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segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Até quando?

          Até quando as pessoas vão acreditar nos "jornalistas" da velha "mídia"? Até quando as pessoas vão acreditar em institutos de pesquisa? Até quando as pessoas vão acreditar que a televisão informa imparcialmente e se baseia na ciência? Até quando as pessoas vão acreditar que os termos que circulam na boca da esmagadora maioria dos formadores de opinião não falam de realidade, mas foram fabricados justamente para moldar o comportamento das pessoas? Até quando as pessoas vão parar de acreditar em "nossas" instituições e no chamado "Estado democrático de direito"? Até quando as pessoas vão acreditar que a solução de nossos problemas está na política?  Até quando?

          No último dia 2 tivemos eleições onde um condenado pela justiça pleiteava o maior cargo da república, cuja disputa era organizada e monitorada por uma ditador e criminoso afoito por impor aos seus desafetos e inimigos do sistema o ostracismo do silêncio ou a cadeia. Isso por si só punha por terra a legitimidade do pleito que, desmoralizado desde dentro, não tinha validade alguma fora o fato de se impor como realidade imediata inescapável. 

          As informações em circulação são, em grande parte, moldadas por um consórcio que se diz de comunicação munido por números de um outro consórcio, o dos institutos de pesquisa, cuja margem de erro foi, em massa, pelo menos três vezes o que este grupo previa. A favor do condenado, é claro.

          Muito feliz foi a definição do primeiro grupo ao se chamar de "consórcio", pois talvez seja o melhor termo para definir uma máfia sem chamá-la pelo nome. 

          E não se enganem que a força política contrária ao sistema falso e podre é capaz de salvar a pátria. Não é. Pois seu drama - e do país inteiro - jaz em deitar no berço esplêndido do artificialismo estéril da república, que há cento e trinta anos tenta absorver tudo à dimensão da política e criar a nação à imagem e semelhança de seus erros e falsidades. 

          Há multidões inteiras acreditando que basta um bom executivo para virar a maré das mazelas nacionais. Quem dera bastasse arrumar o corpinho sem antes arrumar a cabeça. Num sujeito que está louco e metido em macumba até a goela, pouco vai adiantar ficar bonitinho e regular o colesterol.

          O problema está na cultura; o problema está no espírito. Porque se muitos acreditam que tudo passa pela política, então a dimensão existencial, alongada infinitamente pelo elevado mistério da vida, é rebaixada e achatada ao manejamento das coisas do mundo. Para essa massa, Cristo é impotente sem o braço do poder de César. Sua fé está depositada no lugar errado, e tudo é esmagado pela horizontalidade da dimensão política.

          Uma boa dose de ceticismo manejada pela prudência é garantia de sanidade mental. Ninguém consegue se manter são e sustentar uma esperança verdadeira apostando suas fichas neste hospício republicano, agora dominado pelos consórcios e o juízes de capa preta, aliados na luta contra uma nação que insistem em querer governar.

          O primeiro passo é colocar a própria cabeça além de seus limites, acima do buraco aberto no teto da cela hospitalar. É no alto que depositamos nossa confiança. O exemplo arrasta, e as pessoas não conseguem acreditar numa mentira para sempre. 

sábado, 6 de fevereiro de 2021

Vocês estão prontos para os lockdowns climáticos?

          Este é um artigo publicado no site da revista The Spectator, escrito pelo colaborador Stephen L. Miller, com o título Are you ready for the climate lockdowns? Foi publicado em 5 de fevereiro de 2021. 

          Dada a relevância do tema, tomei a liberdade de fazer uma tradução para este blog. Boa leitura!

          VOCÊS ESTÃO PRONTOS PARA OS LOCKDOWNS CLIMÁTICOS? 

          É só uma questão de tempo.

          Na última semana, o presidente Biden assinou uma ordem executiva para entrar novamente nos Acordos Climáticos de Paris. Esse foi um gesto principalmente simbólico, já que o mesmo alarmismo empurrado antes do acordo em 2016 ainda está sendo empurrado agora, enquanto nações como a China ainda o ignoram. Agora, o enviado climático do governo Biden, John Kerry, sob ataque por embarcar num jato privado à Islândia para aceitar um prêmio climático, está dizendo aos Estados Unidos e ao mundo que as condições do acordo de Paris são "inadequadas".

          Como a elite climática global empurra às massas a alimentação de insetos e o fique em casa para salvar a Terra, vale a pena colocar a questão: o que será adequado? Com o Fórum Econômico Global em Davos em abril se aproximando, vamos começar a ouvir termos como "Equidade Climática" e "Redefinição Climática" (uma brincadeira com o Great Reset* do FEG) com mais frequência. Provavelmente, também começaremos a ouvir apelos por lockdowns climáticos**. Sei que, agora, isso soa completamente absurdo, mas essas ideias excêntricas não encontram sempre uma maneira de adentrar no mainstream? Quinze Dias para Diminuir a Atividade do Sol!

          A possibilidade de lockdowns climáticos já está sendo ventilada por alguns de nossos maiores pensadores. Eles veem a confluência de crises globais como uma oportunidade. A tempestade perfeita causado pelo COVID-19 e o colapso econômico global resultante oferecem uma chance de realizar o que veem como ação uma ousada e dramática para salvar o planeta. O governo Biden certamente utilizará as consequências do COVID para fazer passar algumas legislações verdes, mas, como antes, não será o suficientes para os progressistas. Tem de haver sempre mais.

          Mariana Mazzucato, escritora e professora de economia inovadora na Universidade de Londres, levantou a perspectiva de lockdowns climáticos na MaketWatch em setembro passado:

          "Sob um 'lockdown climático', governos limitariam o uso de veículos particulares, proibiriam o consumo de carne vermelha e imporiam medidas extremas de economia de energia, enquanto as companhias de combustíveis fósseis teriam de suspender a perfuração. Para evitar tal cenário, deveríamos revisar nossas estruturas econômicas e fazer o capitalismo de maneira diferente."

          A ideia de "fazer o capitalismo de maneira diferente" é a motivação retórica motriz por trás do Great Reset do Fórum Econômico Mundial (outro termo para a implementação do marxismo global).

          Karl Lauterbach, um parlamentar do Partido Social-Democrata alemão, escreveu no Die Wlet em dezembro passado que "precisamos de medidas para lidar com a mudança climática que sejam semelhantes às restrições à liberdade pessoal [impostas] para combater a pandemia." Há quanto tempo até que essa teoria abra caminho nos meios de comunicação e nos discursos políticos aqui?

          Sem dúvida, essa ideia será explicada como simplesmente "seguir a ciência". Os lockdowns que começaram na primavera de 2020 contribuíram para o que os cientistas estão chamando de a maior queda nas emissões de CO2 em anos. A principal razão para isso foi o decréscimo de aproximadamente 40 por cento no transporte de automóveis e aviões. O Fórum Econômico Mundial elogiou esse número numa postagem de blog intitulada "Emissões caíram durante o lockdown. Vamos mantê-la assim."    

          Alarmistas climáticos como Greta Thunberg e John Kerry estarão salivando com a perspectiva de usar os dados de emissões para colocar em prática suas ideias de um futuro livre de metano - e aviões. Como ousa refutar! Se podemos todos ficar em casa por duas semanas (que inevitavelmente se tornariam quatro semanas), vale a pena para salvar o planeta. Qualquer um que questionar tais propostas será rotulado de um negacionista científico e acusado de querer matar seus vizinhos (você sabe, como o que você ouve se não usar máscara para uma caminhada casual em torno do quarteirão).

          Como os governadores e o governo federal imporiam lockdowns climáticos? Simples: declarando que a mudança climática é uma crise imediata de saúde pública e segurança nacional, e usando a mesma autoridade garantida a eles pelos departamentos de saúde pública para implementá-los sob as mesmas diretrizes que fizeram para o COVID-19. Bernie Senders e AOC anunciaram um projeto de lei sugerindo ontem!

          Esse foi sempre o risco com a implementação em massa de lockdowns. Uma vez que seus líderes impõem um sob o pretexto da saúde pública, eles não irão simplesmente colocar de lado seu poder de fazer o mesmo novamente. Não se preocupe, eles estão apenas seguindo a ciência.

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* Não traduzi o termo "Great Reset", que é de conhecimento de todos e possui mais de uma tradução possível.

** Mantive o termo "lockdown", que significa "bloqueio". Lockdown climático é bloqueio climático ou bloqueio do clima.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

A politização de todas as coisas


          Nos últimos anos, os brasileiros foram vítimas e algozes das disputas políticas pela internet. Foram inúmeras as histórias de brigas, rompimentos, sepultamento de longas amizades que tiveram como estopim temas políticos.

          Lula e Bolsonaro à parte, este é um efeito característicoa da era moderna e fruto direto de um declínio espiritual: a politização de todas as coisas. Diminuída a relevância da vida religiosa pelo processo de secularização, o mundo, isto é, as coisas do imanente, a prática do dia-a-dia, o sensível, o visível o manipulável, tomou a gigantesca dimensão antes atribuída às coisas do espírito.

         O mundo, antes confiado à Providência pelo sentimento religioso do povo, agigantou-se e tornou-se assustador aos olhos do homem moderno, que, em sua cosmovisão limitada, vê apenas uma saída possível (e falsa) para apaziguar o medo: domar o mundo pelo poder político.

          Nas últimas postagens tenho citado a obra "A Traição dos Intelectuais", de Julien Benda. Para o autor, o principal traço desta traição está no abandono à investigação desinteressada da realidade pelos intelectuais e seu empenho pelas coisas práticas, que toma forma de ativismo político. Antes buscando entender o mundo, os intelectuais modernos agora querem transformá-lo, subjugando todos os seus princípios a este objetivo.

          Mas esta politização de tudo não seria possível sem antes uma revolução na cultura. Outro autor aqui mencionado recentemente, o historiador Paul Johnson, afirma que foi justamente o relativismo, advindo das transformações filosóficas enraizadas no século XIX, que permitiu a ascensão de poderes tirânicos e totalitários. Sem antes relativizar a própria vida humana, não seria possível que o poder revolucionário e opressor dos regimes nazista e comunista fossem possíveis. Não se pode matar dezenas de milhões de pessoas tratando-as como pessoas. É preciso desumanizá-las.

          Ao analisar o período pós-colonial do século XX, Johnson afirma que "o político profissional de tempo integral herdou a terra no século XX". Ainda que antes houvesse pessoas do tipo, o político permanente, aquele que vive da política e da agitação, é um traço característico dos últimos pouco mais de cem anos. Para Johnson, os comunistas russos e chineses e os novos líderes do então terceiro-mundo eram exemplos típicos desta classe.

          Esta classe, porém, não poderia se manter de forma permanente sem uma máquina que a sustentasse, e o Estado moderno, com seu aparato burocrático gigantesco necessariamente provido por impostos compulsórios na mesma proporção, não só foi o resultado inevitável do político profissional como é por ele retroalimentado.

          O enorme crescimento desta classe foi possível tanto pela corrupção moral dos intelectuais apontado por Benda quanto pelo próprio processo de modernização, que tem como efeito a complexização da vida cotidiana e o sufocamento da vida religiosa. A era moderna "matou" velhos deuses para colocar reis, chefes de Estado e ditadores no seu lugar.

          A relação entre modernização e crescimento do poder do Estado pode ser encontrada na principal obra de Bertrand de Jouvenel, "O poder. História natural de seu crescimento", diversas vezes citado nos escritos de Olavo de Carvalho e muito bem apresentado no artigo "O Estado e a razão", onde o autor afirma ser o Estado "a mais vasta e complexa criação da inteligência humana, a encarnação suprema da Razão".

          Mas em sua obra "O Jardim das Aflições", Olavo demonstra bem de que forma este crescimento do poder estatal se difunde na sociedade provocando a politização de todas as coisas. Como apontei acima, esta politização é precedida pela dissolução dos valores religiosos.

"O Estado liberal, que professa nominalmente a liberdade religiosa, é dos três o mais eficiente no combate à religião, como se vê pelo fato de que as massas, tendo conservado sua fé religiosa sob opressão nazifascista e comunista, facilmente cedem ao apelo das 'novas éticas' disseminadas pela indústria de espetáculo nas modernas democracias, e abandonam, junto com a religião, até mesmo os preceitos mais óbvios do direito natural: exercendo livremente seus 'direitos humanos' sob proteção do Estado democrático, as mulheres que praticam nos EUA um milhão e meio de abortos por ano logo terão superado as taxas de genocídio germano-soviéticas. Muito mais eficiente do que a tirania de Hitler e Stálin é o regime que, legalizando e protegendo todas as exigências tirânicas e autolátricas de cada ego humano, produz milhões de Stálins e Hitlers." (p. 180)
          
          Com a dissolução da religiosidade da população dissolvem-se, com o tempo, os princípios que sustentam a ordem social ameaçando a ordem mesma.  Assim, o cânone da nova moral secular substitui, mal e porcamente, a ordem espontânea anterior.

"Do outro lado, compensando astuciosamente o desequilíbrio que a liberação desenfreada de desejos poderia causar, o Estado neoliberal produz novos códigos repressivos que, descarregando a reação violenta do superego em alvos moralmente inócuos (o fumo, os beijos roubados, as cantadas de rua, o machismo, o vocabulário corrente, as piadas), dão um Ersatz de satisfação ao impulso natural da moralidade humana, impedindo-o de expressar-se numa condenação frontal de um estado de coisas marcado pela impostura obrigatória universal. (...) ... o Estado, sem deixar de ostentar o prestígio da lenda democrática, acaba por se imiscuir em todos os setores da vida humana, por regulamentar, fiscalizar e punir até mesmo olhares, risos e pensamentos." (p. 180-181)

          Hoje, as denúncias constantes por governos e emissoras de televisão de aglomerações a céu aberto e o não uso de máscaras pelas pessoas comuns, bem como supostas ações racistas e preconceituosas, não apenas repetem literalmente o processo descrito acima, como se apresentam de forma muito mais ostensiva, moralista e repressora. 

          A politização invadiu tudo, da simples presença física nos lugares "errados" ao pensamento e a linguagem, e seu principal fruto é a proliferação ilimitada de Hitlers e Stálins que, em nome da "saúde" e da "democracia", agem como censores da conduta alheia e acabam por instaurar a desconfiança mútua e a opressão de todos por todos.  

domingo, 26 de abril de 2020

A impiedosa fé na política


          Uma sociedade que se preocupa excessivamente com a política se afastou do plano da transcendência. Porque a política é essencialmente imanente, depende de uma ordem objetiva e uma estrutura cujas leis obedecem ao mundo e ignoram o plano espiritual.

          A fé na política é inevitável quando esta toma grandes proporções, quando procura tudo legislar. Por consequência, as pessoas são forçadas a reagir, de forma favorável ou contrária ao poder estabelecido, engendrando-as no jogo político.

          A era moderna piorou muito esta situação porque ela gerou a técnica, e a técnica progride numa complexidade crescente. Esta complexidade exige novas normas e leis, que se multiplicam na medida em que a sociedade se torna mais complexa. Cresce, portanto, a máquina de poder do Estado que a todo o instante tenta tapar o buraco por uma nova realidade ainda não regulada.

          Mais Estado, mais legislação, mais restrição às liberdades em nome destas mesmas liberdades.

          Engolfadas nas disputas ideológicas e em planos de poder frequentemente confusos, as pessoas não sabem de onde vêm as decisões que impactam suas vidas ao mesmo tempo em que são obrigadas a lidar com elas, de impostos à máquina eleitoreira das eleições. 

          Como resultado, todos se veem impelidos, em algum grau, a se comprometerem em opinar e se posicionar no jogo de poder.

          Bastava acessar a internet para ver que ninguém ficou à parte do recente conflito entre o agora ex-ministro Sérgio Moro e o presidente Jair Bolsonaro. Este é mais um caso de como a política tomou proporções nunca antes vistas. 

          Todos têm algo a dizer (ou se sentem na obrigação de dizer) porque sabem que, de alguma forma, isto pode impactar suas vidas, mesmo sem entender como. Junto com o crescente poder político, cresce também o império da opinião.

          No fundo, esta luta é de ordem espiritual. Não porque por detrás de tudo isto estejam anjos e demônios. Não. Mas porque, ao darmos excessiva relevância às coisas do mundo, esquecemos que a fé deve ser depositada em Cristo e não em César. Nenhuma autoridade nos fará feliz. Nenhuma.

          Do contrário, seremos impiedosamente esmagados pela máquina que rege a política. Na lógica do mundo não há perdão.

domingo, 4 de novembro de 2018

A ilusão do poder

(Arco do Triunfo em Paris: símbolo da Revolução Francesa, que deu origem ao modelo de Estado moderno adotado no mundo todo.)

          Encerrada a guerra das eleições, resta-nos, além de monitorar e fazer pressão no novo governo quando necessário, tocar a vida adiante. A política é uma das faces de nosso cotidiano. Ainda que ela permeie cada vez mais nossos afazeres, ela não é nosso dia-a-dia.

          Nosso dia-a-dia é o levantar, arrumar a cama, falar com as pessoas da família em casa, trabalhar, ir ao mercado, manter as amizades e cuidar um pouco da saúde (e também da aparência, por que não?). Mas vivemos numa época em que a política parece que resolverá tudo, como se devêssemos ter o líder ideal, mais que um salvador da pátria, um salvador da humanidade a guiar seu povo no caminho sonhado em direção ao Paraíso terrestre.

          Na era das democracias (ou seja lá o que isso signifique realmente), acreditamos que o Estado e a legislação trarão tanta alegria e felicidade como outrora o "ideal" comunista prometeu. Pior: ainda promete. Porque a mentalidade do Estado totalizador da vida humana, ainda que nas suas vestes de Estado de direito, insiste em prometer o que não pode dar. Porque quanto mais direitos, mais deveres e mais pessoas obrigadas a trabalhar para a realização desses direitos pela força da lei. Se isso não é totalitarismo, não sei o que é. 

         Seja nos moldes do Estado comunista, fascista ou liberal, o Estado moderno cresce e vive às custas de uma esperança da vida pós-morte que a modernidade colocou para além de nosso horizonte cotidiano. Na obra "Rumor de Anjos", Peter Berger afirma que um dos efeitos mais espantosos da secularização, isto é, a subtração de expressões e símbolos religiosos da sociedade, é a eliminação da ideia da morte. A vida moderna fez o homem voltar-se apenas às coisas do mundo. Relegado o plano da transcendência ao esquecimento, surgem as coisas meramente cotidianas como totalizadoras da vida, dentro das quais o Estado é o principal ator a nível coletivo, o condutor da sociedade. Assim como a técnica busca dominar a natureza, o Estado busca dominar a vida humana, guiando-a para a perfeição segundo suas diretrizes e os planos ideológicos de seus mentores e administradores. A utopia floresce na mente dos que se colocam na direção do mundo, que caminha rumo ao desconhecido e, por isto mesmo, ao fracasso. 

          Enquanto levamos nosso dia-a-dia adiante continuamos a viver no crescente domínio do poder político sobre nossas vidas, cada vez mais dependentes dos meios modernos de vivência. É paradoxal que vivamos como se a política não existisse ao mesmo tempo em que esperemos tudo dela. Talvez este seja um caminho: viver como se o governo não existisse, como se a política fosse irrelevante, como se o Estado fosse uma ficção. Cumprindo sempre os deveres legais, mas menosprezando-os como meramente legais. Desenvolvendo uma vida interior ativa e vigorosa que forneça a consciência pessoal e espiritual de nosso papel no mundo. Afinal, um dia nós nascemos sem necessitarmos disso, e após a morte romperemos com a ilusão totalizadora do mundo, deixando posses, poderes e ideologias para trás.      

          

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

A fé na coisa errada


          Às vésperas de uma eleição importante é evidente que criamos expectativas. Afinal, o poder político adquiriu uma relevância enorme de forma que esperamos que o administrador, junto com seus aliados, realize o que desejamos para nossa sociedade, sociedade esta da qual nós fazemos parte. Isto faz de nós potenciais beneficiários dos comandos que vêm do alto, a exemplo da prosperidade material e uma vida cotidiana burocraticamente simples.

          Na medida em que uma sociedade se desenvolve economicamente mais complexa se torna seu funcionamento. Mais empresas, mais associações, mais produtos circulando, mais agitação. Disso, se faz necessário mais regulação e mais controle. Na medida em que uma sociedade se desenvolve economicamente cresce junto o poder do Estado, que não precisa dirigir a economia, mas regular seu funcionamento de forma que haja um ordenamento mínimo e que as relações sociais se harmonizem com este ordenamento. Em outras palavras: mais poder político atuando em cada vez mais setores da sociedade. Por isso a política importa tanto: ela penetrou em muitas áreas que antes não atuava e mais minucioso se tornou o controle que exerce sobre nosso dia-a-dia. Basta ver as regulações que se discutem acerca de, por exemplo, a internet ou combate ao contrabando. Junto a isso, surgem as regulações sobre nosso comportamento: como educar seus filhos, não fumar, limitar o consumo de determinados alimentos, cuidar com as palavras ditas na rua, mesmo os olhares. Quanto mais desenvolvimento, mais complexidade socioeconômica e maior a tentação de ir além, extrapolar os limites burocráticos e partir para a burocratização da vida íntima. Os direitos e as leis crescem e exigem cada vez mais controle social.

          Esta é a ilusão: acreditar que o poder político tudo pode e tudo deve. Daí a fé na política, a esperança de que o poder trará a nós a tão sonhada paz e prosperidade ou pelo menos uma boa paz e uma boa prosperidade. A vida se tornou tão complexa que fomos engolfados pelo cotidiano e temos enorme dificuldade de olhar além do mundo visível, retendo nele a fé que deveria saltar para o Eterno. Sufocados pela vida agitada, esta ilusão desemboca num erro fatal, que é a crença de que a ação humana tudo pode e é infalível. Não é. Caso fosse, ou as decisões estariam sempre corretas, ou a realidade física seria plástica à vontade humana. Esta fé vã é comprovada pelas sucessivas crises que tantos países passam mundo afora e, claro, pela que passa o Brasil neste momento. Só Deus pode tomar decisões sempre certas e ser capaz de manipular a realidade física de acordo com Sua vontade. É lá que devemos colocar nossas esperanças esperando sempre que se um político fizer besteira ele faça a menor besteira possível.  

           

terça-feira, 13 de março de 2018

A diversidade e a guerra dos sexos

(Banheiro unissex da PUCSP.)

          Acabo de perder uma oportunidade de emprego por ser... homem. Na verdade, a vaga era para o setor financeiro de uma escola infantil daqui de Porto Alegre que já teve problemas com pais que reclamaram da presença de homens na instituição. Em algumas ocasiões, o responsável pelas finanças têm de ajudar no trato com as crianças quando a responsável tem de sair em horário de intervalo. Isso inclui levá-las ao banheiro. Portanto, a escola, para não ter mais problemas, aceita apenas mulheres.

          A mensagem era clara: os pais temem a presença de um marmanjo entre as crianças em momentos que elas estejam vulneráveis, sozinhas e à vista do responsável.

          Não demorou para vir à mente a proposta, em nome da diversidade e da tolerância sexual, de se criar banheiros unissex, ou permitir que homens possam usar banheiros de mulheres e vice-versa por se sentirem do sexo oposto. A discussão se espalhou em várias partes do mundo e também no Brasil. Essa era uma das políticas implementadas nos EUA pelo governo Obama em maio de 2016, (e que Trump logo eliminou), e que foi posta em prática também na PUCSP (uma universidade pontifíciacatólica, bom destacar) em nome da tal diversidade. 

          Se as pessoas já temem homens em certas situações que envolvam crianças, imagina como reagirão quando souberem que um marmanjo, alegando sabe-se lá qual orientação sexual, puder utilizar o mesmo banheiro de uma menininha de cinco anos. Daí se deduz, de forma óbvia, o medo do estupro e da pedofilia. Não de graça, a política do Obama criou uma guerra nos EUA, onde quase metade dos estados combateram ou proibiram a lei. A moral sexual virou ato de poder: de um lado a libertinagem sexual promovida pelo Estado, do outro tendência de regulação, também pelo Estado, de uma relação entre as pessoas que deveria ser totalmente auto-evidente e espontânea. Afinal, como lidar com uma regulação deste tipo sem inserir necessariamente a sexualidade no campo político? E na aplicação da lei, como garantir relações respeitosas dentro dos banheiros se nem mesmo hoje isto é possível a não ser com controle policial sobre a intimidade humana? Com a promoção da libertinagem sexual, a reação será o moralismo mais opressor que se possa imaginar.

          Como a política trata do bem comum, ela terá de fazer valer suas regras nos locais em que ela atua por excelência: os espaços públicos, onde todos se encontram, e nas escolas, que são a principal instituição por onde se inculcam os valores republicanos numa sociedade. Se a diversidade é parte deste valores, então terá de valer para as escolas também. 

          Não posso dizer que fui vítima dessa guerra cultural, e nem me senti discriminado por ser homem. Mas numa época de hiper-sexualização, ondas de denúncias de pedofilia e principalmente militância diversitária na política, nas artes e nos meios de comunicação, é questão de tempo que casos como o meu se multipliquem. 

          A diretora da escola deixou claro que a negativa da oferta de emprego para mim nada tinha a ver comigo. Eu sei que não tinha, e penso inclusive que ela fez a coisa certa em vista às necessidades que lhes eram impostas. Mas nos dias de hoje, qualquer escorregão na língua pode dar processo, ainda mais quando o tema envolve sexualidade e seus derivados.

          Bons tempos quando a política não enfiava a mão na nossa cama e também... vocês sabem muito bem onde.

sábado, 22 de outubro de 2016

João Paulo II: o santo que veio do lado de lá da Cortina de Ferro

(Em 22 de outubro de 1978, há exatos 38 anos, Karol Wojtyla tomava posse como João Paulo II. O Papa foi canonizado por Francisco em 27 de abril de 2014.)

Eu gosto de fazer alguns comentários sobre política. Não em entrar em discussão sobre preferências ou meramente emitir opiniões, mas de entender a realidade por detrás dos discursos e da propaganda.
Ninguém, porém, é melhor do que Deus para entender a realidade do mundo político (na verdade, ninguém é melhor do que Deus em qualquer coisa). Afinal, Ele é o próprio arquiteto do poder estabelecido. Jesus Cristo anunciou a Pôncio Pilatos que o poder que o governador possuía só existia porque lhe fora dado do Alto (João, 19:11).

Não foi coincidência que nos tempos da Guerra Fria o Espírito Santo foi soprar na Polônia e trazer ao trono de Pedro o Papa João Paulo II. Neste 22 de outubro completam-se 38 anos de sua posse, ocorrida em 1978.

(Duas milhões de pessoas em Varsóvia, Polônia, em junho de 1979: a eleição de João Paulo II como Papa ajudou a encerrar o regime comunista no país.)

No ano seguinte o novo Papa visitou seu país, onde duas milhões de pessoas foram recebê-lo nas ruas de Varsóvia. Apesar da dura repressão, principalmente através da polícia secreta, o regime comunista da época tinha alguma flexibilidade e, claro, não podia reprimir uma multidão daquela proporção. Dez anos depois o Muro de Berlim vinha abaixo e, num jogo de dominó, arrastou todo o bloco do leste até desmantelar a toda-poderosa União Soviética. O fim da superpotência foi oficializado em 25 de dezembro de 1991, no Natal, no meu entender um sinal claro da revelação de Jesus a Pilatos. Os regimes comunistas tinham como uma de suas principais características o ateísmo oficial, e uma das consequências era a repressão religiosa e a disseminação doutrinária do ateísmo. E não é necessário entrar no mérito do genocídio, o que desqualificaria esses regimes por mais religiosos que fossem.

(Cerimônia de consagração do mundo e da Rússia na Praça São Pedro em 25 de março de 1984: segundo Gabrielle Amorth, a Rússia não foi mencionada no evento. Teria havido também resistência por parte do clero no mundo à consagração.)

Deus deu ao mundo sinais gritantes durante o pontificado de "João de Deus" que, como bom santo, se exauria nas viagens pelo mundo e morreu em sacrifício pela Igreja. Infelizmente João Paulo II não conseguiu realizar alguns de seus sonhos como uma visita à China e à Rússia, neste último caso em razão da classificação do país como território canônico da Igreja Ortodoxa Russa. Na ocasião da visita à Ucrânia em junho de 2001, país de maioria ortodoxa, houve muita resistência por parte dos líderes da igreja russa local em receber e aceitar a presença de um Papa católico numa viagem por eles considerada proselitista. Havia também a pendência em torno de um tema que lhe era caro: a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria que, segundo o recém falecido exorcista Gabrielle Amorth, não teria sido realizada conforme a revelação de Nossa Senhora à irmã Lúcia no ano de 1929 devido à pressão de dentro do Vaticano (escreverei sobre isso num momento oportuno e publicarei tanto aqui quanto no meu outro blog).  

(Aparição pública do Papa em 27 de março de 2005, cindo dias antes de sua morte: sacrifício até o fim.)

São João Paulo II  tinha uma missão clara: resgatar parte da humanidade, particularmente parte da cristandade, que estava sob domínio de um poder político explicitamente anticristão. Wojtyla era devoto de Nossa Senhora, particularmente de Fátima. Foi sob este título que a Mãe de Deus alertou sobre os "erros da Rússia" ao três pastorinhos ainda em 1917, quando realizou o primeiro pedido de consagração do país. Com o resgate da cristandade sob julgo comunista caberia ao Papa unir os cristãos e dar fim à divisão de 1054 causada pelo cisma ortodoxo. Não foi coincidência, repito, que Deus, depois de mais de 400 anos, foi buscar um Papa fora da Itália e justamente num dos raros países de forte tradição católica sob julgo comunista. João Paulo II não conseguiu realizar tudo o que desejava. Ele tinha meio mundo contra sua missão, mas suportou o peso do trabalho até o último minuto, o último suspiro, o último momento. Sua disposição era prova de que o Senhor nele habitava. Sua santidade não foi coincidência ou mera propaganda católica. Na sua disponibilidade e limitações, ele fez muito mais do que um ser humano comum faria. Sua missão foi cumprida.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Apaixonado pela verdade

(No cristianismo Cristo é Vida, fonte de luz. É Deus a fonte da inteligência, capaz de compreender a realidade sensível. Na foto, interior da Igreja da Luz pertencente à Igreja Unida de Cristo em Ibaraki, no Japão.)

Acabei de fazer uma postagem sobre as manifestações e a reivindicação pelos grupos de esquerda por novas eleições. Mas apaguei tudo.

Este blog não pretende ser um blog político (ainda que algumas posições minhas fiquem claras aqui), menos ainda colocar informações que sejam vagas. Um exemplo é a informação de que houve fraude nas eleições de 2014. Realmente acredito que elas foram fraudadas para colocar Dilma no poder e legitimar um sistema fraudulento, reforçado pelo impeachment da "presidenta". Mas prefiro falar deste tipo de coisa depois de ter realmente investigado o assunto e não por ter lido um artigo ou uma reportagem. Caso contrário as "análises" tornam-se mais uma defesa de uma paixão do que uma observação séria. Deixo isso para postagens no Facebook, que é um mural de declarações públicas, do que um blog que convida à análise e à reflexão.

(Manifestações pró e contra Dilma no dia da votação do impeachment no Congresso, em 17 de abril: a política é fonte de paixões, e sua análise real depende de menos opiniões e mais investigações.)

Paixão aqui só se for por Deus. Aqui, sim, posso fazer uma apologética a Ele. Quando trato de política, Dilma, PT, direita, esquerda... bom, se eu entrar em discussões apaixonadas vou acabar virando mais um tagarela de internet, mais um debatedor apaixonado por opiniões. Quando tiver conclusões ou ideias firmes as coloco aqui. Vamos à verdade. É ela que importa.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

A ilusão do "fim da História"

(Edição portuguesa do livro de Fukuyama. Editora Rocco.)

Quando li em 2002 o livro O Fim da História e o Último Homem publicado por Francis Fukuyama em 1992 fui seduzido por uma explicação relativamente simples dos acontecimentos do mundo atual. Segundo o autor, o fim da História é o fim da evolução ideológica da humanidade. Atingido o liberalismo, tanto no plano político com a democracia liberal quanto no plano econômico com a economia de mercado, o mundo não teria mais para onde caminhar. Estaria pleno em seu desenvolvimento histórico. Caberia aos homens voltar aos seus anseios menores: sair da luta pelo reconhecimento (que Fukuyama desenvolve a partir do filósofo russo Alexander Kojéve, baseado em Hegel) que levou à construção das democracias, e voltar-se à realização dos mais diversos desejos humanos. Num mundo democrático o homem não teria mais porque lutar pelo reconhecimento do próximo. As democracias garantiriam, através do Estado de direito, o reconhecimento de nosso valor como pessoa, nosso amor-próprio (do termo grego thymos) em relação às demais pessoas. Não haveria ninguém superior a ninguém no plano da lei. Estaríamos todos satisfeitos com nossa condição de cidadão do mundo democrático, e as aspirações por reconhecimento, fonte de conflitos e guerras, seriam canalizadas para nossos desejos pessoais e disputas menores, como o sucesso profissional ou a formação de uma família feliz.


(A queda do Muro de Berlim em 9 de novembro de 1989 precipitou a queda dos regimes comunistas e o desmantelamento da URSS. Para Fukuyama, o fim do comunismo e da ditaduras militares no sul da Europa e na América Latina significavam o triunfo do liberalismo em todo o planeta.)
 
A tese de Fukuyama divide o mundo atual em duas porções: o mundo histórico e o pós-histórico. O mundo histórico é composto por países ainda não democráticos, ou seja, que ainda estão caminhando para a democracia liberal. Já o mundo pós-histórico é o dos países democráticos, isto é, que já atingiram o ponto culminante da evolução ideológica. Dentro do mundo histórico e entre este mundo e o pós-histórico ocorreriam os conflitos armados. Fukuyama defende a ideia de que as democracias liberais não permitem guerrear entre si, entrando em conflito apenas com regimes não democráticos. Esta ideia é baseada no artigo Kant, Liberal Legacies and Foreign Affairs do cientista político Michael Doyle (divididos em partes 1 e 2), que realizou um estudo histórico a respeito do tema e concluiu que as democracias, por sua estrutura interna, conseguem contrabalançar ações erradas e interesses particulares de forma e impedir um conflito armado. Caberia ao regime constituído equilibrar o poder político e militar para impedir que um ator ou grupo tivesse excessiva capacidade de decisão. Doyle, por sua vez, baseia-se no famoso livro de Immanuel Kant, À Paz Perpétua.

(Para Fukuyama o liberalismo penetrará, cedo ou tarde, na economia e na política. A injeção de investimentos estrangeiros na China desenvolveu o país, mas não derrubou a ditadura comunista. Esta pode ser uma prova de que a tese do americano esteja errada. Na foto: distrito financeiro de Pudong, em Shanghai.)

Acontece que no livro seguinte Confiança. As virtudes sociais e a criação da prosperidade, de 1995, Fukuyama admite que os sentimentos remanescentes de reconhecimento expressos através da religião, cultura e nacionalidade, por exemplo, continuariam a existir ainda por bastante tempo. As democracias no sentido pleno descritas em O Fim da História ainda demorariam a chegar. Neste livro o autor analisa as diversas formas de economias de mercado criadas sobre formas culturais distintas como EUA, China, Japão, Europa e América Latina. As culturas são modeladoras dos sistemas econômicos, que variam do individualismo norte-americano à mentalidade familista dos chineses e latinos e do senso de coletividade dos japoneses. Mesmo nos países mais desenvolvidos e democráticos o mundo pós-histórico não parece, à primeira vista, tão pós-histórico assim.

A exemplo do comentário de uma revista aqui no Brasil, Fukuyama é severamente criticado por suas ideias, principalmente pelos intelectuais de esquerda. A julgar pelo comentarista, até hoje o autor busca respostas para a sua tese inicial. Fukuyama, no último capítulo do Fim da História, questiona a sustentabilidade do sistema democrático assim que ele for totalmente estabelecido (caso venha a ser). Não ficariam os homens entediados com sua conquista definitiva e começariam mais uma vez a lutar entre si pela chamada luta pelo reconhecimento? Recordo-me que quando li o livro eu questionava se o perigo de um mundo de realizações não seria ameaçado não por seu tédio, mas sim pelas traições internas. As democracias (como qualquer outro sistema político) depende de valores que ela não pode gerar, ao menos não de imediato.

(Os monstros bíblicos Behemot e Leviatã: no primeiro as forças cósmicas sempre firmes e estáveis e no segundo o espírito de rebelião sempre mutáveis. Para Olavo de Carvalho, só Deus pode subjulgar estas forças. As grandes tradições religiosas estabelecem o equilíbrio entre as necessidades do mundo e a ação social, dentre elas o poder político.)  

Ao longo dos últimos quinze anos eu fui muito influenciado pelas ideias e a visão de mundo do filósofo Olavo de Carvalho. Seu melhor livro, O Jardim das Aflições, trás uma análise dos rumos e da decadência da filosofia ocidental que culminaram no fechamento espiritual do homem, isto é, no enclausuramento da perspectiva existencial dentro das perspectivas natural e histórica. O homem moderno, diz o autor, é sufocado pelas dimensões do tempo e do espaço, tem sua compreensão da realidade severamente limitada e tenta moldar o mundo a imagem e semelhança disto. O Estado moderno é a realização máxima deste ideal, através do qual tenta-se moldar as sociedades, seja através da aceitação de que dependemos do conhecimento científico para termos uma vida mais feliz ou das transformações revolucionárias para criar a sociedade perfeita. O problema é que uma via ou outra é a morte da democracia. E Olavo defende que, sim, as democracias estão sucumbindo à tentação de recriar o Império, o poder político unificado antes sonhado pelos antigos monarcas romanos, imperadores mongóis ou ditadores soviéticos. As grandes tradições religiosas da humanidade seriam a grande barreira para esta tentação porque mantém vivas a perspectiva de mistério da existência e resistem, portanto, às iniciativas de controle e administração total da vida. Conclui-se disto que a decadência cultural viria a engolfar as democracias ainda existentes e suprimir as liberdades.

Até a segunda edição do livro, lançado em 1995, o poder do Império analisado por Olavo de Carvalho estava encarnado na sua concepção americana, republicana e maçônica. Mais recentemente o autor revisou esta tese e considera que a ameaça tirânica está corporificada não em um país, mas num plano multinacional ou supranacional: o Império Globalista.

(Assembléia Geral da ONU na sua sede em Nova Iorque: ideal democrático de paz mundial ou ameaça de ditadura global?)

É extremamente exemplar o debate que Olavo travou com o filósofo russo e ideólogo do Kremlin Alexander Dugin. A discussão foi transformada no livro Os EUA e a Nova Ordem Mundial. Um debate entre Olavo de Carvalho e Alexandre Dugin. Os debatedores concordam com a emergência de três grandes poderes mundiais que pretendem unificar o planeta sob o Governo Mundial: o globalismo, o eurasianismo e o islamismo. O globalismo é o poder identificado por Olavo no seu livro O Jardim, mas aqui as duas demais formas de poder são brevemente discutidas. A diferença é que enquanto Dugin está consciente e deliberadamente comprometido com um dos projetos (o eurasiano), Olavo rejeita os três por considera-los opressores. A crítica básica é de que um plano global é impossível, e a tentativa de reformar o mundo inteiro através de um plano unificado deve ser rejeitado de imediato.

É aí que entra a ilusão de Fukuyama. Em seu livro o sociólogo americano não pensa num governo mundial, mas como pode ele descrever um processo histórico que culmine num fim ideológico definitivo se é impossível levar em consideração todas as variáveis que determinam todos os sistemas políticos ao longo de todos os tempos? Como falar de um "fim da História" se não se sabe exatamente como a humanidade começou e, portanto, não é possível fazer um traçado integral do plano histórico de forma a chegar numa conclusão definitiva? A crítica que o historiador francês Lucien Febvre faz à teoria da história das civilizações de Arnold Toynbee no texto Contra "duas filosofias oportunistas da História": de Spengler a Toynbee (1936) toca exatamente neste ponto: "Mas o que são 6.000 anos [tempo das civilizações], quando pensamos que o mundo tem sua origem há dois bilhões de anos, a vida sobre a Terra, há 300 milhões, e o aparecimento do homem há 300.000?"

A ideia de espalhamento da democracia e da economia de mercado proposta por Fukuyama é exatamente o plano globalista. A diferença é que o globalismo, no fundo, não é democrático, e sim utiliza-se do sistema democrático para encobrir seus planos globais. Não foi por acaso que duas organizações do bilionário George Soros, que é acusado de promover ativamente as causas globalistas no mundo, foram banidas da Rússia, centro do poder eurasiano.

(A "Criação de Adão", de 1510, de Michelangelo: as grandes tradições religiosas como base da vida política e defesa da liberdade humana.)
 
A conclusão é genérica mais, penso eu, correta: não é possível traçar planos gerais para mudar um mundo, estabelecer um modelo de sociedade que traga felicidade definitiva a todos. Nem mesmo a ideia de que democracias devem ser espalhadas pelo mundo parecem bem-vindas, seja porque elas depende de valores que não pode criar, seja porque as consequências destas iniciativas são temerárias. Foi o processo de espalhamento das democracias pelo governo de George W. Bush que levou Fukuyama a se afastar do grupo de neoconservadores, como explica no seu livro O dilema americano. Democracia, poder e o legado do neoconservadorismo. Para ele a aventura na Guerra do Iraque (que inicialmente ele havia apoiado em 1998 numa carta aberta ao então presidente Bill Clinton) trazia em seu bojo o ímpeto revolucionário e apostavam na engenharia social como forma de democratizar o Iraque. O plano democrático não pode ser planetário, porque ninguém pode estabelecer metas planetárias. O mesmo é válido para o plano comunista (de onde saíram os neoconservadores) e o plano nazista. Ambos não eram sustentáveis. Este princípio é igualmente válido para os planos eurasiano e islâmico. Ninguém pode traçar planos globais pelo simples fato de que o conhecimento necessário para a realização destes planos é impossível. O conhecimento total foge, inclusive, da nossa própria condição humana: nascemos num determinado momento e morremos num determinado momento. Só Deus tem este conhecimento. Só Ele pode governar a História.