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quinta-feira, 18 de junho de 2020

Porque sempre casamos com a pessoa errada


"Conheci muitos casamentos felizes, mas nunca um compatível. O objetivo do casamento é lutar contra o instante em que a incompatibilidade torna-se inquestionável, e sobreviver a ele.
Pois um homem e uma mulher, tais como são, são incompatíveis."
(G. K. Chesterton) 

          O casamento nunca é com a pessoa "certa", porque não há casamento com a pessoa certa, mas com aquela que amamos.
          Assim, o casamento é a união entre dois incompatíveis compatibilizados pelo amor. É o amor, o desejo profundo e sincero de ser um com o outro, que transcendente e abrange os defeitos do parceiro e os desajustes da relação.
          Quando Chesterton afirma que "o objetivo do casamento é lutar contra o instante em que a incompatibilidade torna-se inquestionável, e sobreviver a ele", nosso escritor está afirmando que a união deve se firmar sobre a realidade das personalidades do casal, inevitavelmente conflituosas em diversos pontos, mas que tem justamente na união os meios de superá-las.
          Dito de outra forma, o casamento depende do amor, e o amor caminha necessariamente junto ao perdão. Afinal, como suportar os defeitos alheios e superar os conflitos da relação senão pelo perdão?
          Jesus Cristo não pediu que nos suportássemos, menos ainda que tentássemos nos entender. Pediu que nos amássemos, e na dimensão do casamento isto significa escolher alguém para amar sempre com os mesmos defeitos de sempre até o fim dos dias.
          Fosse o casamento com a pessoa certa, fossem homem e mulher totalmente compatíveis, e não haveria porque esforçar-se no amar sempre, indefinidamente, sem restrição; e não haveria também porque esforçar-se para perdoar sempre, eternamente, independente dos erros do outro.
          Apenas os que amam e perdoam sem medida têm passaporte para adentrar as portas do Paraíso.          
          Abençoado seja o casamento, porque ele é o meio mais belo, singelo e usual meio de salvar-se através da salvação do outro, nosso presente dado por Deus para toda a eternidade.

O amor não é cego


"O amor não é cego; cegueira é a última coisa que se lhe pode atribuir. 
O amor ata; e tanto mais atado quanto menos cego."
(G. K. Chesterton, em "Ortodoxia")

          Dizer que "o amor é cego" é apenas modo de falar para enfatizar que aquele que ama não se importa primordialmente com os defeitos do amado.
          O amor diminui a relevância destes defeitos na medida em que eles fazem parte da pessoa, e justamente por isto ele não é cego; pelo contrário: perscruta o amado com a finalidade de encontrar os meios de unir-se a ele apesar de seus defeitos.
          E quanto mais intensa é a união, mais atento é o amor aos defeitos alheios para melhor integrá-los na dinâmica da relação a dois. Por isto, nesta passagem de seu livro "Ortodoxia", Chesterton afirma que o amor quanto mais consegue atar as pessoas menos cego ele é.
          Esta unidade advinda do amor tem um fundamento divino. Deus, o Infinito, puro Amor, abrange, por definição, todas as coisas. "Nele vivemos, nos movemos e existimos" (At 17,28), diz o Apóstolo São Paulo.
          Há uma integração perfeita, um contínuo entre Deus e a existência, uma união que se dá pela estrutura da realidade mesma. A Criação é um livro aberto que mostra o amor em sua concretude.
          Dizer "eu te amo" é dizer "eu quero ser um contigo", e tal atitude consuma-se na presença física, no compartilhamento de experiências e sentimentos, na criação de uma nova vida conjugada pelo pai e pela mãe.
          Não pode haver cegueira onde tudo está unido. O cego é, na verdade, o que não ama, porque decide por afastar-se do fundamento maior que integra todas as coisas dispersando-se no seu erro.
          Por isto a única dimensão onde reina a ausência do amor é o fogo eterno, onde tudo está deformado, desintegrado e disperso, e que não por acaso é chamado de trevas, a cegueira absoluta.