Mostrando postagens com marcador ideologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ideologia. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 26 de outubro de 2021

Quando a ideologia enlouquece as pessoas

 

          Há poucas semanas li um chocante trecho da obra O fim do homem soviético, da laureada escritora bielorrussa Svetlana Aleksiévitch, onde um entrevistado confessa ter denunciado o tio para os bolcheviques quando adolescente ainda no período da Revolução Russa. O homem bastante idoso era um comunista irredutível. Não pude deixar de pensar como a ideologia pode enlouquecer uma pessoa.

          A primeira vez que associei conscientemente loucura com ideologia foi a publicação de uma postagem do empreendedor Ícaro de Carvalho no Facebook sobre as complicações que Daniel Fraga, um dos pioneiros da divulgação do bitcoin no Brasil, teve com a justiça. Segundo Ícaro, Fraga, um adepto do libertarianismo, defendia ideias totalmente sem cabimento e foi processado por xingar políticos e juízes na internet sendo condenado a pagar uma multa. E o que Fraga fez? Colocou todas as suas riquezas em criptomoedas e desapareceu comprando um briga contra seu declarado inimigo, o Estado.

          Ícaro sentencia: "Tanto o esquerdista quanto o libertário, ao longo do tempo, passam a enxergar inimigos em todos os lados; cada esquina existe algo que quer só te fazer mal... e isso destrói a sua cabeça." A diferença é que os esquerdistas causam muito mais estragos a si e aos outros do que os libertários, pois sua história de erros é bem mais extensa e seus adeptos bem mais numerosos do que o os últimos.

          A ideologia não busca explicar a realidade, mas adaptá-la às suas premissas, moldar o redondo à sua forma quadrada. É o que afirma a filósofa Hannah Arendt em Origens do Totalitarismo. Em sua face mais extrema, ela tudo subjuga invertendo a lógica do tempo ao reler o passado conforme sua lente presente e definir o futuro como algo superior à Providência. São nesses casos que princípios abstratos como "igualdade", "revolução", "liberdade" ou seja lá o que a ideologia em questão enuncie, estão acima das coisas concretas ou, pior ainda, das pessoas, as mesmas que você encontra ao seu lado ao se virar na cama depois de uma noite bem dormida.

          Svetlana entrevistou Ivan Petróvich N., então membro do Partido Comunista desde 1922. O velho homem passou a totalidade da história soviética - a União foi criada oficialmente naquele ano - até os anos 1990 como comunista convicto, mesmo após ter sido preso arbitrariamente pela NKVD de Stálin no final dos anos 1930 após delação de um vizinho, ter também sua mulher presa, ficar numa solitária por um mês, testemunhar diversas prisões arbitrárias e tomar conhecimento diversas torturas e execuções.

          Constrangido pela consciência ardente, Ivan relatou a mais dolorosa de suas lembranças depois que a escritora que o entrevistava desligou o gravador.

          "Sem gravador... Que bom... Eu preciso contar isto para alguém...

          Eu tinha quinze anos. Os soldados vermelhos chegaram na nossa aldeia. Montados. Bêbados. Era o destacamento de aprovisionamento. Dormiram o dia inteiro e à noite reuniram todos os membros do Konsomol. O comandante discursou: 'O Exército Vermelho está faminto. Lênin está faminto. E os kulaks escondem o trigo. Colocam fogo'. Eu sabia que o irmão de minha mãe... o tio Semion, tinha levado para a floresta uns sacos de grão e enterrado. Eu era do Konsomol. Tinha feito o juramento. De madrugada, fui até o destacamento e levei todos eles até aquele lugar. Eles encheram um carro inteiro. O comandante apertou a minha mão: 'Cresça depressa, irmão'. De manhã, eu acordei com os gritos da minha mãe: 'A casa do Semion está pegando fogo!'. O tio Semion foi encontrado na floresta... ele foi feito em pedaços pelos sabres dos soldados vermelhos... Eu tinha quinze anos. O Exército Vermelho está faminto... Lênin... Tinha medo de sair na rua. Fiquei em casa, chorando. Minha mãe adivinhou tudo. De madrugada, ela colocou uma trouxinha nas minhas mãos: 'Vá embora, filhinho! Que Deus perdoe você, seu infeliz'. (Cobre os olhos com a mão. Mas meu mesmo assim vejo que ele está chorando.)

          Quero morrer como comunista. É meu último desejo..."

          Levada como princípio de todas as coisas, a ideologia não só enlouquece, como destrói a vida. É a negação da Verdade e por isso mesmo a realização da morte.

sábado, 10 de novembro de 2018

Resistindo à maré vermelha

(Estudantes do Ensino Médio em protesto contra o governo de São Paulo. Dezembro de 2015.)

          Em 1992, na época do impeachment do então presidente Collor, eu estava na quinta série do primeiro grau (atual sexto ano do Ensino Fundamental). Recordo-me vagamente de questões políticas na sala de aula. Uma delas ocorreu na aula de Português, e a discussão era se a turma e o colégio iriam ou não na passeata dos famosos caras pintadas. O colégio fez greve na ocasião e eu, por alguma razão salvo da influência esquerdista, fiquei em casa.

          Na oitava série, a primeira aula de Geografia foi com uma professora muito carismática que emendou, entre outras coisas, sobre os males do capitalismo e as vantagens do socialismo. (Jamais vou esquecer do teatro que ela dissecou por alguns segundos imaginando uma hipotética guerra nuclear entre Estado Unidos e União Soviética. Aquilo foi engraçado.) A aula inteira foi um monólogo, caso raro com pré-adolescentes com os hormônios a milhão. No intervalo, saí convencido de que o socialismo era um sistema melhor. Comentei isto com um colega e ele, com rosto sério, concordou num daqueles poucos momentos em que dois guris de catorze anos discutem um assunto de real importância.

        Ao longo dos anos, ouvi por milhares de vezes o enredo do imperialismo europeu nas aulas de História. Estávamos certos de que os grandes capitalistas e os Estado nacionais anexavam o mundo à sua volta unicamente em busca de recursos naturais para suas indústrias. Era a metrópole explorando as colônias. Havia sempre, sempre, sempre e sempre o velho "interesse" por detrás de tudo. Não havia ato na História humana que não tivesse "interesse". A humanidade se desenvolveu com base no egoísmo ao ponto dos europeus, depois de conquistarem quase todo o mundo, voltarem seus egos uns contra os outros para se matarem mutuamente. Por duas vezes. Na primeira, surgiu uma idílica Revolução Russa; na segunda, a culpa recaiu exclusivamente na "extrema-direita".

          Eu tornei-me um esquerdista no último ano do colégio, quando da minha primeira eleição (1998), levado pela alegria de me tornar mais um dos tantos adeptos da esquerda. Estudava num escola particular cara de Porto Alegre, onde a grande maioria dos que se manifestavam publicamente eram também de esquerda, principalmente simpatizantes do PT. Engana-se quem pensa que o PT cresceu com o povo. Não. Cresceu com a elite, tanto é que foi na minha cidade, uma das mais desenvolvidas do país na época, que o partido logrou suas maiores vitórias. Votei no Tarso Genro para prefeito em 2000, mas daí em diante fui saindo deste espectro político.

          Quando fiz a faculdade de Geografia na UFRGS para me tornar bacharel, tive um professor que se declarava "anarquista cristão" e lecionava, se não me falhe a memória, Estudos Populacionais em Geografia. Deveríamos aprender sobre natalidade, mortalidade, mudanças demográficas, os impactos destas mudanças na sociedade e coisas do tipo, mas tivemos, única e exclusivamente, textos críticos ao capitalismo e do próprio Karl Marx. A coisa foi tão constrangedora que meu colegas (que não eram nada direitistas) pediram para que o professor entrasse no tema da disciplina, e como resultado ele passou a emendar tabelas demográficas nos textos que distribuía. Em certa ocasião, chegamos a um impasse que resultou num profundo silêncio em sala de aula. Nós e o professor ficamos em silêncio absoluto. Por vinte minutos.

          Anos mais tarde, quando lecionei Geografia em algumas escolas particulares, pude conferir de perto o que diziam os livros da área. De forma geral, eles apresentavam uma certa aceitação do capitalismo e da globalização, mas sempre com viés crítico do tipo "foi o que sobrou e temos de lidar com isso". Derrubada a falsa dicotomia capitalismo X socialismo o mundo entrava numa era de desigualdades, xenofobia e extremismo. Talvez fosse melhor a era da ameaça da guerra nuclear, que, todos sabemos, não seria a piada da professora da oitava série.

          O problema da ideologização da educação não está numa doutrinação, mas numa cultura, numa mentalidade que vê o mundo torto dominado por "interesses capitalistas". Ela vicia a mente em chavões e obscurece a consciência formando aquilo que Eric Voegelin chama de "segunda realidade". O mundo real (primeira realidade) é filtrado e lido segundo a cosmovisão da segunda. Na cultura ou mentalidade de nossa educação tudo é interesse, tudo é dinheiro, tudo é capitalismo, tudo é a desigualdade que está aí, agora também na cor, no estilo de vida e (por que não?) no sexo de sua filha. Não sei a solução para tudo isso, ou se a chamada Escola Sem Partido tem algo a oferecer como resposta. É, como dizia o nome do blog de um amigo, nadar "contra a maré vermelha" tendo a consciência clara de que o que você pensa é de sua experiência da realidade e não de abstrações originadas da militância política de esquerda. Isto é resistência.