (o trabalho versava sobre a religiosidade em hospitais) e entrevistei 28 pessoas. Após o mestrado percebi o que já observava durante minha pesquisa de campo: que os acontecimentos históricos dependiam de decisões, e decisões são feitas por pessoas, indivíduos, que em algum momento decidem tomar a decisão A para alcançar o resultado B. Como nem sempre as coisas saem conforme o esperado, muitas vezes o resultado é C, e não B.
 
(Segunda edição brasileira do livro de Peter Berger e Thomas Luckmann.)
 
          O mais importante, porém, é atinar para a origem dos acontecimentos: há uma pessoa ou um grupo de pessoas a partir do qual surge uma ideia e, daí, uma decisão, que se transforma em ato conforme grupo ao qual ela pertence leva adiante sua intenção. Utilizo aqui uma linguagem coloquial que caberia a uma investigação mais profunda na Filosofia da História ou na Sociologia. Acredito que o livro de Peter Berger e Thomas Luckmann, A Construção Social da Realidade, ajude a entender um pouco as contingências que permitem que uma decisão seja levada adiante. Afinal, dizendo o óbvio, vivemos em sociedade e temos uma vida cotidiana, a "realidade por excelência" nas palavras dos autores, e estamos limitados ao que eles chamam de "mundo escuro", a realidade que está além de nosso conhecimento. Dispomos de recursos limitados (conhecimento, tempo de vida, condição econômica, física, psicológica) para tomar tais decisões. Dispomos de um corpo, certo conhecimento adquirido de experiência e estudos, um círculo de relacionamentos que permite aplicarmos nossas ações sobre outras pessoas e tentar propagar seus efeitos conforme a intenção inicial, recursos físicos para isso (corpo, telefone), e assim por diante. Resgatando novamente Viktor Frankl, o que importa é que independente do local e da cultura em que vivemos nós tomamos decisões.
 
          Aqui entra meu último texto neste blog, onde comento sobre minha experiência na TIP e minha decisão de ser "luz no mundo". É claro que minha decisão não me faz uma pessoa boa por si só, muito menos alguém melhor do que os demais, mas se a expectativa é que no mínimo eu tenha uma vida decente preciso antes de mais nada decidir em ser luz, senão para o mundo, ao menos para mim mesmo. "É infeliz quem decide ser." Esta é uma frase que certamente já ouvi da minha psicóloga da TIP, não necessariamente nesta ordem. Esta decisão é, em muitos casos, a nível inconsciente.
 
          Nossa decisão mais profunda é também a decisão que orientará nossas ações. Isto na TIP é chamado registro. O registro não é a memória de um acontecimento, mas a decisão em dar determinada resposta a uma determinada experiência. Esta resposta torna-se o modelo de resposta a situações no futuro que ativem o registro. Mas este registro só existe porque nós decidimos adotá-lo como nosso. Na TIP, utilizando a técnica da ADI, é preciso se conscientizar do registro que queremos nos livrar e buscar um outro, desta vez positivo, que tenha sido decidido em outra situação similar, substituindo o primeiro pelo segundo. Em muitas ocasiões pude ver que muitos projetos de vida que eu tive no passado foram abortados ou se tornaram insustentáveis porque, inconscientemente, eu havia decidido, ainda no útero materno, rejeitar o mundo que eu concebida como ruim e insuportável. E já que o mundo lá fora era uma droga, então que eu tornasse tudo um inferno mesmo. 
 
          Acontece que na decisão de "ser luz" todos os meu projetos de vida passaram a ser afetados (tomo isso como hipótese, dado que este é um evento muito recente, de segunda-feira passada, e hoje é recém quarta-feira). Isto quer dizer que decisões futuras serão afetadas por esta nova decisão, este novo registro, inserido nas contingências em que eu vivo, mudará pelo menos em parte o rumo de minha vida. Assim espero, e é isto que a TIP nos propõe.
 
(Ir à guerra - ou detê-la - depende de decisões, apesar das contingências que possam dificultar sua execução. Na foto, soldado pró-Rússia na Ucrânia.)
 
          A decisão de ser uma nova pessoa impacta diretamente suas ações, e aí voltamos ao contexto do livro de Berger e Luckmann: o impacto numa sociedade dependerá de decisões de certas pessoas que tomem a iniciativa de mudar o curso dos acontecimentos segundo suas limitações. Todo mundo gostaria de acabar com a violência, por exemplo, mas quem dispõe de meios capazes de eliminá-la ou ao menos contê-la? Quem tem conhecimento e, principalmente, meios de ação para tal? Foi esta realidade que encontrei no meu trabalho de mestrado, quando trabalhei com o ambiente hospitalar: decisões administrativas e iniciativas pessoais nem sempre chegavam ao resultado esperado, principalmente porque as pessoas não concordavam, ou seja, decidiam que certas atitude eram erradas e agiam contra. Quando procuro investigar algo sobre a Rússia não estou lá para falar com as pessoas, e busco o caminho inverso partindo do geral para descobrir o particular. Se vasculharmos as causas da guerra na Ucrânia, por exemplo, encontraremos muitos atores que aparentemente nada tinham a ver com a guerra, mas que foram determinantes para que ela acontecesse. Não me consta que conflitos armados aconteçam porque os canhões começaram a disparar sozinhos. Alguém puxou o gatilho, e tinha razões para isso, fossem elas justas ou não.
 
          Pequenos ou grandes, visíveis ou invisíveis, pessoal ou mundial, tudo o que acontece é decisão nossa. A História é uma teia de atos precedidos por decisões. Ninguém se levanta da cama só porque acordou. Há uma razão para sair para trabalhar; a uma razão para começar ou parar uma guerra. Quando tomei a decisão de "ser luz" no mundo, não pretendia fazer nada de excepcional, mas não haverá mudança no rumo dos acontecimentos que nos afetam negativamente minha vida se não decidir por agir na direção contrária. E falo isso sem qualquer pretensão de grandeza, pois não só considero inviável como rejeito abertamente a ideia de um "mundo melhor" sem antes melhorar a mim mesmo, e rejeito ainda mais esta ideia com base num plano universal que é inevitavelmente imperfeito dada as contingências dos planejadores, tão limitados quanto qualquer um de nós. As decisões são necessárias tanto para o levantar da cama quanto para o planejamento de uma guerra. Tudo o que fazemos fazemos porque queremos e arcamos com as responsabilidades de nossas ações.