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sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

A Rússia me persegue

 

          Existe um país que me persegue. Ele é conhecido, entre bebidas destiladas e frio extremo, pela ostensiva prática de espionagem. Não que seja o único a praticar isso, obviamente, mas se convencionou a vê-lo do Ocidente como um mistério indecifrável, e o Brasil, fortemente influenciado por aquilo que dizem os americanos e europeus, entrou no roldão no carnaval desses estereótipos.

          A Rússia me persegue, ou talvez eu persiga a Rússia. E mais uma vez fui pego por uma espécie de espião invisível que, na hora "H", resolveu dar o ar da graça.

          O mais recente fato curioso foi neste último dia de novembro, quando estive mais uma vez no Centro de Porto Alegre para os afazeres burocráticos e aproveitei para dar uma esticadinha num sebo, na famosa ladeira que liga a Rua da Praia com a Praça da Matriz.

          Espremido entre elevadas paredes de livros, uma espécie de paraíso estreito, ao fundo do corredor mexi de forma um tanto aleatória nos livros sobre religião quando, de repente, um pequeno cartão de promoção da cultura soviética caiu ao chão. Não havia pensado em nada sobre a Rússia no momento, mas o cartãozinho comunista estava lá entre os livros quando, ao puxar um deles, veio num leve tombo ávido a se apresentar.

          O material comemorava os oitenta anos da Revolução Russa com a inscrição "1917 1987", e por entre os números se erguia a Torre Spasskaya, a principalmente do Kremlin de Moscou, com a sua famosa estrela vermelha ao topo, tendo do lado direito outras duas torres de seus muros avermelhados e do esquerdo a cúpula do Senado do Kremlin com a bandeira soviética tremulando. Ao centro, um exemplar de uma revista comunista em português e abaixo a chamada "Não se esqueça de assinar a tempo jornais e revistas soviéticas!".

          Não me furtei de pensar, no mesmo instante, que aquilo só poderia ser para mim. Não me refiro à propaganda comunista, mas à referência à Rússia, enorme nação imperial que, apesar de minha insignificância, volta e meia aparece para me dar um alô.

          Não sei quando comecei com o fascínio por esse país ao mesmo tempo tão distante e tão presente, mas algumas coisas dão o que pensar. Na juventude, sempre achei Moscou fascinante por sua arquitetura grandiosa e ruas largas, cujos projetos visavam remodelar a cidade como exemplo da cidade comunista ideal e uma portentosa capital imperial. Tanto as peculiares igrejas - com a emblemática figura da Catedral de São Basílio, símbolo máximo da Rússia - quanto as chamadas Sete Irmãs de Stálin, em parte inspirada na própria arquitetura russa com bordas e torres pontiagudas, apresentam Moscou como centro de um império. 

          Certamente fui atraído pelo imaginário popular ou, diria melhor, pela figura estereotipada e militante da "grandiosidade" comunista, que infundia nas consciências juvenis o sonho de transformação da humanidade em todas as suas dimensões. Grandiosidade, universalidade, ideal, uma sedução sem fim de um universo inteiramente novo representado pela Terceira Roma, agora sob vestimentas materialistas. Por detrás da imensidão material e espiritual da Rússia, pulsava o ímpeto revolucionário que fizera da nação hospedeira seu Cavalo de Tróia. Amarga ilusão regada a muito sangue.

          Recordo-me de um ex-professor de pós-graduação lendo um texto a respeito do cosmismo, ideologia tão exótica e misteriosa quanto o país que lhe dera origem, que propunha uma nova evolução da humanidade em sua exploração do espaço, cujo resultado seria - pasmem! - a vida eterna! Uma loucura tipicamente russa e sedutora para um país com mania de grandeza. No artigo, um integrante do governo declarava, abertamente, sobre "o caráter nacional do povo russo, acostumado a pensar em categorias globais e pronto a sacrificar a vida por uma ideia". Ora, ora, quão fascinado sou por ideias amplas, arrebatadoras e reveladoras a respeito da vida, do homem, da História humana, do Universo inteiro! 

          Este foi o principal motivo pelo qual sempre me senti atraído pela mensagem de Fátima. Uma atração que por muito tempo foi muito mais mental do que espiritual. Seduzido pela temática impactante e abrangente, via as revelações sobre a História como muito mais interessantes do que o plano divino de salvação das almas e de paz no mundo, suas verdadeiras razões de existir. E nessa história tão incrível quem estava lá com uma menção toda especial? A Rússia, como pivô de uma época, a minha época, chave para a paz no mundo. A mensagem se encaixava muito bem nas "categorias globais" como forma de pensar o mundo. Minha atração pelo conteúdo era inevitável, mas até então boiava em divagações ao estilo History Channel.

          Apenas recentemente, em 2019, entrei de roldão na mensagem de Fátima graças a uma paróquia próxima de casa que realizava a Devoção dos Cinco Primeiros Sábados, e só depois disso entendi claramente, lendo as memórias da Irmã Lúcia, que a Consagração da Rússia não era o único fator da paz mundial, mas um de seus pilares junto com a Comunhão Reparadora. Fisgado pelo interesse pessoal pela Rússia, fui parar na frente de Nossa Senhora de Fátima como que um participante não só da História humana, mas do tempo de Deus, que não se mede por padrões humanos nem se limita a fronteiras nacionais. 

          Estar com Fátima é estar na Rússia. Basta menos do que um passo e menos do que o pulsar do ponteiro do relógio para atravessar mais de meio mundo. Quando me dobro frente à Nossa Senhora de Fátima, sei que um pouco de meu espírito repousa no distante país, da foz do Rio Neva à tundra siberiana, pois foi de meu interesse pela imensa nação que descobri, para conforto interior, a real dimensão da devoção a que me vinculava.

          A revelação pessoal não pára por aí. Em fins de 2019, descobri o repositório digital do jornal Voz de Fátima, dedicado à difusão da mensagem e publicado todo o dia treze de cada mês desde outubro de 1922. 

          Este que voz escreve veio ao mundo em 12 de fevereiro de 1981, e dada as "coincidências" que surgem naqueles que buscam uma vida espiritual, resolvi investigar o que se publicava a edição do dia seguinte. A situação não poderia ser mais reveladora. Dizia o título da capa: "Fátima e a Consagração ao Imaculado Coração de Maria". Chamada chocante para quem se dispôs, há dez anos, realizar a Consagração Total pelo método de São Luís Montfort, uma devoção de entrega à Maria Santíssima. Mas as coisas não pararam por aí; o subtítulo continuava: "Em diversas manifestações, Nossa Senhora pediu a consagração ao Seu Coração Imaculado: Consagração do Mundo e Consagração da Rússia.", e no pé da capa, outra reportagem anunciava seu título: "O Coração de Maria e os Primeiros Sábados". 

          De boca aberta, fiquei a imaginar o por que da impressão desse jornal exatamente com esse conteúdo menos de vinte e quatro horas depois de sair do delicioso aconchego materno. Saído de um aconchego, já se preparava outro com material feito especialmente para mim no futuro. Sim, essa edição foi impressa para que eu pudesse lê-la trinta e oito anos anos mais tarde. Ninguém imaginava minha existência, mas Alguém desde antes do princípio das coisas não só imaginava como já havia decidido tudo.

          Outra impressionante "coincidência" é o salto no tempo e no espaço que me fez olhar para uma distante terra gelada no passado. Explico. Na Renovação Carismática, bem como em certos grupos de oração, realiza-se a cura da árvore genealógica, procedimento que é, pelas palavras do falecido exorcista Gabrielle Amorth, ponto de discussão na Igreja Católica dadas suas sensíveis implicações teológicas. Como nunca fui autoridade tarimbada no assunto, pude conhecer dessa árvore pelos frutos quando tive experiências com orações de libertação.

          Em meados de 2009, tive o enorme privilégio de receber umas dessas orações que penetram nas gerações passadas. Na ocasião, queria descobrir a origem das dificuldades de relacionamento com meu pai, algo que perpassou toda minha vida. 

          Fui colocado sentado no centro de um sala em frente a uma imagem de Jesus, que expressava um olhar simplesmente irresistível a causar um desarme da alma. Ao meu redor, um grupo de mulheres introduziam orações católicas e invocação a Santíssima Trindade, anjos e santos, e impunham docilmente as mãos sobre mim. Buscando responder à minha ansiosa dúvida, uma das mulheres presentes me informou que visualizava um cossaco, e este tentava impor ao seu filho modos de agir e até mesmo o que ele deveria ou não pensar. Isso mesmo, um cossaco, e na Rússia. O homem, distante no tempo e no espaço, era antepassado da linhagem paterna, coisa que jamais imaginei nem por desejo. Como não possuía dons e sensibilidades afloradas, muito menos tinha o conhecimento teológico de um Adolphe Tanqueray ou as experiências de Santa Teresa d'Ávila, tive de me contentar com a descrição do local: havia neve. E como poderia ser a Rússia? Pois era a Rússia, respondeu a mulher, e o homem era um cossaco, o que me faz concluir que a libertação retornava pela minha linha familiar até meados dos séculos XVII-XVIII.

          Outro laço com a Rússia foi mais indireto, mas não menos surpreendente. Ingressei no mencionado grupo de oração em 2012, e uma das mais marcantes experiências ocorreram com canções religiosas, mais especificamente uma versão específica da Ave Maria atribuída ao compositor italiano do século XVI Giulio Caccini.

          Todas as vezes em que ouvia o som pela voz de um dos coordenadores do grupo, meu peito borbulhava como se produzisse vapor a explodir pela garganta, e que subitamente transbordava como a caneca com leite fervilhante. Não era o curto Neva, mas o vasto Volga que vinha à tona. A combinação de sutileza, profundidade e força da melodia tiveram em mim efeito avassalador. Não só a melodia em si, mas quem a cantava foi determinante. Richard Emunds era cantor profissional e se tornou meu padrinho de crisma, instrumento providencial decisivo para minha volta à Igreja. Através da canção a Nossa Senhora, eu vivia aquilo que costumei chamar de "experiência de Deus", o "sentir", como diz a banal linguagem popular. As cicatrizes abertas pela canção eram como que buracos por onde penetrava e jorrava a graça. Nunca mais quis me curar. 

          Mas que raios esse episódio tem a ver com a Rússia? Nessa última semana de novembro descobri que a mencionada canção da Ave Maria não era de autoria de Caccini, mas de Vladimir Vavilov, compositor russo que criou a música em meados de 1970 na então Leningrado publicando-a de forma anônima. Um duplo sopro providencial que fez brotar uma canção profundamente espiritual num regime antirreligioso e a fez alcançar essa alma então desnorteada por sonhos ilusórios e sentimentos desequilibrados que pululavam em lágrimas. 

          Não sei se Vavilov pensava em conversões ou possuía alguma devoção mariana especial, mas por seu valiosíssimo instrumento Nossa Senhora fez comigo o que ainda pretende fazer - e fará - com a Rússia.

          Mas enquanto a conversão da Rússia prometida em Fátima e Garabandal não chega, a Santa Sé e o Patriarcado de Moscou trabalham sutilmente nos bastidores por uma aproximação. Um passo ousado foi dado após vinte anos de discussão quando ocorreu o primeiro encontro da história entre um Papa e um Patriarca russo, Francisco e Kirill. O encontro teve direto abraços, sorrisos e uma Declaração Conjunta com temas muito delicados O ano era 2016, e o dia - sim, acreditem - 12 de fevereiro. De tão pessoalmente representativa, a data soava quase como uma ironia. Era dia do meu aniversário, praticamente um presente pessoal. 

          Na época não pude esconder minha alegria, que brotou discretamente quando soube da novidade pela internet, como se eu tivesse colocado a mão na sensibilíssima diplomacia Santa Sé-Moscou e participado de algo tão surpreendente. Obviamente seria ingenuidade pensar que disso pudesse vir a definitiva união das igrejas, algo tão improvável como o Papa e o Patriarca acenderem velas num bolo de aniversário e cantarem "Parabéns pra você" para um habitante desconhecido nas plagas do Sul do Brasil.

          Voltando ao 30 de novembro, uma pequena coincidência se revelaria pouco menos de seis horas depois do cartãozinho soviético me dar um alô. Eu havia começado a escrever esse texto comentando da misteriosa perseguição que o mencionado misterioso país vem promovendo à minha pessoa quando interrompi a escrita, fui à missa e soube, pela voz do padre, que estávamos comemorando o dia de Santo André. 

          Um dos apóstolos de Cristo, André é considerado ninguém menos do que fundador do cristianismo no Oriente e o santo mais venerado na Ortodoxia. Coincidência? E no mesmo dia, o Papa exortava, junto ao Patriarca de Constantinopla, que os ortodoxos buscassem a unidade de ambas as igrejas. Este texto tinha de ser escrito. 

          Todos os dias somos pegos com as calças na mão ou com o cartãozinho que cai ao nossos pés. Se há algo providencial entre minha relação com a Rússia ou se ela é mais um instrumento da providência que Deus dispôs para minha conversão, só o futuro dirá. E o futuro a Deus pertence.   

sábado, 5 de setembro de 2020

A centralidade do primeiro sábado do mês na mensagem de Fátima

 

          Primeiro sábado do mês, dia de reparação ao Imaculado Coração de Maria, conforme Nossa Senhora instruiu à Irmã Lucia em 10 de dezembro de 1925.

          A chamada comunhão reparadora faz parte da revelação de Fátima, e Nossa Senhora prometeu revelá-la na aparição de 13 de julho de 1917.

          Esta devoção consiste na oração do Rosário, confissão, comunhão em reparação aos pecados da humanidade contra o Imaculado Coração de Maria e 15 minutos de meditação nos mistérios do Rosário.

          Ela volta-se à nossa salvação, à salvação de muitas almas que estão se perdendo no fogo eterno e à paz no mundo inteiro.

          É o centro da devoção à Nossa Senhora de Fátima, que prometeu: "Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará."

          É muito comum vermos em alguns círculos católicos o insistente pedido de consagração da Rússia como meio de trazer paz ao mundo.

          O vínculo entre os dois pontos é direto e explícito na mensagem de Fátima, mas, seja por ignorância, ativismo ou paixões políticas, esquecem que a paz mundial também está diretamente vinculada à comunhão reparadora, como Nossa Senhora mostra na mensagem de 13 de julho:

"Para impedir [a guerra], virei pedir a consagração da Rússia ao Meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados."

          Os pedidos de comunhão reparadora e de consagração da Rússia estão vinculados a um mesmo plano de misericórdia de Deus para com a humanidade. Ambos são inseparáveis. Em outras palavras: não haverá paz no mundo sem oração e conversão pessoal.

          O Papa junto com os bispos do mundo todo podem consagrar a Rússia muitas vezes, mas isto é ato da Santa Sé, e hoje é ponto de discordância sobre a validade de realização na consagração de 1984.

          Mas a reparação ao Imaculado Coração de Maria, centro da mensagem de Fátima, é nossa parte.

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Os frutos dos "livros maus"


"É a literatura moderna dos educados, e não a dos ignorantes, que é agressiva e declaradamente criminosa." (G. K. Chesterton, em "The Defendant") 

          Esta afirmação de Chesterton é de 1901 e provavelmente se baseava nas desgraças publicadas algumas décadas antes. Mas também antevia as desgraças de depois.
          Como afirmou a profecia de Nossa Senhora de La Salette, em 1846, "os livros maus abundarão na Terra" e os espírito malignos "abolirão a fé pouco a pouco".
          Dois anos depois, Marx e Engels publicariam o "Manifesto Comunista", e de suas obras filosóficas surgiriam uma nova geração de intelectuais, os marxistas, que na geração seguinte, com Lênin, como bem mostra o historiador Perry Anderson, também um marxista, desembocariam na sangrenta Revolução Russa.

          Chesterton ainda não vira, naquele momento, a onda de obras revolucionárias que inundaria o século XX, os ataques à religião e a promoção do relativismo quando da penetração do movimento comunista na guerra cultural.
          E nem havia conhecido "Minha Luta", livro onde Adolf Hilter apresentavam suas venenosas ideias ao público e que inspirariam movimentos revolucionários como na Argélia e o mundo árabe; nem o "Livro Vermelho" de Mao Tsé-Tung (foto), que serviria para lavagem cerebral maciça na China e inspiraria movimentos sangrentos na Albânia, África, Sudeste Asiático e Peru.
          Livros necessariamente são escritos por pessoas com capacidade intelectual acima da média e, por sua divulgação, moldam o imaginário, a linguagem e os valores da grande massa, passando suas obras pelas mãos de professores e formadores de opinião. 
          No fundo, os intelectuais dirigem o mundo, porque a direção do mundo por líderes políticos, militares, religiosos e bilionários depende de um planejamento prévio que foi pensado e teorizado para ser colocado em prática. 
          Fossem as obras centradas em promover a herança dos antepassados e apenas divertir as pessoas numa medida justa e não haveria problemas quanto ao que Chesterton chama de "literatura moderna dos educados".
          Mas foi a traição dos intelectuais, para usar o termo de Julien Benda em seu famoso livro homônimo de 1927, que deu a justificativa para os horrores que se avizinhavam nos séculos XX e XXI.
          Dos livros maus, da má literatura, veio a relativização de todas as coisas, inclusive da dignidade humana, aviltada pelas guerras em larga escala nas cidades, campos de concentração, engenharia social e aborto. E daí para o caos e o genocídio foi um pequeno passo.

segunda-feira, 13 de julho de 2020

A unidade da segunda parte da mensagem de Fátima (13 de julho)


Hoje, 13 de julho, faz 103 anos da aparição de Nossa Senhora de Fátima onde Ela afirmou que viria pedir a comunhão reparadora dos sábados e a consagração da Rússia, pedidos que realizou em 1925 e 1929, respectivamente. Destes dois atos, viriam a salvação das almas e a paz no mundo.

Estas mensagem mostram que não adianta pedir apenas a consagração da Rússia (ou seus efeitos, caso já tenha sido realizada por São João Paulo II em 1984 como muitos acreditam) sem a comunhão reparadora, o que inclui a oração completa do Rosário.

Se as pessoas não rezam e não há conversão, do que adianta apenas um ato solene da Santa Sé? Tanto é que Nossa Senhora, ao pedir a consagração da Rússia à irmã Lúcia em 1929 (representação acima), mostrou a ela seu Imaculado Coração, o mesmo ao qual Ela pediu reparação quatro anos antes ao especificar a comunhão reparadora. E no mesmo evento de 1929, apresentou à irmã o mistério da Santíssima Trindade e sua relação com a eucaristia como ato de graça e misericórdia vinculados ao seu Coração. Afinal, Maria sacrificou-se com seu Filho ao vê-Lo, em silêncio, Seu profundo sofrimento na cruz.

Resumindo: a comunhão reparadora é um ato de desagravo à Nossa Senhora e a Jesus cujo ato seria chancelado pela consagração da Rússia, sua conversão e a consequente paz no mundo, tornando visível aos olhos da humanidade o poder do Imaculado Coração. O mundo precisa ver a ação de Nossa Senhora. Este é o triunfo prometido do Imaculado Coração.

Infelizmente, parece que nada disto foi feito, e hoje pagamos as consequências.

terça-feira, 12 de maio de 2020

Nossa Senhora profanada na Rússia


          Neste 9 de maio, a Igreja Ortodoxa Russa inaugurou a majestosa e imponente Catedral Principal das Forças Armadas Russas, ou Catedral da Ressurreição de Cristo, no Parque Patriota, perto de Moscou. A igreja possui 97 metros de altura e foi dedicada ao 75º aniversário da vitória na Grande Guerra Patriótica, como é chamada na Rússia a Segunda Guerra Mundial.

          Dentro da igreja há vários mosaicos. Dois, porém, chamam a atenção.  

          O primeiro, acima à esquerda, mostra Nossa Senhora vestida com as cores da bandeira nacional. À esquerda da imagem há um cartaz onde se lê "A Crimeia é nossa", numa referência à anexação da Crimeia pela Rússia em 2014; em destaque ao centro, Vladimir Putin e o ministro da defesa Sergey Shoygu; nas bordas, o exército russo. A Mãe de Deus está abençoando a nação em seus feitos recentes.

        Neste início de maio, o comitê responsável pelas artes, arquitetura e restauração da Igreja Ortodoxa Russa afirmou que vai remover o mosaico. O pedido de remoção seria do próprio Putin.

          Mas o segundo mosaico é o mais problemático. Nele, Nossa Senhora abençoa o Exército Vermelho na vitória na Segunda Guerra. Os generais aparecem colocam à frente do Kremlin e da Catedral de São Basílio, símbolos máximos da Rússia, em meio à queima de fogos. À direita, há uma imagem de Stálin, líder do país no conflito. Nossa Senhora veste as cores do país comunista. 

          Este mosaico causou controvérsia e críticas de parte do clero da Igreja Russa devido à referência a Stálin. Apesar da discordância e do desconforto, decidiu-se manter a imagem. Há de se deduzir que há influência do Kremlin na questão, historicamente um patrocinador do reavivamento religioso na Rússia atual. 

          Como toda a imagem, o mosaico carrega uma representação, transmite uma mensagem, uma realidade. Este simbolismo é ainda mais profundo e impactante quando se trata dos sentimentos religioso e nacional, abundantes no mosaico. Ali estão cristianismo e comunismo soviético.  

          A associação da história soviética com Nossa Senhora é uma ofensa, uma blasfêmia que deve ser reparada com orações até que se tome a atitude de se reparar fisicamente esta profanação. Desnecessário dizer os crimes cometidos pelo regime que matou 30 milhões de pessoas do próprio povo.

          Outro elemento que chama a atenção é a data da inauguração da catedral, quatro dias antes do dia de Nossa Senhora de Fátima. 

          É de conhecimento dos católicos a mensagem de 13 de julho de 1917 onde Nossa Senhora afirmou que viria pedir a consagração da Rússia ao seu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. A devoção dos sábados é a devoção ao Imaculado Coração, que foi detalhada à irmã Lúcia na aparição que recebeu em 10 de dezembro de 1925, em Pontevedra, na Espanha.

          Em maio de 1930, Jesus Cristo informou à irmã Lúcia, então na clausura em Tuy, na Espanha, que o número de sábados eram em reparação a cinco ofensas e blasfêmias cometidas contra o Imaculado Coração de Maria. E uma destas era justamente os ultrajes dirigidos às imagens Dela, tal qual vemos na nova catedral.

          Importante lembrar sempre que devemos sempre rezar pelos mortos, independente quem sejam eles, porque não sabemos seu destino, determinado apenas por Jesus Cristo. Não sabemos, portanto, quem são, as causas e as motivações dos 27 milhões de cidadãos e soldados soviéticos que foram colocados à força para morrer na linha de frente da guerra.

          Há diferença entre pedir a intercessão materna pelas almas e associá-la à "glória" de um regime tirânico, promotor de conflitos e inimigo aberto da Igreja. O primeiro é um dever cristão, o segundo uma blasfêmia que pode e deve ser reparada com a devoção ao Imaculado Coração de Maria. 


sábado, 9 de maio de 2020

Ainda há tempo


          Muita coisa pode ser dita acerca das possibilidades futuras. Na crise da atual epidemia, uns acreditam que sairemos melhores dela, outros que estamos caminhando para um mundo de sofrimento e opressão.

          É mais fácil especular sobre como será o mundo nas suas linhas gerais do que como serão as pessoas no comportamento. As ações humanas são imprevisíveis e podemos prever apenas as tendências futuras.

          Mas foi-me dito, ainda no século XIX, que o mundo enfrentaria graves problemas no futuro. Que os sacerdotes trairiam seus ofício e começariam a perder a fé. Que a apostasia começaria desde cima.

          Também foi dito que seriam publicados livros maus, que surgiriam cultos ao inimigo e que as pessoas só quereriam saber de diversão e se comportariam como bestas.

          Foi-me dito, com esperança e preocupação, que a atual guerra iria acabar, mas que se os homens não se emendassem viria outra ainda pior. Que da Rússia surgiriam erros que se propagariam por todo o mundo todo.

          Se os homens ainda não se emendassem, haveria mais guerras, destruição, e que muitos morreriam, até mesmo o Papa, e sua Igreja seria perseguida e destruída.

          Também me disseram as mesmas coisas, mas mostrando grande sofrimento e grande destruição. Mães matam os próprios filhos e um cálice transborda. Conflitos começariam em vários lugares e o caos reinaria;  que grandes sinais seriam vistos no mundo inteiro, que veríamos todos os nossos erros e muitos morreriam por não suportar encarar a si mesmos; que passaríamos três dias de profundo desespero na escuridão completa. Depois de tudo isso, o mundo não seria mais o mesmo.

          Foi-me dito, muitas e muitas vezes, para que rezássemos muito, muito e muito, que fizéssemos sacrifícios, que nos arrependêssemos de nossos erros, que fôssemos bons.

          Finalmente, apesar de tanta dor e preocupação, a mim foi prometido que haverá, um dia, um período de paz no mundo. Será estabelecido um novo culto, definitivo, e a Rússia finalmente será convertida. Os cristãos serão um. As pessoas de boa consciência e puras de coração habitarão a Terra. Um mundo novo, um Reino novo.

          Tudo isto foi dito por Nossa Senhora em La Salette, Fátima, Garabandal e Medjurgorje. 

          São pedidos urgentes para uma humanidade que caminha cega em meio à escuridão e ao caos crescente. Ainda há tempo para que realizemos o que nos foi pedido desde o Céu. É um Deus que fala. É a sua Mãe que fala.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Um chamado de Fátima para o islam?


          A distância em linha reta entre o Santuário de Fátima e a Grande Mesquita em Meca é de exatamente 5 mil quilômetros! Fátima é a única cidade portuguesa com nome árabe, de uma mulher muçulmana que se converteu ao cristianismo para se casar com um cavaleiro português.
          Ora, como mostra o professor Felipe Aquino, no Evangelho o número 5 está relacionado ao reconhecimento à autoridade do Senhor; islam é a palavra que, em árabe, significa "submissão". Talvez a distância entre Fátima e Meca tenha esta relação, represente a autoridade divina sobre a humanidade, mais especificamente sobre os muçulmanos.
          Mas a aparição de Nossa Senhora ocorreu em Fátima, não em Meca. Ou seja, não são os cristãos que devem se voltar à Meca, e sim os muçulmanos que devem se voltar à Fátima. Creio que isto seja um recado e um anúncio aos muçulmanos, de que um dia eles reconhecerão a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo.
          A relação entre Fátima e o islam já foi apresentada pelo venerável Fulton Sheen, o padre Paulo Ricardo e está na parte final do documentário "Fátima. O Último Mistério", mas a relação da distância entre os dois locais merece maior atenção, além de outras possíveis relações que possam haver entre eles e a mensagem de Nossa Senhora.
          Enfim, isto é uma especulação minha, mas Deus queira que seja verdade.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

A Consagração da Rússia e a necessidade da devoção ao Imaculado Coração de Maria


          Volta e meia a questão da Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria na mensagem de Nossa Senhora de Fátima volta à tona pela internet.
         Pois bem. Na mensagem Dela existe uma associação direta entre três acontecimentos: a Consagração da Rússia com sua conversão, a devoção ao Seu Imaculado Coração (devoção dos cincos sábados) e a paz mundial.
          Não adianta consagrar a Rússia se não houver a devoção ao Imaculado Coração de Maria, ou seja, oração do Rosário, confissão e comunhão. O Papa pode fazer 10 consagrações conforme Ela pediu, mas sem as orações (e portanto, as conversões), não haverá o efeito esperado.
          Por isto que eu não sei se a Consagração feita por São João Paulo II em 1984 foi válida ou não. Portanto, faça sua parte que Nossa Senhora fará a sua, ou efetivando os efeitos da Consagração da Rússia (com sua conversão e paz mundial), ou induzindo a Santa Sé a fazê-la em definitivo.
          Sem oração, a devoção pessoal ao Imaculado Coração, não haverá resultados, e a humanidade continuará a sofrer as consequências de seus erros até o momento em que desembocará na guerra e na matança, que é a simbologia apresentada no "terceiro segredo".          
          Rezem!
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          Ao pegar o terço na mão, lembre-se: o Rosário da Santíssima Virgem circunda toda a Terra, mexe com a humanidade inteira e vai além. Não é pouca coisa.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Você existe? Agradeça também a Nossa Senhora

(A Anunciação, pintura de Leonardo da Vinci, 1472-1475.) 

          Nesta semana fiz duas postagens no meu Facebook que gostaria de colocar aqui porque são complementares. 

          "A aceitação de Maria à oferta transmitida pelo arcanjo Gabriel de conceber Jesus é um ponto de partida na salvação de nossas almas e um momento decisivo na História mundial. Ponto de partida da salvação porque com a vinda de Jesus são resgatadas as almas da mansão dos mortos e estabelecida a via de salvação às pessoas de sua época e das épocas futuras (inclusive eu, você e todos nós); momento decisivo na História mundial porque da vida e do legado Jesus surgiu o cristianismo, que serviu de base de civilizações inteiras principalmente na América, Europa e no mundo eslavo. Nossa Senhora é como a chave que ao girar liga o motor de um carro: sem Ela não haveria viagem, não haveria futuro, não haveria vida. Deus, claro, poderia ter um plano B caso Nossa Senhora dissesse "não" ao arcanjo, mas neste plano nós muito provavelmente não estaríamos aqui. Nossa gratidão a Ela deve ser profunda e eterna."
          "Na hipótese de que Nossa Senhora tivesse recusado a oferta do arcanjo Gabriel e Deus não tivesse um plano B, nós definitivamente não existiríamos. A questão é simples: Deus não colocaria Seus filhos num mundo em que não houvesse uma via de salvação, condenando automaticamente todos ao inferno. Isto seria totalmente contrário ao amor divino, que é infinito e busca todas as formas possíveis de união com os seres que criou. Se tivéssemos de ser criados para sermos condenados, Deus simplesmente não nos criaria, do contrário entraria em contradição Consigo mesmo. Por definição, Deus é unidade, é harmonia, é coerência. Ele não pode ser auto-contraditório, o que faria Dele um deus falso, um deus que mente ao dizer que é amor. Se estamos aqui é porque podemos estar com Ele um dia, e o sim de Nossa Senhora foi o que permitiu a vinda de Jesus Cristo, por isso, a possibilidade um dia O encontrarmos. Agradeça também a Ela por sua vida."

          O papel de Nossa Senhora em nossa vida é, antes de tudo, o de permitir que viéssemos ao mundo. Ela poderia ter bloqueado os planos de Deus, que teria de buscar alternativas e, portanto, alterar o curso da História humana para que não se perdesse Seu plano de salvação da humanidade.

          A mente divina é insondável, e Seus propósitos são conhecidos apenas com a descoberta do sentido dos acontecimentos em nossa vida. Portanto é impossível saber se nós realmente estaríamos aqui caso Deus tivesse um plano B após um "não" de Nossa Senhora à oferta do arcanjo. De qualquer forma, Ele quis que Seu plano passasse por Ela. Deus fez de Maria a pessoa que permitiu que viéssemos ao mundo dentro do plano que Ele traçou para nós. A Deus devemos nossa vida, e a Ela também.

sábado, 22 de outubro de 2016

João Paulo II: o santo que veio do lado de lá da Cortina de Ferro

(Em 22 de outubro de 1978, há exatos 38 anos, Karol Wojtyla tomava posse como João Paulo II. O Papa foi canonizado por Francisco em 27 de abril de 2014.)

Eu gosto de fazer alguns comentários sobre política. Não em entrar em discussão sobre preferências ou meramente emitir opiniões, mas de entender a realidade por detrás dos discursos e da propaganda.
Ninguém, porém, é melhor do que Deus para entender a realidade do mundo político (na verdade, ninguém é melhor do que Deus em qualquer coisa). Afinal, Ele é o próprio arquiteto do poder estabelecido. Jesus Cristo anunciou a Pôncio Pilatos que o poder que o governador possuía só existia porque lhe fora dado do Alto (João, 19:11).

Não foi coincidência que nos tempos da Guerra Fria o Espírito Santo foi soprar na Polônia e trazer ao trono de Pedro o Papa João Paulo II. Neste 22 de outubro completam-se 38 anos de sua posse, ocorrida em 1978.

(Duas milhões de pessoas em Varsóvia, Polônia, em junho de 1979: a eleição de João Paulo II como Papa ajudou a encerrar o regime comunista no país.)

No ano seguinte o novo Papa visitou seu país, onde duas milhões de pessoas foram recebê-lo nas ruas de Varsóvia. Apesar da dura repressão, principalmente através da polícia secreta, o regime comunista da época tinha alguma flexibilidade e, claro, não podia reprimir uma multidão daquela proporção. Dez anos depois o Muro de Berlim vinha abaixo e, num jogo de dominó, arrastou todo o bloco do leste até desmantelar a toda-poderosa União Soviética. O fim da superpotência foi oficializado em 25 de dezembro de 1991, no Natal, no meu entender um sinal claro da revelação de Jesus a Pilatos. Os regimes comunistas tinham como uma de suas principais características o ateísmo oficial, e uma das consequências era a repressão religiosa e a disseminação doutrinária do ateísmo. E não é necessário entrar no mérito do genocídio, o que desqualificaria esses regimes por mais religiosos que fossem.

(Cerimônia de consagração do mundo e da Rússia na Praça São Pedro em 25 de março de 1984: segundo Gabrielle Amorth, a Rússia não foi mencionada no evento. Teria havido também resistência por parte do clero no mundo à consagração.)

Deus deu ao mundo sinais gritantes durante o pontificado de "João de Deus" que, como bom santo, se exauria nas viagens pelo mundo e morreu em sacrifício pela Igreja. Infelizmente João Paulo II não conseguiu realizar alguns de seus sonhos como uma visita à China e à Rússia, neste último caso em razão da classificação do país como território canônico da Igreja Ortodoxa Russa. Na ocasião da visita à Ucrânia em junho de 2001, país de maioria ortodoxa, houve muita resistência por parte dos líderes da igreja russa local em receber e aceitar a presença de um Papa católico numa viagem por eles considerada proselitista. Havia também a pendência em torno de um tema que lhe era caro: a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria que, segundo o recém falecido exorcista Gabrielle Amorth, não teria sido realizada conforme a revelação de Nossa Senhora à irmã Lúcia no ano de 1929 devido à pressão de dentro do Vaticano (escreverei sobre isso num momento oportuno e publicarei tanto aqui quanto no meu outro blog).  

(Aparição pública do Papa em 27 de março de 2005, cindo dias antes de sua morte: sacrifício até o fim.)

São João Paulo II  tinha uma missão clara: resgatar parte da humanidade, particularmente parte da cristandade, que estava sob domínio de um poder político explicitamente anticristão. Wojtyla era devoto de Nossa Senhora, particularmente de Fátima. Foi sob este título que a Mãe de Deus alertou sobre os "erros da Rússia" ao três pastorinhos ainda em 1917, quando realizou o primeiro pedido de consagração do país. Com o resgate da cristandade sob julgo comunista caberia ao Papa unir os cristãos e dar fim à divisão de 1054 causada pelo cisma ortodoxo. Não foi coincidência, repito, que Deus, depois de mais de 400 anos, foi buscar um Papa fora da Itália e justamente num dos raros países de forte tradição católica sob julgo comunista. João Paulo II não conseguiu realizar tudo o que desejava. Ele tinha meio mundo contra sua missão, mas suportou o peso do trabalho até o último minuto, o último suspiro, o último momento. Sua disposição era prova de que o Senhor nele habitava. Sua santidade não foi coincidência ou mera propaganda católica. Na sua disponibilidade e limitações, ele fez muito mais do que um ser humano comum faria. Sua missão foi cumprida.