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sábado, 10 de outubro de 2020

O sistema moderno contra a família

"O mundo ao nosso redor aceitou um sistema social que nega a família. Às vezes, ajudará à criança em vez da família; à mãe em lugar da família; ao avô em lugar da família. Mas ajudará a família." (G. K. Chesterton, "G.K.'s Weekly", 1930)

Ainda que a família seja uma instituição natural que esteja distribuída em praticamente todas as culturas nos quatro cantos da Terra, variando sua estrutura, há uma tensão entre esta ordem e o impulso dos desejos humanos de romperem com ela.
Pois o homem, na sua animalidade, não busca a família, mas a concretização de desejos. A fidelidade no casamento é obra da perseverança e da fé; deixadas à própria vontade, as pessoas fariam da fidelidade uma ficção, e a família seria impossível.
Mas o grande problema está justamente na promoção por meio da mídia e da reinterpretação das leis destes mesmos desejos. Por exemplo: ao tornar o casamento um evento civil, o Estado arroga para si os efeitos reais do casamento, esvaziando parte de seu sentido espiritual. E nas cortes, a concepção de "casamento" e família são alargados para implementar, à revelia da maioria da população, a agenda diversitária.
Aos poucos, a mentalidade progressista vai minando o casamento por dentro e, por consequência, a própria família, cuja destruição pode muito bem ocorrer através da promoção dos interesses de seus membros.
É o que Chesterton enuncia nesta passagem do seu semanário "G.K.'s Weekly", publicado há 90 anos, em 20 de setembro de 1930.
A crítica acadêmica e midiática à ordem patriarcal (e tudo o que é classificado de "patriarcal"), a denúncia de crimes violentos apenas contra determinados grupos sociais, o moralismo politicamente correto e toda a sorte de propaganda de comportamentos que insuflam a infidelidade e o desejo de ser "livre", no sentido estrito que o liberalismo dá à palavra, concorrem para formar uma atmosfera onde a formação da família é cada vez mais difícil.
Colocar uma criança na escola, por exemplo, é arriscá-la a um conflito com os pais. A obrigatoriedade da educação pode ajudar a criança em algum aspecto, mas não a família, atentando contra a criança mesma.
Não por acaso, Chesterton afirmava que a educação moderna considerava os pais a maior ameaça às crianças. Em nome da proteção a elas, é necessário dissolver o pátrio poder.
Proteger o casamento e as crianças é proteger a família. E por isso mesmo a mentalidade progressista, encarnada num sistema pervertido, atenta contra crianças e casais a fim de melhor educá-los para uma sociedade dirigida.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Gosto, moral e os progressistas

"Muitos dos modernos têm tradado o gosto como se fosse uma questão moral. Só espero que não tratem a moral como se fosse uma questão de gosto." (G. K. Chesterton, em "Lunacy and Letters", 1958) 

          Este aforisma de Chesterton é um retrato evidente do mundo de hoje. Seu temor se transformou em realidade, onde o gosto, de fato, se tornou a nova moral, ainda mais sacra e opressora do que qualquer moral tradicional.

          Esta cosmovisão é a essência ética da mentalidade progressista, que vê na sua época o ápice da "iluminação" do homem e, portanto, superior a tudo o que já passou.

          E por que tolerar as coisas do passado se elas estão "superadas"? Todo o mal, na mentalidade progressista, advém do passado que não morreu, sendo moralmente justificável suprimir tudo o que não conste na agenda do momento.

          Mas a pergunta que se coloca é: quem formula a mentalidade de nossa época? De onde vêm os princípios da moda, que versam desde a luta contra o preconceito até as formas de vestimenta?

          Pois a era moderna (ou pós-moderna) transformou tudo em questão de gosto e, para usar a expressão de Bauman, transformou tudo em líquido, ou seja, nada se fixa, tudo muda conforme os gostos da época com suas manias e ideias alterando desde relacionamentos até a ordem política.

          Centrada na subjetividade individual, a moral virou opção, e a opção fundamenta-se no gosto; e gosto oscila de acordo com a moda e o desejo do momento. O "eu quero" e "eu acho" se tornaram os novos mandamentos sagrados pelo qual todo o passado deve ser sacrificado.

          A apologia do tempo presente é a apologia do desejo presente, a entronização deste desejo como moral vigente, e o nivelamento da moral tradicional como mero desejo a ser equiparado (ou suprimido) a todos os demais.

          Talvez Chesterton não imaginasse que esta forma de conceber o mundo fosse promovida a toque de caixa por todo o globo. Nosso mundo "evoluiu" ao ponto de que, como temia nosso querido escritor, temos de provar aos modernos, desgostosos com a coloração da vegetação sobre a qual pisam, de que a grama é verde. Anátema seja quem discordar do psicótico desejo alheio.

domingo, 30 de agosto de 2020

Multidões solitárias

"O mal principal de nosso tempo é que a coletividade social tem fomentado a solidão espiritual. Nunca as pessoas estiveram tão acompanhadas e nunca as estiveram tão solitárias." (G. K. Chesterton) 

          A sociedade de massas é a sociedade do anonimato, da multidão sem rosto que fecha-se em si mesma para facilitar seus fins práticos.

          Esta passagem de Chesterton lembra os estudos do filósofo e sociólogo alemão Georg Simmel, que afirmava que o homem das cidades, local das massas por excelência, possuía uma atitude blasé, de relativa indiferença com relação ao próximo.

          Eliminada a vida comunitária, onde todos conhecem a todos pelo nome, pelos traços e pelos modos, somos obrigados, pelo próprio mecanismo da vida em sociedade, a ignorar estes mesmos nomes, traços e modos a fim de manter em funcionamento esta grande máquina sem rosto que é o mundo moderno.

          Porque nas cidades encontramos muita gente todos os dias, e é impossível tratar intimamente todos as pessoas; mas ao mesmo tempo temos de manter a civilidade para com o próximo a fim de tornar a vida suportável.

          Vivemos como se o outro fosse alguém de valor, por assim dizer, mediano a ser tratado para fins meramente utilitários.

          O próximo transforma-se em mais um em meio à multidão.

          E ninguém pode se sentir bem acompanhado por quem não tem rosto. Estar na companhia de um anônimo é mais ou menos como passear com uma estátua. Ou um poste.

          Chesterton traz esta afirmação com a experiência de quem viveu na Londres do início do século XX, então uma das maiores cidades do mundo.

          Ele viu, ele viveu numa sociedade massificada e viu a solidão rondar seu universo. E mais, viveu esta solidão.

          Numa era onde tudo se tornou coletivo, onde a ênfase no indivíduo desembocou na apologia aos objetivos meramente práticos e abriu as portas à engenharia social em larga escala, temos a falsa impressão de que podemos suprir nossa solidão com desejos pessoais e slogans midiáticos repetidos por todos ao mesmo tempo.

          Estamos só porque nos rendemos à massa. Olhar a humanidade no próximo é o primeiro passo para apagar a angústia e a tristeza de uma vida solitária.

domingo, 26 de julho de 2020

Novas embalagens para velhos erros


"Nove de cada de ideias que chamamos de novas são apenas velhos erros."
(G. K. Chesterton, em "Porque sou católico")

          Nosso tempo é recheado de novidades quando se trata de tecnologia. Recentemente, foi assim com a comunicação pela internet, onde surgiu uma enorme variedade de formas de contato, como e-mail, teleconferência, redes sociais, WhatsApp e coisas do tipo.
          A novidade nas formas não é um problema em si. O que importa é o que o invólucro traz, seu conteúdo, sua essência.
          Chesterton nos lembra que quase todas as chamadas novas ideias são na verdade velhos erros. Isto ele já notava à época de seu artigo "Por que sou católico", de 1926.

          Mas as novas ideias deixam o lastro da novidade. Frequentemente surgidas num meio relativista, elas trazem o próprio relativismo em sua perspectiva perpetuando esta tendência e a sede das pessoas por novidades.
          A onda vegetariana, por exemplo, já virara moda na Alemanha em meados da década de 1920 e foi adotada como modo de vida exemplar pela ideologia nazista ao associar este comportamento ao solo pátrio. O mesmo ocorreu com o antitabagismo e o ambientalismo.
          O socialismo, tão mutável quanto um camaleão, é outro caso. Antes centrado na luta econômica, passou à luta cultural travestindo-se, por exemplo, de proteção às minorias. Mas quem poderia protegê-las senão um poder capaz conceder direitos de forma sempre crescente? O socialismo, caracterizado essencialmente pelo aumento do poder nas mãos do Estado, pode vir pelo caleidoscópio da diversidade, que quanto mais fragmenta a sociedade em grupos menores, mais exige do Estado regulação para arbitrar as relações sociais.
          O movimento New Age é outra aparente novidade ao misturar fragmentos da espiritualidade oriental com elementos ocultistas, uma recauchutagem religiosa de tradições milenares com os erros da revolução cultural dos anos 1960.
          Se tantas ideias novas são, na verdade, velhos erros, por que então aderir a elas? O mundo moderno, fundamentado no utilitarismo e na mudança constante, clama por novidades, e é mais fácil enfeitar estas essências com novas formas do que reinventá-las por completo.
          Seria muito mais simples ater-se às velhas e boas ideias, as que se comprovaram corretas com a longa experiência humana. Isto não faria do nosso mundo um lugar monótono, mas mais seguro e pacífico.
          Os erros, mesmo que durem muito tempo, precisam sempre de uma nova embalagem, e num mundo de aparências é muito fácil ocultá-los com enfeites e novidades.

sábado, 25 de julho de 2020

A necessidade de estar errado quando todos acham que estão certos


Conta-se que certa vez o jornal London Times pediu a alguns escritores responderem
à pergunta: "O que há de errado com o mundo?" Chesterton enviou a resposta mais
sucinta: "Eu. Atenciosamente, G. K. Chesterton."

          Esta curta e grossa resposta de Chesterton à pergunta do referido jornal londrino pode parecer birra de adolescente; daqueles que, de saco cheio do papai e da mamãe, fazem questão de cuspir sua revolta juvenil na hora do almoço.
          Mas o estado de coisas na época de nosso querido escritor já não era dos melhores. O mundo recém iniciava o século das duas Grandes Guerras, do totalitarismo e do genocídio, cujos terrenos foram preparados por tiranos, fanáticos e loucos.
          Mas eram os loucos, estes que acreditam que tudo é relativo menos sua própria opinião, que há um século já sinalizavam hospício no qual enfiariam o mundo.

          A era moderna, apontada soberbamente como o cume da "evolução" da humanidade, já era indicativo de que muita coisa havia de errado com o mundo.
          Primeiro, porque nenhuma época é necessariamente melhor do que a outra por seu avanço técnico, a mesma técnica que criou os campos de concentração, a bomba atômica e a engenharia social em escala continental.
          Segundo, porque a mudança constante, frenética e cada vez mais acelerada da ordem social, e que tem a técnica como um meio de viabilizá-la, ao exemplo da propaganda e da disseminação de valores progressistas pelos meios de comunicação e as modas do dia, enfraquece os laços que unem as pessoas, tanto na vida pública quanto na família.
          Sendo Chesterton um adepto da vida simples e valorizador das pequenas coisas, porque haveria ele de se admirar com a soberba de um mundo que se considera superior apenas porque é prático e moderno?
          Se há algo errado com o mundo, e no quadro geral parece que está, cabe a nós, admiradores deste homem e devotos dos imitadores de Deus, seguir o ensinamento evangélico de ser bom num mundo mau; de ser, à luz da consciência viva, o mais correto possível frente a todos os erros.

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Os frutos dos "livros maus"


"É a literatura moderna dos educados, e não a dos ignorantes, que é agressiva e declaradamente criminosa." (G. K. Chesterton, em "The Defendant") 

          Esta afirmação de Chesterton é de 1901 e provavelmente se baseava nas desgraças publicadas algumas décadas antes. Mas também antevia as desgraças de depois.
          Como afirmou a profecia de Nossa Senhora de La Salette, em 1846, "os livros maus abundarão na Terra" e os espírito malignos "abolirão a fé pouco a pouco".
          Dois anos depois, Marx e Engels publicariam o "Manifesto Comunista", e de suas obras filosóficas surgiriam uma nova geração de intelectuais, os marxistas, que na geração seguinte, com Lênin, como bem mostra o historiador Perry Anderson, também um marxista, desembocariam na sangrenta Revolução Russa.

          Chesterton ainda não vira, naquele momento, a onda de obras revolucionárias que inundaria o século XX, os ataques à religião e a promoção do relativismo quando da penetração do movimento comunista na guerra cultural.
          E nem havia conhecido "Minha Luta", livro onde Adolf Hilter apresentavam suas venenosas ideias ao público e que inspirariam movimentos revolucionários como na Argélia e o mundo árabe; nem o "Livro Vermelho" de Mao Tsé-Tung (foto), que serviria para lavagem cerebral maciça na China e inspiraria movimentos sangrentos na Albânia, África, Sudeste Asiático e Peru.
          Livros necessariamente são escritos por pessoas com capacidade intelectual acima da média e, por sua divulgação, moldam o imaginário, a linguagem e os valores da grande massa, passando suas obras pelas mãos de professores e formadores de opinião. 
          No fundo, os intelectuais dirigem o mundo, porque a direção do mundo por líderes políticos, militares, religiosos e bilionários depende de um planejamento prévio que foi pensado e teorizado para ser colocado em prática. 
          Fossem as obras centradas em promover a herança dos antepassados e apenas divertir as pessoas numa medida justa e não haveria problemas quanto ao que Chesterton chama de "literatura moderna dos educados".
          Mas foi a traição dos intelectuais, para usar o termo de Julien Benda em seu famoso livro homônimo de 1927, que deu a justificativa para os horrores que se avizinhavam nos séculos XX e XXI.
          Dos livros maus, da má literatura, veio a relativização de todas as coisas, inclusive da dignidade humana, aviltada pelas guerras em larga escala nas cidades, campos de concentração, engenharia social e aborto. E daí para o caos e o genocídio foi um pequeno passo.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

O sustento do mundo pelas pequenas coisas


"Estou certo de que não há futuro para o mundo moderno, a menos que ele possa compreender que não tem de simplesmente buscar o que é mais e mais excitante, porém, antes, a tarefa ainda mais excitante de descobrir a excitação em coisas chamadas monótonas."
(G. K. Chesterton, em "Ortodoxia")

          O mundo moderno é um gigante de pés de barros que não se sustenta por si mesmo.
          Voltado às coisas práticas, este mundo tende a satisfazer constantemente e de forma crescente os desejos humanos, e os desejos são sempre transitórios, frívolos e ávidos por novidades.
          Quanto mais satisfazemos nossos desejos, mais rápido a satisfação se esgota e maior a ansiedade por satisfazer um novo desejo brotado no lugar do anterior.
          Esta máquina em aceleração em progressão geométrica para satisfazer desejos em sequência não pode sustentar por si mesma.
          O estímulo que o mundo moderno dá a este processo leva à subjugação dos princípios que regem a ordem social à vontade individual, inconsistente por definição, cuja consequência é a dissolução do tecido social.
          O resultado não pode ser mais evidente: anomia, desorientação e confusão. Em suma, o retrato do mundo atual que, de convulsão em convulsão, se debate ansiosamente por soluções rápidas às crises; que espera que tudo se resolva tão rápido quanto as variações de seus desejos.
          A declaração acima de Chesterton apresenta uma resposta e uma fórmula simples à máquina deste mundo que se transforma de forma errática.
          Toda e qualquer ordem social, moderna ou tradicional, se sustenta por valores que são perenes, que se mantém (ou deveriam se manter) apesar das mutações sociais em superfície.
          Por exemplo: os filhos devem obedecer aos pais, seja com a vida vivida no campo e no trabalho com a família, seja na rotina de ida à escola, onde a escola não é (ou não deveria ser) instituição de substituição aos pais. Esta obediência pode perfeitamente sobreviver tanto à vida tradicional quanto moderna, ficando a modernidade apenas no seu aspecto superficial, como a técnica e a estética, sem afetar seu fundamento mais profundo.
          É nessas coisas simples ou, como diz Chesterton, monótonas que se sustenta o mundo moderno, que residem os valores que permitem o sustento de uma ordem social mínima.
          Talvez seja possível que o mundo da técnica se firme sobre aquilo que é cotidiano, a vida do lar e do trabalho rotineiro. Porque nem sempre o que é monótono é chato; pode perfeitamente ser alegre a partir do momento em que tomamos consciência de que este mundo tão poderoso e complexo se sustenta em nossos gestos mais simples.
       

sexta-feira, 10 de julho de 2020

A conquista da liberdade pela vida religiosa


          Quando pensarmos que somos obrigados a ficar em casa por força das autoridades públicas, que alegam tal medida com base em questões científicas sob o coro homogêneo de todos os grandes veículos de comunicação, lembremos que já estamos presos há várias décadas. A diferença é que a tirania da "ciência", do Estado e da autoridade se tornou mais explícita.

          Faço referência ao mundo administrado no qual vivemos.

          Até duas ou três gerações atrás, parte significativa das pessoas vivia no campo ao sabor das estações e dos ciclos naturais. O cotidiano era regrado principalmente por estes elementos; a vida religiosa era mais abundante e ambiente de confraternização dentro da comunidade as famílias não só mais unidas como maiores.

          Obviamente, não é prudente romantizar este passado recente. Violência familiar, assaltos, pobreza, doenças hoje banais que antes não possuíam tratamento, vulnerabilidade quanto aos humores da natureza, isto tudo pesava e causava sofrimento. Não por acaso, a expectativa de vida, que no Brasil do início do século XX mal chegava aos quarenta anos, hoje chega aos setenta e quatro.

          Ocorre que mais tempo de vida não significa mais qualidade, menos ainda mais felicidade. Tomo qualidade como realização pessoal e paz; felicidade como consequência destes dois atributos.

          Pois hoje, nascidos principalmente nas cidades e submetidos a todo o tipo de enquadramento comportamental, somos enviados obrigatoriamente às escolas, sob risco de termos os pais presos pela polícia, para ficarmos horas e horas ao longo de mais de uma década colocando na cabeça informações enquadradas em ciências dadas como espelhos da realidade e que em grande parte não servirão para nada; perdemos a noção do agradável som da natureza ao substituirmos a vida ao ar livre pela prisão de apartamentos e infindáveis salas de aula, reuniões e trabalhos; ficamos sob a tirania das horas numa contagem matemática do tempo, e sob a tirania do calendário ao ponto de imaginarmos estar fora da realidade quando simplesmente entramos em férias do trabalho.

          A vida religiosa, ela mesma veículo de uma vida espiritual (pois "religioso" e "espiritual" são coisas diferentes), antes regradora da ordem e semeadora de princípios, perdeu espaço para um mundo no qual não podemos dialogar, mas nos submeter. Podemos ser perdoados por Deus pelos nossos pecados, mas o relógio é implacável, bem como a sanção da lei por simples erros involuntários.

          É esta vida religiosa que alarga nossa liberdade e não apenas alivia como contém a pressão do mundo administrado, pois planta no cotidiano das pessoas a consciência de que acima do mundo há um Deus que acompanha nossos passos, aproxima as pessoas pelo senso de irmandade diminuindo a necessidade de uma autoridade que regule a vida pública, e abre um elo de confiança em Deus (a fé), cuja intervenção comanda as regras do jogo, podendo flexibilizá-las, tanto no regramento quanto nas sanções dos erros, de acordo com nossas necessidades e pedidos que elevamos aos Céus.

          Se nos sentimos presos nas coisas do mundo talvez seja porque falte a descoberta da imensidão incomensurável que é a alma humana, cuja exploração nos mostra que estamos vinculados a um Deus infinito dentro do Qual temos a liberdade absoluta. Esta liberdade não é a de fazer qualquer coisa, mas de ter atitudes livres conforme as circunstâncias, as mesmas que podem ser alteradas pela Providência.

          Não faço apelo para que abandonemos nossas vidas, mas sim que nos ajoelhemos e rezemos para descobrir este jugo que é suave e este fardo que é leve. Onde viceja uma vida interior abundante viceja igualmente a liberdade que acreditamos encontrar apenas no mundo.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Ainda a traição dos intelectuais: a tragédia na avidez em transformar o mundo


          Quem ler minhas breves e pontuais postagens sobre os aforismas do escritor G. K. Chesterton verá comentários críticos voltados principalmente aos chamados "progressistas".

          Progressistas são aqueles que acreditam num progresso, numa evolução linear da humanidade, principalmente no campo moral justificado pelo avanço da técnica. 

          Para o progressista, se no passado as pessoas buscavam explicar os fenômenos pela fé em Deus, hoje buscam pela razão; se antes o divórcio era mal visto, hoje ele é moralmente aceito quando não bom; se as pessoas reverenciavam os mais velhos, hoje devem lutar para se manter jovens; se antes valorizavam a vida humana, hoje valorizam a animal tanto quanto a humana; se antes amavam a família, hoje amam genericamente a humanidade ou o planeta. Em suma, as pessoas "evoluem" moralmente ao longo da História. 

          Uma das últimas modas progressistas foi a ideologia diversitária cuja ideia, inicialmente propagada pelo movimento LGBT, alega ser a identidade de gênero um construto social e, portanto, passível de mudança por uma questão puramente subjetiva. Não haveria associação direta entre corpo biológico e auto-identificação. Disto deduz-se que alguém pode ser o que bem entender desde que tome consciência de sua identidade sexual. 

          A diversidade foi erigida como valor absoluto, dissolvendo desde dentro a família nuclear e o casamento, instituições arraigadas no passado. É a "evolução", diriam os progressistas.

          Ocorre que tal mentalidade, uma cosmovisão baseada na distorção do real, distingue-se da da maioria das pessoas, a quem Chesterton chama de Homem Comum. Este vive na realidade direta do cotidiano, preocupa-se com seu sustento material e dos seus próximos e pouco ou nada tem a dizer sobre problemas abstratos ou problemas distantes como guerras e catástrofes ambientais do outro lado do globo.

          É aqui que entra o papel dos intelectuais, que, na obra de 1927, Julien Benda alertou para o desvio de seu ofício original, a dizer (e nunca é demais relembrar): a busca pela justiça, a verdade e a razão.

          A principal traição desta classe privilegiada pela capacidade de compreensão do mundo está na luta pela causa, na adesão a uma paixão de caráter político e, portanto, prático. 

          Os intelectuais distinguem-se das pessoas comuns, os homens comuns, a quem Benda chama de "leigos", por não se preocuparem primordialmente pelas coisas do mundo. Eles "não perseguem fins práticos" e "dizem, de certa maneira, 'Meu reino não é deste mundo." E continua o autor:
"De fato, desde mais de dois mil anos até estes últimos tempos, percebo através da história uma série ininterrupta de filósofos, de religiosos, de literatos, de artistas, de cientistas - pode-se dizer quase todos ao longo desse período - cujo movimento é uma oposição formal ao realismo das multidões."
          Não que se preocupar com as coisas do mundo seja ruim em si, pelo contrário, é necessário, mas a ação exige uma compreensão prévia segura e profunda das coisas, papel que cabe à intelectualidade. Mais adiante Benda continua:
"...a ação desses intelectuais permanecia sobretudo teórica; eles não impediram os leigos de encher toda a história com o ruído de seus ódios e de suas matanças; mas os impediram de ter a religião desses movimentos, de acreditar-se importantes porque agiam para realizá-los. Graças a eles, pode-se dizer que, durante dois mil anos, a humanidade fazia o mal mas honrava o bem. Essa contradição era a honra da espécie humana e constituía a fissura por onde podia se introduzir a civilização." [grifos do autor]
          Esta passagem revela a extrema importância dos intelectuais pois, ao não se comprometerem propriamente com as coisas do mundo (planos políticos, movimentos sociais, planejamentos administrativos, ideologias, doutrinas, etc), eles dirigem os acontecimentos dando-lhes o norte daquilo que é o bem e o verdadeiro, os valores necessários para a convivência humana apesar dos erros da humanidade. O intelectual é o guia que permite sustentar a civilização e garantir a própria sobrevivência do homem.

          Mas a coisa mudou na era moderna:
"Ora, no final do século XIX produz-se uma mudança capital: os intelectuais passam a fazer o jogo das paixões políticas; os que formavam um obstáculo ao realismo dos povos tornam-se seus estimuladores." [grifos do autor]
          Benda aponta aí a traição: não mais comprometidos com a compreensão da realidade, a intelectualidade começa a buscar a direção do rumo dos acontecimentos. Ela deseja mudar o mundo.
"Ter por função a busca das coisas eternas e acreditar em um engrandecimento ao se ocupar da cidade, tal é o caso do intelectual moderno. - Que essa adesão do intelectual às paixões dos leigos fortalece essas paixões no coração desses últimos, é algo tão natural quanto evidente." 
          Ou seja, o intelectual moderno continua a aspirar as coisas eternas, perenes e, portanto, não práticas, mas passa honrar sua vocação nas coisas do mundo. Em outras palavras, busca a realização prática de seu ideal, o paraíso nas coisas terrenas, e tenta convencer o leigo de que deve lutar por esta mesma realização. 

          A traição do intelectual moderno alertado em Benda é a figura do revolucionário, que não se contenta em buscar a verdade para apresentar às pessoas de forma que tenham uma vida boa e feliz, mas transformá-la, e fazer das pessoas sua massa de manobra para seus sonhos utópicos. O intelectual moderno de Benda é o inimigo por excelência do Homem Comum de Chesterton.

          Não é necessário voltar à história recente para ver em figuras como Lênin e Stálin, eles próprios intelectuais, Hitler e Mussolini, insuflados por movimentos nacionalistas e ocultistas, e os extremistas islâmicos, embebidos de doutrinas religiosas, fascistas e revolucionárias, o fruto do ávido desejo destes de mudar o mundo, e o que o desvio do pensamento para coisas impróprias pode fazer.

          A loucura do mundo de hoje não é apenas consequência das catástrofes recentes, mas da insistência dos gênios em consertá-lo e dirigi-lo a objetivos que mudam ao sabor das épocas.

          Até recentemente, estávamos mergulhados na propaganda massiva da ideologia diversitária, na luta pelos direitos das mulheres e no combate às "mudanças climáticas". Subitamente, em meio ao medo generalizado, fomos forçados a mudar todo o cotidiano em nome da saúde, e agora, mais uma vez, vemos emergir a luta "antirracista". 

          Todos estes são objetivos políticos voltados para criar um "mundo melhor"; são estes os frutos mais evidentes da ação dos intelectuais no seu desvio das coisas do espírito para as coisas do mundo. Como diz Benda:
"...eles puseram no topo dos valores morais a posse de bens concretos, da força temporal e dos meios que os proporcionam, e votaram ao desprezo dos homens a busca dos bens propriamente espirituais, dos valores não práticos ou desinteressados." 
"Esse deslocamento da moralidade é com certeza a obra mais importante dos intelectuais modernos, a que mais deve reter a atenção do historiador."
          Pela atmosfera de loucura que paira sobre o mundo, podemos deduzir a confusão que passa pela cabeça dos que traíram seu ofício original e arriscam jogar o mundo, hoje mais complexo e munido de armas e tecnologias antes inexistentes, numa tragédia ainda maior do que as do passado recente.

         Transformar o mundo significa transformar para algo. Não necessariamente para melhor.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

A traição dos intelectuais

(Julien Benda)

          A vida intelectual é uma vida de sinceridade. Uma pessoa insincera não pode exercer este ofício sem tropeçar em suas próprias pernas e bloquear a abertura interior necessária à leitura do real. Esta abertura, por excelência uma atitude de confiança, é condição prévia do conhecimento, uma postura de coragem em que a pessoa, o próprio agente que buscar saber, está integrado numa realidade da qual não pode escapar e que é seu próprio elemento de atenção.

          O intelectual que ofusca esta sinceridade trai seu ofício porque trai a si mesmo. Pior, corrompe moralmente a si e, por consequência, aqueles que o tomam por referência. 

          É exemplar o que intelectuais voltados à agitação política são capazes de fazer. O historiador Paul Johnson, na obra "Tempos Modernos", traz o exemplo deprimente de intelectuais que venderam sua alma pelo "ideal" do comunismo na URSS em meados dos anos 1930.

"A tentativa de intelectuais de defender o stalinismo os envolveu num processo de autocorrupção; transferiu para eles e, consequentemente, para seus países, ajudados pelos seus escritos, parte da decadência moral inerente ao próprio totalitarismo; em especial, a negação da responsabilidade individual, seja para o bem, seja para o mal."

          Talvez não fosse a intenção do autor, mas este trecho traz um exemplo bastante claro daquilo que o pensador francês Julien Benda chamou de "traição dos intelectuais", termo que dá nome ao seu livro mais famoso, um clássico escrito em 1927.

          No prefácio da edição publicada em 1946, Benda nomeia aqueles que seriam os principais valores da vida intelectual: justiça, verdade e razão. Estes valores possuem três características: são estáticos, ou seja, perenes e reconhecíveis em todas as épocas e lugares; são desinteressados, pois aqueles que os defendem não o fazem em nome de objetivos práticos ou pessoais; e, por fim, são valores racionais, isto é, defendidos por meios do exercício do pensamento e não pelas paixões mais diversas que surgem ao sabor das modas de época.

          Desta forma, justiça, verdade e razão são valores abstratos, universais e perenes, inerentes à condição humana. Benda afirma que "O intelectual, ao honrar essas constantes, honra as características mesmas da espécie humana, aquelas sem as quais não existe o homem". Aboli-los é amputar o homem, rebaixar sua dignidade e jogá-lo no sofrimento.  

          Mas, se os intelectuais traem estes valores básicos, traem em nome do quê? Estas traições, diz Benda, são principalmente aquelas realizadas em nome de causas com fins práticos, independente do vetor político a que se vinculem. Os intelectuais traem em nome da ordem, da evolução histórica e de valores outros como o engajamento político/social, o amor (no seu aspecto sentimental) e o relativismo.

          Não é difícil reconhecer nestes últimos o perfil dos movimentos políticos e ideológicos que corromperam e cobriram de sangue o século XX e o início do XXI: o fascismo, no aspecto da ordem, o comunismo, no aspecto da evolução histórica, e o relativismo, sem o qual os dois primeiros não teriam sido possíveis, legitimando e abrindo terreno para que estes matassem, no mínimo, 150 milhões de pessoas.

          Não por acaso, na obra de 1927, Benda vê no comunismo e principalmente no fascismo os movimentos no quais os intelectuais mais expuseram sua traição e, pior, a legitimavam por razões políticas, tal qual a citação de Johnson exposta acima. 

          Um ano depois, José Ortega y Gasset publicaria "A Rebelião das Massas", obra que apontava a ascensão da sociedade de massa como fruto inevitável do mundo moderno, cuja principal consequência era o rebaixamento da cultura e seu nivelamento ao gosto das populações ávidas a gozar de seus benefícios materiais por direito. 

          Não por coincidência, Ortega via no fascismo e no comunismo os movimentos que melhor refletiam esta nova ordem, pois prometiam o mundo ideal que a sociedade de massas desejava.

          O relativismo é a característica central da traição dos intelectuais exposto por Benda, pois para abdicar da justiça, da verdade e da razão, valores intelectuais extáticos e universais, é necessário relativizá-los, colocá-los num enquadramento que os tornem parciais e transitórios. Este é o pano de fundo sobre o qual se desenrola toda a obra de Paul Johnson e o fator principal dos horrores do totalitarismo e da guerra analisados no seu livro.

          Nos dias de hoje, a amputação de valores inerente à condição humana são as prerrogativas necessárias para atos anti-humanos mais silenciosos, mas não menos horrendos, como o aborto e a eutanásia, implementadas não sob a opressão ostensiva dos campos de concentração e de trabalho escravo, mas sob a aparente suavidade das leis democráticas.

          Por isto, quando ligamos a televisão e vemos versões unânimes sobre temas tão súbitos ou complexos como a crise do coronavírus, o "aquecimento global" ou a luta por "direitos reprodutivos", ou quando estamos numa sala de aula e vemos professores defenderem aberta ou sutilmente agendas políticas e ideológicas, não estamos na frente de intelectuais (menos ainda quando se trata de formadores de opinião da mídia), mas de traidores daquilo que se propõem ser, intérpretes do mundo.

          O pesadelo de Benda tornou-se a regra do século XXI, fruto direto do século XX, onde a traição dos intelectuais insiste, por meio da televisão, da internet e das universidades, em transformar as massas em suas aliadas na revolta contra a realidade e na destruição da dignidade humana.

terça-feira, 2 de junho de 2020

O símbolo de uma época

        

          O rosto é a característica física mais peculiar de uma pessoa. É um resumo de sua identidade e singularidade, dado que nenhum rosto é igual a outro. E caso seja igual, como é o rosto do gêmeo em relação ao seu irmão, carrega experiências distintas que se revelam no mover dos traços que delineiam uma história única.

          Os decretos anacrônicos e o uso compulsório da máscara apagam nossa característica mais elementar. Cria-se uma interface entre a pessoa, antropologicamente sufocada pela membrana que, dizem, protege de doenças, e a realidade à volta, que perde sua presença essencialmente humana e torna-se um jardim de flores sem cor ou árvores sem folhas.

          Razão pela qual ficamos despidos de nossa identidade mais elementar, a máscara massifica a todos numa espécie de distopia em que a pessoa, com sua história e vida interior expressa nas feições da face, torna-se membro da massa, um homem-massa no sentido literal do termo, mera estatística na contabilidade demográfica e sanitária.

          Mas a massificação da pessoa não é apenas estética com suas consequências advinda do universo simbólico que nos comunica toda uma nova realidade opressiva. Ela se ergue como sinal de seu último objetivo.

          Alegadamente, a máscara deveria nos proteger de doenças, fato questionado pela organização apresentada como modelo de "ciência", a Organização Mundial da Saúde, em abril deste ano.

          Alegadamente, ela é para nosso bem, como bem pretendem as autoridades "democráticas", segundo os "porta-vozes" da "ciência" fabricada nas redações dos jornais, que afirmam tal sentença com base em "evidências" coletadas em artigos científicos publicados em última hora e nos acontecimentos em escala planetária num espaço de semanas.

          Seu objetivo maior, mas não declarado, é fechar a fonte da palavra, a capacidade de criação do homem que está na sua liberdade de expressão. E falo aqui da expressão no sentido mais rudimentar do termo, porque um simples "ah!" é marca de quem o diz, o primeiro passo para fora do padrão "cientificamente" pré-estabelecido

          Se a palavra é criadora, por qual razão amputar esta liberdade? No mundo em que "democratas" se revelam verdadeiros autocratas e a ciência é apresentada como autoridade por meio de falastrões frente às câmeras, a nova epidemia foi o elemento perfeito para,  por meio dos meios democráticos de ação, finalmente "melhorar" o mundo.

          A soberba demoníaca que contaminou a sociedade e erigiu o Estado e todo o aparato institucional, seja ele público ou privado, com objetivo de melhorar o mundo se apresenta na síntese de uma tecnocracia cientificista, ou seja, pretensamente científica, legitimada através dos meios de comunicação. Uma aliança entre políticos, cientistas e formadores de opinião em nome do mundo melhor.

          Na cosmovisão mecanicista que concebe o mundo como uma engrenagem de peças e máquinas não há espaço para erro no grande e novo plano de engenharia social. Não cabe, entre drones de patrulha, rastreamento por celular, monitoramento de distanciamento, quarentena forçada, paralisia geral, ordens policiais, notícias "verdadeiras", repetição massiva de slogans midiáticos e toda a sorte de medida draconiana "científica", a imprevisibilidade da opinião, da ação, do gesto genuinamente humano, imprevisível, incalculável e, portanto, incontrolável.

          É urgentemente necessário cobrir nossa humanidade para que ninguém a veja.  

domingo, 10 de maio de 2020

A caridade num mundo utilitário


          Esta afirmação de Chesterton deve ser vista como um toque de consciência à desproporção com que ricos e pobres são tratados quando se trata da caridade. Mais especificamente da "caridade moderna", se é que podemos chamar assim, em contraposição a uma "caridade tradicional".
          Ora, a caridade é a doação desinteressada a alguém: nosso tempo, nossa atenção, nosso trabalho, nosso dinheiro e nossos bens são doados sem esperar algo em troca.
          Ocorre que na modernidade a caridade virou ativismo, e o ativismo possui sempre um caráter político. A caridade perdeu seu sentido e transformou-se num ato de transformação social não com vistas à pessoa, mas à promoção do movimento e da ideologia que a sustenta, regado com fortunas de governos e grandes empresas.
          Se o ato de caridade não for politicamente conveniente, ele perde o sentido.
          O mesmo pode ser dito sobre as relações pessoais. Será que somos mais generosos com aquele que garante o retorno de um empréstimo do que a pessoa que necessita do recurso para ontem sem possibilidade de pagar? Confiamos mais no comerciante abastado ou no miserável necessitado de ajuda imediata?
          Desta forma, tendemos a ser mais tolerantes com os que nos dão margem de retorno pessoal do que os que sabemos que não darão retorno algum; daquele com quem negociamos um empréstimo do que daquele ao qual doamos pura e simplesmente.
          Estas situações não mostram o qual más são as pessoas hoje, e sim a mentalidade vigente, onde a lógica prática e puramente material, típica da cosmovisão moderna, se sobrepôs às relações puramente humanas substituindo-as por cálculos de custos e benefícios.
          Não se trata aqui de condenar estas práticas, e sim de buscar iluminar as consciências; de sermos bons em meio à lógica utilitarista, de sermos bons num mundo mau.

terça-feira, 28 de abril de 2020

O emponderamento do lunático


          A ascensão da modernidade deu poder e voz não ao homem comum, mas ao louco, ou ao que Chesterton chamou de "Homem Incomum".
          O liberalismo e o crescimento da riqueza material deu a muitas pessoas a capacidade de influenciar os rumos das sociedades, seja por ação econômica, seja por meios políticos.
          Utilizando as nomenclaturas de nosso querido escritor, o Homem Comum não quer publicar um jornal para influenciar a opinião pública ou fundar uma seita, quer antes poder falar livremente de política e fundar uma família.
          Já o Homem Incomum, este sim quer usar seu dinheiro e fundar um jornal ou ter sua seita. Os meios de vida criados pela modernidade, bem como as ideias em seu bojo, deram vida ao desejo do Homem Incomum de espalhar e impor seus ideais e ações ao Homem Comum.
          A este fenômeno Chesterton chamou de "empoderamento do lunático", a concessão aos loucos da capacidade de dirigir o rumo dos acontecimentos. 
          O louco aqui não é o clinicamente maluco, mas o homem desconectado da realidade vivendo dentro de seu mundo particular e julgando a humanidade à sua imagem e semelhança. 
          Suas análises e decisões levam não só ao erro, mas à opressão do Homem Comum, que vê numa garota uma garota e não um "gênero" abstrato, que vê num dia quente um dia quente e não o "aquecimento global", que desconfia de alguém por gestos suspeitos e não por "racismo" ou "preconceito". 
          Na ordem estabelecida pelos loucos, o senso do Homem Comum é a defesa mais sóbria, simples e segura para garantir um mínimo de sanidade e paz, mesmo dentro de um hospício.

sábado, 25 de abril de 2020

A falsa liberdade


          A era moderna, voltada às preocupações de ordem econômica e bem-estar material, viabilizou certas liberdades antes inviáveis, como a liberdade e a democratização das opiniões.

         Assim, o poder econômico nivelou, no mesmo patamar, verdades e mentiras, fatos e falsidades, pesquisas sérias e palpites de esquina.

          Mas esta maior liberdade, que é vista como a essência da democracia mesma, não só é frágil como facilmente manipulável. A liberdade de opinião como uma emancipação verdadeira é falsa e mesmo perigosa.

          A técnica da qual brotou a democratização das opiniões é a mesma que possibilitou a emergência de um enorme poder político-econômico concentrado em Estados e grandes corporações, os quais se tornaram capazes de manipular o fluxo de informações e fazer prevalecer umas opiniões sobre as outras independente de sua veracidade.

          Se o poder econômico permitiu democratizar as opiniões, esta se tornaram relativas, e o poder político e as grandes fortunas acabaram por eleger aquelas que deveriam ser erigidas como "verdades" estabelecidas.

          A citação de Chesterton precisaria apenas ser atualizada: a emancipação moderna não dá apenas a possibilidade de alguém com dinheiro publicar um jornal, mas também notícias eletrônicas, criar redes de comunicação virtuais e, acima de tudo, controlar o fluxo de informações.     

          A emancipação moderna é uma faca de dois gumes: os meios que permitem a sonhada liberdade de opinião são os mesmos que viabilizam sua supressão.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

O julgamento do mundo


          Na era moderna, as virtudes humanas estão muitas vezes associadas (e de forma errônea) à riqueza e à educação formal. À primeira vista, o homem rico ou educado parece diligente, responsável e feliz, em contraste com o homem pobre e ignorante, que seria desgraçado, ignorante e irresponsável.

          A imagem ideal destes dois tipos de homem confere ao primeiro a áurea da felicidade e ao segundo a áurea da infelicidade.

          Não por acaso nossa era pode ser chamada, como diz o historiador John Lukacs, de "era burguesa", onde a busca pelo bem estar material se tornou a tônica da educação e da ordem social.

          Esta, porém, é a aparência das coisas. O apego ao mundo exterior esconde não só parte da personalidade de uma pessoa, como muito pouco ou nada diz à sua ordem interior.

          A visão que nós temos de nós mesmos é diferente daquela que Deus tem dele. Muito pouco podemos ver se enxergamos apenas o mundo imanente, o mundo captado pelos sentidos, que muitas vezes maculam, filtram ou mesmo bloqueiam a realidade espiritual.

          Nesta citação, Chesterton procura abrir nossos olhos para o erros do julgamento, baseada na cegueira interior e na perda do senso das proporções. Também expõe a perda da virtude do herói, do cavalheiro e do santo, tão enfatizadas na Idade Média, mas hoje perdidas.

          As virtudes essenciais vivem no homem e não se revelam aos nossos olhos. Por mais que possamos maquiar nossa imagem ou mesmo nossa atitude perante o mundo não passamos incólume ao Observador Onipresente.

domingo, 12 de janeiro de 2020

O cotidiano eterno


          Há uma frase de G. K. Chesterton que afirma, não exatamente com estas palavras, que o homem maduro é o que suporta a rotina, esta mesma rotina que em grande parte está voltada ao trabalho. Na época do escrito inglês não era diferente. Faz parte da vida moderna viver em atividade. Modernidade é movimento e desprendimento do ciclo natural da vida; e mesmo as pessoas que vivem uma vida, digamos, "tradicional", dependem do trabalho para viver, e este depende dos ciclos naturais para serem realizados. Daí a maturidade: temos de enfrentar as obrigações concretas e inadiáveis que nos inserem numa aparente ou real mesmice cotidiano, que temos de suportar com fibra o suficiente para não cairmos no desânimo ou estourarmos na revolta.

          Viver, portanto, é viver na rotina por mais excêntrico e mutável que possa ser o trabalho de uma pessoa. Por isto o desempregado não apenas se angustia com a falta do ganha-pão como sente a pressão psicológica de todos os dias ser obrigado a organizar-se mentalmente para atravessar um dia inteiro sem um foco claro e um objetivo que lhe preencha as horas que ameaçam lançá-lo no ócio. Fugir ou ser arremessado para fora da rotina acaba, portanto, por mergulhar a pessoa na desorientação ou no desânimo.

          Chesterton está certo que o homem real é aquele que suporta a rotina, mas o desempregado, o desorientado, aquele que não tem foco na vida prática teria de ser um super-homem para suportar o peso não apenas da cobrança que a vida lhe exige, de sustento material, mas principalmente o caos mental que a falta de foco e sentido lhe provoca. Se o trabalhador tem, como diz o provérbio popular, de matar um leão por dia, o desempregado tem de matar vários para ocupar seu tempo. É uma luta infernal.

          O mais estranho nesta tensão com o cotidiano é a aparente falta de sentido, não apenas do sentido histórico da prática, como também da vida pessoal. A pessoa que sai de férias sente como se estivesse "fora da realidade" e, ao voltar, que está voltando ao "mundo real". O tempo do relógio, uma artificialidade que abstrai em números o ciclo natural do dia, prende-nos como se dependêssemos dele para nos sentirmos vivos e dizer, "sim, a vida tem sentido". O problema é que a vida do movimento, do trabalhar para pagar as contas, do cumprir leis e contratos, pegar filhos da escola e dar aquela atenção básica à esposa ou o marido como se o mundo real se resumisse à prática fria e espiritualmente estéril dominada pelo tic-tac das horas, como se estas brotassem do solo tal qual o trigo ou a cevada, é, em última instância, uma vida sem sentido aprisionada na contagem artificial do tempo. A vida moderna é uma autofagia centrada em si mesma, uma engrenagem falsamente harmônica forjada à sua imagem e semelhança, à imagem do ideal humano do mundo racional administrado que, como bem observamos em faltas de luz, engarrafamentos e enchentes, nunca é o ideal.

          Ser homem é suportar isto, porque este suporte só é possível por conseguirmos ver além da rotina das horas contadas. Porque o homem é primeiro espírito, e ele não pode ser aprisionado pelos afazeres práticos, nem mesmo pelo tempo. Ser homem é ser eterno e ver que nas obrigações cotidianas há, de uma forma ou de outra, um reflexo do amor e da eternidade. Trabalhamos porque buscamos o amor eterno, pagamos as contas pelos mesmos motivos, criamos família porque ansiamos pelo amor que nos escapa dentre os dedos. Ansiamos a todo o instante a perfeição, o Paraíso, que, ao exemplo das experiências totalitárias, é impossível de se realizar neste mundo.

          Nossa rotina não pode ser um fim em si mesma porque sua perfeição é impossível e, portanto, o sofrimento advindo quando fechados nela inevitável. Por isto nossos trabalhos passarão, mas o espírito, aquilo que movimenta as coisas dentro de um tempo administrado, jamais passará.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Mudanças climáticas ou mudança de visão de mundo?


(Gravura L'atmosphère: météorologie populaire publicada pela primeira vez por Camille Flamarion, Paris, 1888)

          Conversando ontem com um amigo a respeito das discussões em um grupo de WhatsApp de apaixonados por meteorologia, nós nos questionávamos sobre o quão falsa pode ser a narrativa sobre as mudanças climáticas. Não pretendo entrar aqui em questões sobre metodologia de pesquisa em climatologia e meteorologia ou comentar sobre seus resultados. O ponto central aqui é: o quanto nós, observadores amadores (meu caso), estudantes de meteorologia/climatologia e cientistas da área, estamos vendo a realidade tal qual ela é? 

        Meu amigo relatava sua experiência de trabalho nesta área, que vem de algumas décadas, bem como a de outras pessoas que ajudam na coleta de dados e têm longo histórico como observadores do tempo. Entre os membros do grupo, alguns dos pontos de discussão diziam respeito aos extremos climáticos do Brasil em épocas distantes, quando a observação meteorológica era muito mais escassa e, em alguns casos, passíveis de questionamento. A atual seca no Rio Grande do Sul era um dos pontos de discussão. Seria esta seca histórica? Alguns dão a entender que sim; a maioria, porém, ainda prefere a cautela. Outro ponto de discussão é o recorde "oficial" de frio no Brasil: o dado de -14°C, registrados em 11 de junho de 1952, em Caçador, SC; este, sim, ponto de maior discussão.

          Seca no Rio Grande do Sul, ausência de recordes de frio como os de Caçador, calor e seca históricos com incêndios monumentais na Austrália; início de inverno quente em parte dos EUA, toda a Europa, Rússia e parte da Ásia. E a pergunta que fica estimulada pela narrativa da grande mídia e que saem em diversos relatórios climatológicos é: estamos presenciando as chamadas "mudanças climáticas"?

          Durante a conversa, porém, tive um estalo. Quando observamos todos estes acontecimentos, tendo acesso pela internet, não digo nem mesmo pela imprensa, mas de estações meteorológicas, dos serviços nacionais de meteorologia, acompanhando dados e colhendo informações de nossas cidades pessoalmente, estamos realmente vendo o que está acontecendo a nível global? Ou isto reflete apenas parcialmente uma realidade, talvez distorcida? A primeira coisa que percebia foi que grande parte dos debatedores do grupo vivem em cidades, portanto, num meio que filtra a percepção dos fenômenos atmosféricos, principalmente de longo prazo.

          Se todas as cidades do mundo fossem unidas numa mesma área urbana, elas cobririam uma área equivalente ao estado americano do Texas ou um pouco mais do que o estado de Minas Gerais. Para termos uma dimensão da desproporção, o Texas possui 678 mil km² de área, enquanto que o planeta Terra inteiro em torno de 510 milhões de km². Portanto, se todas as cidades do planeta fossem unidas numa mesma área urbana cobririam apenas 0,13 % da totalidade da superfície terrestre, mas abrangeriam pouco mais da metade dos atuais 7,7 bilhões de habitantes de todo o mundo.

        Desta forma, muito das observações das condições do tempo na cidade ocorrem sob o efeito da ilha de calor, que se traduz pela retenção do calor pela mancha urbana durante o dia. Este calor é liberado à noite, traduzindo numa elevação da temperatura da cidade, particularmente da temperatura mínima. Isto é observável por instrumentos, mas também sentido na vida cotidiana.

        A experiência da moderna vida urbana ajuda a explicar a máxima da atual geração, que repete com alguma frequência que "hoje não faz mais frio como na época dos meus avós",  o que é uma obviedade. Nossos avós, com raras exceções, não viviam no meio do concreto em selvas urbanas de um, dois, dez milhões de habitantes. Elas são necessariamente mais quentes, inescapável para mares de concreto e cimento recheados por ambientes climaticamente controlados.

          Viver em cidades é mergulhar numa realidade sociológica totalmente diversa do homem dependente do ciclo natural, que vive no campo e vê a natureza seguir seu rumo. Nós, pessoas do meio urbano, vemos tudo por um prisma, uma lente que se interpõe entre seus olhos e o mundo que nos foi dado. Estamos desconectados da realidade tal qual ela é. Dependemos de máquinas, burocracia, ambientes fisicamente controlados com energia elétrica, ar-condicionado, regras próprias e impessoais. As informações que recebemos vêm das mais diversas fontes, mas são abstrações, são leituras do mundo que nos chegam sem que tenhamos a experiência viva e direta sobre o qual brotou o olhar daqueles que divulgam as informações, sejam jornalistas ou cientistas. 

          Para o filósofo alemão Georg Simmel, o tipo psicológico urbano tem uma atitude blasé, ou seja, não ignora, mas também não é emocionalmente afeiçoado à massa de pessoas que o envolve. O mesmo ocorre com a esmagadora maioria das informações que recebemos, basicamente devido à impossibilidade prática de analisarmos todas ao mesmo tempo, e aceitamos passivamente o que nos é oferecido segundo métodos que ignoramos completamente. É a "zona escura" de que falam Berger e Luckman dentro do que estes dois sociólogos chamam de "construção social da realidade". Não é possível que conheçamos tudo sobre tudo, mas apenas o que nos diz respeito diretamente, e com o conhecimento científico em geral não é diferente.

          Hoje agimos como o personagem da figura reproduzida acima, L'atmosphère: météorologie populairepublicada em Paris, em 1888, que mostra um estudioso renascentista saindo do mundo natural para descobrir os fundamentos últimos de seu funcionamento, onde encontra uma cadeia de engrenagens. No lugar do mundo natural, ele mergulha não no mundo espiritual que haveria por detrás deste, mas no mecanismo frio e racional por ele imaginado e que supostamente moveria o Cosmos.

          Estamos como que presos na máquina criada por nossa própria mente e chamamos isto de "realidade"; reproduzimos um mundo à sua imagem e semelhança, como se fosse possível controlar por completo nosso ambiente; ficamos protegidos e blindados por um mundo artificial para além do qual é impossível sairmos completamente a não ser que coloquemos o corpo para fora deste mundo; e ainda que saíssemos do mundo construído teríamos o modelo da gravura como o limite de nosso imaginário, que está em constante conflito com nossas experiências e crenças pessoais.

          Enfim, temos muita subjetividade e pouca experiência. Vemos a chuva cair do lado de fora, mas não temos a experiência da chuva no campo aberto ou sobre a mata com seus efeitos na temperatura, o "cheiro da chuva", seu som sobre as plantas. Muito menos sobre os oceanos.

          É neste mundo, onde se encontram os instrumentos necessários à atividades científica e jornalística e onde vivem os produtores de informações. É uma redoma, um microclima físico e mental, exceção no ciclo natural dentro do qual ocorrem os fenômenos climáticos.

          Nem cito aqui as possíveis manipulações e distorções de dados e informações que contribuem para a narrativa das mudanças climáticas. O simples fato de estarmos inseridos não apenas numa realidade física, mas numa mentalidade que privilegia, até mesmo por uma necessidade prática, a subjetividade em detrimento da experiência ajuda a colocar em questão não só o método científico no estudo do clima como o problema epistemológico que molda e interfere em nossa visão de mundo. É neste caldo, nesta cosmovisão moderna que nascem as teses sobre mudanças climáticas e todas as narrativas que a sustentam. 

          Não há como fugirmos dos efeitos da mentalidade moderna. Ela está a aí, este é o nosso mundo e a nossa época. Mas sempre devemos botar em parênteses os grandes "consensos" em torno de temas tão complicados, complexos e impossíveis de serem averiguados diretamente. As mudanças climáticas não são acessíveis a olhos vistos e não andam por aí como nossos pés, capazes de pisarem na areia molhada da praia após uma chuva de verão. 

          

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

O mundo administrado: projetos de um Paraíso impossível




         O primeiro capítulo do livro “Vidas Desperdiçadas” (2004) do sociólogo polonês Zymgunt Bauman versa sobre o projeto da modernidade. O capítulo tem um nome claro e direto: chama-se “No começo era o projeto”. Trago aqui o texto que escrevi para um disciplina de pós-graduação.
          Bauman sintetiza o projeto da modernidade como a forma do homem moderno encarar o mundo através do pensamento racional e da necessidade, inerente a este pensamento, de administra-lo. O mundo administrado é o mundo preconcebido pelo pensamento racional, ou seja, é precedido por ideias, planos, ideais e intenções premeditadas. Daí a concepção do projeto moderno, que abarca todas as dimensões da vida das pessoas que vivem sob o manto da modernidade.
          A discussão do livro de Bauman gira em torno da ideia de refugo humano, as pessoas que são consideras e tratadas com “o resto” da humanidade ou, numa linguagem mais popular, os “excluídos”. No capítulo em questão, é a partir da página 31 que Bauman relaciona a ideia de refugo com a de projeto moderno e inicia uma análise muito interessante da real dimensão sobre as reais consequências deste aspectos inerente à modernidade:

“Indagado sobre como obtinha a bela harmonia de suas esculturas, Michelangelo teria respondido: ‘É simples. É só você pegar um bloco de mármore e cortar todos os pedaços supérfluos’. No auge do Renascimento, Michelangelo proclamou o preceito que foi o guia da criação moderna. A separação e a destruição do refugo seriam o segredo comercial da criação moderna: cortando e jogando fora o supérfluo, o desnecessário e o inútil, seriam descobertos o belo, o harmônico, o agradável e o gratificante” (BAUMAN, 2004, p. 31-32, grifo no original)

          A analogia com a visão de trabalho de Michelangelo perpassa todo o restante do capítulo: para alcançar o ideal, o objetivo final do plano previamente pensado, é necessário tirar de cena tudo e todos os que não se enquadram no projeto. O projeto aqui pode ser qualquer coisa que estabeleça um objetivo a ser alcançado no futuro: acabar com a pobreza, o desemprego, mudar a forma de organizar a economia, estabelecer planos e metas na educação, criar um determinado regime político (democrático ou não), estimular as ciências e assim por diante. Mesmo que as intenções sejam boas e os objetivos alcançáveis, inevitavelmente haverá pessoas que não se enquadrarão, por razões diversas, nos projetos em questão, sejam eles quais forem.        
          Bauman lembra que para a mentalidade moderna é a mentalidade da transformação constante, é a ideia de que “o mundo pode ser transformado (grifo no original). A modernidade refere-se à rejeição do mundo tal como ele tem sido até agora e à decisão de transformá-lo” (BAUMAN, 2004, p. 33). Para transformar o mundo, é necessário estabelecer um plano, um projeto para a criação da sociedade futura. Outra passagem do capítulo é reveladora sobre esta mentalidade escatológica da modernidade: 

“A história da era moderna tem sido uma longa cadeia de projetos considerados, tentados, perseguidos, compreendidos, fracassados ou abandonados. Os projetos foram muitos e diversos, mas cada um deles pintou uma realidade futura diferente daquela que os projetistas conheciam. E uma vez que ‘o futuro’ não existe enquanto permanece ‘no futuro’, e que ao lidar com o não-existente não se pode ‘obter a certeza de um fato’, não havia como prever, muito menos com precisão, como seria o mundo a emergir na outra ponta dos esforços de construção”
“O bem maior só pode ser obtido por um preço: justamente com seus benefícios, ele tende a acarretar consequências tão indesejáveis quanto imprevisíveis, embora estas últimas sejam normalmente minimizadas ou ignoradas no estágio de produção do projeto sob o pretexto da nobreza das intenções gerais” (BAUMAN, 2004, p. 34-35) 
          A principal consequência dos projetos modernos, sejam elas intencionais ou não, é o refugo humano, as pessoas que não se enquadram nos ideais futuros. Podemos ver isto claramente nos regimes totalitários, como o nazismo e o comunismo, onde grupos de pessoas classificadas por raça ou classe eram literalmente eliminadas da sociedade “ideal”, mas também podemos ver os efeitos colaterais inevitáveis dos projetos modernos, dentro do qual nos também vivemos, onde massas humanas não se enquadram na forma de vida adota pela sociedade. Bauman cita, logo no início do capítulo, as pessoas que não conseguem se adequar à chamada “sociedade de consumidores”: se antes, na época da “sociedade de produtores”, as gerações possuíam estabilidade quanto ao estilo de vida que levavam (emprego garantido, Estado provedor de bem-estar, estabilidade nas relações sociais), hoje a vida moderna nos pressiona a nos adaptar à fluidez e à instabilidade das mudanças constantes e cada vez mais rápidas na esfera socioeconômica, onde nada mais é garantido, nem mesmo as relações pessoais. A “modernidade líquida” (não comentado no capítulo) de Bauman é o mundo das mudanças rápidas onde nada é permanente e onde tudo passa tão rápido quanto chega. E quanto mais as coisas mudam, mais projetos surgem para tentar reparar os estragos dos projetos anteriores. No dizer do autor, vivemos num “excesso de produção de projetos” (p. 35) acreditando que cada um trará a solução dos problemas criados, criando assim novos problemas futuros. Cada vez mais projetos, cada vez mais novos problemas, cada vez mais novos refugos humanos.
(Zygmunt Bauman, 19/11/1925 - 09/01/2017)

          É inerente à modernidade a necessidade de transformar a realidade. O homem moderno não se satisfaz com o mundo “que aí está” e almeja o mundo ideal futuro imaginado, pensado e aplicado através do projeto. Nisto subjaz a concepção de que a natureza humana é frágil, que está à mercê de forças que ela não pode controlar. Bauman resgata uma passagem de Francis Bacon que diz “a natureza, para ser comandada, deve ser obedecida”. O homem moderno, porém, não tomou este enunciado como um chamado à humildade, e sim ao desafio. Portanto, a natureza, seja no sentido material ou humano, deve ser controlada pelo homem na expectativa de superar as crises e desastres do passado. Se na pré-modernidade era a irracionalidade e a superstição de lançava o homem ao desastre, então caberia à razão guiar a humanidade para um futuro seguro e luminoso: 
"Guiada pelas leis humanas, a humanidade seguiu em frente se arrastando, enquanto era fustigada, pressionada e atormentada pelas forças da irracionalidade, do preconceito e da superstição. Comparado com a parte inumana do universo que não conhece ‘erro’, o passado humano só podia aparecer como uma estufa da estupidez e da malevolência, e como uma longa sequência de crimes e erros. A única ‘lei da história humana’ que se podia imaginar era a necessidade de a razão assumir onde a espontaneidade humana havia falhado de maneira espetacular "(BAUMAN, 2004, p. 40-41)
          A modernidade é (...) um estado de perpétua emergência”, diz Bauman, sem a qual cairíamos no caos, na ausência total de normas e, portanto, de ordem. “A modernidade é uma condição da produção compulsiva e viciosa de projetos” (p. 41). 
          Se há projetos, então há agentes, há alguém que pensou neles antes que fossem aplicados. A pergunta que fica é: quem cria os projetos? De onde vêm as ideias que guiam sua implementação e quem as aplica? Bauman afirma que o principal autor é o Estado-nação moderno (aqui ele ignora os agentes individuais, como políticos, acadêmicos, ideólogos, etc). Mesmo em declínio, “a despeito do acúmulo de evidências sobre o status ficcional das afirmações de soberania do Estado”, seu “monopólio permanece incontestável ainda hoje” (p. 45). Bauman é incisivo quanto ao papel do Estado na formulação da ordem, incessantemente almejada pelos projetos da modernidade. E da ordem surge o refugo humano:
“Por toda a era da modernidade, o Estado-nação tem proclamado o direito de presidir à distinção entre ordem e caos, lei e anarquia, cidadão e homo saucer*, pertencimento e exclusão, produto útil (= legítimo) e refugo.” (2004, p. 45)
          Interessante notar que autores de diferentes matizes, como Eric Hobsbawn  ("Nações e Nacionalismos") e John Lucks ("O Fim do Século XX"), provavelmente concordariam com o enunciado sobre o Estado-nação, dado que os dois historiadores consideravam o nacionalismo sentimentos ainda muito vivos e atuantes até poucas décadas atrás. É do nacionalismo que o Estado-nação moderno bebe de suas forças, retroalimentando-o.

          O projeto da modernidade, capitaneado pelo Estado-nação moderno, comporta múltiplos projetos que se entrecruzam, se sobrepõem, se complementam, se anulam e entram em choque.  Numa sociedade em constante e cada vez mais rápida mudança, as gerações encontram-se angustiadas frente à perda de estabilidade, seja no trabalho, seja na vida pessoal. É o caso da chamada Geração X, com a qual Bauman inicia este capítulo que também é início do livro: fortemente atingidos pela instabilidade socioeconômica, a Geração X, composta por pessoas nascidas entre as década de 1960 e 1970, foi fortemente afetada por sofrimentos até então desconhecidos, um novo tipo de mal-estar que se somatiza, por exemplo, em doenças como a depressão. Este mal-estar é o medo de um mundo que não fornece mais segurança de qualquer tipo, nem mesmo material. 
          Derrubado o senso do eterno provindo das grandes religiões como o cristianismo, a sociedade moderna, ao avançar à pós-modernidade, perdeu qualquer eterno no qual se agarrar, e tenta fazer dos seus projetos planos que durem para sempre, que sejam tão eternos quanto a mensagem divina. Na medida em que os projetos se desenvolvem, novos problemas surgem e projetos antigos desaparecem. Aqueles que se viam falsamente confortados pelo emprego estável, pela vida fisicamente segura e pelas relações duradouras, agora veem-se no meio de novas tempestades causadas por novos planos que planejam tirá-las de campo. Decisões políticas, planos empresariais, crises dos mais variados tipos que ninguém sabe de onde e quem começou, guerras do outro lado do mundo... Tudo concorre para a instabilidade. O refugo humano por vezes se recicla, mas se acumula na medida em que a modernidade caminha e tenta recriar o Paraíso perdido das gerações passadas. O projeto é a tentativa de recriar este Paraíso, que está lá, fixado no eterno, e que não pode de maneira alguma ser estabelecido neste mundo.


* Categoria do antigo direito romano que definia a pessoa fora da jurisdição humana e divina. Esta pessoa era considerada desprovida de valor (BAUMAN, 2004).