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terça-feira, 1 de setembro de 2020

Gosto, moral e os progressistas

"Muitos dos modernos têm tradado o gosto como se fosse uma questão moral. Só espero que não tratem a moral como se fosse uma questão de gosto." (G. K. Chesterton, em "Lunacy and Letters", 1958) 

          Este aforisma de Chesterton é um retrato evidente do mundo de hoje. Seu temor se transformou em realidade, onde o gosto, de fato, se tornou a nova moral, ainda mais sacra e opressora do que qualquer moral tradicional.

          Esta cosmovisão é a essência ética da mentalidade progressista, que vê na sua época o ápice da "iluminação" do homem e, portanto, superior a tudo o que já passou.

          E por que tolerar as coisas do passado se elas estão "superadas"? Todo o mal, na mentalidade progressista, advém do passado que não morreu, sendo moralmente justificável suprimir tudo o que não conste na agenda do momento.

          Mas a pergunta que se coloca é: quem formula a mentalidade de nossa época? De onde vêm os princípios da moda, que versam desde a luta contra o preconceito até as formas de vestimenta?

          Pois a era moderna (ou pós-moderna) transformou tudo em questão de gosto e, para usar a expressão de Bauman, transformou tudo em líquido, ou seja, nada se fixa, tudo muda conforme os gostos da época com suas manias e ideias alterando desde relacionamentos até a ordem política.

          Centrada na subjetividade individual, a moral virou opção, e a opção fundamenta-se no gosto; e gosto oscila de acordo com a moda e o desejo do momento. O "eu quero" e "eu acho" se tornaram os novos mandamentos sagrados pelo qual todo o passado deve ser sacrificado.

          A apologia do tempo presente é a apologia do desejo presente, a entronização deste desejo como moral vigente, e o nivelamento da moral tradicional como mero desejo a ser equiparado (ou suprimido) a todos os demais.

          Talvez Chesterton não imaginasse que esta forma de conceber o mundo fosse promovida a toque de caixa por todo o globo. Nosso mundo "evoluiu" ao ponto de que, como temia nosso querido escritor, temos de provar aos modernos, desgostosos com a coloração da vegetação sobre a qual pisam, de que a grama é verde. Anátema seja quem discordar do psicótico desejo alheio.

domingo, 23 de agosto de 2020

O sério e o banal na era da confusão

"É uma ironia que ilustra o estado irracional do nosso tempo a de que sempre que falo a sério me tomem a brincar e de que sempre que falo a brincar me tomem a sério." (G. K. Chesterton)

          Esta afirmação de Chesterton pode parecer mero jogo de palavras ou brincadeira, mas não é. Uma sociedade que confunde a seriedade com a banalidade perdeu a referência do real e o senso das proporções.

          Imaginemos que alguém afirme, em tom crítico e de revolta, que temos de "cair de pau" em cima de outrem por suas atitudes, e que isto é tomado como apologia à violência física. Peço para imaginarem porque, sim, isto aconteceu. E foi no Brasil

          Ou que alguém lhe diga que estão desenvolvendo chips para implante sob a pele que lhe permita comprar, vender, entrar em estabelecimentos, carregar documentos e se localizar. Dirão que é teoria da conspiração ou exagero. Mas não é, vide que isto já é utilizado em alguns países para monitorarem animais de estimação.

          Pior é quando a brincadeira é tomada não como assunto sério, mas enquadrada como crime de racismo ou homofobia.

          A não distinção entre afirmações sérias e brincadeiras é resultado da perda do senso do real trazida pela deformação do imaginário, e para isto é necessário que a linguagem seja destruída e reduzida a slogans de grupos histéricos.

          Afinal, não chamam uma autoridade pública de "genocida" por suposta negligência em suas ações? Ou será que estão matando, de forma sistemática e sob pretextos "científicos", milhões de pessoas no Brasil como na Alemanha, Rússia, China ou Ruanda?

          Quando se perde a distinção entre o sério e o banal, pode-se perfeitamente transformar o banal em coisa séria.

          Temos de ter cuidado com o que dizemos por aí. Na era do relativismo, impõe-se a moral do grupo política e social mais astuto, mais esperto e mais tirânico.

          Se estivesse vivo, Chesterton seria levado muito a sério em tudo o que diz, mas não por sua inteligência e bom humor, e sim como pessoa imoral e até mesmo criminosa.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Moral e religião

"Uma pessoa que tem moral mas não tem religião é como uma pessoa apoiada só numa perna." (G. K. Chesterton, em "O Sobrenatural é Natural")

          Há quem diga que a pessoa pode ser boa e, portanto, ser moralmente correta sem ter religião alguma ou ser ateia, bem como há quem diga o contrário, que não é possível ser bom ser ter religião ou acreditar em Deus.

          O importante aqui é lembrar que o homem é um animal essencialmente religioso; é o único ser consciente em toda a Terra que questiona-se sobre o seu destino transcendente e age sob esta perspectiva.

          Isto também vale para o ateu, que age sob a perspectiva de que o homem finda com sua morte biológica. Isto também é um atitude religiosa, porém de fechamento para o mistério.

          Como mostra esta passagem, Chesterton inclina-se à posição de que a pessoa pode ter moral sem religião, talvez possa ser boa também, mas sua condição enquanto homem mostra-se amputada da plenitude do ser, negando a própria condição que lhe permite ser não religioso.

          Mas a situação se complica quando advoga-se uma moral sem religião. Perdida a referência do transcendente, o homem não religioso continua sendo uma animal religioso, continua a buscar, mesmo que negue ou não perceba, uma resposta para o mistério da vida.

          No lugar de Deus e do Absoluto ergue-se um novo deus, um novo parâmetro moldado segundo os arbítrios de desejos humanos, um bezerro de ouro que dita as novas condutas.

          Mesmo as derivações seculares do cristianismo caem neste perigo. A imanentização da igualdade perante Deus nos regimes democráticos é um exemplo. Hoje, vemos as democracias degenerarem no crescimento do poder político que visa inculcar no cidadão novas formas de conduta de raça, sexo, grupos social ou seja lá o que for em nome da "igualdade" e da "liberdade".

          Prescindido da religião, a moral ergue-se sobre pés de barro. "Se Deus não existe, tudo é permitido", disse Dostoiévski. Chesterton foi apenas mais sutil ao dizer que, abandonando a Deus, corremos o risco de nos desequilibrarmos e cairmos no caos niilista alertado e previsto por seu colega russo.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Estado imoral


          A imoralidade é, antes de tudo, uma questão de consciência. Naturalmente carregamos as noções básicas de certo e errado, sabemos que não podemos atentar contra a vida alheia nem roubar o que a nós não pertence.

          Mas como sustentar estes princípios na era do relativismo? Não bastou à mentalidade moderna expulsar Deus da esfera pública: com o advento da pós-modernidade, Ele também é mandado, por nossas opiniões e desejos puramente subjetivos, a se retirar para além das fronteiras da memória humana.

          Começo aqui falando de Deus aqui por ser Ele o único Ser absoluto e, portanto, única baliza fixa e definitiva para medir todas as coisas. Na falta desta baliza, outras coisas irão necessariamente substituí-las.

          As leis do Estado juridicamente laico, onde as tradições religiosas são tratadas como se fossem todas a mesma coisa, como se a rica história de dois mil anos da Santa Igreja equivalessem à mixórdia New Age ou às crendices dos horóscopos de jornais, que expulsou o que chamamos de "religião" da esfera pública, privatizando-a para fins unicamente privados, são uma das novas referências.

          Quem poderia infringir a Constituição, que garante a liberdade de consciência, quando alguém escarnece a Jesus e Nossa Senhora em praça pública, na TV ou na internet?

          Como é possível que, na disputa por apoio das autoridades, a fé da esmagadora maioria da população tenha de ser amputada e mesmo tirada a olhos vistos em nome da "igualdade" entre as crenças, mesmo que absolutamente minoritárias e pertencentes a tradições totalmente distintas e impossíveis de serem niveladas à tradição cristã?

          Como podemos proteger nossos filhos de todo o tipo de propaganda e sexualização patrocinadas pelos mesmos agentes do Estado (ou convenientes com ele), se este "direito" está garantido por lei, sendo que todos são formalmente iguais e livres perante a lei?

          Passemos ainda à promoção de toda a forma de expressão "artística" e "cultural" formal e ativamente patrocinadas pelo poder estabelecido. Em nome da liberdade de expressão e da "diversidade".

          Não cabe aqui estabelecer uma fórmula jurídica, muito menos doutrinal, para impedir estas injustiças e imoralidades sob o risco de escorregar para o lado oposto da balança impondo à sociedade um ordenamento moralizador repressivo e espiritualmente estéril.

          Se blasfêmias e imoralidades devem ser proibidas, cabem às sãs consciências e aos bons corações estabelecer esta Lei. Sim, Lei com "L" maiúsculo. Porque o Reino de Deus, baliza de todas as coisas, habita nos homens, não vem ostensivamente em forma de decretos e forças policiais. 

          O poder estabelecido, seja ele como for, deriva naturalmente da ordem interior do homem.

domingo, 25 de setembro de 2016

O moralismo ecologista planetário: guerra contra a família

(Para muitos defensores do "aquecimento global", há uma catástrofe à vista. E você é o responsável.)

Acabo de ler uma reportagem divulgada no site da revista Exame sobre o estudo de um professor de filosofia moral da Universidade de Johns Hopkins. Segundo o texto, Travis Rieder afirma que há quatro fatores que determinam o ritmo da poluição que contribui para o "aquecimento global": o teor de carbono nos combustíveis, o consumo de energia necessária para produzir riquezas, o tamanho do PIB dos países e sua população. Este fatores ajudariam a estimar a quantidade de carbono na atmosfera, cálculo conhecido como "identidade Kaya".

Acontece que a reportagem traz uma breve entrevista com Rieder, que diz expressamente:
"Existem 19 milhões de crianças esperando adoção e uma mudança climática catastrófica no horizonte. Colocar uma criança no mundo piora a mudança climática e, se não nos organizarmos, isso pode não ser muito bom também para a criança."
"Esta é uma questão de política pública. Ou você pode dizer que um problema como mudança climática exige que modifiquemos nossa cultura de obrigação individual e que todo mundo precisa pensar em ter famílias pequenas,"
As colocações do professor são assustadoras. Primeiro porque coloca uma catástrofe "no horizonte", isto é, estamos caminhando para o caos; segundo porque ele relaciona diretamente o número de crianças com a catástrofe. A conclusão é simples: o número de filhos é uma das causas diretas do "aquecimento global". Esta relação, como continua a entrevista, está no elevado padrão de consumo desejado pela humanidade como um todo. Mais crianças gerariam mais consumo que geraria mais aquecimento levando à catástrofe.

(Quanto mais filhos, mais consumo, mais rápida a catástrofe do "aquecimento": o moralismo ecologista planetário contra a família.)

Não posso fazer uma crítica do livro porque não li, mas posso e devo fazer uma observação sobre a reportagem. Seu título diz: "Quer frear o aquecimento global? Pare de ter filhos". Tanto o título da reportagem quanto o autor são enfáticos no apelo moralista contra o aquecimento. É um alerta de submissão imediata da vida privada ao ecologismo planetário.

A grande questão, no meu entender, está na relação causal entre o nascimento de uma pessoa e um fenômeno ultra-complexo e altamente duvidoso como o "aquecimento global". Este fenômeno não é consenso entre os cientistas, ao contrário do que diz em bloco a grande mídia no Ocidente. O documentário A Grande Farsa do Aquecimento Global, por exemplo, põe em cheque a relação causal entre a ação humana e o suposto aquecimento. Isto colocaria por terra a tese de Rieder (como apresentada na reportagem, importante destacar) e de tantos outros catastrofistas tão badalados nos grandes meios de comunicação.

(Um dos gráficos apresentados pelo A Grande Farsa do Aquecimento Global mostra a queda da temperatura média no Ártico no período de boom econômico após a Segunda Guerra quando houve a reconstrução da Europa e a industrialização de países com o Brasil.)

(Expansão do gelo na Antártida entre 2006 e 2014: sucessivas quebras de recorde. Aquecimento?)

Afirmações como a de Rieder e o teor da reportagem são comuns na televisão e nos jornais. Diversas outras vezes me deparei com o mesmo conteúdo e o mesmo apelo moral contra este tipo de catástrofe. É como se fôssemos pessoalmente responsáveis pela catástrofe anunciada e o genocídio de nossos próprios filhos. Este é, no meu ver, o ponto mais crítico: o novo padrão moral exigido pelo ecologismo planetário. Cada um é responsável por "salvar o planeta" e evitar a matança. A relação causal entre o nascimento de uma pessoa e um fenômeno ultra-complexo e altamente duvidoso é tão moralmente absurdo que deveria ser impiedosamente rejeitado e seus proponentes ridicularizados. Uma coisa é levantar a questão para discussão (estou dentro), outra é recomendar um padrão de conduta absolutamente impossível de ser regrada dada a generalidade e o esforço mastodôntico exigido. O moralismo ecologista planetário é tão absurdo é tão totalitário que deveria ser expelido do debate público de forma impiedosa e servir no máximo como objeto de reflexão filosófica ou enredo para obras de ficção.

(Fotografia que ficou famosa na internet onde um homem doa seus chinelos à moradora de rua no Rio de Janeiro: ajudar o "mundo" é impossível. Comecemos pelo próximo. É mais simples e eficaz.)

Ajudar o próximo com a caridade pura e simples é infinitamente mais eficaz do que baixar a cabeça para moralismos do tipo "salvar o planeta" mediante a ameaça de uma catástrofe. A caridade é um trabalho concreto e a garantia de retorno a olhos vistos, que quantos mais filhos estiverem a serviço mais gente se beneficiará.