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terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Dia 7 de dezembro de 2021

          Há tempo notei a existência de um paradoxo: quanto menos tempo temos para fazer as coisas, mais disposição temos para realizar outras coisas; e quanto mais tempo temos, menos disposição temos para outras iniciativas. Pela lógica, deveria ser o contrário: se temos tempo livre, oras, então deveríamos ter mais disposição para agir. Minha afirmação surgiu basicamente por experiência pessoal, depois confirmada com outras pessoas.

          Olhar o tempo livre é contemplar o potencial que temos para ir além daquilo que somos. Em outras palavras, é a oportunidade de crescer, de realizar aquilo que os gregos chamavam de "ócio": o cultivo da alma e do corpo para melhorarmos enquanto pessoa, o que inclui nos aprimorarmos intelectual, moral e fisicamente através dos estudos, do cultivo das artes, do esporte, da oração, e assim por diante. Quem dera essa disposição surgisse automaticamente no contemplar do tempo livre, como se o cair de um gota de água límpida fizesse imediatamente a semente se transformar numa árvore de copa larga.

          Essa observação diz respeito às pessoas com rotina definida e que, após o trabalho, têm algum momento em que podem cultivar a si mesmas ou a vida em família ou com amigos.

          Quando fiz uma breve busca na internet na tarde de hoje para ver os concursos públicos disponíveis, me deparei com um "azar": um deles havia encerrado as inscrições vinte e cinco minutos antes de eu acessar o site; outro anunciava o dia do pagamento da inscrição no mesmo dia em que eu descobria o edital. Azar entre aspas, pois as coisas dependem da providência e de nossa iniciativa; no meu caso, da falta dela.

          Onde eu estava na falta da busca? Se estou com um problema a resolver, a questão é simples: dê o primeiro passo, vá atrás. Uma longa viagem da casa até a fazenda, do Brasil à China, do desemprego ao emprego começa com o primeiro passo. Se a casa se erguesse antes do primeiro tijolo, bastaria o desejo de conseguir um trabalho para que parte do caminho já estivesse trilhado antes mesmo de ser conhecido. Deus faz muito por nós, mas não o que cabe a nós fazer, pois somos os remadores que só encontram o rumo certo na vida ao remar guiados por aquilo que confiamos de coração.

          O tempo que sobra torna-se um fardo como num trabalho exaustivo quando o tempo do ócio confunde-se com o do negócio, para utilizar outro termo dos gregos antigos, agora referente à prática de nossas necessidades cotidianas. Por isso costumo dizer que o desempregado não tem férias, mas um problema a resolver que contrasta vivamente quando seu amigo ou vizinho, cansado mas realizado, despacha o próprio corpo à beira de uma praia. 

          Na ausência do primeiro passo o fosso só se alarga e aprofunda, engolfando ócio e negócio, lazer a trabalho, vida particular e pública numa grande sopa que apodrece à falta de luz do sol.  

domingo, 26 de maio de 2019

A medida do sucesso


           Ultimamente tenho passado, dito de forma suave, por um período da vida sem qualquer inspiração. Não sei dos propósitos das coisas que faço (mesmo que tenha consciência deles, mas não me penetram no coração), não tenho muito ânimo para resolver as coisas do cotidiano e há um bom tempo abdiquei de alguns sonhos, ao menos temporariamente.

          Na vida moderna somos ensinados, como jumentos atrás da cenoura, a idolatrar o sucesso profissional e a paixão amorosa. Agora me pergunto: quem consegue atingir estes objetivos? Quem faz o que realmente gosta e ganha fortunas com isso? E quem consegue viver uma paixão duradoura e sem conflitos? Evidentemente tais ideias são mentira. Não que eles não sejam possíveis, pois até são, mas porque a grande maioria das pessoas se frustra nesta busca e, pior de tudo, aprisiona o sentido das suas vidas a duas linhas de chegada transformadas em miragem de felicidade.

          Se na vida o que vale mesmo é o sucesso no trabalho e no amor, do que vale a conquista quando realizadas? O sucesso encerra-se em si mesmo e só pode ser substituído por uma nova busca e uma nova conquista. É um ciclo sem fim interrompido apenas pela morte, a causa única do fim de todas as lutas e conquistas. Os ideais de sucesso fecham a pessoa nas coisas do mundo, e tem sido assim nas últimas gerações, que afastaram de suas vidas agitadas a consciência da morte e o teatro profundo e oculto dentro do qual as lutas e conquistas se desenrolam. Decaído os ideais da alma que antes buscavam a perfeição e o Céu, a honra e a dignidade, resta-lhes mirar e lutar pelos ideias do mundo, que valem tanto quanto valiam antes de nós nascermos: nada. 

          As lutas cotidianas têm de ser absorvidas na perspectiva da morte, isto é, tratadas como lutas por um legado no mundo e para que não nos arrependamos ao chegarmos ao fim da vida, seja no leito de morte, seja no Tribunal diante do qual veremos a Deus e a nós mesmos exatamente como somos, com todas as suas belezas e terríveis feiuras. Quanto melhor fizermos nosso trabalho ao longo da vida, mais luminosa será nossa beleza e menores serão nossas feiuras. É a alma que brilha. O corpo morre. 

          O sucesso profissional e a felicidade no relacionamento fariam sentido se a vida se fechasse com a morte. Mas é justamente o mistério da morte a medida justa da busca destas conquistas, tornando-as relativas de acordo com os princípios e o amor com que são realizadas. Nos últimos momentos, será a beleza do que fizemos que contará, bem como a forma com que seremos lembrados, aqui e no outro mundo. 

terça-feira, 24 de outubro de 2017

O dilema do trabalho: tanto esforço para quê?


          Ao longo de toda a minha vida pensei que a atividade profissional tivesse como objetivo principal "fazer o que se gosta". Demorei muito para ver que isto não era verdade. Pior: arraiguei em minha mente a ideia de que o único trabalho viável era aquele vinculado a este gosto ou a uma necessidade intrínseca. De fato, o trabalho é vinculado a uma necessidade (quem não trabalha não come ou depende do trabalho dos outros), mas isto não tem nada a ver com o gosto daquilo que se faz. Prazer e necessidade estão dissociados, e é melhor trabalhar com desgosto para matar a fome do que morrer de inanição enquanto se evita um ato desagradável. 

          É muito provável que a maioria das pessoas já tenha alguma vez se perguntado "de onde veio tudo isso?" enquanto olhava para sua cidade, o local em que vivia ou as paisagens que avistava. Tudo depende estritamente do esforço humano. Esta é uma das ideias base da obra A Rebelião das Massas, de Ortega y Gasset: o mundo que "está aí" só está aí por um enorme esforço combinado de gerações passadas ao qual o homem médio moderno, o "senhorzinho satisfeito", ignora e dá pouca importância. É muito fácil desrespeitar as leis quando não se tem em mente que o esforço de se organizar uma sociedade, cuja ordem está formalmente expressa nas leis, é o que mantém de pé a sociedade na qual vivemos. Se alguém assalta uma loja ou joga lixo no chão é porque ignora, guardada as devidas proporções, o esforço combinado para que um produto chegue a uma prateleira ou o trabalho organizado de dezenas de pessoas para manter o ambiente minimamente belo e agradável.

(Hong Kong, uma das cidades mais ricas e desenvolvidas no mundo. Grande esforço sem sentido?)

          Toda a vida que possuímos depende de uma combinação de esforços dos antepassados, muitos deles desagradáveis e impostos pelas suas próprias escolhas. O conforto é, no fundo, uma ilusão fundamentada no esforço precedente. Mas as pessoas das gerações passadas escolheram isso, e as pessoas de hoje também. É a vida voltada à busca do conforto, da posse, da criação de riqueza para o bem-estar físico e mental, para o prazer, para a misteriosa "felicidade",  para o progresso cuja grande realização foi dar à humanidade um maior domínio sobre a natureza e satisfazer os desejos mais profundamente humanos. Vivemos a "era burguesa" do livro O Fim de Uma Era, de John Lukacs. Para o historiador húngaro, a ideia de um progresso histórico baseado no desenvolvimento da ciência desembocou no mundo atual, como se a ciência pudesse se desenvolver de forma cumulativa e linear, levando o mundo sempre "para frente" e "superando" os tempos passados. Mas este mundo, como bem coloca, está em cheque. Não porque o trabalho para a conquista deste mundo desenvolvido seja desagradável, mas porque o domínio da natureza e da própria condição humana tem seus limites.

          O trabalho não é só prazer, muito pelo contrário, mas também não é puramente um esforço em direção ao progresso, à conquista do conforto e à realização de nossos desejos. No dia-a-dia vivemos a contradição de que quanto mais nos esforçamos no trabalho mais desejamos o seu fim, ao exemplo celebrado final de semana, como se o trabalho fosse intrinsecamente ruim e o ócio bom. O trabalho é um esforço por algo maior, maior mesmo do que a própria necessidade de sobrevivência ou a posse de fortunas. Afinal, que sentido há numa atividade que se resume a pastar para comer ou conquistar conforto em nome do prazer? O corpo morrerá e todos os bens aqui ficarão. A alma que um dia habitou a Terra irá embora sem os espólios de seu esforço. 

          Creio que o trabalho seja um sacrifício para a Eternidade. É para o Alto que nossos corpos devem se dobrar, mesmo porque nem mesmo nossos corpos são nossos, e nossos esforços se resumirão a uma fagulha frente ao Mistério que abrange e se perde nos confins de nossa existência mundana.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Um recomeço


Criei este blog em meados de 2006. Na época a ideia era divulgar comentários, pensamentos e testemunhos sobre os mais diversos assuntos e que abrangessem três assuntos que levam o nome do blog. No título coloquei a palavra "Deus" para falar de fé, religião, espiritualidade e algumas experiências pessoais; coloquei "Terra" porque sempre gostei de Geografia (minha graduação) e sou apaixonado por meteorologia, meu hobby diário; e "humanidade" porque gosto de falar de pessoas, sociedade, cultura, História, política, e assim por diante.

Hoje resolvi resgatar este blog. Sim, vivemos num mundo do qual não podemos escapar, há um Deus que nos olha do e para o plano da eternidade e julga todas as coisas nesta perspectiva, mas é às pessoas que quero chegar. Os textos aqui serão feitos para chegar às pessoas, tocá-las (não sentimentalmente, porque seria pedante), ir fundo na alma. Se o que fazemos é indiferente, das duas uma: ou a pessoa que recebe nossos atos está fechada, ou nosso trabalho não foi feito com amor. Se há amor, há um toque; onde não há amor, não há nem mesmo ódio, cuja existência se justifica pelo sentimento oposto, e sim indiferença.

Acredito que tenho um dom para chegar às pessoas. Não falo por vaidade, mas porque já me disseram isto várias vezes, e porque procuro falar as coisas de coração. Também já me foi dito que as pessoas não ficam indiferentes ao que eu digo, talvez porque leve as coisas muito à sério (mesmo excessivamente à sério) e seja um pessoa profunda. Gosto de falar de coração. Falar de coração não é falar em tom sentimental ou fazer as pessoas se emocionarem. É falar em Espírito e em Verdade, exatamente como Jesus Cristo nos pediu quando orássemos a Deus. Uma oração é falar com Deus. Portanto, aos falarmos com as pessoas temos de fazer a nossa oração a elas.
  

(Nossa vida é uma mar de incertezas. Estamos cercado de escuridão guiados por poucos pontos de luz. O firmamento é nossa mensagem diária de humildade, a representação de nossa inteligência e da nossa limitada capacidade de compreender a realidade na sua forma integral.) 

Obviamente não fazemos isso o tempo todo. Na maior parte das vezes falamos no automático, sem pensar muito nas palavras, de forma inconsciente e respondendo espontaneamente às situações cotidianas. Muitas vezes regado a risadas, palavras azedas e mesmo xingamentos. Mas ao mesmo tempo temos nossos momentos especiais de introspecção, intuição e entendimento da realidade. São aqueles momentos em que temos uma iluminação, a percepção interior de que descobrimos, por um breve instante, uma dimensão da realidade que até então não havia sido inteligida por nós. Este é o momento em que um pouco da Verdade nos é revelada, e é isto o que importa.

Quero chegar às pessoas de alguma forma. Espero que os que lerem o que aqui for escrito não fiquem indiferentes. Não falo em tomar posição sobre certos temas, e sim em levar um pouco do que eu vi e percebi da vida a partir de uma perspectiva pessoal. Tudo o que vemos e percebemos é a partir de uma pessoalidade, porque é materialmente impossível vermos o que os outros vêem ou o que os objetos a nossa volta presenciam. Toda a experiência é única, exatamente como a resposta a cada uma delas, o que nos faz estritamente responsáveis por cada segundo de nossa vida. Se o que estiver aqui escrito não tiver um toque de realidade, será um mero divertimento ou passará batido. Espero que algo daqui fique, e para sempre.


Deus abençoe a todos.