"O mundo ao nosso redor aceitou um sistema social que nega a família. Às vezes, ajudará à criança em vez da família; à mãe em lugar da família; ao avô em lugar da família. Mas ajudará a família." (G. K. Chesterton, "G.K.'s Weekly", 1930)
sábado, 10 de outubro de 2020
O sistema moderno contra a família
terça-feira, 1 de setembro de 2020
Gosto, moral e os progressistas
"Muitos dos modernos têm tradado o gosto como se fosse uma questão moral. Só espero que não tratem a moral como se fosse uma questão de gosto." (G. K. Chesterton, em "Lunacy and Letters", 1958)
Este aforisma de Chesterton é um retrato evidente do mundo de hoje. Seu temor se transformou em realidade, onde o gosto, de fato, se tornou a nova moral, ainda mais sacra e opressora do que qualquer moral tradicional.
Esta cosmovisão é a essência ética da mentalidade progressista, que vê na sua época o ápice da "iluminação" do homem e, portanto, superior a tudo o que já passou.
E por que tolerar as coisas do passado se elas estão "superadas"? Todo o mal, na mentalidade progressista, advém do passado que não morreu, sendo moralmente justificável suprimir tudo o que não conste na agenda do momento.
Mas a pergunta que se coloca é: quem formula a mentalidade de nossa época? De onde vêm os princípios da moda, que versam desde a luta contra o preconceito até as formas de vestimenta?
Pois a era moderna (ou pós-moderna) transformou tudo em questão de gosto e, para usar a expressão de Bauman, transformou tudo em líquido, ou seja, nada se fixa, tudo muda conforme os gostos da época com suas manias e ideias alterando desde relacionamentos até a ordem política.
Centrada na subjetividade individual, a moral virou opção, e a opção fundamenta-se no gosto; e gosto oscila de acordo com a moda e o desejo do momento. O "eu quero" e "eu acho" se tornaram os novos mandamentos sagrados pelo qual todo o passado deve ser sacrificado.
A apologia do tempo presente é a apologia do desejo presente, a entronização deste desejo como moral vigente, e o nivelamento da moral tradicional como mero desejo a ser equiparado (ou suprimido) a todos os demais.
Talvez Chesterton não imaginasse que esta forma de conceber o mundo fosse promovida a toque de caixa por todo o globo. Nosso mundo "evoluiu" ao ponto de que, como temia nosso querido escritor, temos de provar aos modernos, desgostosos com a coloração da vegetação sobre a qual pisam, de que a grama é verde. Anátema seja quem discordar do psicótico desejo alheio.
domingo, 30 de agosto de 2020
Multidões solitárias
"O mal principal de nosso tempo é que a coletividade social tem fomentado a solidão espiritual. Nunca as pessoas estiveram tão acompanhadas e nunca as estiveram tão solitárias." (G. K. Chesterton)
A sociedade de massas é a sociedade do anonimato, da multidão sem rosto que fecha-se em si mesma para facilitar seus fins práticos.
Esta passagem de Chesterton lembra os estudos do filósofo e sociólogo alemão Georg Simmel, que afirmava que o homem das cidades, local das massas por excelência, possuía uma atitude blasé, de relativa indiferença com relação ao próximo.
Eliminada a vida comunitária, onde todos conhecem a todos pelo nome, pelos traços e pelos modos, somos obrigados, pelo próprio mecanismo da vida em sociedade, a ignorar estes mesmos nomes, traços e modos a fim de manter em funcionamento esta grande máquina sem rosto que é o mundo moderno.
Porque nas cidades encontramos muita gente todos os dias, e é impossível tratar intimamente todos as pessoas; mas ao mesmo tempo temos de manter a civilidade para com o próximo a fim de tornar a vida suportável.
Vivemos como se o outro fosse alguém de valor, por assim dizer, mediano a ser tratado para fins meramente utilitários.
O próximo transforma-se em mais um em meio à multidão.
E ninguém pode se sentir bem acompanhado por quem não tem rosto. Estar na companhia de um anônimo é mais ou menos como passear com uma estátua. Ou um poste.
Chesterton traz esta afirmação com a experiência de quem viveu na Londres do início do século XX, então uma das maiores cidades do mundo.
Ele viu, ele viveu numa sociedade massificada e viu a solidão rondar seu universo. E mais, viveu esta solidão.
Numa era onde tudo se tornou coletivo, onde a ênfase no indivíduo desembocou na apologia aos objetivos meramente práticos e abriu as portas à engenharia social em larga escala, temos a falsa impressão de que podemos suprir nossa solidão com desejos pessoais e slogans midiáticos repetidos por todos ao mesmo tempo.
Estamos só porque nos rendemos à massa. Olhar a humanidade no próximo é o primeiro passo para apagar a angústia e a tristeza de uma vida solitária.
domingo, 26 de julho de 2020
Novas embalagens para velhos erros
sábado, 25 de julho de 2020
A necessidade de estar errado quando todos acham que estão certos
segunda-feira, 20 de julho de 2020
Os frutos dos "livros maus"
Esta afirmação de Chesterton é de 1901 e provavelmente se baseava nas desgraças publicadas algumas décadas antes. Mas também antevia as desgraças de depois.
sexta-feira, 17 de julho de 2020
O sustento do mundo pelas pequenas coisas
sexta-feira, 10 de julho de 2020
A conquista da liberdade pela vida religiosa
Quando pensarmos que somos obrigados a ficar em casa por força das autoridades públicas, que alegam tal medida com base em questões científicas sob o coro homogêneo de todos os grandes veículos de comunicação, lembremos que já estamos presos há várias décadas. A diferença é que a tirania da "ciência", do Estado e da autoridade se tornou mais explícita.
Faço referência ao mundo administrado no qual vivemos.
Até duas ou três gerações atrás, parte significativa das pessoas vivia no campo ao sabor das estações e dos ciclos naturais. O cotidiano era regrado principalmente por estes elementos; a vida religiosa era mais abundante e ambiente de confraternização dentro da comunidade as famílias não só mais unidas como maiores.
Obviamente, não é prudente romantizar este passado recente. Violência familiar, assaltos, pobreza, doenças hoje banais que antes não possuíam tratamento, vulnerabilidade quanto aos humores da natureza, isto tudo pesava e causava sofrimento. Não por acaso, a expectativa de vida, que no Brasil do início do século XX mal chegava aos quarenta anos, hoje chega aos setenta e quatro.
Ocorre que mais tempo de vida não significa mais qualidade, menos ainda mais felicidade. Tomo qualidade como realização pessoal e paz; felicidade como consequência destes dois atributos.
Pois hoje, nascidos principalmente nas cidades e submetidos a todo o tipo de enquadramento comportamental, somos enviados obrigatoriamente às escolas, sob risco de termos os pais presos pela polícia, para ficarmos horas e horas ao longo de mais de uma década colocando na cabeça informações enquadradas em ciências dadas como espelhos da realidade e que em grande parte não servirão para nada; perdemos a noção do agradável som da natureza ao substituirmos a vida ao ar livre pela prisão de apartamentos e infindáveis salas de aula, reuniões e trabalhos; ficamos sob a tirania das horas numa contagem matemática do tempo, e sob a tirania do calendário ao ponto de imaginarmos estar fora da realidade quando simplesmente entramos em férias do trabalho.
A vida religiosa, ela mesma veículo de uma vida espiritual (pois "religioso" e "espiritual" são coisas diferentes), antes regradora da ordem e semeadora de princípios, perdeu espaço para um mundo no qual não podemos dialogar, mas nos submeter. Podemos ser perdoados por Deus pelos nossos pecados, mas o relógio é implacável, bem como a sanção da lei por simples erros involuntários.
É esta vida religiosa que alarga nossa liberdade e não apenas alivia como contém a pressão do mundo administrado, pois planta no cotidiano das pessoas a consciência de que acima do mundo há um Deus que acompanha nossos passos, aproxima as pessoas pelo senso de irmandade diminuindo a necessidade de uma autoridade que regule a vida pública, e abre um elo de confiança em Deus (a fé), cuja intervenção comanda as regras do jogo, podendo flexibilizá-las, tanto no regramento quanto nas sanções dos erros, de acordo com nossas necessidades e pedidos que elevamos aos Céus.
Se nos sentimos presos nas coisas do mundo talvez seja porque falte a descoberta da imensidão incomensurável que é a alma humana, cuja exploração nos mostra que estamos vinculados a um Deus infinito dentro do Qual temos a liberdade absoluta. Esta liberdade não é a de fazer qualquer coisa, mas de ter atitudes livres conforme as circunstâncias, as mesmas que podem ser alteradas pela Providência.
Não faço apelo para que abandonemos nossas vidas, mas sim que nos ajoelhemos e rezemos para descobrir este jugo que é suave e este fardo que é leve. Onde viceja uma vida interior abundante viceja igualmente a liberdade que acreditamos encontrar apenas no mundo.
sexta-feira, 3 de julho de 2020
Ainda a traição dos intelectuais: a tragédia na avidez em transformar o mundo
"De fato, desde mais de dois mil anos até estes últimos tempos, percebo através da história uma série ininterrupta de filósofos, de religiosos, de literatos, de artistas, de cientistas - pode-se dizer quase todos ao longo desse período - cujo movimento é uma oposição formal ao realismo das multidões."
"...a ação desses intelectuais permanecia sobretudo teórica; eles não impediram os leigos de encher toda a história com o ruído de seus ódios e de suas matanças; mas os impediram de ter a religião desses movimentos, de acreditar-se importantes porque agiam para realizá-los. Graças a eles, pode-se dizer que, durante dois mil anos, a humanidade fazia o mal mas honrava o bem. Essa contradição era a honra da espécie humana e constituía a fissura por onde podia se introduzir a civilização." [grifos do autor]
"Ora, no final do século XIX produz-se uma mudança capital: os intelectuais passam a fazer o jogo das paixões políticas; os que formavam um obstáculo ao realismo dos povos tornam-se seus estimuladores." [grifos do autor]
"Ter por função a busca das coisas eternas e acreditar em um engrandecimento ao se ocupar da cidade, tal é o caso do intelectual moderno. - Que essa adesão do intelectual às paixões dos leigos fortalece essas paixões no coração desses últimos, é algo tão natural quanto evidente."
"...eles puseram no topo dos valores morais a posse de bens concretos, da força temporal e dos meios que os proporcionam, e votaram ao desprezo dos homens a busca dos bens propriamente espirituais, dos valores não práticos ou desinteressados."
"Esse deslocamento da moralidade é com certeza a obra mais importante dos intelectuais modernos, a que mais deve reter a atenção do historiador."
quarta-feira, 1 de julho de 2020
A traição dos intelectuais
"A tentativa de intelectuais de defender o stalinismo os envolveu num processo de autocorrupção; transferiu para eles e, consequentemente, para seus países, ajudados pelos seus escritos, parte da decadência moral inerente ao próprio totalitarismo; em especial, a negação da responsabilidade individual, seja para o bem, seja para o mal."
Nos dias de hoje, a amputação de valores inerente à condição humana são as prerrogativas necessárias para atos anti-humanos mais silenciosos, mas não menos horrendos, como o aborto e a eutanásia, implementadas não sob a opressão ostensiva dos campos de concentração e de trabalho escravo, mas sob a aparente suavidade das leis democráticas.
terça-feira, 2 de junho de 2020
O símbolo de uma época
Os decretos anacrônicos e o uso compulsório da máscara apagam nossa característica mais elementar. Cria-se uma interface entre a pessoa, antropologicamente sufocada pela membrana que, dizem, protege de doenças, e a realidade à volta, que perde sua presença essencialmente humana e torna-se um jardim de flores sem cor ou árvores sem folhas.
Razão pela qual ficamos despidos de nossa identidade mais elementar, a máscara massifica a todos numa espécie de distopia em que a pessoa, com sua história e vida interior expressa nas feições da face, torna-se membro da massa, um homem-massa no sentido literal do termo, mera estatística na contabilidade demográfica e sanitária.
Mas a massificação da pessoa não é apenas estética com suas consequências advinda do universo simbólico que nos comunica toda uma nova realidade opressiva. Ela se ergue como sinal de seu último objetivo.
Alegadamente, a máscara deveria nos proteger de doenças, fato questionado pela organização apresentada como modelo de "ciência", a Organização Mundial da Saúde, em abril deste ano.
Alegadamente, ela é para nosso bem, como bem pretendem as autoridades "democráticas", segundo os "porta-vozes" da "ciência" fabricada nas redações dos jornais, que afirmam tal sentença com base em "evidências" coletadas em artigos científicos publicados em última hora e nos acontecimentos em escala planetária num espaço de semanas.
Seu objetivo maior, mas não declarado, é fechar a fonte da palavra, a capacidade de criação do homem que está na sua liberdade de expressão. E falo aqui da expressão no sentido mais rudimentar do termo, porque um simples "ah!" é marca de quem o diz, o primeiro passo para fora do padrão "cientificamente" pré-estabelecido
Se a palavra é criadora, por qual razão amputar esta liberdade? No mundo em que "democratas" se revelam verdadeiros autocratas e a ciência é apresentada como autoridade por meio de falastrões frente às câmeras, a nova epidemia foi o elemento perfeito para, por meio dos meios democráticos de ação, finalmente "melhorar" o mundo.
A soberba demoníaca que contaminou a sociedade e erigiu o Estado e todo o aparato institucional, seja ele público ou privado, com objetivo de melhorar o mundo se apresenta na síntese de uma tecnocracia cientificista, ou seja, pretensamente científica, legitimada através dos meios de comunicação. Uma aliança entre políticos, cientistas e formadores de opinião em nome do mundo melhor.
Na cosmovisão mecanicista que concebe o mundo como uma engrenagem de peças e máquinas não há espaço para erro no grande e novo plano de engenharia social. Não cabe, entre drones de patrulha, rastreamento por celular, monitoramento de distanciamento, quarentena forçada, paralisia geral, ordens policiais, notícias "verdadeiras", repetição massiva de slogans midiáticos e toda a sorte de medida draconiana "científica", a imprevisibilidade da opinião, da ação, do gesto genuinamente humano, imprevisível, incalculável e, portanto, incontrolável.
É urgentemente necessário cobrir nossa humanidade para que ninguém a veja.
domingo, 10 de maio de 2020
A caridade num mundo utilitário
terça-feira, 28 de abril de 2020
O emponderamento do lunático
sábado, 25 de abril de 2020
A falsa liberdade
Assim, o poder econômico nivelou, no mesmo patamar, verdades e mentiras, fatos e falsidades, pesquisas sérias e palpites de esquina.
Mas esta maior liberdade, que é vista como a essência da democracia mesma, não só é frágil como facilmente manipulável. A liberdade de opinião como uma emancipação verdadeira é falsa e mesmo perigosa.
A técnica da qual brotou a democratização das opiniões é a mesma que possibilitou a emergência de um enorme poder político-econômico concentrado em Estados e grandes corporações, os quais se tornaram capazes de manipular o fluxo de informações e fazer prevalecer umas opiniões sobre as outras independente de sua veracidade.
Se o poder econômico permitiu democratizar as opiniões, esta se tornaram relativas, e o poder político e as grandes fortunas acabaram por eleger aquelas que deveriam ser erigidas como "verdades" estabelecidas.
A citação de Chesterton precisaria apenas ser atualizada: a emancipação moderna não dá apenas a possibilidade de alguém com dinheiro publicar um jornal, mas também notícias eletrônicas, criar redes de comunicação virtuais e, acima de tudo, controlar o fluxo de informações.
A emancipação moderna é uma faca de dois gumes: os meios que permitem a sonhada liberdade de opinião são os mesmos que viabilizam sua supressão.
quinta-feira, 16 de abril de 2020
O julgamento do mundo
A imagem ideal destes dois tipos de homem confere ao primeiro a áurea da felicidade e ao segundo a áurea da infelicidade.
Não por acaso nossa era pode ser chamada, como diz o historiador John Lukacs, de "era burguesa", onde a busca pelo bem estar material se tornou a tônica da educação e da ordem social.
Esta, porém, é a aparência das coisas. O apego ao mundo exterior esconde não só parte da personalidade de uma pessoa, como muito pouco ou nada diz à sua ordem interior.
A visão que nós temos de nós mesmos é diferente daquela que Deus tem dele. Muito pouco podemos ver se enxergamos apenas o mundo imanente, o mundo captado pelos sentidos, que muitas vezes maculam, filtram ou mesmo bloqueiam a realidade espiritual.
Nesta citação, Chesterton procura abrir nossos olhos para o erros do julgamento, baseada na cegueira interior e na perda do senso das proporções. Também expõe a perda da virtude do herói, do cavalheiro e do santo, tão enfatizadas na Idade Média, mas hoje perdidas.
As virtudes essenciais vivem no homem e não se revelam aos nossos olhos. Por mais que possamos maquiar nossa imagem ou mesmo nossa atitude perante o mundo não passamos incólume ao Observador Onipresente.
domingo, 12 de janeiro de 2020
O cotidiano eterno
quinta-feira, 9 de janeiro de 2020
Mudanças climáticas ou mudança de visão de mundo?
Se todas as cidades do mundo fossem unidas numa mesma área urbana, elas cobririam uma área equivalente ao estado americano do Texas ou um pouco mais do que o estado de Minas Gerais. Para termos uma dimensão da desproporção, o Texas possui 678 mil km² de área, enquanto que o planeta Terra inteiro em torno de 510 milhões de km². Portanto, se todas as cidades do planeta fossem unidas numa mesma área urbana cobririam apenas 0,13 % da totalidade da superfície terrestre, mas abrangeriam pouco mais da metade dos atuais 7,7 bilhões de habitantes de todo o mundo.
Estamos como que presos na máquina criada por nossa própria mente e chamamos isto de "realidade"; reproduzimos um mundo à sua imagem e semelhança, como se fosse possível controlar por completo nosso ambiente; ficamos protegidos e blindados por um mundo artificial para além do qual é impossível sairmos completamente a não ser que coloquemos o corpo para fora deste mundo; e ainda que saíssemos do mundo construído teríamos o modelo da gravura como o limite de nosso imaginário, que está em constante conflito com nossas experiências e crenças pessoais.
segunda-feira, 22 de outubro de 2018
O mundo administrado: projetos de um Paraíso impossível
“Indagado sobre como obtinha a bela harmonia de suas esculturas, Michelangelo teria respondido: ‘É simples. É só você pegar um bloco de mármore e cortar todos os pedaços supérfluos’. No auge do Renascimento, Michelangelo proclamou o preceito que foi o guia da criação moderna. A separação e a destruição do refugo seriam o segredo comercial da criação moderna: cortando e jogando fora o supérfluo, o desnecessário e o inútil, seriam descobertos o belo, o harmônico, o agradável e o gratificante” (BAUMAN, 2004, p. 31-32, grifo no original)
“A história da era moderna tem sido uma longa cadeia de projetos considerados, tentados, perseguidos, compreendidos, fracassados ou abandonados. Os projetos foram muitos e diversos, mas cada um deles pintou uma realidade futura diferente daquela que os projetistas conheciam. E uma vez que ‘o futuro’ não existe enquanto permanece ‘no futuro’, e que ao lidar com o não-existente não se pode ‘obter a certeza de um fato’, não havia como prever, muito menos com precisão, como seria o mundo a emergir na outra ponta dos esforços de construção”
“O bem maior só pode ser obtido por um preço: justamente com seus benefícios, ele tende a acarretar consequências tão indesejáveis quanto imprevisíveis, embora estas últimas sejam normalmente minimizadas ou ignoradas no estágio de produção do projeto sob o pretexto da nobreza das intenções gerais” (BAUMAN, 2004, p. 34-35)
"Guiada pelas leis humanas, a humanidade seguiu em frente se arrastando, enquanto era fustigada, pressionada e atormentada pelas forças da irracionalidade, do preconceito e da superstição. Comparado com a parte inumana do universo que não conhece ‘erro’, o passado humano só podia aparecer como uma estufa da estupidez e da malevolência, e como uma longa sequência de crimes e erros. A única ‘lei da história humana’ que se podia imaginar era a necessidade de a razão assumir onde a espontaneidade humana havia falhado de maneira espetacular "(BAUMAN, 2004, p. 40-41)A modernidade é (...) um estado de perpétua emergência”, diz Bauman, sem a qual cairíamos no caos, na ausência total de normas e, portanto, de ordem. “A modernidade é uma condição da produção compulsiva e viciosa de projetos” (p. 41).
“Por toda a era da modernidade, o Estado-nação tem proclamado o direito de presidir à distinção entre ordem e caos, lei e anarquia, cidadão e homo saucer*, pertencimento e exclusão, produto útil (= legítimo) e refugo.” (2004, p. 45)
O projeto da modernidade, capitaneado pelo Estado-nação moderno, comporta múltiplos projetos que se entrecruzam, se sobrepõem, se complementam, se anulam e entram em choque. Numa sociedade em constante e cada vez mais rápida mudança, as gerações encontram-se angustiadas frente à perda de estabilidade, seja no trabalho, seja na vida pessoal. É o caso da chamada Geração X, com a qual Bauman inicia este capítulo que também é início do livro: fortemente atingidos pela instabilidade socioeconômica, a Geração X, composta por pessoas nascidas entre as década de 1960 e 1970, foi fortemente afetada por sofrimentos até então desconhecidos, um novo tipo de mal-estar que se somatiza, por exemplo, em doenças como a depressão. Este mal-estar é o medo de um mundo que não fornece mais segurança de qualquer tipo, nem mesmo material.


















