segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Dia 16 de outubro de 2021

          Tenho o hábito - não muito recomendado - de encontrar um filme passando na TV a cabo e começar a ver pela metade. 

          Durante o almoço de sábado, trocando de canal, me deparei com o nostálgico Independence Day, o filme de 1996 que relançou o cinema-catástrofe como uma das franquias de Hollywood e que marcou memória com as cenas da destruição da Casa Branca e do Empire States por naves alienígenas que cobriam cidades inteiras. Virou uma das referência cinematográficas da geração que viveu no anos 1990, inclusive para mim, particularmente porque sou fã desta modalidade de filme - mas não posso me furtar de dizer que, à exceção desta obra, os demais filmes de Roland Emmerich são uma merda.

          Ao longo do enredo, fui relembrando da época em que o filme foi lançado, as boas pessoas com quem convivi e as situações que deixaram em minha memória boas recordações. O cinema tem este efeito de recriar, tal como na música mas ao seu próprio jeito, o sentimento de nostalgia, de saudades do passado, reaviar o vínculo afetivo de lembranças carinhosamente guardadas e suspensas no tempo.

          Demorei para notar que esse sentimento, recheado de conforto emocional e aparentemente agradável ao coração, pode não ser exatamente algo bom como parece à primeira vista. O conforto é uma sutil sedução da inércia que a situação sugere, um aburguesamento da alma sobre recordações do passado. A nostalgia transforma-se numa prisão confortável sobre a qual desejamos erguer um nova vida, arremessar lá do passado para o futuro uma época que não pode voltar jamais. Fixamos nosso olhar no tempo e passamos a acreditar que, motivados pela força do desejo, alguma força mágica reproduzirá no porvir o sonhado paraíso perdido. Nos tornamos escravos do próprio ideal cegos e seduzidos pelo seu efeito mais evidente mas enganador, o conforto, cuja consequência é outro sentimento, mas ainda mais enganador, o de aparente felicidade. No inferno, jaz a esperança.

          Na época eu era incrivelmente ingênuo, acreditava realmente na natureza essencialmente boa das pessoas e me refugiava em sonhos e pensamentos íntimos. Este traço pessoal se aguçou com o tempo, mas acabou por criar uma barreira quase intransponível entre o eu ideal e o eu real. Enquanto via o filme e lembrava da época em que fora lançado, do que mesmo eu sentia saudades e queria reviver?

          Dessa dúvida surge outra pergunta mais profunda: quando eu sonhava com algo do passado queria algo real ou algo que imaginava ser real? Se eu voltasse aos quinze anos, idade que eu tinha quando Independence Day foi lançado, gostaria de resgatar um pouco da pureza e, claro, de minha ingenuidade da época. Seria de enorme frustação e tristeza ser aquele garoto e me deparar com o irrealismo de meus sonhos e desejos tendo consciência do que aquilo resultaria no futuro e do hiato entre o garoto sonhador de ontem com o homem real de hoje.

          Assim como as sequências cinematográficas nunca são iguais à primeira - Independence Day: Ressurgimento é uma bela porcaria digna de ser ignorada - nós jamais seremos como éramos antes. A tentativa de restauração de um sonho nostálgico é fadado à frustração e à infelicidade futuras. Mesmo que sejamos puros como crianças e vivamos algumas das coisas que passaram, nossa astúcia não é mais a mesma. Ela é, inclusive, necessária para que demos fim às frustrações de desejos não realizados e realizemos planos dignos de deixar um legado.

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Dia 15 de outubro de 2021

          Dia do Professor e dia de celebrar a grande doutora da Igreja, Santa Teresa d'Ávila. Confesso que não sou um grande professor e, claro, estou bem longe de ser santo, ainda mais se considerar as extraordinárias experiências da santa espanhola que levitava, recebia visita de santos bilocados, via anjos, demônios, almas do purgatório e lutou, com a típica fé de uma alma iluminada por Deus, para revitalizar a maior religião da Terra. Quem dera ter essa força e motivação para ao menos levantar da cama todos os dias.

          Apesar de tudo, meu humor estava renovado, mas o tempo havia reservado uma chuva no amanhecer e um calorzinho fora de hora, deixando a tarde mais fresca do que a madrugada. Mais uma vez Porto Alegre ficou sem sol, e do vento cada vez mais frio que soprava ao longo da tarde um vapor branco tocava de leve os morros mais altos da cidade. Regressávamos mais de um mês no padrão climático do ano, como se um suspiro do inverno quisesse dizer, "Olá! Voltei!". É comum termos esses encontros com os ventos meridionais que volta e meia irrompem na estação das flores.

           O aluno que tive o privilégio de encontrar em seu edifício parecia estar no ânimo das nuvens baixas quando o puxava de volta ao estudo compenetrado. Confesso que ensinar História em tópicos não é a coisa mais divertida a se fazer, mas como apresentar o plano geral da História da Humanidade apelando às invencionices pedagógicas tão sonhadas pelas escolas modernas? Fui testemunha desse desastre cognitivo há alguns anos, e não vejo, em minha pobreza pedagógica, como prezar pela riqueza da ciência driblando o sacrifício necessário para levar o estudo a sério.  

          Ao contrário do que possa parecer, alguns momentos maçantes não são a regra nesses encontros semanais. Bastam alguns minutos de concentração sobre a escrivaninha para que o sol volte a brilhar dentro do quarto e, pah!, surgir da empolgação de meu aluno o tão envolvente assunto do futebol. Para minha surpresa - que nem deveria ser surpresa, pois todas as semanas sou mergulhado no mesmo assunto, que ignoro em grande parte - meu jovem camarada discorreu sobre os jogos de bola, mais especificamente sobre sua história recente, lembrando lances e placares impressionantes. E eu, um tanto interessado mas pouco disposto a  passar vergonha, fazia afirmações vagas e errava datas e confrontos acreditando contribuir à conversa. Só tomava 7 a 1.

          Talvez a discussão sobre futebol não mostre a relevância de conhecer a história dos hebreus ou do Império Carolíngio, mas é inegável que a memória, essa conhecida muito desconhecida nossa, é um poço incrivelmente vasto e obscuro que volta e meia entra em erupção afetiva e revela um pouco a real pessoa que somos. Temos tachinhas mentais cravadas na linha do tempo que reavivam em nossa memória e em nosso coração momentos relevantes da vida, nosso vínculo com a existência e as pessoas. É mais importante saber aquilo que nos diz respeito diretamente, por mais banais que as coisas sejam, do que abstrações e coisas distantes. Fora apaixonados pelo assunto, ninguém vai ao mercado pensando na importância histórica de Carlos Magno, a não ser que ele seja aquele velho cobrador do caixa que todos os dias lhe dá bom dia e deixa em sua passagem pelo mundo um pouco de si dentro de nós.

          Revivendo este momento, eu parecia um ser impotente frente ao meu aluno que encontrava-se seguidamente empolgado a contar para alguém alguma coisa que não podia contar a ninguém mais. Nos tempos de restrições civis das mais absurdas, a convivência da escola havia sido cortada, e a mão decidiu pela prática do ensino domiciliar. No círculo mais restrito de contatos, eu era um dos poucos a permitir vazão aos seus gostos juvenis. Minha aula acabou sendo mais um encontro recheado de memórias pessoais algumas vezes pontilhadas por conhecimento de coisas distantes do período medieval da Europa. De certa forma, o aluno era eu.

          Quase duas horas, ao sair do edifício em que me encontrava, fui surpreendido pela chuva fina e o vento que soprava mais forte. Um breve momento de calor durante a atividade foi substituído pelo vento úmido e frio, e o morro que se erguia para o lado sul agora estava coberto por uma neblina cinzenta.

          No futuro talvez eu não recorde do que foi falado dentro de quatro paredes, mas certamente lembrarei de quem estava comigo e da surpresa de estar com a roupa errada perante o vento frio. Foi a enésima aula em dia de chuva, como se já fosse de praxe puxar o material do dia para a água precipitar do céu, como se os anjos armassem para mim uma surpresa bem no dia de minha atividade. Ali se instalava mais uma tachinha, dessa vez no tripé lugar-aluno-chuva, como marca de minha memória e afeição. Vivemos de realidades, e não de abstrações e sonhos distantes.   

O que estamos fazendo com nossas vidas? - 14 de outubro de 2021

(Reprodução da escultura The Gates of Hell, de Auguste Rodin. O Pensador ao centro.)

          A afirmação de que o banheiro é lugar para filosofar faz parte do típico humor brasileiro, cujo repertório está preenchido com as piadas mais criativas possíveis. Mas há também a possibilidade de, na atividade intestinal combinada com a inatividade física dos membros do corpo, se realizar uma série de ações, como ouvir música, ler trechos de um bom livro, rótulos de produtos - certa vez um amigo meu confessou que fazia isso - ou, por que não, filosofar de verdade.

          A quente tarde desta quinta-feira não era das mais convidativas à filosofia. De qualquer forma, aproveitei o momento para revirar algumas páginas de O último homem soviético, da escritora bielorrusa Svetlana Aleksiévitch. O tema? O novo e inesperado amor de um homem cujo pai, ex-comandante político de uma divisão da Aeronáutica soviética, só tinha uma coisa em mente: tornar o filho um herói das Forças Armadas. O entrevistado detestava a vida militar, vivia "hipnotizado" pela ideia de morte, mas subitamente se viu apaixonado por uma moça, situação que virou sua vida completamente do avesso no melhor sentido da palavra. Uma das consequências de estar apaixonado, disse ele, era ver a realidade de forma mais viva. "Tudo parece muito, muito próximo" dizia o entrevistado, tentando definir o que parecia indefinível. "O mundo... se revela em infinitos detalhes". Tudo fica mais evidente e colorido.

          Enquanto minha cabeça absorvia este momento marcante, pude notar a distância em que eu estava deste momento. O relato do homem vivo e realizado contrastava com o peso do meu dia. O ambiente estava relativamente abafado, e mesmo com sol lá fora parecia haver pouca luz. A penumbra das janelas pequenas cobertas por finas cortinas e a porta do corredor - aberta, não havia ninguém em casa naquele instante - não davam conta de uma luminosidade natural. Ao contrário do homem apaixonado, que vê a realidade mais viva que "se revela em infinitos detalhes", notei algo em mim que estava fora de lugar.

          O que eu estava fazendo com minha vida? Não deveria estar vivo, apaixonado pela vida mesma? Em verdade, não era o ambiente abafado e pouco iluminado que me oprimia, mas minha própria alma que se tornara mais escura e sufocada. É notória a ideia de que projetamos nossos pensamentos e sentimentos no mundo, e era inevitável que uma atitude de rejeição quanto à minha vocação de ser alguém transbordasse para uma rejeição ao mundo exterior, essa realidade maldita recheada de hostilidade, agressividade, maldade e controle. Um excelente subterfúgio para negar minha caminhada de vida e sabotar minha própria realização enquanto pessoa. 

          Frustrado, pensava que meses de orações e súplicas haviam resultado em resvalos e paralisação. Mas Deus é sábio e amoroso. Ele não faz por nós o que podemos fazer, mas aponta o caminho, dá o toque, o sinal de por onde seguir e, mais importante de tudo, na hora certa. O homem, esse ser livre por excelência, deve pegar os remos e trilhar o desafio mar a dentro. Em situações de sofrimento a alma reage como num terremoto: na fenda aberta penetra a luz, que ilumina as camadas mais profundas num misto de revelação pessoal com fotossíntese interior. E numa dessas camadas penetrou o relato do homem vivo eternizado na literatura em contraste com o eu em letargia com os remos atirado a alto-mar. De repente, de forma quase súbita, fui pego com as calças nas mãos - ou sem elas, e notei que minha orações, que definhavam aos poucos, acabaram por não serem vãs, cumuladas de perseverança.

        As coisas são assim mesmo, da inesperada combinação entre um inapropriado ambiente filosófico e o testemunho de um desconhecido escrito por outra pessoa desconhecida, pode surgir a resposta de que precisamos. Todos nós precisamos dessa misteriosa pedagogia de vida que são os terremotos pessoais que, apesar de potencialmente trágicas, não são fim do mundo.        

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Dia 12 de outubro de 2021

          Minhas mais recentes postagens neste blog foram inspiradas em dois livros da escritora bielorrusa e Nobel de Literatura de 2015, Svetlana Aleksiévitch, Meninos de zinco e O fim do homem soviético (que estou acabando de ler). A autora vale-se de testemunhos de pessoas que viveram momentos decisivos da história da União Soviética e da Rússia, respectivamente a Guerra do Afeganistão entre 1979 e 1989 e o fim do regime soviético.

          Svetlana aposta na história oral, no registro vivo na memória das pessoas, buscando delas experiências (e traumas) dos eventos por ela perscrutados. Para a autora, importa saber não o que aconteceu no âmbito da macro-história implicada na decisão dos grandes líderes e personalidades do mundo, mas na micro-história, no dia-a-dia de quem viveu as consequências e participou, de alguma forma, do fluxo geral dos eventos. Na introdução de O fim do homem soviético, Svetlana declara: "Não me canso de me surpreender com o quão interessante é a vida humana comum." 

          Ela tem razão, pois em cada pessoa vive um acontecimento, uma memória latente que está integrada na personalidade do indivíduo, fornecendo à História seu "H" maiúsculo, pois o transcorrer do tempo está preenchido pela substância ativa da personalidade viva, que é a essência da História mesma.

          Se a famosa escritora de uma nação distante foi inspiração para mudar o modelo de relatos deste blog, é minha vida pessoal, essa interessante vida humana comum, o motivo real dos recentes textos.

          Na minha adolescência mantive um diário com acontecimentos triviais do cotidiano, mais como uma marca de época do que um desabafo ou uma elaborada anamnese de meus dramas pessoais. Não me agradava lembranças negativas, que por vezes eram descritas com alguns palavrões, mas a simples memória carregada com algum grau de nostalgia e bom-humor, que gerava algumas risadas daqueles para os quais eu relembrava os fatos.

          A trivialidade de meus relatos acabaram por compor uma forma visível e acabada de um período da vida, que em muito pouco lembra o autor de hoje, principalmente em seus pensamentos e imaginação ocultos. Mas ainda assim esta é minha história, composta de elementos fundamentais integrados e sedimentados em minha personalidade no transcorrer do tempo. É uma vida comum que caminha dentro do quadro geral da História formando um pequeno fio que, emaranhado com milhões de milhões de outros fios compõem a História da Humanidade. E lá me encontro com todos, de você à nossa habilidosa escritora, de suas traumatizadas testemunhas às pessoas mais improváveis e desconhecidas que já pisaram neste mundo.

          Quando medito sobre a questão em alguns momentos fico deslumbrado ou mesmo assustado ao notar que faço parte de um plano infinitamente maior do que meu tempo de vida. Deslumbrado porque me sinto participante de algo superior, e isto é muito belo; mas também assustador porque a dimensão da existência me coloca necessariamente o problema do mistério da eternidade, que está acima do tempo e por isso mesmo não é percebido diretamente na vida cotidiana. A pergunta que fica é: o que devo fazer sabendo que vou me deparar com um mistério humanamente insolúvel e potencialmente intolerável? 

          Esta é a pergunta fundamental. Não por acaso, quase a totalidade dos testemunhos colhidos por Svetlana em seus dois livros são de pessoas que acreditam em "algo" maior (Deus ou seja lá o que for) mesmo vivendo num regime oficialmente ateu. Por mais que se force ou se "convença" de que tudo não passa de uma trivialidade sem sentido, de um diário composto apenas por relatos cotidianos sem um conteúdo mais profundo, a História exige respostas, porque ela necessariamente acaba, e não queremos de forma alguma que nosso testemunho morra para sempre.

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Dia 10 de outubro de 2021

          Ninguém é digno de elogio. No Evangelho, quando o jovem rico chama a Jesus de "Bom Mestre", Jesus lhe responde que só Deus é bom. Por que, então, haveria alguém de receber elogio igual ou melhor do que o atributo atribuído unicamente a Deus?

          Não podemos nos furtar, porém, de aceitar elogios, pois se Deus é bom e mais ninguém, o que quer que seja elogioso a Ele pertence. E a boa educação nos ensina a sermos generosos com ofertas, porque receber uma oferta é aceitar que o outro lhe faça o que você faria se estivesse no lugar dele guiado por uma boa intenção.

          Assim foi comigo neste domingo, quando alguém disse a mim que eu era uma pessoa "justa". Antes de mais nada, cabe lembrar que o que aqui escrevo não é uma autoexaltação ou bajulação, mas o relato de um fato que deu o que pensar. Quando vi que receberia um comentário amigável e amoroso esperava receber outra resposta que volta que se tornou, digamos, como em momentos pontuais de minha vida, como "inteligente" ou "bom" - sim, o atributo divino de novo - mas nunca "justo".

          O que me surpreende neste adjetivo é a grandeza do justo, a busca por aquilo que é certo e sua luta para evitar o errado. Só pessoas podem ser atribuídas como justas, no máximo um grupo de pessoas que lute de forma organizada por aquilo que é certo, jamais uma sociedade, pois sociedade enquanto agente não existe, e "sociedade justa" é apenas figura de linguagem usada ao longo dos últimos duzentos anos para justificar tiranias e genocídios.

          Mas nem mesmo a busca de alguém por aquilo que é certo faz dela uma pessoa justa. No emaranhado de decisões e pensamentos - muitas vezes injustos, basta meditar sobre nosso catálogo de ideias e imagens desejadas interiormente em diversas situações -, buscar a justiça é como embrenhar-se num denso matagal à noite guiado mal e porcamente por uma bússola desobediente e estrelas que insistem e se esconder por detrás das nuvens, chegando a resultados muitas vezes não esperados.

          De qualquer forma, é justo aquele que adentra o matagal na reta intenção em meio à tortuosa trilha. A justiça depende justamente da sabedoria, essa mescla de amor com inteligência, que guia as ações num mundo complexo e contraditório, mas que toma uma forma coerente - e justa - com o auxílio do Espírito. A caminhada do justo só é bem sucedida porque sabe de sua incapacidade de vencer o mundo, mas tem consciência de sua capacidade decisória de escolher o que é bom.

          Assim como no Evangelho, só Deus é justo. Ninguém tem a capacidade de, dentre emaranhados de obstáculos e contradições, vencer o mundo, mas tem o mérito - o único, diga-se - de escolher a coisa certa. Qualquer elogio além disso é atributo divino.  

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Dia 7 de outubro de 2021

          Hoje pela manhã levantei e pude observar, na limitada vista do meu quarto, uns poucos eucaliptos que ainda restavam no lugar de uma nova obra a ser erguida. Horas depois, eles haviam sumido deixando em seu lugar um horizonte indefinido emoldurado parcialmente por duas construções tão belas e harmônicas quanto os produtos fresquinhos do meu gato mais gordinho.

          Depois de trinta e cinco anos de contemplação diária, o conjunto de enormes eucaliptos de mais de quarenta metros de altura foi finalmente posto a baixo. Todos os dias eles estavam lá, denunciando a direção do vento e a intensidade da chuva, quando esta, caindo de forma intensa, embaçava sua visão.

          Sempre tive apreço às coisas naturais, muito mais pela beleza e intensidade com que seus elementos se manifestam do que pela ideologia, louca e fanática, que nivela ou mesmo inverte o homem na sua relação com o mundo natural. 

          O verde não é só bonito como agradável. Desde criança fui fascinado pelas mudanças no tempo e, seja por ter nascido num dos dias mais quentes do verão de 1981 ou por influência distante de algum antepassado, sempre tive predileção pelo inverno. Mais verde significa, para mim, não só mais beleza, como menos calor. O sol inclemente torna-se tolerável pelo manto natural, assim com o frio do inverno mais sensível, diferentemente de quando estamos sob o solzinho a penetrar seus raios sobre a capa de um belo asfalto. Mal sabem os citadinos que é justamente a cidade que cria a ilusão de que "nos tempos dos avós os invernos eram mais frios". O concreto não é convidativo para a geada, que torna visível, pelo tênue manto de cristal, o campo de verde abundante horas antes. 

          Como bem afirmei e friso novamente, meu apreço pelo natural não está na ideologia. Não demonizo o que chamamos de "progresso" quando limitado à sua dimensão material, pois é de se esperar que na era do movimento haja mudanças não só permanentes como inevitáveis em certas situações. A expansão e transformação das cidades são os exemplos mais explícitos. Ao contrário do que gostariam os ideólogos do ambientalismo, árvores não são gente (e os defensores dos animais, é bom frisar, já estão no limiar deste nível de psicose), e não há crime, nem imoralidade, em derrubar um conjunto de grandes eucaliptos para erguer um edifício. 

          Mas a feiura é imoral quando deliberada, e mais perigosa quando tomada por beleza. Na visão dentro da qual se erguiam as majestosas árvores, há dois obstáculos que formam metade da moldura de um quadro: um edifício coberto de vidros espelhados azuis-esverdeados e uma residência com formato de loja de móveis. O primeiro no chamado estilo internacional (nome pomposo para a uniformidade horrorosa que não distingue os centros financeiros um dos outros em todo o globo); o segundo de arquitetura minimalista que lembra o velho e totalitário brutalismo, mas como toques de modernidade clean, um sovietismo light erguido com muito dinheiro e muito mau gosto.

          Da minha frustração com as árvores desaparecidas surge o medo: será que o conteúdo do quadro será tão horroroso quanto sua moldura? O que será que colocarão no lugar do enorme volume de troncos e folhas esvoaçantes? Na propaganda em frente ao terreno, o anúncio apresenta um edifício residencial de altíssimo padrão, definição socioeconômica que passa anos-luz de qualquer padrão estético definido. 

          Na competição de quem faz pior, surgem torres residenciais luxuosas destacadas pela má e nova arquitetura de estilo internacional. Estranho imaginar que detrás de uma parede de vidro esverdeada haja uma família jantando ou pessoas dormindo; mas como a própria visão pós-moderna que acompanha esse estilo sugere, não há parâmetros, não há regras fixas para o ordenamento da sociedade e todas suas expressões que chamamos de "cultura", pois os valores também passam, mudam conforme o vento. E assim é com nossos espelhos. A estética "evolui" conforme a originalidade de quem inventa a nova moda. Se tornou símbolo de status morar num pequeno apartamento que os arquitetos imaginam ser escritórios em Manhattan. É o progresso da alma.

          Minha única certeza é de que a sombra e a beleza das árvores se foram para sempre. Quisera eu que erguessem uma modesta residência portuguesa ou o Edifício Martinelli. Não é só a temperatura que vai aumentar. Provavelmente a feiura também. 

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Dia 5 de outubro de 2021

          Chego a este dia dando o título que ele merece: sua data mesma. Eu, porém, mereceria muito mais. Deveria nomear este dia de outra forma para que fosse possível apreender seu real sentido para mim, para todo o meu ser plasmado e integrado na totalidade do real. 

          É aí que está o problema. Como seria possível compreender o real sentido deste dia para minha vida se não sou capaz de apreendê-lo de forma plena e verdadeira em minha consciência? Isto exigira uma reflexão profunda e um autoconhecimento completo de minha pessoa de forma que, combinados, dessem a resposta em meu coração sobre o real sentido do dia de hoje.

          Como esse mérito (ou melhor, graça) cabe ao sábios e santos, deixo o título desse texto apenas com o dia de hoje, 5 de outubro de 2021. E assim será em muitos textos subsequentes que pretendo desenvolver aqui.

          Ainda assim, a presente data tem algo a me dizer, o que significa tomar consciência de alguns acontecimentos pedagógicos na minha caminhada nesta vida. Nenhum dia é totalmente vão, e caso algum seja, seu vazio já é algo que incorporamos em nossa personalidade e gravamos no Livro da Vida. Um ensinamento para a eternidade.