quinta-feira, 30 de julho de 2020

Crise da ciência: uma crise do espírito

(Relógio astronômico na Igreja Santa Maria em Lubeck, Alemanha)

          A todo o momento ouvimos falar na televisão sobre ciência ou seja lá o que a classe jornalística chama de ciência.

          É importante ter em mente que a ciência tal qual é concebida nos dias de hoje possui metodologias que são arbitrárias e se baseiam em concepções de mundo precedentes a elas; é também mutável podendo apresentar resultados diferentes no dia seguinte em que um primeiro resultado é apresentado, e que por isso mesmo jamais pode haver o que tanto proclamam de "autoridade científica".

          Nesta palestra proferida pelo professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) e doutor em Filosofia, Victor Sales Pinheiro, a ciência moderna é apresentada como elemento distinto e inconciliável com o que chamamos de "religião" (termo impreciso para designar uma variedade enorme de fenômenos sociais, antropológicos e espirituais) e, por isso mesmo, em permanente crise.

          Segundo o professor, a ciência moderna surge no século XVI, mas sua forma ideologizada se constitui apenas no século XIX com o positivismo de Augusto Comte, dando origem ao que ele chama de "religião do progresso". Esta concepção se opõe e combate abertamente a "religião tradicional" tratando-a como uma mistificação supersticiosa e obscurantista, situação que piora com as falsificações antirreligiosas de John Draper e Andrew White, cujas motivações e erros deliberados são mostrados pelo historiador da ciência, Ronald Numbers

           Esta cosmovisão deu origem aquilo que Olavo de Carvalho, no "Jardim das Aflições", chamou de "deuses do espaço", onde o homem, prescindindo da dimensão espiritual da vida, busca racionalizar, matematizar e enquadrar a totalidade do cosmos num esquema pretensamente científico, como se fosse possível o conhecimento total e, portanto, a manipulação plástica de toda a realidade pela vontade do homem.

          Mas a ciência moderna logo entra em crise, não apenas por seus analistas críticos que surgem já na virada para o século XX e depois (Victor cita Husserl, Heidegger e Voegelin), como esta idealização espúria ignora o vasto período entre os filósofos gregos e Descartes como se nada houvesse na cultura ao longo de dois mil anos que contribuísse para o pensamento científico. 

          Prescindido da ética advinda da fé cristã, para a ciência resta o potencial de manipulação da natureza, mas falta-lhe o sentido. A era moderna criou muitos comos, mas eliminou ou porquês. Das crises, que vêm em série desde há mais de século, brotaram os monstros totalitários e genocidas do nazismo e do comunismo, duas ideologias cientificistas, que são causa e consequência de duas Grandes Guerras, eventos onde a técnica foi aplicada à destruição e mortandade em massa.

          Com base na exposição acima, fica a pergunta: como pode haver segurança num mundo que põe sua fé na ciência, mutável por excelência? 

          Se não há parâmetro fixo que forneça fundamento e matéria-prima sobre o qual se construa qualquer empreendimento humano (o que inclui a totalidade dos métodos e conhecimentos científicos), não pode haver, igualmente, elemento no qual podemos garantir nossa segurança. Não há paz, seja coletiva ou individual, num ambiente cultural e psicológico que fique à mercê de mudanças permanentes. Apenas crises. 

          Para utilizar o ensaio de Olavo de Carvalho, ao depositar a fé na ciência a humanidade busca novas éticas a fim de solucionar as crises sucessivas e dar estabilidade às mudanças constantes. Da crise coletiva provocada pela vacuidade de fundamentos morais surge a revolução política, cujo objetivo é estabelecer uma nova ordem social e dar cabo à insegurança. O problema é que a ordem coletiva por si mesma não pode gerar os princípios da qual depende e que são forjados pela tradição religiosa. 

          Sobre os "deuses do espaço" erguem-se os "deuses do tempo". São Behemoth e Leviatã, monstros mitológicos que representam as forças da natureza e as forças sociais, respectivamente, que de digladiam mas intensamente na medida em que a fé desaparece da sociedade, até que Behemoth consiga, mais uma vez, vencer a revolta do homem pelo cansaço.        

          A crise da ciência é, portanto uma crise do próprio homem ou, falando de forma mais concreta, fruto da confusão e desorientação na qual as pessoas hoje se encontram. Quando ouvimos falar em "crise política", "crise econômica" ou "crise social" estamos, no fundo, ouvindo sobre os efeitos da degradação moral da humanidade. 

          No artigo "Redescobrindo a vida cristã"Victor Sales aponta um caminho possível de solução à crise através da busca por uma vida religiosa autêntica e do resgate dos fundamentos culturais do cristianismo. Há inumeráveis obras que mostram as realizações da Igreja Católica e de cristãos em geral no campo da cultura. Sua história é repleta não apenas de santos como também de cientistas, filósofos e escritores, uns religiosos, outros leigos.

          O historiador Thomas Woods Jr. no seu livro de título sugestivo "Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental" afirma que a Igreja não apenas fomentou uma cultura: ela criou um civilização inteira. Forjou o desenvolvimento de inumeráveis setores da vida social como agricultura, metalurgia, filosofia (e todo o esforço dos monges copistas no resgate do pensamento clássico grego), arquitetura, organização da vida política e social (bispos e religiosos se tornaram administradores da Europa quando da queda do Império Romano), literatura, direito, pedagogia, e toda a gama de conhecimentos que desembocariam na ciência moderna. 

          Junto às igrejas foram fundadas escolas para que estudantes pudessem se reunir e organizar seus trabalhos. Deste embrião surgiriam as universidades, criação eminentemente católica. Da mesma forma, os cuidados para com doentes e afetados pelas guerras deram origem aos hospitais.

          Se há crise da ciência, é porque há crise humana, no sentido profundo da palavra. Para fixar os pés em algo que possa dar alguma segurança, servir de parâmetro para medir e balizar crises, equilibrar Behemoth e Leviatã, as necessidades humanas e suas paixões, a busca por uma consciência religiosa através de uma espiritualidade profunda seria o primeiro passo para amenizar a crise. Esta consciência alenta o sofrimento psicológico cotidiano e dá a paz necessária para acalmar os pensamentos e aguçar a percepção da realidade necessária para o estudo e o trabalho.

          Basta observar, na perseverança de uma vida espiritual, o resultado desta vivência em nossas vidas. Não é possível mudar o mundo sem mudar antes si mesmo, tendo numa mão a fé em Deus e noutra, claro, o empenho nos estudos.

domingo, 26 de julho de 2020

Novas embalagens para velhos erros


"Nove de cada de ideias que chamamos de novas são apenas velhos erros."
(G. K. Chesterton, em "Porque sou católico")

          Nosso tempo é recheado de novidades quando se trata de tecnologia. Recentemente, foi assim com a comunicação pela internet, onde surgiu uma enorme variedade de formas de contato, como e-mail, teleconferência, redes sociais, WhatsApp e coisas do tipo.
          A novidade nas formas não é um problema em si. O que importa é o que o invólucro traz, seu conteúdo, sua essência.
          Chesterton nos lembra que quase todas as chamadas novas ideias são na verdade velhos erros. Isto ele já notava à época de seu artigo "Por que sou católico", de 1926.

          Mas as novas ideias deixam o lastro da novidade. Frequentemente surgidas num meio relativista, elas trazem o próprio relativismo em sua perspectiva perpetuando esta tendência e a sede das pessoas por novidades.
          A onda vegetariana, por exemplo, já virara moda na Alemanha em meados da década de 1920 e foi adotada como modo de vida exemplar pela ideologia nazista ao associar este comportamento ao solo pátrio. O mesmo ocorreu com o antitabagismo e o ambientalismo.
          O socialismo, tão mutável quanto um camaleão, é outro caso. Antes centrado na luta econômica, passou à luta cultural travestindo-se, por exemplo, de proteção às minorias. Mas quem poderia protegê-las senão um poder capaz conceder direitos de forma sempre crescente? O socialismo, caracterizado essencialmente pelo aumento do poder nas mãos do Estado, pode vir pelo caleidoscópio da diversidade, que quanto mais fragmenta a sociedade em grupos menores, mais exige do Estado regulação para arbitrar as relações sociais.
          O movimento New Age é outra aparente novidade ao misturar fragmentos da espiritualidade oriental com elementos ocultistas, uma recauchutagem religiosa de tradições milenares com os erros da revolução cultural dos anos 1960.
          Se tantas ideias novas são, na verdade, velhos erros, por que então aderir a elas? O mundo moderno, fundamentado no utilitarismo e na mudança constante, clama por novidades, e é mais fácil enfeitar estas essências com novas formas do que reinventá-las por completo.
          Seria muito mais simples ater-se às velhas e boas ideias, as que se comprovaram corretas com a longa experiência humana. Isto não faria do nosso mundo um lugar monótono, mas mais seguro e pacífico.
          Os erros, mesmo que durem muito tempo, precisam sempre de uma nova embalagem, e num mundo de aparências é muito fácil ocultá-los com enfeites e novidades.

sábado, 25 de julho de 2020

A necessidade de estar errado quando todos acham que estão certos


Conta-se que certa vez o jornal London Times pediu a alguns escritores responderem
à pergunta: "O que há de errado com o mundo?" Chesterton enviou a resposta mais
sucinta: "Eu. Atenciosamente, G. K. Chesterton."

          Esta curta e grossa resposta de Chesterton à pergunta do referido jornal londrino pode parecer birra de adolescente; daqueles que, de saco cheio do papai e da mamãe, fazem questão de cuspir sua revolta juvenil na hora do almoço.
          Mas o estado de coisas na época de nosso querido escritor já não era dos melhores. O mundo recém iniciava o século das duas Grandes Guerras, do totalitarismo e do genocídio, cujos terrenos foram preparados por tiranos, fanáticos e loucos.
          Mas eram os loucos, estes que acreditam que tudo é relativo menos sua própria opinião, que há um século já sinalizavam hospício no qual enfiariam o mundo.

          A era moderna, apontada soberbamente como o cume da "evolução" da humanidade, já era indicativo de que muita coisa havia de errado com o mundo.
          Primeiro, porque nenhuma época é necessariamente melhor do que a outra por seu avanço técnico, a mesma técnica que criou os campos de concentração, a bomba atômica e a engenharia social em escala continental.
          Segundo, porque a mudança constante, frenética e cada vez mais acelerada da ordem social, e que tem a técnica como um meio de viabilizá-la, ao exemplo da propaganda e da disseminação de valores progressistas pelos meios de comunicação e as modas do dia, enfraquece os laços que unem as pessoas, tanto na vida pública quanto na família.
          Sendo Chesterton um adepto da vida simples e valorizador das pequenas coisas, porque haveria ele de se admirar com a soberba de um mundo que se considera superior apenas porque é prático e moderno?
          Se há algo errado com o mundo, e no quadro geral parece que está, cabe a nós, admiradores deste homem e devotos dos imitadores de Deus, seguir o ensinamento evangélico de ser bom num mundo mau; de ser, à luz da consciência viva, o mais correto possível frente a todos os erros.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Dostoiévski e a mentalidade de nosso tempo


          As obras de Fiódor Dostoiévski são extensas e incrivelmente ricas em muitos aspectos. Desde os complexos traços dos personagens até a abordagem de temas existenciais, o escritor consegue apresentar com muita perspicácia e conhecimento os problemas pessoais e sociais que envolvem o destino do homem e que compõem o sentido mais profundo de seu trabalho.

          O drama da existência não é seu único tema. Dentro deste, o autor mergulha nos acontecimentos e dilemas de seu país do século XIX e apresenta com clareza os movimentos políticos e a atmosfera psicológica que haveria de varrer a Rússia e o mundo a partir do início do século XX.

          Disseminando ideias deturpadas acerca do homem e do mundo e remando contra a própria condição humana, as criações de Dostoiévski apontam este caminho futuro. Rodion Románovich Raskólnikov em "Crime e Castigo" com sua atitude e moral revolucionária, Piotr Stiepánovitch Vierkohviénski e seus parceiros em "Os Demônios" com seu cinismo, militância e ação violenta, e Ivan Pávlovitch Karamázov em "Os Irmãos Karamázov" com sua soberba e relativismo ateu são alguns dos personagens que se apresentam como protótipos de personalidades tirânicas, imorais e psicóticas que em algumas décadas viriam a inspirar e liderar em todo o mundo os horrores da revolução, da guerra e do genocídio. 

          Mas é num trecho da obra "O Idiota" que o escritor revela sua capacidade de antever com bastante precisão essas possibilidades futuras. 

          No longo trecho reproduzido abaixo, a personagem Lisavieta Prokófievna assiste à uma discussão entre os amigos do personagem principal, Liev Nikoláievitch, o príncipe Míchkin, dentre eles um grupo de jovens niilistas e, absorvida e transtornada pela atmosfera de loucura reinante no ambiente, desabafa:

"Veja só, Ievguiêni Pávlovich, se até o senhor acabou de declarar que o próprio defensor declarou em um julgamento que não existe na mais natural do que matar seis pessoas movido pela nobreza, então é o final dos tempos. Isso eu ainda não tinha ouvido falar. Agora tudo ficou esclarecido para mim. Veja esse tartamudo, por acaso não degola um (ela apontou para Burdovski, que olhava para ela com extraordinária perplexidade)? Aposto que degola! Ele talvez não aceite o teu dinheiro, os dez mil, e não o aceite por uma questão de consciência, mas à noite ele aparece e te degola, e leva o dinheiro do cofre. Leva por consciência! Isso para ele não é uma desonra! É um 'impeto de desespero nobre', é a 'negação' ou sabe lá o diabo o quê... Arre! Tudo anda de pernas para o ar, tudo às avessas. A moça está crescendo em casa, de repente no meio da rua pula para dentro de uma carruagem: 'Mãezinha, há poucos dias eu me casei com um tal de Kárlitch ou Ivánitch, adeus!'. Então, a seu ver, essa é a boa forma de agir? Naturalmente digna de respeito? Questão feminina? Esse menino (apontou para Kólia), até ele discutiu comigo alguns dias atrás dizendo que isso é a 'questão feminina'. A mãe pode até ser uma imbecil, mas ainda assim tu deves ser um homem com ela!... Por que entraram há pouco de cabeça erguida? 'Não ousem aproximar-se': estamos entrando. 'Deem-nos todos os direitos, e quanto a ti não te atrevas a gaguejar diante de nós. Concede-nos todas as honras, mesmo aquelas que não existem, e quanto a ti, vamos tratá-lo pior que o último lacaio!' Procuram a verdade, insistem em seus direitos, mas o caluniaram como um desonesto artigo. 'Nós exigimos e não pedimos, e o senhor não ouvirá nenhum agradecimento de nossa parte porque nós estamos agindo para satisfazer a nossa própria consciência!' Que moral: e já que não haverá nenhum agradecimento de tua parte, então o príncipe pode te responder que ele não sente nenhuma gratidão por Pavlischov, porque Pavlischov fazia o bem para satisfazer a própria consciência. Mas tu contaste apenas com a gratidão dele para com Pavlischov: porque não foi de ti que ele pegou dinheiro emprestado, não é a ti que ele deve, então com quê tu contavas a não ser com gratidão? Como é que tu mesmo vai recusá-la? É uma loucura! Reconhecem a sociedade como bárbara e desumana porque ela difama uma moça seduzida. E se tu reconheces que a sociedade é desumana, então reconheces que essa sociedade causa dor a essa moça. E já que causa dor, como é que tu mesmo expões essa moça nos jornais diante dessa mesma sociedade e exige que isso não seja doloroso para ela? É uma loucura! Vaidosos! Não acreditam em Deus, não acreditam em Cristo! Mas acontece que os senhores estão de tal forma corroídos pela vaidade e pelo orgulho que vão acabar devorando uns aos outros, é isto que eu prevejo para os senhores. Isso não é uma bagunça, isso não é o caos, isso não é o horror?" (p. 325-326) (grifos meus)

          O discurso irado de Lisavieta é uma profecia do que a Rússia enfrentaria em menos de cinquenta anos (a obra foi divulgada em partes entre 1868 e 1869) e revela, com a devida ênfase de uma alma sã, a perversão moral da mentalidade revolucionária, baseada num relativismo que a subjuga em nome da estratégia política com vistas a formulação de uma sociedade ideal futura.

           No artigo A mentalidade revolucionária, o filósofo Olavo de Carvalho mostra que a cosmovisão dessa mentalidade baseia-se na inversão da concepção do tempo, cuja consequência é a inversão dos fundamentos da moral, não mais baseada na experiência de longa data do passado, mas no tempo ideal futuro, o Paraíso terrestre. Como este futuro não existe na realidade, a nova moral anunciada depende da boca daquele que proclama o ideal futuro, transformando-se no juiz e no carrasco que passa a julgar todas as pessoas e épocas com base em sua projeção mental.

          Esta mentalidade está resumida nas palavras dos niilistas repetidas por Lisavieta, que proclama: "Nós exigimos e não pedimos, e o senhor não ouvirá nenhum agradecimento de nossa parte porque nós estamos agindo para satisfazer a nossa própria consciência!" 

          O que poderia haver de mais soberbo do que exigir segundo a consciência? O que haveria de mais relativo do que medir as coisas por sua consciência, sua própria subjetividade? E onde está esta consciência senão no ideal subentendido por detrás de uma exigência moralizante?

          Se a consciência publicamente proclamada é a medida da nova moral, então a moral advinda da experiência da realidade é inválida e substituída por um parâmetro totalmente subjetivo, portanto, mutável. Na falta de uma referência fixa, vencerá a moral que se impor pela astúcia e pela força, transformando-se ela mesma na medida da realidade.

          Os niilistas de Dostoiévski acreditavam poder se impor aos outros pelas palavras intimidatórias e o desprezo sarcástico. Proclamavam a demolição de todos os valores e da ordem social acreditando que disto surgiria espontaneamente uma nova sociedade. 

          A mencionada "questão feminina", em voga na Rússia de então, o ateísmo, a "nobreza" da ação revolucionária expressa, nas palavras da personagem, pela coragem de matar por um ideal nobre, eram (e ainda são) princípios de ideias revolucionárias, que no século XX mudaram de conteúdo, mas não de forma. Podemos tirar a questão feminina e incluir a raça, a minoria oprimida, a questão de gênero, incluir mesmo a questão religiosa, mudar a tática da violência para a propaganda, mas a estrutura da mentalidade continua a mesma: transformar o mundo em nome de um ideal futuro subjugando todas as coisas ao objetivo autoproclamado.

          Quando Stálin perseguiu e matou seus próprios correligionários a partir de 1934 e deu início ao Terror Vermelho para continuar a construção do socialismo, quando Hitler eliminou a S.A. de Ernst Rohm matando os que não podia controlar diretamente para garantir a unidade do poder nazista, quando os militantes chineses mataram uns aos outros na Revolução Cultural e se engalfinharam numa luta pelo poder após a morte de Mao Tsé-Tung para continuar seu legado, quando os movimentos anticoloniais voltaram-se uns contra os outros na África e na Ásia como na Guerra Irã-Iraque e em inúmeras guerras civis acreditando levar seus povos à libertação; quando hoje, os extremistas islâmicos travam batalhas uns contra os outros e demais grupos religiosos acreditando lutar pela sociedade santa; quando os narcotraficantes matam e envenenam milhões de pessoas alegando realizar com isso justiça social, quando mães matam os próprios filhos por considerá-los um estorvo ainda antes de nascer. 

          E quando todos eles, em nome do ideal futuro, massacraram e ainda massacram milhões de pessoas que dizem honrar e defender, é impossível deixar de lembrar o que Dostoiévski, sensível ao drama da condição humana, declarou pelas palavras de Lisavieta:

É uma loucura! Vaidosos! Não acreditam em Deus, não acreditam em Cristo! Mas acontece que os senhores estão de tal forma corroídos pela vaidade e pelo orgulho que vão acabar devorando uns aos outros, é isto que eu prevejo para os senhores. Isso não é uma bagunça, isso não é o caos, isso não é o horror?

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Os frutos dos "livros maus"


"É a literatura moderna dos educados, e não a dos ignorantes, que é agressiva e declaradamente criminosa." (G. K. Chesterton, em "The Defendant") 

          Esta afirmação de Chesterton é de 1901 e provavelmente se baseava nas desgraças publicadas algumas décadas antes. Mas também antevia as desgraças de depois.
          Como afirmou a profecia de Nossa Senhora de La Salette, em 1846, "os livros maus abundarão na Terra" e os espírito malignos "abolirão a fé pouco a pouco".
          Dois anos depois, Marx e Engels publicariam o "Manifesto Comunista", e de suas obras filosóficas surgiriam uma nova geração de intelectuais, os marxistas, que na geração seguinte, com Lênin, como bem mostra o historiador Perry Anderson, também um marxista, desembocariam na sangrenta Revolução Russa.

          Chesterton ainda não vira, naquele momento, a onda de obras revolucionárias que inundaria o século XX, os ataques à religião e a promoção do relativismo quando da penetração do movimento comunista na guerra cultural.
          E nem havia conhecido "Minha Luta", livro onde Adolf Hilter apresentavam suas venenosas ideias ao público e que inspirariam movimentos revolucionários como na Argélia e o mundo árabe; nem o "Livro Vermelho" de Mao Tsé-Tung (foto), que serviria para lavagem cerebral maciça na China e inspiraria movimentos sangrentos na Albânia, África, Sudeste Asiático e Peru.
          Livros necessariamente são escritos por pessoas com capacidade intelectual acima da média e, por sua divulgação, moldam o imaginário, a linguagem e os valores da grande massa, passando suas obras pelas mãos de professores e formadores de opinião. 
          No fundo, os intelectuais dirigem o mundo, porque a direção do mundo por líderes políticos, militares, religiosos e bilionários depende de um planejamento prévio que foi pensado e teorizado para ser colocado em prática. 
          Fossem as obras centradas em promover a herança dos antepassados e apenas divertir as pessoas numa medida justa e não haveria problemas quanto ao que Chesterton chama de "literatura moderna dos educados".
          Mas foi a traição dos intelectuais, para usar o termo de Julien Benda em seu famoso livro homônimo de 1927, que deu a justificativa para os horrores que se avizinhavam nos séculos XX e XXI.
          Dos livros maus, da má literatura, veio a relativização de todas as coisas, inclusive da dignidade humana, aviltada pelas guerras em larga escala nas cidades, campos de concentração, engenharia social e aborto. E daí para o caos e o genocídio foi um pequeno passo.

O pátrio poder e a defesa da liberdade individual

"Se indivíduos têm qualquer esperança de proteger suas liberdades, 
eles precisam proteger sua vida familiar." (G. K. Chesterton)

          A principal defesa da liberdade individual contra a interferência de um poder externo, principalmente do Estado, é a família. Não por acaso Chesterton defendia com tanta frequência esta divina instituição.
          O pátrio poder (ou poder familiar) é a fonte não só de proteção física, com o sustento necessário à pessoa em momentos de dificuldade, mas também psicológica, dado que a família dá orientação e segurança sobre o que se deve ou não deve fazer no dia a dia e nos rumos da própria vida.
          Isto significa seguir apenas um senhor, obedecer a uma autoridade ou a princípios a ela vinculados sem ter de prestar contas a um terceiro sobre o que faz ou deixa de fazer.
          O vínculo familiar reforça a proteção das liberdades também devido ao seu caráter emocional. Trair a família, afastar-se dos parentes, desobedecer os pais ou intimidar os filhos gera sofrimento, e para evitá-lo é melhor manter-se unido aos entes queridos, um escudo natural e espontâneo a qualquer ameaça externa.
          E tais ameaças muita vezes se manifestam de forma sutil, como nos meios de comunicação, que inculcam valores e visões de mundo por vezes abertamente contrários à família.
          Desagregar a família é deixar seu componentes expostos, a sós, contra todo o tipo de influência e crises externas. Necessitadas de vínculos, as pessoas buscam, na ausência de uma relação íntima, fincar suas raízes em outras coisas ou, pior, aderir de imediato às modas do momento.
          Por isto a mentalidade contemporânea de postergar indefinidamente a geração de filhos ou de delegar à escola sua formação moral é abdicar da formação da família e, portanto, das próprias defesas que garantem suas liberdades pessoais.
          Se as pessoas querem simplesmente "curtir" a vida, o preço a pagar será sua submissão, que a cada dia se manifesta de forma mais sutil e ostensiva até o dia em que ter uma família fora dos cânones progressistas se tornará crime.

domingo, 19 de julho de 2020

A impossibilidade de possuir uma religião privada


"Um homem pode tanto possuir uma religião privada quanto possuir um sol ou uma lua privados."
(G. K. Chesterton, em "Introdução ao Livro de Jó") 

          Ter uma religião privada é como andar parado ou se molhar a seco. Não faz sentido, é contraditória à definição que temos de "religião", ao menos na concepção cristã.
          A palavra "religião" vem de "religare", que nos latim significa ligar de novo, no caso, o homem com Deus.
          Ora, na relação com Deus não pode haver dimensão de particularidade, pois Deus é infinito por definição e, portanto, abrange todas as coisas.
          Isto implica que nossa relação com Deus impacta necessariamente nossas atitudes para com a totalidade da realidade, desde pessoas passando por plantas e animais, leis e organizações, até chegar a Ele mesmo, o Senhor do Universo.
          Portanto, ter uma religião privada seria o mesmo que amputar a própria religião, adotar atitudes diferentes sobre as mesmas questões dentro e fora de casa ou, pior ainda, tratar sua fé como algo específico de si mesmo mas inválido aos outros.
          Por isto, a analogia com o sol e a lua nesta afirmação de Chesterton. Não podemos considerar como pessoal algo que é necessariamente universal, não só nos seus princípios, como na dimensão ontológica daquilo que a religião se ocupa: Deus.
          A concepção de privatização da religião vem na esteira do processo de secularização, que tem no Estado laico (tomado aqui no sentido ideal) sua expressão mais evidente. E este mesmo Estado, em nome das liberdades de consciência e religião, trata de retirar da vida pública a mesma expressão religiosa que afirma defender.
          Na era moderna, somos constantemente lembrados, pela educação castradora, pela arte subjetiva e sem sentido, pela arquitetura anti-espiritual e pelo "pensamento livre" que cada um deve guardar seu sol em casa e nos templos enquanto do lado de fora reina a escuridão.
          Hoje é assim. Ao menos por enquanto.